• Nenhum resultado encontrado

COMO O CONFLITO SE TORNOU OBJETO DE PESQUISA?

No documento universidade federal do rio grande do sul (páginas 72-76)

do raio de risco da mineração. Em consequência do deslocamento compulsório e dos efeitos da presença da empresa em Moatize, registram-se embates entre as populações afetadas pelo megaprojeto da Vale e a empresa.

No sentido de compreender as justificações, os sentidos e as ações que os atores colocam em jogo para atiçar suas disputas fiz a pesquisa de campo. Portanto, o objetivo deste capítulo é descrever, mapear os atores envolvidos na disputa e os seus universos de legitimação.

violência policial perpetrada e se tomasse uma posição em relação às condições do reassentamento da Vale em Cateme.

Além da mídia e mobilizações de ONGs, no ano de 2013, aquando da minha participação no Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane (CEA/UEM), em um dos encontros mensais do grupo, o sociólogo Carlos Serra falou rapidamente sobre seu deslocamento em abril a Moatize no âmbito do levantamento das populações reassentadas pela Vale. Do seu briefing as palavras que memorizei foram “as pessoas reassentadas estão desapontadas quando sabem que tiveram que sair da sua terra porque tinha riqueza que seria explorada por outros; eles foram tirados para outro lugar e estão a passar mal por causa da riqueza que estava debaixo de suas casas e machambas.

Essas enunciações trouxeram-me à memória insights da minha leitura às crônicas africanas que difundem a ideia de “guerra com intervalos sucessivos paz”, de uma

“democracia onde a vontade do povo vale menos que a vontade e interesses dos governantes”, do “desenvolvimento forçado por indicadores econômicos”, da “maldição da abundância”, etc., entre outros conceitos usados para explicar sucessivas instabilidades e “razões de fracasso” de inúmeros projetos e muitos ideais em curso no continente. Na maior parte dos cenários, os “recursos” e objetivos demandados pelas políticas e pelo capitalismo global justificavam enormes sacrifícios às camadas sociais desfavorecidas que perdem o protagonismo em suas vidas e, como eles, o destino de nações, países, regiões era sentenciado de acordo com os “recursos” disponíveis.

No cenário do levantamento em torno da Vale, o “recurso” demandado era o carvão, e o “bode expiatório” foram as populações de Moatize, mas nessa altura, apesar do meu fascínio por questões subalternas e minoritárias, preferi considerar o conflito em torno da Vale algo marginal, por ser um objeto de estudo “alheio” e “incapaz” de despertar algum engajamento social academicamente expresso. Isso estava ligado à minha formação em filosofia, pois as disputas não se enquadravam no escopo de “grandes sistemas filosóficos” a que fui treinado.

No primeiro semestre letivo do mestrado em sociologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul comecei a trabalhar no desenho do projeto do mestrado, mas a partir de segundo semestre de 2014, o caminho percorrido até então – a tentativa de apresentar um projeto “melhor” à banca de qualificação – se viu confrontado com novas leituras e abordagens teóricas que apresentavam o “ambiente” como objeto de mobilizações, controvérsias e conflitos. Tais abordagens, ao questionarem a ruptura do “cordão umbilical”

entre “sociedade” e “natureza”, agregavam à pesquisa sociológica uma chave analítica na

compreensão de fenômenos sociais com repertórios e gramáticas específicas, que se configuravam cada vez mais no atual modo de (re)produção capitalista caraterizada pelo deslocamento compulsório e privação de populações afetadas por “projetos de desenvolvimento”, sejam barragens, mineradoras, etc. Com base nas leituras de temáticas sobre conflitos em torno de “projetos de desenvolvimento” e das populações afetadas, minha reminiscência sobre os desdobramentos do conflito em torno da Vale se impôs. Desde então, o embate em torno da instalação da empresa Vale em Moatize passou a orientar minhas indagações ao ponto de constituir objeto desta dissertação.

Para a coleta de dados a pesquisa houve um enfoque etnográfico acoplado de técnicas como observação direta participante e a participação observante, conversas formais e informais e entrevistas semiestruturadas. Tradicionalmente a pesquisa etnográfica confunde- se estritamente com pesquisas na área da antropologia, ciência em que, pelas suas raízes epistêmicas, o conhecimento e descrição do outro23 levaram a adoptar um “ethos” com métodos e técnicas específicas que lhe permitissem que a enunciação de formas outras de sociabilidade investigadas fossem “imunes” de pré-conceitos e preceitos da cultura do pesquisador em relação ao seu “objeto” de pesquisa, o que pressupõe um “treino”

epistemológico “caro” às outras ciências sociais. Contudo, nos últimos tempos, o monopólio da etnográfica ao terreno da antropologia tem se posto em causa, ao menos nos moldes não clássicos24, pois em outras áreas das ciências sociais têm sido recorrentes estudos que adotam pesquisa etnográfica em contexto onde a interação do pesquisador com o seu empírico torna- se necessária para obter dados na qualidade desejada, o que, provavelmente, não seria possível sem a imersão do pesquisador na vida diária dos agentes que pretende estudar.

De acordo com Fonseca (1999), o ponto de partida do método etnográfico é a interação entre o pesquisador e seus interlocutores, os “nativos de carne e osso”, mas a interação e/ou inter-relação não se reduz ao simples olhar (ver) e escutar (ouvir), ela é uma prática que impõe “deslocamentos” físico, ontológico e axiológico do pesquisador em prol da sua participação efetiva para a pesquisa empírica na qualidade e medida desejável. Portanto, ao optar por uma pesquisa etnográfica para a coleta de dados tinha em conta que a interação seria a condição necessária de pesquisa, pois ela é uma relação que se prolonga no fluxo do tempo e na pluralidade dos espaços e contextos sociais vividos, onde se faz necessária a

23 Coloco entre aspas porque a alteridade, o “outro”, que ocupa a antropologia na sua gênese é um sujeito

“exótico” com especificidades que devem ser compreendidas dentro da sua especificidade social e cultural.

24 A pesquisa etnográfica em curso em outras áreas diferem da orientação clássica da pesquisa etnográfica de Malinowski (1978) que exige muito tempo de convivência com os grupos humanos observados de modo a apreender com alguma profundidade seu modo de ser imanados na sua religião, estrutura e organização social, etc.

participação nas rotinas do grupo, na vida social, nas intenções e motivações que orientam as ações, atitudes e comportamentos dentro de um dispositivo social onde pretendia me inserir.

(ROCHA; ECKERT, 2008).

A pesquisa de campo ocorreu no distrito de Moatize, a cerca de 1500 km de Maputo.

Portanto, mais do que simples deslocamento físico, a pesquisa implicou múltiplos deslocamentos, com particular ênfase na esfera sociocultural e linguística que são distintos da minha socialização urbana de Maputo – capital do país. Apesar de me comunicar frequentemente em português, como moçambicano nascido no sul de Moçambique, durante a socialização adquiri o aprendizado de me comunicar na multiplicidade das línguas do sul de Moçambique, respetivamente, xichangana, xizonga, xitswa, bitonga e xichope, e me socializei em contexto sociocultural, linguístico, axiológico, cosmológico e ontológico “tsonga”.

Entretanto, o fato de me deslocar para o centro do país, uma sociedade com língua e cultura distintas a pesquisa de campo desafiou minha bagagem social e cultural, na medida em que o deslocamento geográfico pressupunha a minha inserção em outro contexto sociocultural, linguístico e ontológico, e a minha assimilação a eles agregava algo mais para a coleta de dados na qualidade desejável. Ademais, no contexto do “conflito”, pelo fato de ser “estranho”

aos atores conflitantes minha inserção tinha múltiplos sentidos e conotações junto dos meus interlocutores e colocou-me em conflito, desconfianças e outras conotações da parte de alguns interlocutores, com alguns dos quais não tive oportunidades de interagir. Em outras ocasiões, por razões inexplicadas, as conversas e contatos telefônicos e agendamentos de um momento para outro deixaram de fluir como era habitual; esse desconforto agravou-se pelo fato de que no auge da pesquisa de campo ter sido roubado parte dos meus bens indispensáveis para a pesquisa de campo (computador, gravador, livros, dinheiro entre outros bens).

Fora os embaraços pelos quais passei, o fechamento das instituições governamentais em disponibilizar informações e dados secundários, o silêncio, para não dizer indiferença da Vale, o desconforto e medo das pessoas em falar sobre determinados assuntos a um estranho, fiz amizades, fui muito bem acolhido e criei laços, tive apoio, grande parte dele vindo dos meus interlocutores da parte da população afetada, de funcionários que preferiam falar “sem vestes” públicos ou empresariais. Em contexto etnográfico, esses fatos mais do que marcar a vida e a memória do pesquisador, indiciam que o conflito gerado com a instalação da Vale em Moatize “precisa ser investigado e definido a partir das formulações e dos comportamentos de atores sociais e de contextos particulares” e da pluralidade dos regimes que eles pretendem enunciar. (KUSCHNIR, 2007, p. 163; BOLTANSKI, 2000).

Embora minha intenção seja escrever aqui como cheguei aos “dados”, aos meus interlocutores, os eventos, acontecimentos, palavras, cheiros, sabores e contextos sociais vivenciados e tudo o que me afetou, estou consciente da problemática da adequação do escrito ao inscrito na memória, na vivência e no real porque conforme referiu o ícone da negritude Leopold Sédar Senghor “a escrita empobrece o real. Ela cristaliza-o em categorias rígidas, ela fixa-o quando o próprio do real é o de ser vivo, fluido e sem contornos”. Portanto, sem querer cristalizar a vida e interação com meu campo, pretendo escrever o que ficou inscrito na memória e foi possível registrar, mas estou ciente que por detrás da seleção axiológica do material necessário para compor esta dissertação, provavelmente algo maior ficará preterido, pois nem tudo que está na memória pode ser escrito ou verbalizado.

No documento universidade federal do rio grande do sul (páginas 72-76)