imputam riscos e danos às camadas mais vulneráveis da sociedade” que colocam em ação distintas formas de resistência. (ZHOURI, 2008, p. 105). Estes conflitos, designados por
“conflitos ambientais”, ganham força e configuração particular com a expansão produtiva das empresas integradas na rede de produção global.
(ACSELRAD, 2004a; 2010; 2012; 2013; DAOU, 2013; LEROY, 2010; 2013; OLIVEIRA, 2004; ZHOURI, et al., 2005; 2010; 2013).
Fora a discussão das divergências teóricas e do conteúdo semânticos que essas discussões embasam para aferir a pertinência ou não do significado de conflito ambiental, vale referir que nesta dissertação adoto a posição do segundo grupo de autores, os apologistas da ideia de conflito ambiental, sou da ideia de que a apropriação dos “recursos” do ambiente é composta de interesses, projetos existenciais, configurações identitárias, horizontes históricos, orientações sociais e culturais distintas que os sujeitos sociais ou entidades estão engajados a materializar simbólica e/ou materialmente. É nesta perspectiva que o conceito de conflito ambiental agrega na análise sociológica outros componentes de análise que mobilizam embates sociais.
Acselrad (2004) define por conflitos ambientais o tipo de conflitos que,
envolvendo grupos sociais com modos diferenciados de apropriação, uso e significação do território, tendo origem quando pelo menos um dos grupos tem a continuidade das formas sociais de apropriação do meio que desenvolvem ameaçada por impactos indesejáveis – transmitidos pelo solo, água, ar ou sistemas vivos – decorrentes das práticas de outros grupos.
(ACSELRAD, 2004, p. 26).
Referindo-se às circunstâncias do seu surgimento, o autor argumenta:
O conflito pode derivar da disputa por apropriação de uma mesma base de apropriação de recursos ou de bases distintas mas interconectadas por interações ecossistêmicas mediadas pela atmosfera, pelo solo, pelas águas etc. Este conflito tem por arena unidades territoriais compartilhadas por um conjunto de atividades cujo “acordo simbiótico” é rompido em função da denúncia dos efeitos indesejáveis da atividade de um agente sobre as condições materiais do exercício das práticas de outros agentes.
(ACSELRAD, 2004, p. 26).
Os conflitos ambientais além de se confinarem a situações em que determinadas práticas de apropriação material estejam em curso ocorrem mesmo quando as práticas de apropriação estejam em vista de se realizar, razão pela qual a concepção de que “os conflitos ambientais surgem das práticas de apropriação técnica, social e cultural do mundo material”
pode ser acrescida de um conector que permite denotar que a simples “projeção” de apropriação e/ou uso de recursos apropriados por outrem é suscetível de gerar conflito ambiental. (ZHOURI et al., 2010, p. 17).
Ao mesmo tempo em que se consolida a noção de conflito ambiental, a nova morfologia social está repleta de fenômenos que denotam a consolidação de objetos visados
pelo conceito de conflito ambiental. O atual paradigma de “desenvolvimento” é repleto de fatos que esse conceito pretende abranger. Como observa Carneiro (2005),
na última década, mesmo sob a hegemonia do ‘paradigma de desenvolvimento sustentável’, um movimento ascendente de construção de um novo enquadramento teórico-conceitual da chamada ‘questão ambiental’.
[...] vinculado a diferentes disciplinas, temas de pesquisa e referenciais teóricos, esse movimento tem como eixo a reflexão crítica sobre os nexos entre as práticas sociais de apropriação das condições naturais e os fundamentos da sociedade capitalista em seu atual estágio de desenvolvimento histórico. (CARNEIRO, 2005, p. 28).
Nesta ordem de ideias, os conflitos ambientais ganham força e configuração no paradigma de “desenvolvimento” hegemônico, caraterizado pela busca incessante de matéria prima de modo a satisfazer às demandas energéticas do mercado. Segundo Laschefski (2010.
Destaque nosso), os países “em desenvolvimento” desempenham um papel relevante na
“geopolítica de recursos naturais”, onde, não obstante a problemática ecológica, a extração e exportação de matéria prima e produtos agrícolas, nesses países a exploração de “recursos naturais” aparece como estratégia de “desenvolvimento” e meio de acumulação de mais-valia durante o processo produtivo.
A implementação de projetos de desenvolvimento homogeneizadores do espaço, dos quais se destacam as hidrelétricas, mineração, as grandes plantações, entre outros, tem sido marcada por antagonismos entre os seguintes atores: os detentores desses empreendimentos, devido ao uso que fazem ou pretendem fazer do território, ambiente e seus “recursos”, o que ocorre com fins meramente econômicos – por exemplo, desvio de rios para a construção de barragem, deslocamento de populações para a extração mineira, etc. –; o Estado como implementador de políticas de “desenvolvimento” e concessão de benefícios fiscais para atração de projetos de investimento direto (IDE); e os grupos sociais afetados ou em vias de serem afetados por projetos de desenvolvimento que em gozo do acesso ao território e seus
“recursos” desenvolvem suas atividades (re)produtivas e sustentam sua existência no ambiente circundante.
Os embates entre pretensões hegemônicas e resistência a tais pretensões geram conflitos ambientas na medida em que diferentes atores e/ou entidades procuram fazer valer e legitimar suas pretensões sobre outrem. Como assevera Zhouri (2010), o campo ambiental é constituído de posições hierárquicas e relações de poder assimétricas onde “representações simbólicas do meio ambiente, seu uso e destinação são ali disputadas e decididas”. (ZHOURI, 2010, p. 99).
Portanto, ao mesmo tempo em que os projetos “de desenvolvimento” são implementados e as populações retiradas de seus territórios, estas últimas não se constituem como vítimas passivas no processo, ao contrário, se organizam e resistem de várias formas, sejam movimentos, associações e redes com diversas formas de contestação e desacordo, seu embaraço, sua revolta e sua reivindicação, ao mesmo tempo em que forjam suas identidades e se colocam como portadores de outros projetos de vida a partir da interação com o ambiente circundante. (ZHOURI, et al., 2005).
Os embates entre projetos “de desenvolvimento” e as populações afetadas exprimem contradições inerentes ao processo “de desenvolvimento” como um todo, face à heterogeneidade dos atores e seus modos de apropriação do território, os fins econômico- financeiros, com apoio de governos e legislações nacionais que têm se sobreposto em relação ao objetivo das populações. Portanto, os conflitos ambientais são consequência direta das atividades econômicas voltadas para acumulação de capital, que na maior parte das vezes, ameaçam e põem em questão as práticas de reprodução material e simbólica de grupos sociais minoritários que constituem o “bode expiatório” do processo “de desenvolvimento”. Como constata Silva, “é a universalização do capitalismo que vai desencadear as principais e mais agudas formas de conflitos ambientais”. (SILVA, 2013, p. 243).
Como se observa nas abordagens anteriores, os conflitos ambientais apresentam um enfoque diferencial em relação aos conflitos sociais (com uma abordagem eminentemente antropocêntrica), pois naqueles, o acesso e ou expropriação do ambiente e seus “recursos” é susceptível de gerar conflitos/controvérsias/embates motivados pelo seu significado e seu sentido para os diferentes atores envolvidos. Portanto, longe de reduzir a natureza e ambiente como entes externos e separados da sociedade, a noção de conflito ambiental permite compreender que esses entes são intrínsecos à existência e reprodução social, assim como seus eles são significados e representados (simbólica e materialmente) de formas diferenciadas, plurais e/ou múltiplas entre os diferentes sujeitos.
Os conflitos ambientais resultam de uma relação intrínseca – existência de um cordão umbilical – entre sociedade e natureza. Corroborando com Fleury et al. (2014, p. 74), os conflitos ambientais são mobilizados por significados ambivalentes em torno do significante
“ambiente”, pois “há diferença maior entre os pontos de vista dos diferentes sujeitos do que os estudos de impacto ambiental e as políticas de desenvolvimento podem abarcar”. Portanto, a partir do momento em que as gramáticas15 transcendem “as noções convencionais de
15 Entenda-se como o conjunto de coações que se impõem aos atores. (BOLTANSKI, 2000, p. 22).
ambiente e política”, o conflito ganha uma dimensão cosmopolítica. Nesta ordem de ideias, de acordo com os autores,
Investigar a emergência e configuração de conflitos ambientais, atentando-se às possibilidades de interpretações nas interações sociais e naturais articuladas durante os conflitos, visando identificar posições e mapear as alianças e coalizões presentes nos embates políticos, mas também, observar elementos cosmológicos, identitários e subjetividades subjacentes à configuração dos conflitos. É, em suma, concentrar-se nas interações sociais, entre humanos e seres outros que humanos, articulados durante o conflito, analisando-os em interações e nos movimentos de coprodução nos quais estão envolvidos, salientando as interpretações das relações entre humanos e seres outros que humanos mobilizados nos conflitos. (FLEURY et al., 2014, p. 75).
Dito de uma forma um pouco diferente, os conflitos ambientais não apenas emanam de significados materiais e simbólicos cuja materialização coloca os atores em conflito, mas a própria ideia de “ambiente” constitui ela mesma um ente resultante da intersubjetivação (CASTIANO, 2010) entre distintos sujeitos e de sociedade e natureza, sobre os quais autores concordam ou discordam quanto ao significado de “ambiente” de acordo com as ordens do mundo que regem a sua existência e acionam para materializar ou reclamar seu projeto existencial posto em causa.
2.4 O “RESGATE” DO CARVÃO E O PAPEL DE MOÇAMBIQUE NA GEOPOLÍTICA