O crime de infanticídio, por tratar-se de um crime doloso contra a vida (dentre estes estão: homicídio; induzimento, instigação ou auxílio a suicídio; infanticídio e aborto), é de competência do Tribunal do Júri, como prevê o art. 74127, §1º do Código de Processo Penal, seja em sua forma tentada ou consumada.
Nesse sentido traz Ribeiro128:
Assim, o crime de Infanticídio, artigo 123, do Código Penal, está inserido no rol dos crimes contra a pessoa, e no capítulo dos crimes contra a vida, devendo ser julgado pelo tribunal do Júri, do local onde os fatos ocorreram, da mesma forma, o crime tentado
127 Art. 74. A competência pela natureza da infração será regulada pelas leis de organização judiciária, salvo a competência privativa do Tribunal do Júri. [Art. 74, caput do CPP.]
§1º. Compete ao Tribunal do Júri o julgamento dos crimes previstos nos artigos 121, §§1º e 2º, 122, parágrafo único, 123, 124, 125, 126 e 127 do Código Penal, consumados ou tentados. [Art.
74, §1º do CPP.]
128 RIBEIRO, Gláucio Vasconcelos. Infanticídio. cit. p. 150.
na forma do art. 14, inc. II, do Código Penal, também será julgado pelo Tribunal do Júri, que é competente para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida, conforme preceitua o artigo 5º, inciso XXXVIII, da Constituição Federal.
O art. 5º, inc. XXXVIII, da CRFB/1988, preceitua que:
Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
[...]
XXXVIII – é reconhecida a instituição do júri, com a organização que lhe der a lei, assegurados:
a)a plenitude da defesa;
b)o sigilo das votações;
c) a soberania dos veredictos;
d) a competência para julgamento dos crimes dolosos contra a vida;[...].
O art. 74, §1º do CPP, assim como o art 5º, inc. XXXVIII da CRFB/1988, preceituam que a competência do julgamento para os crimes dolosos contra a vida é do Tribunal do Júri, que é composto segundo Mirabete129 por um juiz de direito, que é o seu presidente e pelos vinte e um jurados sorteados entre os inscritos na lista geral e anual. Sendo que destes vinte e um presentes serão sorteados sete para presidirem na sessão de julgamento do Tribunal do Júri.
Destarte assim inocentando ou culpando a acusada, conforme provas e alegações apresentadas pelo representante do Ministério Público, na pessoa do Promotor (a) de Justiça, assistente de acusação, se houver, e os advogados (a) de defesa a acusada.
E o art. 14, inc. II do CP, estipula que:
129 MIRABETE, Julio Fabrini. Processo Penal. 16 ed. São Paulo: Atlas, 2004. p. 552.
Art. 14. Diz-se o crime:
Tentativa
II – tentando, quando, iniciada a execução, não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do agente.[...]
Ou seja, dispõe o art. 14, inciso II, do CP acerca da tentativa, sendo ela aqui no crime de infanticídio.
E ainda reforça Maggio130:
O infanticídio, tentado ou consumado, é um crime de ação penal pública incondicionada, cujo julgamento é de competência do Tribunal do Júri, nos termos do disposto no artigo 5º, inciso XXXVIII, da Constituição federal, combinado com o artigo 74, §1º, do Código de Processo Penal. É competente o juízo do local onde se verificou a morte e, no caso de tentativa, do local onde cessou a atividade do agente. A pena em abstrato cominada para o delito é detenção de dois a seis anos – (Código Penal, artigo 123).
Fica bem claro então que é um crime cujo julgamento é de competência do Tribunal do Júri, conforme disposto acima, que o juízo competente, a comarca ao qual deve ser indicada para instaurar o Processo Crime é no local onde se consumou o fato, no local onde foi averiguada a morte do recém-nascido.
A ação penal utilizada neste crime é a ação penal pública incondicionada, ou seja, conforme Mirabete131, é em princípio uma ação penal pública, sendo esta um direito subjetivo perante o Estado-juiz, e incondicionada por ser promovida pelo Ministério Público sem que haja manifestação da vontade da vítima ou qualquer pessoa.
Porém é de se destacar que é um dos poucos crimes que a acusada pode até seu julgamento permanecer em liberdade sob fiança. É o que estipula o art 322 do CPP, que traz em seu texto legal:
130 MAGGIO, Vicente de Paula Rodrigues. Infanticídio e a morte culposa do recém-nascido.
cit.p.123.
131 MIRABETE, Julio Fabrini. Processo Penal. cit. p. 119.
Art. 322. A autoridade policial somente poderá conceder fiança nos casos de infração punida com detenção ou prisão simples.
Como o crime de infanticídio, em seu art. 123 do CP, prevê como pena detenção de dois a seis anos, este pode conforme art 322 co CPP, como disposto acima, ter o benefício da fiança concedido pela autoridade policial.
A prescrição in abstracto132 do crime de Infanticídio, é conforme o art. 109133, inciso III, do CP é de doze anos.
Quanto à sua classificação doutrinária, segundo Maggio134 : [...] Classifica-se: quanto à conduta - como crime de ação livre porque pode ser cometido por qualquer meio comissivo ou omissivo de execução[...] Quanto ao resultado – como: a) crime material porque só se consuma com a produção do resultado morte previsto no tipo penal [...] b)como crime de dano porque para que haja a consumação é exigida uma efetiva lesão ao bem jurídico protegido[...] Quanto ao momento consumativo – como crime instantâneo porque uma vez consumado, está encerrado, a consumação não se prolonga [...] Quanto ao sujeito ativo – como:
a)crime próprio porque a lei exige do agente uma qualidade específica, a de mãe [...] b) como crime monossubjetivo (ou de concurso eventual) porque pode ser praticado por uma só pessoa [...]Quanto ao bens jurídicos tutelados – como crime simples porque atinge apenas um bem jurídico, a vida [...] Quanto ao elemento subjetivo – como crime doloso porque o agente tem a vontade livre e consciente de praticar a conduta típica. [...]
Conforme Maggio, o infanticídio na sua classificação doutrinária é um crime de ação livre, material, de dano, instantâneo, próprio, monossubjetivo (ou de concurso eventual) simples e doloso.
132 “A PPP abstrata é calculada de acordo com o máximo cominado abstratamente, ou seja, pela maior pena possível.” [CAPEZ, Fernando. Curso De Direito Penal, Vol.1: Parte Geral. 9 ed. São Paulo: Saraiva, 2005, p. 577.]
133 Art. 109. A prescrição , antes de transitar em julgado a sentença final, salvo disposto nos §§ 1º e 2º do artigo 110 deste Código, regula-se pelo máximo da pena privativa de liberdade cominada ao crime, verificando-se:
III – em doze anos, se o máximo da pena é superior a quatro anos e não excede a oito;[...] [Art.
109, caput e inciso III do CP.]
134 MAGGIO, Vicente de Paula Rodrigues. Infanticídio e a morte culposa do recém-nascido.
cit.p.122 e 123.
E ainda ressalta-se que é um crime de mão própria, pois somente a própria mãe, parturiente pode cometê-lo.