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CONCEITO BASILAR DE ESTADO PUERPERAL

No documento INFANTICÍDIO - Univali (páginas 45-49)

Estado Puerperal ou depressão pós-parto, é o estado em que se encontra a mulher durante ou logo após o parto. Mas como defini-lo de forma clara, objetiva e simplista?! Foi o que se tentou buscar neste item através de doutrinas, a maneira mais prática para definir este período em que a gestante atravessa.

Em princípio segundo Mirabete80:

Em vez de, seguindo a lei anterior, adotar o sistema psicológico, fundado no motivo de honra (honoris causa), que é o temor à vergonha da maternidade ilegítima, optou o legislador pelo sistema fisiopsicológico ou fisiopsíquico, apoiado no estado puerperal.[...] Na jurisprudência, aliás, já se tem entendido que o infanticídio é, inegavelmente, e antes de tudo, um delito social, praticado na quase totalidade dos casos, por mães solteiras ou mulheres abandonadas pelo marido e pelo amásio e que, por isso,

“o antigo conceito psicológico – a causa da honra – vai aos poucos, perdendo sua significação limitada e se confundindo com este (conceito fisiopsicológico), por força de reiteradas decisões judiciais.”( TJTJESP 14/391, RT 473/301). [...].

Neste sentido conceitua Gomes81, acerca do puerpério ou estado puerperal:

Para que possamos entender o que seja estado puerperal é necessário explicar, inicialmente, o puerpério. Com o final do parto, ou seja, após a expulsão do feto e da placenta (dequitação), tem início o puerpério, que se estende até a volta do organismo materno às condições pré-gravídicas. Sua duração é de seis a oito semanas. Temos, pois, puerpério imediato (até dez dias após o parto), tardio (que vai até os quarenta e cinco dias) e o puerpério remoto (de quarenta e cinco dias em diante). Trata-se, portanto, de um quadro fisiológico, comum a todas as mulheres que dão à luz, com começo, meio e fim determinados, capaz, em alguns casos, de causar alterações do psiquismo materno, de duração e gravidade variados, porém de fácil detecção, via diagnóstico médico, clínico e/ou laboratorial (por ex. psicose puerperal;

depressão pós-parto.

Nota-se então que estado puerperal, além de ser aquele período de concepção do feto pela gestante é também o que pode ocorrer alterações psíquicas, fazendo com que a gestante não tenha discernimento de seus atos.

80 MIRABETE, Julio Fabrini. Manual de Direito Penal- Parte Especial. 20 ed.São Paulo:Atlas, 2003.p. 88.

81 GOMES, Hélio. Medicina Legal. Rio de Janeiro: Freitas Bastos Editora, 2004. p. 499.

Já segundo França82, estado puerperal é:

O estado puerperal, expressão ambígua e situação contestada pelos médicos, tem merecido, através de todo esse tempo, severas críticas, sendo, inclusive, considerado por alguns como uma simples ficção jurídica no sentido de justificar a benignidade de tratamento penal, quando a causa principal seria a pressão social exercida sobre a mulher cuja gravidez fere sua honra. [...]

Sabe-se que no puerpério podem surgir determinadas alterações psíquicas não apenas durante e logo após, mas também algum tempo depois do parto. Entre essas manifestações, a mais comum é a psicose pós-parto, indiferentes ao estado social, afetivo ou moral da mulher. Há no parto um estado de emoção e extenuação, dependendo do estado de ânimo da parturiente e da sua condição primípara ou multípara.[...]

Nota-se então que não se trata de uma simples depressão, mas que tudo que a parturiente sofre, seja pouco antes, durante ou logo após o parto, dependendo do que ela tenha passado durante seus nove meses de gestação (ou seis no caso de prematuros), também influenciam, pois são todos esses sintomas, essas emoções, extenuações e estado de ânimo como explicita França acima, somados e explodidos durante o parto, que causam essa confusão mental, esses aglomerados de sentimentos das mais diversas espécies, amor, ódio, raiva, nojo, desprezo, que sim podem levar a própria Mãe, parturiente a gestante, a cometer este ato, de acabar com a vida de seu filho, sua própria semente.

Nesse sentido traz Noronha83:

Cremos que tal estado se apresenta não apenas depois, mas também durante o parto. Sob sua influência pode desnormalizar- se o psiquismo da mulher. As dores, apreensões, tenores, etc, concorrem para que a parturiente, exausta e esgotada, apresente conturbação da vontade do raciocínio, não estando, pois, em estado normal. É o que numerosos psiquiatras pensam, como Jörg, Krafft, Ebing, Bertherand, Aschaffenburg, König, Gleispach e outros citados por Nélson Hungria, ora falando em confusão

82 FRANÇA. Genival Veloso de. Medicina Legal. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan S.ª, 1995. p.

189.

83 NORONHA, E. Magalhães. Direito Penal. cit., p. 46.

mental, ora em comoção, reflexão suprimida, conturbação de consciência etc.[...]

Explicita Noronha acima que, além de toda a atividade do parto que a gestante passa, sendo estas contrações, dependendo muitas vezes o tamanho do bebe em casos de partos normais que acabam causando grande sofrimento a ela e outras inúmeras adversidades que esta venha a passar, seus temores, medos, apreensões, desgastes físicos e emocionais que a mulher tenha sofrido durante toda a sua gravidez, unidos causam uma súbita, violenta e enorme explosão tanto mental como física na mulher, o que muitas vezes a leva a matar o próprio filho, abandona-lo ou até mesmo sentir desprezo por este e nem mesmo querer o bebe ao seu lado.

Também destaca Damásio84:

A mulher, em conseqüência das circunstâncias do parto, referentes à convulsão, emoção causado pelo choque físico, etc., pode sofrer perturbação de sua saúde mental. O Código fala em influência do estado puerperal. Este é o conjunto das perturbações psicológicas e físicas sofrida pela mulher em face do fenômeno do parto. Não é suficiente que e mulher realize a conduta durante o período do estado puerperal. É necessário que haja uma relação de causalidade entre a morte do nascente ou neonato e o estado puerperal . Essa relação não é meramente objetiva. O CP exige que o fato seja cometido pela mãe “sob a influência do estado puerperal.

Damásio, e outros doutrinadores, destacados acima concordam que, como já comentado, além do sofrimento causado pelo parto, outras emoções podem aflorar e confundir o psíquico da gestante, fazendo assim com que o crime se consume, ou ocorra também o abandono do neonato.

Nesta mesma linha de pensamento traz Maggio85:

Havendo, então, relativa incapacidade de autodeterminação em decorrência do estado puerperal da mãe e a morte do filho

84 DAMÁSIO, E. De Jesus. Direito Penal-Parte Especial. 26 ed. São Paulo: Saraiva, 2004. p. 107.

85 MAGGIO, Vicente de Paula Rodrigues. Infanticídio e a morte culposa do recém-nascido. São Paulo: Millennium, 2004. p. 66.

nascente ou neonato, estará configurado o crime de infanticídio.

Na realidade, pelo entendimento penal, a influência do estado puerperal é um quadro fisiopsicológico próprio de mulheres, em geral desassistidas e decorrente de gravidez indesejada, que acabam, durante o seu curso, gerando relevantes conflitos emocionais. Este quadro de graves repercussões comportamentais conduz a mãe, neste momento de maior fragilização física e psíquica durante o parto, ou logo após, a matar o próprio filho.

E ainda nesse sentido discorre Ribeiro86 que:

Por estado puerperal entende-se o estado fisiológico e psicológico da parturiente iniciado na 2ª fase do parto, mais precisamente, iniciado quando da expulsão do feto. [...] “Puerpério” caracteriza- se pelo período pós-parto, tendo este a duração de aproximadamente quarenta dias (de trinta a cinqüenta dias) ou de seus a oito semanas. É normal a todas as parturientes podendo ou não influir no sentido da mulher sua manifestação.

Em suma trata-se do estado físico-patológico da parturiente, durante ou logo após o parto, do qual este, após inúmeras variações de emoções, sentimentos, dores, entre outros provoca o desordenado discernimento e faz com que ela venha a praticar o crime de Infanticídio.

2.3 CONCEITO PATOLÓGICO DO ESTADO PUEPERAL E SUA INFLUÊNCIA

No documento INFANTICÍDIO - Univali (páginas 45-49)