Inicialmente, destaca-se o que a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 determina a respeito dos tratados internacionais:
Art. 84. Compete privativamente ao Presidente da República:
[...]
VIII - celebrar tratados, convenções e atos internacionais, sujeitos a referendo do Congresso Nacional;
Art. 49. É da competência exclusiva do Congresso Nacional:
I - resolver definitivamente sobre tratados, acordos ou atos internacionais que acarretem encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional;
[...]
Marcelo Dias Varella explica que o Presidente da República e o Congresso Nacional se comunicam através de mensagens. Assim, após a celebração de um tratado pelo Presidente, este envia uma mensagem ao Congresso Nacional – contendo a exposição de motivos elaborada pelo Ministério das Relações Exteriores e por outros Ministérios, se for o caso -, solicitando a apreciação do tratado.108
Caso a Câmara de Deputados aprove o tratado, remeterá ao Senado Federal, para a sua apreciação. Uma vez aprovado pelo Senado, haverá a promulgação de um Decreto Legislativo pelo Presidente do Senado. Varella ensina que “com a publicação do Decreto Legislativo no Diário Oficial do Senado é que o
107 RESEK, Francisco. Direito Internacional Público, 76-77.
108 VARELLA, Marcelo D. Direito Internacional Público, p. 48.
Estado estará comprometendo-se internacionalmente. Dessa forma, o ato vem do Senado, e não do Executivo.” 109
Todavia, segundo entendimento do Supremo Tribunal Federal, a aprovação pelo Congresso e o depósito do instrumento de ratificação no exterior não são suficientes para que um tratado vigore no Brasil. Para que um tratado seja introduzido no ordenamento jurídico interno, é necessário que haja a promulgação do decreto presidencial.110
A Carta Magna, por sua vez, não contém nenhuma disposição acerca da obrigatoriedade de decreto presidencial para que um tratado aprovado pelo Congresso adquira validade no Brasil.
Alberto do Amaral Júnior entende que, considerando o fato de o artigo 59 da Constituição Federal não conter o decreto do executivo como âmbito do processo legislativo, não é ele requisito necessário para a internalização de um tratado, sendo, portanto, suficiente o Decreto Legislativo. O autor ainda diz que
“Nada portanto justifica o comportamento da Suprema Corte do país em reclamar a presença de formalidade que o texto da Constituição não estabelece para a validade do tratado entre nós.”111
Importante salientar, também que, após a Emenda Constitucional n. 45, de 2004, os tratados que versarem sobre direitos humanos podem ter força de emenda constitucional, desde que cumpridos os requisitos estabelecidos no art. 5˚, parágrafo 3˚ da Lei Maior, ou seja, aprovação na Câmara dos Deputados e no Senado Federal em dois turnos, por três quintos dos membros de cada Casa, em votações separadas.
Analisado o tratado enquanto instrumento de cooperação internacional para a tutela do meio ambiente, no próximo capítulo, serão abordadas
109 VARELLA, Marcelo D. Direito Internacional Público, p. 47-48.
110 AMARAL JÚNIOR, Alberto do. Introdução ao Direito Internacional Público, p.69.
111 AMARAL JÚNIOR, Alberto do. Introdução ao Direito Internacional Público, p.70.
as principais convenções e tratados aprovados para a tutela de bens com vocação espacialmente planetária ou dos bens ambientais
TRATADOS INTERNACIONAIS AMBIENTAIS
3.1 DECLARAÇÃO DE ESTOCOLMO 3.1.1 Antecedentes
Em 1962, Rachel Carson, bióloga marinha do Departamento de Pesca e Vida Selvagens dos Estados Unidos, publicou a obra The Silent Spring (Primavera Silenciosa), uma das mais importantes e influentes do último século sobre a questão ambiental, em que explica as relações entre os sistemas ecológicos e as conseqüências das pressões externas e antrópicas sobre estes sistemas. Após a publicação desta obra, surgiram movimentos ambientalistas nos EUA, os quais se consolidaram como uma importante força, notadamente em 1968, com a criação do Clube de Roma e a posterior publicação do seu relatório intitulado “Os Limites do Crescimento”.112
Segundo este relatório, conhecido também como Relatório Meadows, concluía-se que
[...] mantidos os níveis de industrialização, poluição, produção de alimentos e exploração dos recursos minerais, o limite de desenvolvimento do Planeta seria atingido, no máximo, em 100 anos, provocando uma repentina diminuição da população mundial e da capacidade industrial. Destarte, o colapso do sistema ocorreria devido à exaustão dos recursos não renováveis. Haveria uma elevação na demanda por parte do capital industrial por uma quantidade cada vez maior das reservas naturais existentes. Por conseguinte, haveria um crescimento populacional desordenado mediante um sistema de ajuste social defasado que conduziria a aumentos nas taxas de mortalidade em decorrência da escassez de alimentos e de serviços não eficientes na área da saúde. Embora se tratasse de um exercício hipotético, o relatório chocou a opinião
112 QUEIROZ, Fábio Albergaria de. Meio Ambiente e Comércio Internacional. Curitiba: Juruá Editora, 2010, p. 27-28.
pública ao traçar um panorama catastrófico para o futuro próximo [...]. 113
Em meio a tantas incertezas acerca do futuro da humanidade, realizou-se em Estocolmo, no ano 1972, a Primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente114, considerada como o grande marco do Direito Internacional do Meio Ambiente.
3.1.2 Preparativos para a Conferência
O Conselho Econômico e Social (ECOSOC) convocou uma Conferência com o objetivo de evitar a degradação ambiental. A Assembléia Geral das Nações Unidas aprovou a idéia em dezembro de 1968, decidindo pela realização da Conferência em 1972 e criando instruções para que o Secretário-Geral consultasse os Estados-membros, as organizações governamentais e as não- governamentais. Em 1969, a ECOSOC recomendou que a Conferência visasse aos tópicos mais amplos de interesse geral da humanidade. A Assembléia Geral, em sessão realizada em janeiro de 1970 aceitou o convite do Governo da Suécia para que a Conferência de Estocolmo fosse realizada em junho de 1972 e criou uma Comissão Preparatória integrada por peritos governamentais.115
Esta Comissão realizou-se em quatro sessões. A primeira preocupou-se com a questão operacional e com a forma pela qual os Estados- membros deveriam atuar; na segunda, adotou-se uma agenda provisória, decidindo sobre a natureza do documento a ser assinado em 1972; na segunda sessão alguns temas foram abordados, como a poluição dos mares, a conservação do solo, os limites permissíveis de poluição, entre outros; a terceira apresentou um esboço da
113 QUEIROZ, Fábio Albergaria de. Meio Ambiente e Comércio Internacional, p. 28.
114 Como resultados dessa Conferência destacam-se: a aprovação da Declaração sobre o Meio Ambiente Humano, a aprovação de um Plano de Ação para o Meio Ambiente, uma resolução sobre aspectos financeiros e organizacionais no âmbito da ONU e a criação do PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. SOARES, Guido Fernando Silva. Direito Internacional do Meio Ambiente, p. 54.
115 SILVA, Geraldo Eulálio do Nascimento e. Direito Ambiental Internacional, p. 28.
Declaração; e, na quarta sessão, cuidou-se da parte funcional da Conferência, inclusive dos aspectos financeiros.116
3.1.3 A Declaração
Fábio Albergaria de Queiroz dispõe que a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano
[...] representou a primeira tomada de consciência, no plano internacional, da fragilidade e necessidade de se criarem mecanismos de manutenção dos ecossistemas do Planeta. A conferência foi um marco nas relações internacionais, uma vez que introduziu, num plano multilateral mais abrangente, a questão ambiental na agenda diplomática mundial.117
É de fundamental importância destacar o que a Declaração de Estocolmo proclama nos itens 6 e 7 do seu preâmbulo:
6 - Atingiu-se um ponto da História em que devemos moldar nossas ações no mundo inteiro com a maior prudência, em atenção às suas conseqüências ambientais. Pela ignorância ou indiferença podemos causar danos maciços e irreversíveis ao ambiente terrestre de que dependem nossa vida e nosso bem-estar. Com mais conhecimento e ponderação nas ações, poderemos conseguir para nós e para a posteridade uma vida melhor em ambiente mais adequado às necessidades e esperanças do homem. São amplas as perspectivas para a melhoria da qualidade ambiental e das condições de vida. O que precisamos é de entusiasmo, acompanhado de calma mental, e de trabalho intenso mas ordenado. Para chegar à liberdade no mundo da Natureza, o homem deve usar seu conhecimento para, com ela colaborando, criar um mundo melhor. Tornou-se imperativo para a humanidade defender e melhorar o meio ambiente, tanto para as gerações atuais como para as futuras, objetivo que se deve procurar atingir em harmonia com os fins estabelecidos e fundamentais da paz e do desenvolvimento econômico e social em todo o mundo.
7 - A consecução deste objetivo ambiental requererá a aceitação de responsabilidade por parte de cidadãos e comunidades, de empresas e instituições, em eqüitativa partilha de esforços comuns.
Indivíduos e organizações, somando seus valores e seus atos, darão forma ao ambiente do mundo futuro. Aos governos locais e nacionais caberá o ônus maior pelas políticas e ações ambientais da mais ampla envergadura dentro de suas respectivas jurisdições. Também a cooperação internacional se torna necessária para obter os recursos que ajudarão os países em desenvolvimento no
116 SILVA, Geraldo Eulálio do Nascimento e. Direito Ambiental Internacional, p. 28.
117 QUEIROZ, Fábio Albergaria de. Meio Ambiente e Comércio Internacional, p. 29.
desempenho de suas atribuições. Um número crescente de problemas, devido a sua amplitude regional ou global ou ainda por afetarem campos internacionais comuns, exigirá ampla cooperação de nações e organizações internacionais visando ao interesse comum. A Conferência concita Governos e povos a se empenharem num esforço comum para preservar e melhorar o meio ambiente, em beneficio de todos os povos e das gerações futuras.118
Nota-se que a Declaração de Estocolmo estabelece como condição essencial para a melhoria do meio ambiente o engajamento por parte de cidadãos, comunidades, instituições, organizações, governos locais e nacionais, ou seja, demonstra que a problemática ambiental atingiu níveis globais, e, portanto, há a necessidade da cooperação também em nível global, com o objetivo de encontrar alternativas que preservem e melhorem o meio ambiente para a geração atual e para as futuras gerações.
A Declaração contém 26 princípios sobre comportamentos e responsabilidades concernentes à questão ambiental. Evidencia-se o princípio 20, que se refere à cooperação internacional, o qual estabelece que
Deve ser fomentada, em todos os países, especialmente naqueles em desenvolvimento, a investigação científica e medidas desenvolvimentistas, no sentido dos problemas ambientais, tanto nacionais como multinacionais. A esse respeito, o livre intercâmbio de informação e de experiências científicas atualizadas deve constituir objeto de apoio e assistência, a fim de facilitar a solução dos problemas ambientais; as tecnologias ambientais devem ser postas à disposição dos países em desenvolvimento, em condições que favoreçam sua ampla difusão, sem que constituam carga econômica excessiva para esses países. 119
Neste sentido, verifica-se a importância de manter níveis de cooperação internacional para a troca de informações entre países, a fim de evitar e solucionar os problemas ambientais.
Apesar de a Declaração de Estocolmo ter sido criticada pela ausência de normas rígidas, não se pode olvidar que a sua adoção exerceu decisiva
118 ONU, Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano. Declaração de Estocolmo. Disponível em: http://www.dhnet.org.br/direitos/sip/onu/doc/estoc72.htm. Acesso em:
13 out. 2010.
119 ONU, Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano. Declaração de Estocolmo. Disponível em: http://www.dhnet.org.br/direitos/sip/onu/doc/estoc72.htm. Acesso em:
13 out. 2010.
influência na defesa do meio ambiente. A maioria de seus princípios foi incorporada a convenções internacionais, resoluções e declarações.120
Em 1973, o Secretário-Geral da Conferência de Estocolmo, Maurice Strong, lançou o conceito de ecodesenvolvimento, demonstrando seis caminhos que levam ao desenvolvimento: satisfação das necessidades básicas, solidariedade com as gerações futuras, participação da população envolvida, preservação dos recursos naturais e do meio ambiente, elaboração de um sistema social que garanta emprego, segurança social e respeito às outras culturas, e programas de educação.121
Estes debates sobre o ecodesenvolvimento permitiram a formulação do conceito de desenvolvimento sustentável que, resumidamente, promete crescimento duradouro, melhoria da condição humana e a transmissão de um patrimônio natural não dilapidado às gerações futuras.122
Queiroz menciona que, apesar dos esforços empreendidos após Estocolmo, não se encontrou um modelo de desenvolvimento capaz de conciliar progresso econômico e preservação ambiental. Além disso, as políticas e planos de governo acreditavam, ainda, não haver ligação entre desenvolvimento e degradação ambiental. 123
3.2 DECLARAÇÃO DO RIO SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO 3.2.1 Antecedentes
Em 1983 criou-se a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, conhecida como Comissão Brundtland (presidida pela então primeira-ministra da Noruega: Gro Harlem Brundtland). Em 1988, essa comissão
120 SILVA, Geraldo Eulálio do Nascimento. Direito ambiental internacional. 2 ed. Rio de Janeiro:
Thex Ed, 2002, p. 32.
121 QUEIROZ, Fábio Albergaria de. Meio Ambiente e Comércio Internacional, p. 30.
122 QUEIROZ, Fábio Albergaria de. Meio Ambiente e Comércio Internacional, p. 30.
123 QUEIROZ, Fábio Albergaria de. Meio Ambiente e Comércio Internacional, p. 33.
apresentou o relatório Nosso Futuro Comum, o qual recomendava a realização de uma conferência mundial para direcionar os assuntos ambientais – culminando com a Rio-92. O relatório definiu desenvolvimento sustentável como “o desenvolvimento que atende às necessidades das gerações atuais sem comprometer a capacidade de as futuras gerações terem suas próprias necessidades atendidas”.124
Fábio Albergaria de Queiroz disciplina que
A partir deste relatório houve um processo de globalização da questão ambiental que atingiu seu ápice ao longo da década de 90.
A agenda política internacional incorporou definitivamente o tema ambiental como uma de suas prioridades, a high politic issue, e a busca por políticas de desenvolvimento sustentável ganhou força não só nos tradicionais fóruns de discussão, mas também em uma emergente comunidade civil transnacional.125
3.2.2 A Declaração
Após 20 anos da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizou-se, no Rio de Janeiro, de 03 a 14 de junho de 1992, a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento – CNUMAD.
Vários documentos foram provenientes desta Conferência, todavia, neste momento do trabalho se pretende estudar a Declaração das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, documento que
[...] contém 27 princípios com o objetivo de estabelecer um novo modelo de desenvolvimento, qual seja o da utilização sustentável dos recursos ambientais, no respeito à capacidade do Planeta de absorção dos resíduos e de efluentes líquidos e gasosos poluentes e, por fim, na valorização da qualidade ambiental como requisito imprescindível à qualidade de vida, que somente pode ser proporcionada através da solidariedade socioeconômica e da cooperação técnico-científica entre os povos. Assim, buscou-se estabelecer uma nova e equitativa parceria mundial através da criação de novos níveis de cooperação entre os Estados, os setores- chave das sociedades e os indivíduos, trabalhando com vistas à conclusão de acordos internacionais que respeitem os interesses de
124 Disponível em: http://www.ana.gov.br/AcoesAdministrativas/RelatorioGestao/Rio10/Riomaisdez/
index.php.40.html. Acesso em: 13 out. 2010.
125 QUEIROZ, Fábio Albergaria de. Meio Ambiente e Comércio Internacional, p. 35.
todos e protejam a integridade do sistema global do meio ambiente e desenvolvimento.126
Destaca-se que um dos objetivos que contém no preâmbulo da Declaração refere-se ao estabelecimento de novos níveis de cooperação entre os Estados, os setores-chave da Sociedade e os indivíduos.127
Essa necessidade da cooperação internacional se demonstra em razão da complexidade da temática ambiental e da impossibilidade de se alcançar o desenvolvimento sustentável sem o engajamento da comunidade internacional, eis o motivo pelo qual a Declaração menciona, por diversas vezes, a importância dessa cooperação global na busca pelo desenvolvimento sustentável, e, por conseguinte, na melhoria da qualidade do meio ambiente.
Jean-Marc Lavieille aduz que
Os Estados, as organizações internacionais e regionais, as empresas, as coletividades locais, as ONGS, os indivíduos, devem multiplicar as inquirições e os meios para passar do produtivismo ao desenvolvimento sustentável e do desenvolvimento sustentável a uma sociedade ecologicamente viável. É tão difícil quanto vital.128 Observa-se que esta Declaração preocupou-se, principalmente, com o desenvolvimento sustentável, como se verifica no Princípio 1, o qual estabelece que “Os seres humanos estão no centro das preocupações com o desenvolvimento sustentável. Têm direito a uma vida saudável e produtiva, em harmonia com a natureza.” Ademais, os princípios 4, 5, 7, 8, 9, 12, 20, 21, 22, 24 e 27 também tratam deste tema.
Para que haja o desenvolvimento sustentável, entre outros fatores, é imprescindível uma mudança no modo de vida, de produção e de desenvolvimento.
126 MILARÉ, Édis. Direito do Ambiente, p. 1146.
127 A propósito, a cooperação internacional foi discutida na página 28 deste trabalho.
128 LAVIEILLE, Jean-Marc. O Direito Internacional do Meio Ambiente: quais possibilidades para resistir e reconstruir? In: KISHI, Sandra Akemi Shimada; et. al. (orgs). Desafios do Direito Ambiental no Século XXI estudos em homenagem a Paulo Affonso Leme Machado. São Paulo:
Malheiros Editores Ltda, 2005, p. 205.
Da mesma maneira, é necessário que a pobreza seja erradicada, pois como já demonstrado neste trabalho129, influi negativamente no meio ambiente.
Tarrega e Pérez afirmam que o desenvolvimento sustentável está ligado a duas preocupações, a do esgotamento dos recursos naturais e o compromisso com a resolução das necessidades das gerações futuras, deixando- lhes meios suficientes para tal.130
Nos próximos tópicos abordar-se-ão alguns aspectos gerais da Convenção sobre a Diversidade Biológica, da Convenção-Quadro sobre as Mudanças Climáticas e do Protocolo de Montreal sobre as Substâncias que destroem a Camada de Ozônio. No entanto, cabe ressaltar que o objetivo não é o de exaurir o tema de cada tratado internacional citado, em razão da sua complexidade e amplitude.
3.3 CONVENÇÃO SOBRE A DIVERSIDADE BIOLÓGICA
A partir dos anos 70, com o desenvolvimento da engenharia genética, a biodiversidade passou a ser considerada como assunto de grande importância, porque além de dar suporte à vida no planeta, foi dotada de dimensão econômica, em virtude de ser matéria-prima para a biotecnologia131.
Tarrega e Pérez trazem alguns dados impressionantes sobre a perda da biodiversidade: “Estima-se, considerando-se que existem cerca de 10
129 Ver item 1.5.7 Princípio da Erradicação da pobreza, p. 32.
130 PÉREZ, Hector Leandro Arroyo; TARREGA, Maria Cristina Vidotte Blanco. A tutela jurídica da biodiversidade: a influência da convenção sobre a diversidade biológica no sistema internacional de patentes. In: TARREGA, Maria Cristina Vidotte Blanco. (org.) Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável, p. 22.
131 “Por meio da biotecnologia, é possível a criação de novos remédios e cosméticos, além da manipulação de organismos vivos que possam ter utilidade para o homem, como no caso de plantas resistentes a vírus e pragas e bactérias utilizadas na biodegradação de vazamentos de óleos ou lixos tóxicos. Chegou-se à capacidade de compreender, manipular e isolar elementos encontrados na natureza e até mesmo seqüências genéticas”. PÉREZ, Hector Leandro Arroyo;
TARREGA, Maria Cristina Vidotte Blanco. A tutela jurídica da biodiversidade: a influência da convenção sobre a diversidade biológica no sistema internacional de patentes. In: TARREGA, Maria Cristina Vidotte Blanco. (org.) Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável, p. 5.
milhões de espécies no planeta, que cerca de 5% são extintas a cada década, o que perfaz cerca de 50 mil espécies extintas por ano!”132
Os mesmos autores tratam da importância da biodiversidade, explicando que é esta
[...] que assegura o equilíbrio ambiental do planeta Terra. Quanto maior a biodiversidade melhor a capacidade dos ecossistemas de reagirem às alterações ambientais causadas por favores externos, como a poluição ou o aumento demográfico.133
A União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) estabelece seis causas principais de extinção das espécies: 1) fragmentação e deterioração de habitats; 2) introdução de espécies exóticas (não originárias do ecossistema em questão); 3) super exploração de espécies de plantas e animais; 4) poluição do solo, água e atmosfera; 5) mudança climática global; 6) agricultura e florestamento industrial.134
Visando à conservação e o uso sustentável da biodiversidade, em 05 de junho de 1992, no Rio de Janeiro, 156 estados assinaram a Convenção Sobre Diversidade Biológica, iniciando a sua vigência em 29 de dezembro de 1993.
Atualmente, são partes 193 Estados135.
No Brasil, o acordo foi aprovado pelo Congresso Nacional através do Decreto Legislativo n. 2, de 3 de fevereiro de 1994, sendo ratificado em 28 de fevereiro de 1994. A sua entrada em vigor deu-se em 29 de maio de 1994; já a sua Promulgação realizou-se pelo Decreto n. 2.519, de 16 de março de 1998.
132 PÉREZ, Hector Leandro Arroyo; TARREGA, Maria Cristina Vidotte Blanco. A tutela jurídica da biodiversidade: a influência da convenção sobre a diversidade biológica no sistema internacional de patentes. In: TARREGA, Maria Cristina Vidotte Blanco. (org.) Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável, p. 10.
133 PÉREZ, Hector Leandro Arroyo; TARREGA, Maria Cristina Vidotte Blanco. A tutela jurídica da biodiversidade: a influência da convenção sobre a diversidade biológica no sistema internacional de patentes. In: TARREGA, Maria Cristina Vidotte Blanco. (org.) Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável, p. 16.
134 PÉREZ, Hector Leandro Arroyo; TARREGA, Maria Cristina Vidotte Blanco. A tutela jurídica da biodiversidade: a influência da convenção sobre a diversidade biológica no sistema internacional de patentes. In: TARREGA, Maria Cristina Vidotte Blanco. (org.) Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável, p. 11.
135 É possível conferir as Partes da CDB no site http://www.cbd.int/information/parties.shtml.
Conforme se extrai do próprio documento, são objetivos da Convenção:
[...] a conservação da diversidade biológica, a utilização sustentável de seus componentes e a repartição justa e eqüitativa dos benefícios derivados da utilização dos recursos genéticos, mediante, inclusive, o acesso adequado aos recursos genéticos e a transferência adequada de tecnologias pertinentes, levando em conta todos os direitos sobre tais recursos e tecnologias, e mediante financiamento adequado.136
Para uma melhor compreensão do conteúdo da CDB, importante estudar as definições137 expostas no artigo 2, as quais serão trazidas a seguir.
Como “Diversidade Biológica”, entende-se
[...] a variabilidade de organismos vivos de todas as origens, compreendendo, dentre outros, os ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem parte; compreendendo ainda a diversidade dentro das espécies, entre espécies e de ecossistemas.
A Biotecnologia é entendida pela Convenção como “qualquer aplicação tecnológica que utilize sistemas biológicos, organismos vivos, ou seus derivados, para fabricar ou modificar produtos ou processos para utilização específica”.
No que diz respeito ao Ecossistema, segundo a CDB, “significa um complexo dinâmico de comunidades vegetais, animais e de microorganismos e o seu meio inorgânico que interagem como uma unidade funcional”.
Sobre os Recursos biológicos, a CDB dispõe que “compreende recursos genéticos, organismos ou partes destes, populações, ou qualquer outro componente biótico de ecossistemas, de real ou potencial utilidade ou valor para a humanidade”.
136 REZEK, Francisco. O direito internacional no século XXI, p. 491.
137 RESEK, Francisco. O direito internacional no século XXI, p. 491-492.