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Conceito de meio ambiente e direito ambiental

No documento UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ – UNIVALI (páginas 35-39)

3 POLÍTICAS PÚBLICAS AMBIENTAIS E SEUS MECANISMOS

necessidades fundamentais, autodeterminação e participação da pessoa na organização político-social e respeito ecológico, precisam ser satisfeitos por um sistema econômico no intento de assegurar o bem-estar social (BUGLIONE, 2010).

Machado (2004) destaca que a definição legal e/ou regular de meio ambiente estava ausente até o advento da Lei de Política Nacional do Meio Ambiente, que o conceituou, em seu art. 3º, inciso I, como o “[...] conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas”.

Dessa forma, o meio ambiente é entendido como “um patrimônio público a ser necessariamente assegurado e protegido, tendo em vista o uso coletivo” (art. 2º, inciso I). Essa definição federal é ampla, uma vez que engloba tudo aquilo que possibilita a vida, que a abriga e a rege (MACHADO, 2004).

Buglione (2010) ressalta, com base nas definições de ambiente trazidas na legislação e a determinação da Constituição Federal de 1988, art. 225, que impõe-se ao Poder Público e à coletividade, o dever de defender e preservar o meio ambiente para as presentes e futuras gerações, podendo-se prescindir a idéia de equilíbrio e bem, de conjunto e interação, afastando do conceito de meio ambiente o sentido de "coisa".

O sentido de “coisa” ou objeto estático manifesta-se contrário à noção de interação, já que essa última implica influência recíproca, além de afastar a idéia de equilíbrio, que significa a combinação de forças ou de elementos. Assim sendo, entende-se o meio ambiente, pelo direito como um bem jurídico. Por conseguinte, do conceito jurídico de meio ambiente infere-se constituir um bem de massa que brota com o juízo de apropriação individual, confirmando a indigência de limitação das condutas individuais que resultem em dano ambiental (BUGLIONE, 2010).

Em comentário ao art. 225 da Constituição Federal de 1988, Tostes (1994) escreve que ele introduziu dois termos novos na definição legal do meio ambiente, quais sejam:

equilibrado e bem. Através deles, é afastada a aplicação da noção de coisa ao meio ambiente.

Coisa é aquilo que possui existência individual e concreta, que exige separatividade, idéia diversa de conjunto. Portanto, a noção de coisa é distante da noção de equilíbrio, que significa a justa combinação de forças ou de elementos.

De igual maneira, para Tostes (1994), coisa não é noção de bem, visto que bem é tudo aquilo que possui um valor moral ou físico positivo, representado por um objeto ou fim da ação humana. Bem é uma relação resultante da valoração humana positiva dada a uma coisa, que pode ser aplicada a uma relação entre as coisas, entre os homens, entre os homens e as coisas, assim como a uma relação de relação.

A partir dessas considerações, Tostes (1994, p. 18-19) conclui:

Meio ambiente, já se pode antecipar, é um todo de relações, é multiplicidade de relações. É relação entre coisas, como a que se verifica nas reações químicas e físico-químicas dos elementos presentes na Terra e entre esses elementos e as espécies vegetais e animais; é relação de relação, como a que se dá nas manifestações do mundo inanimado com o mundo animado.

Meio ambiente é especialmente relação entre os homens e os elementos naturais (o ar, a água, o solo, a flora e a fauna); entre os homens e as relações que se dão entre as coisas; entre os homens e as relações de relações, pois é essa multiplicidade de relações que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas. [...]

Meio ambiente, por fim, é relação jurídica, a partir do momento em que recebeu valoração humana positiva, como bem a ser especialmente protegido pelo direito. E é relação jurídica que tem por atributos essenciais, previstos na constituição Federal, o equilíbrio e a publicidade, este último no sentido daquilo que é público, de todos.

Tendo-se abordado o conceito de meio ambiente, passa-se agora para o conceito de direito ambiental, cujo objeto central compreende o meio ambiente e as implicações jurídicas decorrentes da atuação do homem sobre o meio natural.

Conforme entendimento de Fagundez (2000), o direito ambiental compreende o ramo do direito responsável por estudar as normas jurídicas que tratam das questões relacionadas ao ecossistema.

De acordo com o que propõe Fernandes Neto (apud MACHADO, 2004, p. 138) o direito ambiental pode ser concebido como sendo um “[...] conjunto de normas e princípios editados objetivando a manutenção de um perfeito equilíbrio nas relações do homem com o meio ambiente”. Entende-se assim, que é um direito sistematizador, que objetiva articular a legislação com a doutrina e a jurisprudência concernente aos elementos que integram o ambiente. O direito ambiental procura evitar o isolamento dos temas ambientais e sua abordagem antagônica.

Machado (2004, p. 139) pontua que:

Não se trata mais de construir um direito das águas, um direito da atmosfera, um direito do solo, um direito florestal, um direito da fauna ou um direito da biodiversidade. O direito ambiental não ignora o que cada matéria tem de específico, mas busca interligar estes temas com a argamassa da identidade dos instrumentos jurídicos de prevenção e de reparação, de informação, de monitoramento e de participação.

Evidencia-se, assim, que o direito ambiental tem o intuito de abranger todas as inter- relações existentes entre os vários componentes do meio ambiente, tendo em vista, em última instância, a prevenção de ações capazes de gerar prejuízos a fauna e a flora.

Quando reconhece o meio ambiente como objeto de preocupação e de proteção, o direito dá um passo essencial na evolução do seu próprio objeto de conhecimento. Não se trata mais de algo estático, visto que o ambiente natural é algo dinâmico, que se renova de modo permanente, como a própria vida. Os recursos naturais deverão ser protegidos pela legislação, pois a sociedade terá de ter seus bens maiores protegidos (FAGUNDEZ, 2000).

São apresentados por Moreno (apud FAGUNDEZ, 2000) dois conceitos para o direito ambiental. Um deles afirma que o direito ambiental incide em um conjunto de leis que regulam os sistemas ambientais, com o intuito de proporcionar o alcance do livre desenvolvimento da personalidade dos homens. O outro dispõe que o direito ambiental compreende um sistema de normas, princípios, instituições e práticas operativas e ideologias jurídicas, que regulam as relações entre os sistemas sociais e seus ambientes naturais.

Ainda de acordo com Moreno (apud FAGUNDEZ, 2000), a mais correta das definições é a segunda, uma vez que o direito ambiental é um sistema de normas disciplinadoras dos ambientes naturais, sendo que consiste num instrumento composto por leis, princípios, instituições, estruturas, processo, práticas operativas, entre outros elementos.

Para Fagundez (2000) essa definição transporta ao reconhecimento dos seguintes pressupostos:

• Dentro do sistema jurídico-ambiental são quatro os momentos suscetíveis de serem analisados, os quais interagem entre eles fazendo parte do sistema jurídico ambiental: o momento legislativo, que programa a decisão pública ambiental; o momento judicial, no qual o legislador interpreta e aplica a lei ao caso concreto; o momento executivo, onde ocorre o desenvolvimento, a gestão e a execução das normas gerais; e o momento científico doutrinário ou dogmático.

• A principal função dos juristas ambientalistas na atualidade não consiste em descrever normas, mas estabelecer pontes que aproximem o plano das normas do plano da realidade. Não se pode acreditar que o sistema normativo é desnecessário, do mesmo modo que não se pode conceber o sistema normativo como suficiente para que o fim ambiental do Estado seja alcançado.

Consequentemente, cabe ao sistema jurídico ambiental conciliar os quatro momentos que lhe são intrínsecos (legislativo, judicial, executivo e científico doutrinário), aproximando- se da realidade concreta sobre a qual atua.

Para que se dê a manutenção do meio ambiente, faz-se necessário um equilíbrio formado entre todos os componentes desse mesmo meio, sendo que a legislação age com a intenção direta de assegurar a preservação.

Nesse sentido, destaca-se a relevância da legislação ambiental com o fim de garantir a preservação de todos os integrantes da cadeia ambiental, indispensáveis à manutenção do equilíbrio do meio ambiente. As normas de direito ambiental contribuem no sentido de prevenir os danos ao meio ambiente e aplicar as devidas penalidades aos transgressores da lei.

Tendo esclarecido o conceito de meio ambiente e a relevância do direito ambiental em uma sociedade que pouco reflete sobre a necessidade de preservação do meio ambiente, passa-se, no item seguinte, a análise da natureza jurídica do direito ambiental.

No documento UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ – UNIVALI (páginas 35-39)