3.2 Aspectos Conceituais
3.2.3 Conceito de produto e serviço
consumidor “o que não implica interferência no SFN”. Assim, concluiu que as regras do CDC aplicam-se às atividades bancárias.
A última a votar, a presidente do STF, ministra Ellen Gracie, também entendeu que as relações de consumo nas atividades bancárias devem ser protegidas pelo CDC. O placar definitivo da ADI ficou assim: votaram pela improcedência do pedido formulado pela Consif os ministros Néri da Silva (aposentado), Eros Grau, Carlos Ayres Britto, Joaquim Barbosa, Sepúlveda Pertence, Cezar Peluso, Marco Aurélio, Celso de Mello e Ellen Gracie. Ficaram parcialmente vencido os ministros Carlos Velloso (aposentado), relator, e Nelson Jobim (aposentado).
Por fim comenta Khouri (2006(1), p. 64) que impedir ao consumidor o direito de questionar a justiça da pactuação da cláusula de juros implica em negar vigência a um direito e garantia fundamental, como se fosse dada a instituição financeira uma carta branca para livremente explorar sua propriedade, sem ater-se para sua função social.
Claro está que não existem subsídios para a discussão acerca da aplicabilidade ou não do CDC às relações de direito bancário, haja vista que negar a vigência desse instrumento legislativo é negar a própria intenção da Constituição Federal em proteger a parte mais vulnerável e equilibrar as relações entre consumidores e fornecedores.
Em não se aplicando o CDC para as relações bancárias estaria contaminando todo o consumo, pois a instituição financeira aplica parte de seu patrimônio liquido, porém em quase sua totalidade é um agente repassador que capta recursos no mercado repassando-os ao consumidor. A figura do comerciante é a mesma quando adquire o produto, impõe seus custos cobrando o preço final ao consumidor.
O produto é observado pelo consumidor após sua confecção e adquirido por completo e normalmente é palpável guardando co-relação com o fornecedor e empresa vendedora. Dispõe o CDC em seu §1º do artigo 3º que produto é qualquer bem, móvel ou imóvel, material ou imaterial.
Já o serviço está atrelado a mão de obra, know how, procedimentos de repasse e mão de obra especializada mediante verba pecuniária. O CDC é claro em seu artigo 3º § 2º que dispõe:
Art. 3º(...)
§ 2º Serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo, mediante remuneração, inclusive as de natureza bancária, financeira, de crédito e securitária, salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista.
Segundo Efing (2000, p. 65) o conceito de produto disposto no CDC é amplíssimo uma vez que “bens móveis e imóveis ou imateriais” são duas grandes classificações de bens, sendo produto qualquer objeto de relação de consumo. Finaliza que o produto é um bem fruto da produção, elaborado por alguém com o fim de colocá-lo no comércio, para satisfazer uma necessidade humana.
Quanto à conceituação de produto, no que diz respeito aos contratos bancários, o seu produto é o dinheiro, sendo os juros o preço pago pelo consumidor. Vale lembrar que é nula a cláusula que preveja alteração unilateral deste percentual conforme disposto no art. 51 do CDC (EFING, 2000, p.68).
Esclarece Grinover (2004, p. 526):
O aspecto central da problemática da consideração das atividades bancárias como sendo relações de consumo reside na finalidade dos contratos realizados com os bancos. Havendo a outorga do dinheiro ou crédito para que o devedor utilize como destinatário final, há a relação de consumo que enseja a aplicação do dispositivo do CDC.
Clara está a relação de consumo entre os bancos e seus clientes pela própria característica de seu produto, bem como por seu caráter remuneratório, e o lucro srm embutido sem a distribuição do que é capital e do que é rentabilidade, e sim formando o produto final.
Já quanto ao serviço disposto no § 2º do artigo 3º do CDC dispõe Pasqualotto apud Efing (2000, p. 70) que serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo mediante remuneração, abrangendo indubitavelmente os serviços técnicos ou técnicos- profissionais aplicados.
Assim considera-se produto ou serviço dentro de uma relação de consumo àquele fornecido no mercado mediante remuneração, sendo claro o enquadramento do produto bancário neste contexto, tendo em vista a presença dos juros de caráter remuneratório, fazendo parte da totalidade sobre o valor a ser cobrado.
4 REVISAO DE CONTRATOS BANCÁRIOS
Se o contrato se vincula ao valor segurança jurídica, ou seja, no princípio do pacta sunt servanda, admitir que, posteriormente à sua celebração, ele possa ser modificado ou mesmo não cumprido é questão sobre a qual debruçam o direito canônico, através da velha cláusula medieval rebus sic standbus. No direito civil brasileiro, seguindo as orientações do Código Civil Italiano, fala em onerosidade excessiva decorrente de fato superveniente (KHOURI, 2006 (2) p. 1).
Ressalta ainda que a questão ganhou realce no ordenamento jurídico brasileiro porque pela primeira vez o Código Civil Brasileiro, positivou a possibilidade de resolução/modificação dos contratos por fato superveniente, o que já era instituto, decorrendo anteriormente ao CDC de uma construção doutrinaria e jurisprudencial (KHOURI, 2006 (2) p. 1).
O Código Civil de 2002 tutela a manutenção do sinalagma funcional dos contratos em dois momentos distintos no artigo 317 e nos artigos 478 e 480. Tais artigos são manifestações da diretriz eticidade, possibilitando a revisão dos contratos, ou sua resolução, quando durante seu desenvolvimento, tem o contrato uma das prestações, de uma das partes, desequilibrada em decorrência de fatos supervenientes à conclusão do vínculo contratual, não imputável à parte contratante lesada (FRANTZ, 2007, p.5).
O artigo 317 trouxe a permissão legislativa para revisão dos contratos, quando a prestação se tornar desproporcional ao valor inicial do contrato, em decorrência de fatos supervenientes e imprevisíveis, como por exemplo, no caso de desvalorização monetária (FRANTZ, 2007, p.6).
Já no artigo 478, o Código Civil autoriza a resolução do contrato, com execução prolongada no tempo, se a prestação de uma das partes se tornou excessivamente onerosa, em virtude de fatos extraordinários e imprevisíveis (FRANTZ, 2007, p.6).
O CDC foi precursor destas mudanças, pois em seu artigo 6º, V, segunda parte, admitiu a possibilidade de revisão do contrato quando, em razão
de fato superveniente, a prestação se tornasse excessivamente onerosa para o consumidor.
Assim, com a entrada em vigor do CDC, muitos foram as mudanças no ordenamento jurídico brasileiro, inclusive com a possibilidade de revisão e modificação de contratos minimizando o principio da pacta sunt servanda, sendo este até então o principio norteador da relação contratual, o que justifica o estudo da utilização da ação revisional para discussão dos contratos bancários, concluindo-se que o CDC veio atribuir um acabamento de equilíbrio nos contratos objetivando o equilíbrio contratual até então não discutidos nos contratos que faziam lei entre as partes, sem possibilidade de discussão isonômica.