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Concepção de Normas

No documento Profa. Cinthia Pires dos Santos (páginas 33-37)

4. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

4.1. Concepção de Normas

Conforme Faraco e Zilles (2017) nos apresentam de antemão, o tema da norma se tornou um dos mais substanciais quando se trata de questões relacionadas ao estudo da linguagem verbal. Para esses autores, existe de um lado a norma normal, que corresponde àquilo que dizemos comumente em nosso dia a dia e, de outro, temos a norma normativa, que se refere àquilo de como deveríamos dizer.

Assim temos:

[...] ‘norma normal’ (o modo como se diz habitualmente numa comunidade de fala) e uma ‘norma normativa’ (o modo como se deve dizer em determinados contextos). De um lado, o ‘assim se diz’; de outro, o ‘assim se deve dizer’.

Cada uma dessas normas tem realidade diferente. A primeira, como já dissemos, é a realidade linguística em sua dinâmica própria, em seu funcionamento corrente nas interações sociais; a segunda é uma realidade construída, idealizada, um modelo de língua a ser seguido em determinados contextos. Por isso, a ela se agrega um esforço prescritivo. (FARACO;

ZILLES, 2017, p. 12-13).

Percebe-se que a “norma normal” está intimamente relacionada às variações que a língua apresenta em diversos contextos sociais, geográficos ou culturais em uma comunidade de fala. Já a “norma normativa” diz respeito a certos padrões estabelecidos, onde os falantes tendem a utilizar a língua em situações formais.

É relevante também fazermos a distinção entre norma culta e norma-padrão, visto que em diversas circunstâncias esses conceitos são confundidos ou igualados. Faraco e Zilles (2017, p. 19, grifos dos autores) esclarecem:

Por norma culta designa-se tecnicamente o conjunto das características linguísticas do grupo de falantes que se consideram cultos (ou seja, a ‘norma normal’ desse grupo social específico). Na sociedade brasileira, esse grupo é tipicamente urbano, tem elevado nível de escolaridade e faz amplo uso dos bens da cultura escrita. A chamada norma culta é uma ‘norma normal’, porque é uma das tantas normas presentes na dinâmica corrente, viva, do funcionamento social da língua.

Norma-padrão, por sua vez, é a expressão que designa a ‘norma normativa’, isto é, o conjunto de preceitos estipulados no esforço homogeneizador do uso em determinados contextos. Nesse sentido, a norma-padrão é um modelo idealizado construído para fins específicos; não é, portanto, uma das tantas normas presentes no fluxo espontâneo do funcionamento social da língua, mas um construto que busca controlá-lo.

Ao longo da história do Brasil fica evidenciado que se tentou de todas as maneiras instaurar uma língua que fosse padrão a todos os falantes, estabelecendo um processo unificado, inerte, elitizado e excludente. Essa ideologia vem desde o século XIX, traçada por preceitos dogmáticos, sustentada pela cultura do erro. “O projeto da norma-padrão no Brasil teve como objetivo fundamental, combater as variedades do português popular” (FARACO, 2008, p. 80).

Ainda de acordo com o linguista, procurou-se implantar uma política para calar as línguas indígenas e as variedades rurais.

A elite mais conservadora passou a defender o discurso da unidade absoluta:

há uma só língua e cumpre preservar sua ‘pureza’, que nos é dada pelos portugueses, seus legítimos e únicos proprietários. Nesse sentido, o português de cá deveria aproximar-se com o português de lá, ignorando as diferenças e tomando como modelo os escritores lusitanos (FARACO, 2008, p. 150).

O fato é que esses excessos de normatização nunca foram ou serão usados, já que língua- padrão é uma idealização e, para cada situação, falamos, escrevemos e agimos de múltiplas maneiras. A primeira geração do movimento modernista brasileiro abriu as portas para o reconhecimento de uma língua heterogênea e as repercussões causadas desde a Semana de Arte Moderna em 1922 foram essenciais para estabelecer uma diferença entre a norma-padrão e norma culta.

Essa resistência e essa crítica contribuíram, sem dúvida, para uma relativa abertura da literatura contemporânea para as características da nossa norma culta/comum/standard real. Esse fato fez os nossos melhores gramáticos da segunda metade do século XX flexibilizar os juízos normativos, quebrando, pelo menos em parte, a rigidez da tradição excessivamente conservadora (FARACO, 2008, p. 80-81).

Nota-se que a partir do século XX vários debates a respeito desses instrumentos normativos vistos pela sociedade como os únicos que garantissem a preservação da língua foram motivos de profundas reflexões. Diante dessa tênue flexibilização estabelecida na literatura contemporânea, “produziu um fenômeno interessante a que poderemos tentativamente chamar de norma gramatical, ou seja, o conjunto de fenômenos apresentados como cultos, comuns, standard por esses gramáticos” (FARACO, 2008, p. 81, grifos do autor).

A norma gramatical está relacionada à gramática normativa que, por sua vez, pauta-se em diversas regras que quase nunca são utilizadas no cotidiano, por isso esse modelo controlador tem sido foco de muitas discussões. Na tentativa de combater esse impasse,

Nossos bons gramáticos já não insistem na defesa categórica da norma- padrão do século XIX. No entanto, embora suas gramáticas acolham vários fenômenos da norma culta/comum, standard (em especial aqueles já correntes nos escritores modernos), elas não são propriamente descrições sistemáticas dessa norma. Nossas melhores gramáticas atuais estão, assim, num meio termo entre os excessos caprichosos da norma-padrão e as descrições sistemáticas da norma culta/comum, standard (FARACO, 2008, p. 81, grifos nossos).

Mesmo que existam gramáticos que considerem o uso da norma culta, reconhecendo-a como uma língua mais real, falada e escrita em contextos sociais onde há uma maior monitoração, por outro lado, seguramente, muitos ainda (infelizmente) estão presos à norma- padrão e não enxergam que a língua é a manifestação de um povo, “imerso numa comunidade

de fala atravessada por valores” (FARACO; ZILLES, 2017, p. 81). Por isso, concordamos com Marine e Barbosa (2017, p. 369) quando ressaltam que

[...] não podemos tratar como sinônimas a norma culta e a norma-padrão, tampouco julgar que é papel da escola ensinar a norma padrão, afinal podemos dizer que tal norma é abstrata e singular; é idealizada e, portanto, não corresponde à língua em uso. Diferentemente da norma culta, que podemos concebê-la como concreta e plural, correspondente à língua em uso em situações de maior monitoramento da fala e da escrita e que é constituída por variedades cultas da língua.

O ensino de língua não pode ser visto apenas pelo prisma do ensino da norma-padrão.

Muito se tem feito nos últimos anos na tentativa de romper com esses preceitos de que a língua seja categórica, inflexível, única e inquestionável. A essa norma que é usada para humilhar, constranger e prejudicar as pessoas, Faraco (2008) a chama de “norma curta”. Assim como ele, acreditamos que tal norma é “a miséria da gramática” (FARACO, 2008, p. 92). A quebra desses paradigmas é, de fato, um grande desafio para todos os profissionais que estão envolvidos com o ensino de Língua Portuguesa.

A variação linguística precisa, então, estar sempre presente no ensino da língua. E isso porque é intrínseca a toda e qualquer língua, porque se distribui por todos os níveis linguísticos, porque contribui para a constituição e significação das interlocuções de que participamos, porque é ativamente utilizada na construção de efeitos de sentido em nossos textos orais e escritos, porque constitui nossas identidades e caracteriza as ações que realizamos nas interações sociais (FARACO; ZILLES, 2017, p. 175).

Vale ressaltar que a norma culta também sofre variações de acordo com cada circunstância e interação social de que seus usuários participam e interagem. Sem dúvida, a norma culta é, de fato, uma referência para ser ensinada na escola. No entanto, mesmo essa norma considerada culta é plural, pois sabemos que, por exemplo, fala e escrita se diferem em situações formais e monitoradas. A norma culta e a norma popular são compostas por variedades constituídas por traços estilísticos que se modificam nas mais diversas situações de fala e escrita (Na seção 4.3 abordaremos a variação estilística). A esse respeito, é interessante observar que “os estudos Sociolinguísticos têm apontado que a frequência de uso da concordância verbal é talvez o traço mais forte que distingue esses dois campos de força, ‘norma culta’ e ‘norma popular’ (FARACO; ZILLES, 2017, p. 21).

A língua é, antes de tudo, um instrumento de comunicação e interação social e, justamente por isso, ela é mutante e heterogênea, não cabendo a ela esse propósito rígido,

artificial e arbitrário que, infelizmente, ainda tem acontecido no universo escolar quando docentes insistem no ensino de uma norma-padrão, a qual se configura como uma codificação abstrata, interligada a valores e ao imaginário social, enquanto deveriam reconhecer que a língua é plural e se realiza nos mais diferentes contextos sociais.

A seguir, abordaremos alguns aspectos da Sociolinguística, com destaque para as contribuições dessa ciência em prol do ensino de língua materna.

No documento Profa. Cinthia Pires dos Santos (páginas 33-37)