3.2 Modelo eclesiológico de Canudos
3.2.7 Conflito entre dois modelos eclesiológicos em Canudos
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representantes da Igreja e o outro de Antônio Conselheiro. Do lado da Igreja, a falta de estratégia e de bom senso diante do acirramento dos ânimos entre as autoridades políticas e o povo de Canudos. Da parte de Antônio Conselheiro, por falta de maior abertura para o diálogo com Frei João Evangelista de M.
Marciano. Poder-se-ia fazer uma segunda tentativa de diálogo com outro representante de maior capacidade de diálogo. Isso não foi possível nem da parte das lideranças da Igreja nem dos líderes de Canudos.
Depois de mais de três anos de vida comunitária querer dissolver a experiência e mandar as pessoas para suas casas não foi a melhor estratégia do representante do arcebispo. Levando em consideração o nível de desemprego no Nordeste, o colapso da economia, a migração interna e externa em busca de sobrevivência e o apoio que os mais pobres encontraram em Canudos, qual o melhor caminho: abandonar o acampamento e voltar para
comunidade, compartilhando o uso coletivo da terra, cuidando e acolhendo os mais pobres? Eis a questão.
Frei João Evangelista, em seu relatório, durante a visita a Canudos revela muita mágoa ao descrever a vida no Belo Monte e desconhecimento em relação à fé do povo sertanejo. Ele não valorizou os muitos elementos positivos no acampamento nem percebeu, na vida da comunidade, a presença viva da Igreja, como veremos a seguir.
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Igreja assume posição ambivalente662 sobre o Peregrino, conforme atestam as correspondências do arcebispo da Bahia, Dom Luiz Antônio dos Santos663. O ordinário proibia que Antônio Conselheiro fosse recebido pelos vigários da região,
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, na Igreja Católica, somente aos ministros da religião a missão santa de doutrinar os povos, um secular, quem quer que seja, ainda quando muito instruído e virtuoso, não tem autoridade para exercê-
Constituições do Arcebispado da Bahia proibiam, sob pena de excomunhão e multa, qualquer pessoa secular, ainda que seja douta e letrada, se intrometer a disputar, em púlpito ou em particular, os conteúdos da fé, faculdade exclusiva dos ministros ordenados664. Essa norma, porém, não foi aplicada para proibir os diversos conselheiros que havia no Nordeste brasileiro e que sustentavam o dinamismo do catolicismo popular sertanejo.
Diante das ordens do arcebispo, muitos párocos adotaram como atitude
uma localidade, por iniciativa do Beato ou a convite dos padres, implicava aumento de côngruas665 e rejuvenescimento da participação dos fiéis nas igrejas. Antônio Conselheiro não era o único beato que animava a fé no Sertão.
Diversas lideranças leigas, beatos, conselheiros, catequistas e animadores de comunidades exerciam os ministérios, tornando o catolicismo popular realidade
662 Dupla postura da Igreja: de um lado, o arcebispo proibia aos párocos acolherem nas paróquias o Peregrino. De outro lado, há diversos registros que atestam a presença de Antônio Conselheiro predicando nas igrejas, fazendo campanhas para recuperar e construir novas capelas, com o apoio expresso dos padres.
663 A primeira circular de Dom Luiz, alertando todos os padres da região a não receberem o ao nosso conhecimento, que pelas freguesias do centro deste arcebispado, anda um indivíduo denominado Antônio Conselheiro, pregando ao povo, que se reúna para ouvi-lo, doutrinas supersticiosas e uma moral excessivamente rígida com que está perturbando as consciências e enfraquecendo, não pouco, a autoridade dos párocos destes lugares, ordenamos a V.
Revma, que não consinta em sua freguesia semelhante abuso, fazendo saber aos Paroquianos que lhes proibimos absolutamente, de se reunirem para ouvir tal pregação, visto como, competindo, na Igreja Católica, somente aos ministros da religião, a missão santa de doutrinar os povos, um secular, quem quer que seja, ainda quando muito instruído e virtuoso, não tem autoridade para exercê-lo. Entretanto, sirva isto para excitar cada vez mais o zelo de V.
Revma., no exercício do ministério da pregação, a fim de que os seus paroquianos, suficientemente instruídos, não se deixem levar por todo vento de doutrina
CUNHA, Os Sertões, p. 230-231.
664 VIDE, Constituições primeiras do Arcebispado da Bahia, Título V, 14, p. 7.
665 Cf. CUNHA, Os Sertões, p. 230.
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predominante na região de Canudos, sem maiores conflitos nem com os padres da região nem com o próprio arcebispo da Bahia666.
Por que o arcebispo tinha essa dificuldade com o Conselheiro se havia tantos outros líderes leigos catequizando? Em sintonia com as proibições emitidas pelo arcebispo da Bahia, Euclides da Cunha escolhe certos adjetivos
chefes de seita dos primeiros séculos, nota-se a revivescência integral de suas
667. Na verdade, o que Antônio Conselheiro ensinava não saía de sua própria cabeça. O conteúdo do misticismo de Canudos vinha, principalmente, do livro Missão abreviada, obra de orientação moral rigorista, aprovada pelo arcebispo da Bahia. Os hábitos transplantados de Portugal, muitos dos quais até já superados pela Igreja eram conteúdo moral no Brasil.
Mesmo assim, usados nas pregações dos missionários, dos padres, dos conselheiros, dos catequistas e dos animadores de comunidades sertanejas.
Os exageros morais não eram prerrogativas exclusivas das pregações do Conselheiro. Faziam parte do arcabouço teológico do tempo. Foi o que a Igreja dispôs para suas lideranças, padres e leigos. Havia lacunas no conteúdo catequético oferecido pela Igreja.
Sobre a Missão abreviada, principal fonte de catequese da Igreja do Nordeste, no século XIX, Eduardo Hoornaert destaca pelo menos três lacunas, também chamadas de deformações do cristianismo: 1) A redução da mensagem cristã ao âmbito estritamente individual e moral; 2) A exaltação unilateral da obediência e da penitência como virtudes cristãs; 3) E a quase ) 668. Ele chama a atenção, ainda, para as diferentes imagens distorcidas a respeito da Virgem
666 Eduardo Hoornaert fala em duas influências que marcaram a formação cristã no Brasil, desde os inícios do processo de colonização e que permanecem na Igr
666. A devoção constrói um mundo simbólico, marcado pelos oratórios, novenas aos santos das devoções celebradas nas capelinhas, igrejas e na residência das famílias. As romarias, procissões e cantorias constroem o simbolismo de Conselheiro fala na Jerusalém do Alto ou no Belo Monte, revelando o sentido de superação, movimento e perfeição. Para Pedro Lima Vasconcelos, vida em Canudos, interpretada pelos
666. O hoje em Canudos é vivido na perspectiva de um mundo melhor, pela presença do Bom Jesus.
667 Cf. CUNHA, Os Sertões, p. 225.
668 HOORNAERT, Verdadeira e Falsa religião no Nordeste, p. 78-87.