3.2 Modelo eclesiológico de Canudos
3.2.6 Tipologia do modelo eclesiológico de Canudos
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Jeremoabo, e Bom Conselho648. Euclides da Cunha caracterizou a nova igreja
santuário e de antro, de fortaleza e de templo, irmanando no mesmo âmbito, onde ressoariam mais tarde as ladainhas e as balas, a suprema piedade e os
649. Para o povo, o Conselheiro ensinava o que era certo e mandava praticar a união e a caridade.
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religiosidade é uma noção demasi 651. Isso, no entanto, não desmerece a importância da religiosidade popular como expressão da fé do povo simples, que não teve oportunidade de aprofundar a fé cristã. Pedro Ribeiro destaca pelo menos a prevalência de três tipos de constelações no catolicismo popular:
1) Constelação sacramental
por em que a
predominância da Igreja como instituição é menos sensível" 652. O corpo institucional: bispos, padres e líderes que preparem os fiéis para a recepção
muitos locais a Igreja não dispõe de pessoas qualificadas para uma catequese eficiente e, por isso, a recepção dos sacramentos pode não vir acompanhada de convicção de fé.
2) Constelação devocional. Como não é possível uma ação eficiente na formação e acompanhamento dos líderes, prevalecem no corpo eclesial ros
quais o devoto estabelece ou reforça uma aliança com seres sagrados pessoais. Chamamos esta constelação devocional 653.
3) Constelação protetora. Consiste em uma prática de caráter quase mágico. Emana das promessas aos santos, pelas novenas precatórias, especialmente nas ocasiões de carências, dificuldades materiais e momentos de insegurança diante do desconhecido ou, até mesmo,
relação com o santo é de tipo contratual (...) e pode se desfazer tão logo a protetora 654. Conforme cada realidade cultural e a influência de outras crenças religiosas, o povo apresenta formas próprias e, até mesmo exóticas, da prática individual e coletiva da experiência religiosa. O critério de ortodoxia no
651 RIBEIRO, Religiosidade popular na América Latina, p. 354.
652 RIBEIRO, Religiosidade popular na América Latina, p. 359. Este estudo foi solicitado pelo CELAN durante a II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, em Medelín, em 1968.
653 RIBEIRO, Religiosidade popular na América Latina, p. 357.
654 RIBEIRO, Religiosidade popular na América Latina, p. 357.
194 limites culturais, com paciência história.
Membro da equipe de historiadores da CEHILA, Frei Hugo Fragoso
únicos de julgamento de parte do episcopado em suas cartas pastorais, sobre
a religiosidade popular. Para ele, rática
laical, sem qualquer alusão aos valores que o catolicismo popular criou durante mais de três séculos no Brasil655. Esse dado é muito importante para reconhecer como positiva a expressão da fé do povo de Antônio Conselheiro.
O modelo eclesiológico de Canudos chegou ao Brasil pela própria Igreja, através da concepção do padroado: a cruz chegou ao Brasil na mesma
décadas o cenário religioso, tanto no litoral (com as irmandades e confrarias) quanto no sertão, desde a chegada de missionários portugueses. Em muitos casos em conflitos com a instituição. O projeto pastoral diferente não pode desconsiderar esse fato.
Hugo Fragoso, destacando o que parece detrair a religiosidade do povo, procura analisar a mística do catolicismo popular de maneira mais favorável. Ele cita o jornal de propriedade da Igreja em Salvador, impressão semanal, que revela o modo místico fervoroso do povo, de todas as classes
656. Foram as missões portuguesas, em nome dos ensinamentos fundamentais da fé cristã, que deram as devidas orientações aos que exerciam liderança na comunidade.
Antônio Conselheiro também seguia tais orientações.
Pelo menos quatro elementos merecem destaques na Igreja de Canudos: 1) O uso reiterado da Bíblia Sagrada pelo Conselheiro; 2) A participação da comunidade nas celebrações dos sacramentos, especialmente Batismo, Penitência e Eucaristia, sempre que o padre chegava; 3) A utilização dos principais manuais de catequese que circulavam nas paróquias da região, com destaque para Missão abreviada, Práticas mandamentais, Horas Marianas, textos dos santos padres, etc., e a Palavra de Deus na preparação
655 Cf. FRAGOSO, A Igreja na formação do Estado liberal (1840-1875), p. 218-219.
656 Cit. in: FRAGOSO, A Igreja na formação do Estado libera (1840-1875), p. 218.
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das homilias do Peregrino657. 4) A sintonia da comunidade de Canudos com o pároco de Cumbe, Paróquia da qual Canudos fazia parte. Tudo isso confirma a ortodoxia da catequese ensinada em Canudos.
Em Belo Monte, Antônio Conselheiro ensinava ao povo a doutrina da Igreja, através dos manuais oferecidos pelos sacerdotes da região, pelos livros com instruções para dar continuidade às missões pelas lideranças leigas, deixados pelos missionários no final de cada ciclo missionário. Havia esforço para a observância dos dez mandamentos como norma a ser seguida658. O seguimento de Jesus Cristo, Deus e homem verdadeiro659, segundo os ensinamentos do Peregrino, constituíam-se no ideal primordial para os que entravam na comunidade. O amor ao papa revela o senso de comunhão com a Igreja e a vontade divina da escolha de Pedro como pedra, para edificar a Igreja660. A práxis do povo de Canudos derivava da fé.
Os erros e acertos em Canudos foram claudicações e assertivas da própria Igreja. Os exageros em Canudos não comprometeram o conjunto da obra do Conselheiro e sua gente. Na qualidade de legado do arcebispo da Bahia, Frei João Evangelista teve dificuldade para entender os interesses implicados em Canudos. Religioso, recém-chegado ao Brasil, com pouco conhecimento da mentalidade do homem sertanejo e fora de sintonia com o que se passava no contexto político e religioso brasileiro, especialmente sobre o fato Canudos, Frei João Evangelista não estava apto para realizar tamanha missão.
Um missionário brasileiro, capaz de estabelecer diálogo, com capacidade de entender o movimento sertanejo em sua inteireza, sem intenção preconcebida de dispersar o povo, com o espírito desarmado, poderia ter desdobramento diferente, uma vez que o religioso não demonstrava tal habilidade. Em Canudos, dois erros se sucederam. Um da parte dos
657 As homilias deixadas por escrito são fundamentais na recuperação teológica do legado de Antônio Conselheiro e sua gente.
658 Cf. ANTÔNIO CONSELHEIRO, Prédicas de Antônio Conselheiro aos canudenses, in:
Nogueira, p. 107-143. As longas homilias preparadas pelo Conselheiro sobre os dez mandamentos e lidas nos encontros da comunidade revelam o desejo de normas de conduta para o povo no acampamento, em um momento de profunda crise moral, ética e política no Nordeste.
659 Cf. ANTÔNIO CONSELHEIRO, Prédicas de Antônio Conselheiro aos canudenses, p. 154.
660 Cf. ANTÔNIO CONSELHEIRO, Prédicas de Antônio Conselheiro aos canudenses, p. 148 e 152.
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representantes da Igreja e o outro de Antônio Conselheiro. Do lado da Igreja, a falta de estratégia e de bom senso diante do acirramento dos ânimos entre as autoridades políticas e o povo de Canudos. Da parte de Antônio Conselheiro, por falta de maior abertura para o diálogo com Frei João Evangelista de M.
Marciano. Poder-se-ia fazer uma segunda tentativa de diálogo com outro representante de maior capacidade de diálogo. Isso não foi possível nem da parte das lideranças da Igreja nem dos líderes de Canudos.
Depois de mais de três anos de vida comunitária querer dissolver a experiência e mandar as pessoas para suas casas não foi a melhor estratégia do representante do arcebispo. Levando em consideração o nível de desemprego no Nordeste, o colapso da economia, a migração interna e externa em busca de sobrevivência e o apoio que os mais pobres encontraram em Canudos, qual o melhor caminho: abandonar o acampamento e voltar para
comunidade, compartilhando o uso coletivo da terra, cuidando e acolhendo os mais pobres? Eis a questão.
Frei João Evangelista, em seu relatório, durante a visita a Canudos revela muita mágoa ao descrever a vida no Belo Monte e desconhecimento em relação à fé do povo sertanejo. Ele não valorizou os muitos elementos positivos no acampamento nem percebeu, na vida da comunidade, a presença viva da Igreja, como veremos a seguir.