3.1 O modelo eclesiológico do catolicismo romano
3.1.5 Elementos essenciais para a comunhão eclesial
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O exemplo de Igreja voltada para os pobres que Padre Ibiapina imprimiu -se modelo para duas outras figuras religiosas e forte irradiação por todo o Nordeste: o padre Cícero, de Juazeiro do Norte (CE) e o Beato Antônio
580. De fato, o Padre Ibiapina, passando por Antônio Conselheiro e os diversos beatos e conselheiros do Nordeste, imprimiram à Igreja do Nordeste a marca de orientação social e de trabalho com os mais pobres que permanece até nossos dias.
Antônio Conselheiro pregou sobre o sacramento do batismo. Este sacramento constitui o fundamento da identidade pessoal do cristão e o remete para o compromisso eclesial. Era essa a compreensão do Peregrino. Conhecia bem o papel das autoridades eclesiásticas constituídas e mantinha o devido respeito. Sabia que o papa é o sucessor de Pedro, confirmando com o texto de
581.
De fato, a missão do cristão encontra fundamentos na teologia do sacramento do batismo. Segundo São Gregório de Nazianzo quem recebe o
582. Antônio Conselheiro levou isso a sério, durante toda a sua vida. Para ele, quem recebe o batismo tem as condições essenciais para a salvação. Reprovando o que não assume a fé, afirma que a incredulidade pesa diante de Deus e desfere -la mais patente vejam o que diz Nosso Senhor Jesus Cristo (Mat., cap. 16, v. 16). O que crer e for batizado
583. Viver e ensinar a doutrina do batismo foi sua obsessão maior. Não pensava em obras grandiosas. Seguir Jesus Cristo e estar a serviço de sua obra: eis sua missão.
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natureza Una584. No símbolo niceno-constantinopolitano já aparecem as
membros da Igreja, cada um no seu nível de serviço. O Deus trindade de pessoas é o protótipo de unidade na diversidade. Tertuliano protagoniza o conteúdo que relaciona a Igreja com a S
o Filho e o Espírito Santo, aí também se encontra a Igreja que é o corpo dos
585.
Ao dirigir-se ao Pai em oração, Jesus encaminha a Igreja, comunidade
tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para que o mundo O envio para a missão dá-se pela ação
todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-as a observar tudo o que vos orde
19-20). Na Trindade,
perspectiva religiosa; ela se traduz na comunhão de bens e de vida, como foi -45; 4,34- 36)586
concreta e deve consumar-se escatologicamente587.
A Trindade, portanto, é o paradigma para a realização da unidade. O cristão, clérigo e leigo olham para o mistério trinitário para corrigir distorções, tentativas de cismas, perigo de isolamentos e experiências individualistas. Os cristãos leigos e membros da hierarquia constroem a unidade eclesial a partir da vontade do Pai, da docilidade ao Espírito, no seguimento de Jesus Cristo e em comunhão com os irmãos.
É preciso dizer que o povo de Canudos sempre se sentiu Igreja. A forte liderança de Antônio Conselheiro, sua reputação e credibilidade na Igreja, a razoável formação religiosa, a confiança que os párocos da região depositavam em sua presença foram fortalecendo a ideia de que ele não tinha como ideário
584 Para uma boa reflexão sistemática sobre as quatro notas Cf. KASPER, A Igreja Católica:
essência, realidade, missão, p. 203-255.
585 TERTULIANO, De baptismo, IV, 1.
586 BOFF, A trindade, a sociedade e a libertação, p. 137.
587 Cf. ROSSANO, Propriedades essenciais da Igreja, p. 15.
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separar-se da Igreja Católica, mas viver intensamente sua fé, no ambiente construído em Belo Monte. Todos os elementos oferecidos pela prática do catolicismo popular ajudaram na ambientação para a comunhão fraterna e as orações cotidianas. O vigário do Cumbe representava o elo de unidade da Igreja pela comunhão com o arcebispo, na constante presença em Canudos, pelos sacramentos que presidia especialmente batismo, penitência e eucaristia.
Ao refletir sobre a comunhão na comunidade de fé de Canudos, diversas dúvidas saltam aos olhos. Que atitude Antônio Conselheiro poderia ter tomado diante da decisão do arcebispo da Bahia de dissolver Canudos? A decisão de Antônio Conselheiro de não aceitar essa investida foi erro grave ou poderia ter -se e voltar aos lares e ao
588, como sugeriu Frei João Evangelista, em relatório apresentado ao arcebispo da Bahia? Há mais de três anos que o povo tinha abandonado suas casas, até mesmo vendido propriedades para viver em Canudos. Voltar para casa e trabalhar seria possível? Permanecer na e com a comunidade atentaria contra a unidade da Igreja ou desrespeitava o princípio da autoridade religiosa?
Não estamos em condições de responder a todas as perguntas.
Queremos, apenas, suscitá-las. Talvez as respostas estivessem em uma boa conversa entre as autoridades religiosas e republicanas. Ou, ainda, em uma visita pessoal do arcebispo a Antônio Conselheiro e, posteriormente, em um encontro com a comunidade do Belo Monte. Não seria possível manter o povo em Canudos e superar o mal entendido de ambas as partes? Não faltou uma segunda tentativa de diálogo com outro representante da Igreja mais inteirado, com melhor conhecimento do jogo de interesses entre os imbricados nos fatos?
Com bom senso, capacidade de diálogo e comunhão, Canudos poderia ter tido destino diferente. Onde está o ponto de comunhão? Foi Antônio Conselheiro que não fez comunhão com o arcebispo, não acolhendo seu pedido, ou o prelado exigiu, sem qualquer sintonia com a comunidade, algo não factível?
Do ponto de vista teológico, a comunhão na Igreja se realiza a partir da pessoa de Jesus Cristo e seu projeto de Reino. O Papa Pio XII, ao lançar a encíclica sobre O corpo místico de Jesus Cristo589, afirma que,
588 MARCIANO, Relatório do Frei João Evangelista sobre Antônio Conselheiro, p. 4.
589 PIO XII, Carta encíclica Mystici corporis, 12-61.
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requer também multiplicidade de membros, que unidos entre si se auxiliam
590. A comunhão na Igreja só se realiza no diálogo entre a autoridade constituída e os membros do povo de Deus, de forma dialógica. A prática do diálogo se realiza pela escuta reverente do Cristo Cabeça (cf. Cl
mercenário, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê o lobo aproximar-se, abandona as ovelhas e foge, e o lobo as arrebata e dispersa,
-13).
Durante o período em que as autoridades políticas tramavam invadir Canudos, o governador baiano delegou uma nobre missão ao arcebispo da Bahia: fazer um acordo com Antônio Conselheiro para evitar o confronto armado. O prelado contava com a simpatia do Peregrino. Entre os moradores de Canudos não havia hostilidade ao arcebispo e nem aos representantes hierárquicos da Igreja. Esse fato poderia ajudar em um acordo vantajoso para ambas as partes.
Não se conhecem os motivos que levaram o arcebispo da Bahia a não assumir o protagonismo de pacificar Canudos. Enviou Frei João Evangelista, frade capuchinho, recém-chegado da Itália ao Brasil, para conversar com Antônio Conselheiro, durante uma semana missionária em Canudos. A missão não foi bem sucedida. Em Canudos, a posição do frade foi pré-concebida e unilateral. Desde o início da missão, ele teve posições conflitivas. O povo de Canudos reagiu e não aceitou deixar Canudos, como propunha frei João Evangelista, em nome do Arcebispo. O protagonismo do frade foi direto. Sem muito conhecimento do que se passava em Canudos, o capuchinho demonstrou indignação sobre o estado de pobreza do sertanejo e logo atribuiu a culpa ao Conselheiro591.
Como entender a posição do Frei João Evangelista? A sua pouca experiência, o não envolvimento do vigário de Cumbe no diálogo, Padre Vicente Sabino (com quem o Peregrino tinha ótimas relações), figura importante para informar o que estava acontecendo em Canudos, certamente ajudaria construir uma posição diferente que o confronto. Antônio Conselheiro e
590 PIO XII, Carta encíclica Mysticicorporis, 15.
591Cf. MONTE MARCIANO, relatório apresentado pelo Frei João Evangelista ao Arcebispo da Bahia sobre Antônio Conselheiro e Canudos p.44 a45
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as principais lideranças de Canudos não foram ouvidos. Desprezou-se o preceito evangélico fundamental de fazer um caminho, com o testemunho de mais pessoas, conforme a determinação de Jesus, quando um irmão peca (cf.
Mt 18,15-19).Faltou criatividade dos que tinham a missão de exercer o poder- serviço e o ministério da comunhão eclesial.
Durante os conflitos nas comunidades primitivas, os que estavam envolvidos na vivencia da fé recebiam orientação de Paulo
causa do seu trabalho. Vivei em paz uns com os outros. (...) Não extingais o Espírito; não
(1Ts 5,13, 21-22).
Ao refletir sobre a tomada de decisão em momentos limites na Igreja, C.
testemunho. Isso significa que ele não pode usar a confissão de fé como
592. Por isso, é fundamental para a autoridade episcopal, atuando em nome da Igreja, tomar a sério o sensus fidei de todos os fiéis na busca de toda a verdade593.
Não é justo imputar a responsabilidade da guerra de Canudos a Antônio Conselheiro e sua gente, como fizeram historicamente representantes da República e setores da Igreja. É preciso compartilhar a incapacidade de chegar a um acordo aos republicanos, aos emissários da Igreja e ao povo do
a quem muito se deu, muito será pedido, e a quem muito se houver confiado, um
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capaz de fazer valer a narrativa de sua história pelos seus representantes.
Esses reparos são fundamentais para devolver a verdade histórica ao povo de Canudos.
Para P. Tihon o jeito diferente e até mesmo oposto de pensar e agir na
tendências opostas no seio da Igreja podem contribuir para uma forma de
592 GEFFRÉ, Como fazer teologia hoje: hermenêutica teológica, p. 99.
593 Aprofundaremos melhor a relação do magistério da Igreja e o sensus fidei ao abordarmos o conflito entre dois modelos eclesiológicos. Cf. 3.2.7.
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unidade mais maleável, resistente à degradação dos apoios sociais e
594 sensusfidei de
todos os fiéis e fala -
organism 595. As saídas para o diálogo
e a superação do conflito armado encontravam-se difusas entre o povo de Canudos, os representantes da Igreja e as forças políticas da República, esta, com seu braço armado. O diálogo não sendo possível, aparece o trágico caminho do confronto.