A revolução tecnológica e informacional, que tem ocorrido em simultâneo à uma tendência voltada à transição energética de baixo carbono, fez emergir novos modelos de produção e de gestão, os quais são obrigatórios para efeti- var a participação nas diversas cadeias globais de valores. De tal modo, a in- serção dos países latinos se deu por um processo em chave dupla, que inclui e exclui, ocorrendo simultaneamente a incorporação seletiva e a marginali- zação estrutural dos territórios, das empresas, das instituições e das pessoas (CALDERON & CASTELLS, 2021; SANTOS, 2020). Então, a região convive com a modernização e o atraso, protagonismo e dependência. Sendo esta a arena onde as iniciativas de transição para a mobilidade elétrica emergem.
Compreende-se que as ações listadas ao longo do presente texto mos- tram o desenrolar de iniciativas de transição para a sustentabilidade, cal- cadas em um novo nicho tecnológico, que passam a existir de fato por meio de arranjos complexos entre o avanço institucional (política pública) e a adoção de novos artefatos tecnológicos (os VE em diferentes modais). Esta
nova realidade cria condições para as mudanças nos padrões de consumo e produção do espaço urbano, com isso, orientando as cidades para uma via mais sustentável.
Os instrumentos implementados ou ações mediadas pelo poder público são recentes, surgindo no fim da década de 2010 e ganhando volume nos últimos anos, vide o caso chileno e colombiano.
A profusão de iniciativas na região é um importante meio de experimen- tação e aprendizado, o qual colocou em pauta a temática da eletromobi- lidade, mostrando uma outra forma de se deslocar no espaço urbano. As iniciativas de transição são conduzidas por agentes ou coletivos, que visam impulsionar mudanças transformadoras em direção à sustentabilidade am- biental, por meio das suas atividades locais, ou seja, no transcorrer das suas atividades normais promulga-se outras formas de fazer, pensar e organizar, neste caso, os transportes (EHNERT et al., 2018).
Observamos, empiricamente, que as cidades e os seus agentes econô- micos ligados à sustentabilidade, buscam ativamente a experimentação em novas trajetórias tecnológicas e em novos modelos de negócios, assim, for- necem outras bases de evidências para soluções de problemas. Tais inova- ções em sustentabilidade, variam desde o uso de ônibus elétricos e trólebus para compor a frota de transporte público de uma cidade até implementar serviços de carsharing com VE em áreas turísticas. O importante da profusão de iniciativas é o fato delas começarem a criar redes sociais e sinergias, de- senvolver novas narrativas sobre o futuro das cidades e se tornarem atores relevantes na arena de governança urbana.
O conjunto dos casos estudados mostra potencialidades que podem ser exploradas na relação entre a mobilidade elétrica e a América Latina:
(i) Grandes mercados consumidores. A região, mesmo com grandes graus de desigualdade, tem uma classe média numerosa e ávida pelo consu- mo, que reproduz os padrões dos países mais desenvolvidos. Ademais, à medida que se amplia a inserção dos trabalhadores que estão do merca- do formal, esse potencial de consumo cresce, ou seja, existe elasticidade da demanda na região;
(ii) Historicamente a matriz energética da região se baseia em fontes re- nováveis. Acrescenta-se que existem potenciais naturais subutilizados para geração de energia. É o caso do solar fotovoltaica, eólica e do hi- drogênio verde, fontes que ainda são marginais na maioria dos países;
(iii) Brasil, Argentina e México tem uma indústria automobilística robusta no seu território, contando também com significativa constelação de
empresas de autopeças e serviços correlacionados aos veículos, estas sendo também de capital nacional. Assim, é plausível e esperado que a articulação seja feita na direção de readequação desta base produtiva, a qual pode colocar a região como produtora de componentes e de novos veículos baseados na trajetória da eletrificação;
(iv) A região já realizou experimentos exitosos em substituir os combustí- veis fósseis (caso do bioetanol, biodiesel e do motor flex). Essa expe- riência pode ser utilizada como base de aprendizado e inspiração para rever a infraestrutura de abastecimento dos veículos e a adequação da regulação do setor de transporte.
Todos os países analisados neste artigo introduziram instrumentos de política pública com a intenção de reduzir emissões de CO2 e contribuir com as ações climáticas mundiais. Estas são as principais justificativas presen- tes nos levantamentos realizados. Isso traduz as motivações dos países, que em parte mostram-se limitadas na elaboração de estratégias integradas e de desenvolvimento autônomo, pois os motivadores deveriam ser articulados com outras intencionalidades e, assim, mobilizar mais investimentos e ou- tros atores. As nações líderes da eletromobilidade (China, EUA, Japão, além de vários países europeus) justificam e elaboram instrumentos que somam o mote ambiental com vias para ampliar a produção da indústria local e/ou criar caminhos para a inovação, buscando modernizar/atualizar a capacida- de interna para concorrer internacionalmente (CONSONI et al., 2018).
Outro fator levado em conta por estas nações líderes é a segurança ener- gética. Os VE além de não consumirem combustíveis fósseis, podem atuar na estabilização da rede elétrica e em alguns casos, fornecer energia em mo- mentos pontuais para a rede. Enxergar os VE como parte de soluções am- bientais e de novas agendas de desenvolvimento tecnológico é necessário para promover processos alargados de transição para a sustentabilidade e seguir na agenda de desenvolvimento humano.
Tendo em mente que o conjunto tecnológico da mobilidade elétrica ainda não está consolidado, buscar articular objetivos para além da agenda am- biental é importante, pois a efetivação dos VE na realidade urbana traz a reboque “janelas de oportunidades” para a indústria automotiva, eletroele- trônica, de energia e novos entrantes ligados aos setores de serviços e tec- nologias baseadas em dados.
A região vem mudando o seu entendimento sobre isso (vide Figura 3).
Mas, ao ler e colocar em perspectivas os instrumentos ora implementados, percebe-se uma falta de direcionamento para a promoção dos VE, bem como
uma desarticulação de atores e, portanto, de ações para a promoção desse tipo de mobilidade e desta indústria nos territórios nacionais – isso sendo mais patente no Brasil e Argentina, os dois maiores países da América do Sul.
No caso brasileiro, um elemento central dessa ausência de coerência e consenso nacional na temática do VE, advém da falta de um compromis- so suficientemente forte com o processo de transição e um comportamen- to vacilante em relação ao desenvolvimento de trajetórias tecnológicas que nos leve ao futuro. Explicamos: o planeta dá sinais de limites desse modelo, eventos extremos ligados ao clima se tornam mais frequentes (IPPC, 2021) e os níveis de desigualdades são crescentes na região, bem como em outras partes do globo (PIKETTY, 2020).
Nesta perspectiva, o poder público, investido de suas capacidades de me- diar e influenciar, deve assumir o compromisso de emular nova direção para a sociedade, visando um desenvolvimento de longo prazo e de atualização da estrutura produtiva e das condições de mobilidade nas cidades.
Deve-se compreender que mecanismos de suporte e de direcionamento da mobilidade elétrica, em todos os seus modais, são ferramentas que pos- sibilitam a existência de iniciativas de transição, as quais podem ser repli- cadas em outros segmentos da vida urbana, como moradias, agroalimentar, fornecimento de energia, entre outros. A transição exige multiplicidade de ações e romper com os regimes sócio técnicos poluidores e excludentes exi- ge inovações institucionais e tecnológicas, sendo a forma mais eficiente de desestabilizar o que está posto e reacomodar a sociedade em novos termos.
Tal situação vacilante corrobora para a ausência de metas e objetivos cla- ros por parte dos governos com relação aos VE (como nos casos de Argenti- na, Brasil e México). Historicamente, países que iniciaram suas trajetórias no segmento do VE são “puxados” por forças do contexto, mas, principalmente, pela ação ativa que implica determinar metas e estabelecer instrumentos para mobilizar ações, vide por exemplo o caso chinês, que até os anos 2000 não figurava com destaque no setor e nos dias atuais é o principal líder desse segmento. Vale dizer, tal movimento não é exclusivo de economias centrali- zadas e planejadas. O Japão e, mais recentemente, a Alemanha, mostram-se exitosos em estabelecer políticas e sinalizações claras ao mercado, assim, também emulando a transição no tecido social e na estrutura de produção.
A dependência tecnológica no segmento da mobilidade elétrica parece estar sendo consolidada na região sendo necessário que estejamos atentos à dinâmica das tendências internacionais. Necessário considerar que as re- lações na eletromobilidade ainda apresentam espaços para novas tentati- vas de desenvolvimento endógeno, principalmente, nos modais de veículos
pesados de carga, transporte público e micro mobilidade. Aliás, modais que são realmente relevantes para região, dada sua extensão territorial e os pro- blemas urbanos causados pelo seu padrão de urbanização. Precisamos estar atentos a tais aberturas buscando um posicionamento que seja convergente com a realidade e demandas locais. Os esforços empreendidos até o momen- to, ainda que consistentes, não se mostram tão robustos a ponto de promo- ver esta transição ou aproveitar as oportunidades que ainda se colocam.
Os instrumentos de política pública até agora implementados na região, são voltados para o uso dos VE (demanda) e não para a produção ou desen- volvimento de tecnologia (oferta). Grandes projetos de P&D estão ausentes, com exceção do Brasil que apresenta duas ações institucionais ligadas ao P&D, as chamadas da ANEEL e o eixo 5 do Rota 2030. Porém, estes além de enfrentarem um contexto de cortes sistemáticos nos investimentos públicos em C&T, enfrentam uma crise generalizada, com instabilidade institucional e negação da importância da pauta ambiental no governo federal, que histo- ricamente foi o motor de desenvolvimento de novas indústrias ou segmen- tos tecnológicos.
Os VE em território latino-americano podem e devem ser vistos por outro prisma: uma rota tecnológica e um novo setor econômico ainda não explo- rado, cuja liderança ainda não está totalmente consolidada, um segmento que pode contribuir com o desenvolvimento do país em uma nova lógica de mobilidade e promover o aproveitamento dos recursos naturais e humanos disponíveis nos países. Ademais, os VE figuram como uma janela de opor- tunidade não apenas no nível nacional, mas também no nível internacional na medida em que a região pode se inserir nas cadeias globais de valor, par- ticipando da produção de componentes ou até mesmo sendo plataforma de exportação de veículos.
Fazer a transição para a sustentabilidade em termos ativos e visando a integração de outras áreas da sociedade, é justificativa suficiente não só para as ações sistematizadas por parte dos governos (políticas), como o empenho de outros atores em participar da construção de um novo segmento econô- mico e uma nova forma de se deslocar no ambiente urbano.
Ações na direção dos VE possibilitam acompanhar e buscar se posicionar na nova indústria automobilística em gestação. A indústria mundial vem se reposicionando na direção da eletrificação, então, cabe a América Latina es- colher de que forma gostaria de participar desse processo: ou acompanhan- do as mudanças disruptivas que se avizinham, com o intuito de aproveitar possíveis janelas de oportunidade, ou seguir a reboque das nações desen- volvidas. É necessário considerar que os padrões tecnológicos, o design e a
integração da cadeia produtiva global ainda estão indefinidos, situação que pode favorecer os países periféricos (obviamente, a depender dos esforços de aprendizagem e de direcionamentos locais).
É importante salientar que a mobilidade elétrica não é exclusividade de nações ricas ou desenvolvidas. As nações do sul global mostram proatividade na condução de iniciativas, abarcando várias frentes do novo sistema e com uma visão de futuro arrojada, condições necessárias, ainda que não totalmente suficientes, para países que almejam ocupar um lugar relevante na eletromobilidade.