Neste capítulo tratamos de algo extremamente importante para a psicanálise, sua transmissão. Nosso título, Tem vaga na “agenda da psicose”?, contém o significante da nomeação de nosso trabalho no CAPSad. Agenda de trabalho construída a partir da clínica, de sua riqueza, do particular de cada caso que nos permitiu sustentar o discurso do psicanalista na instituição. Como não há transmissão fora da transferência, a psicanalise “só é transmissível pelas vias da transferência de trabalho” (QUINET, 2009, p. 55), o laço criado com a equipe partiu de uma suposição de saber, construída no momento em que a analista demonstrou poder lidar com situações da clínica cotidiana que excediam a qualquer técnico presente.
A atribuição de saber à psicanalista — a equipe sabia qual o referencial teórico que sustentava nossa prática — sobre a estranheza suscitada por determinados casos, oportunizou
a circulação do saber da psicanálise e sua utilização como ferramenta para a direção do tratamento, não para toda a equipe, mas ao menos para parte dela.
Poder falar sobre os casos é fundamental, seja de maneira informal, seja nas reuniões de equipe, após um acolhimento feito juntamente com outro profissional, após uma interconsulta, enfim, nos diversos espaços que possibilitem a discussão de caso. Permite aos profissionais poderem trabalhar sua própria angústia diante de determinados casos, o que com certeza ajuda na condução dos mesmos. Quando o técnico responde a partir de sua angústia e de seu bem querer, na maioria das vezes, o encaminhamento é truncado. Chamamos ainda a atenção para o lugar da supervisão clínico-institucional: em determinado momento o CAPSad, a que estamos nos reportando, passou a ter uma psicanalista nessa função, o que teve efeitos muito positivos.
Não é por acaso que nós analistas somos supostos saber algo sobre a inquietante estranheza de que tratamos nesse capítulo, pois, como vimos, essa estranheza diz respeito ao inconsciente enquanto Outro, mas principalmente daquilo que lhe é êxtimo, o objeto a (MILLER, 2010, p. 23), ou seja, o objeto da psicanálise. Como precisa Quinet (2009, p. 10):
“O objeto a é o objeto da psicanálise, o que corresponde, por excelência, ao lugar do analista, esse objeto estranho, estrangeiro e paradoxalmente familiar”.
Na neurose, o objeto a está velado, seja pela imagem i(a), seja pela fantasia (
S
a).Seu desvelamento, isto é, sua emergência no campo da realidade promove a estranheza no próprio sujeito. Na psicose, o objeto a não está velado, ele retorna do real, seja em sua vertente de olhar ou de voz. É o inconsciente a céu aberto da psicose, que desta vez promove a estranheza no outro, no trabalhador de saúde, por exemplo. O objeto a causa o desejo, mais também o mais de gozar, pois a satisfação pulsional gravita em torno dele. O empuxo ao gozo no uso de drogas, a predominância da pulsão de morte causa estranheza.
O gozo com a droga é um gozo condenado pela civilização — a utilização de drogas ilícitas é crime — ao mesmo tempo em que é demandado por ela — basta ver o lucro das empresas farmacêuticas. Temos assistido à criação de várias instituições que visam à dominação desse uso, visam à abstinência, ainda que isso signifique uma drogadição medicamentosa, ou a narcose religiosa. De toda forma, a reforma psiquiátrica que gerou como fruto a nossa atenção psicossocial não se colocava do lado do discurso ortopédico da loucura, ou se preferirmos, do gozo. Não está no cerne da atenção psicossocial a homogeneização do gozo, ou então, não haveria lugar para a Política de Redução de Danos, tal como abordaremos nos capítulos dedicados à agenda política das toxicomanias.
Se nos dedicamos a mostrar alguns furos na Rede de Atenção Psicossocial, isso nos parece primordial para que a partir deles possamos tecer enodamentos que tornem essa rede mais resistente. E ainda, para que essas instituições, que estamos chamando de ortopédicas, não se aproveitem desses furos para proliferar. Nada mais familiar ao discurso da psicanálise do que o furo, pois é a partir dele que o próprio sujeito se constitui, a partir do troumatisme, como nos indica Lacan (1973-74/2019).
Uma das questões que quisemos sustentar é de que a diferenciação dos CAPS por faixa etária ou classificação dos ditos transtornos pode ser uma forma de organizar a atenção psicossocial, e inclusive uma forma de os usuários poderem se identificar a elas. Isso é particularmente importante para alguns psicóticos usuários de drogas, para quem, por vezes, a identificação a um nome, por exemplo, “drogado”, pode ser estabilizadora. Mas há que se tomar cuidado para que essas categorias não engessem as possibilidades de tratamento, para que uma denominação fenomênica não eclipse a fala do sujeito.
Devemos lembrar que, no que tange às psicoses, às quais tanto nos interessam nesse trabalho, Lacan nos adverte de que o delírio é um fenômeno elementar, ou seja, que a “noção de elemento não deve ser tomada aí de modo diferente da de estrutura” (LACAN, 1955- 56/1988, p. 28), mostrando com isso que a radicalidade dos fenômenos elementares das psicoses nada tem a ver com a fenomenologia — por exemplo, das toxicomanias — pois essa nada tem de elementar, isto é, não é estruturante para o sujeito.
Sustentamos a hipótese, verificada em nossa prática clínica, de que a psicanálise tem muito a contribuir com a atenção psicossocial. Antes de qualquer coisa, porque o discurso do analista é o único que coloca o sujeito no lugar do outro, mas também é o avesso do discurso do mestre, inclusive do mestre moderno, o capitalista. Propomos que A estranheza da psicanalise (QUINET, 2009) pode fazer resistência ao discurso de dominação em que não há espaço para a estranheza da loucura. Concluímos com as palavras de Quinet (2009, p. 10):
“No âmago da civilização, A Estranha [escola de Lacan] como elemento heterogêneo às instituições pedagógicas e sociais [...] sustenta o discurso do analista, que é avesso do discurso dominante”.
2 ANGÚSTIA E GOZO NA CLÍNICA DAS TOXICOMANIAS