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Para onde vai o capital?

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 132-135)

No intuito de nos acercarmos da discussão que tem sido feita sobre o tratamento a ser oferecido aos usuários de drogas pelo poder público, nos utilizaremos de um depoimento que ouvimos na Assembleia Pública da Câmara dos Vereadores do Município do Rio de Janeiro, no dia seis de junho de 2017, em reunião realizada pela Comissão Permanente de Prevenção às Drogas da Câmara, com o intuito de “debater o papel das entidades sociais religiosas na prevenção e recuperação à dependência química”. Nessa ocasião, “o debate foi conduzido pela vereadora Veronica Costa (PMDB), presidente da Comissão, e pelo vereador Otoni de Paula (PSC), vice-presidente. Foram convidados a compor a mesa: a psicóloga Gisele Aleluia, o psicólogo Hermes Fernandez e a assistente social Ana Ruth Nogueira”. (CMRJ, 2017a).

Após o pronunciamento da mesa, que de fato nos impactou, principalmente pelo depoimento proferido do início ao fim em nome de Deus pelo psicólogo Hermes Fernandez, pôde-se ouvir a intervenção dos presentes. Dentre essas falas, nos reportamos especificamente ao testemunho de um usuário de CAPSad e morador de rua. Ele dizia estar sem fazer uso de drogas há quatro anos, porém, apesar de ser trabalhador, precisava morar na rua, pois mantinha a moradia de sua família em Niterói e não tinha como pagar o transporte para voltar para casa todos os dias. Além da denúncia que faz ao relatar que teve filhos retirados dele e de sua mulher por conta de serem usuários de drogas, um inclusive na hora do nascimento, também relatou as dificuldades que teve em Comunidades Terapêuticas. Ele frequenta o CAPSad diariamente e diz ser essa a possibilidade de se tratar, pois, dentre outras coisas, ele

precisa trabalhar para sustentar sua família, não pode ser recolhido da rua. Encerra seu depoimento dizendo que ele, um morador de rua, está ali dentro da Assembleia dos vereadores sendo ouvido e que esse é um dos resultados do tratamento que realiza no CAPSad.

Fosse esse sujeito internado para tratamento, teria sido na realidade des-tratado. No lugar de internação, ele precisa de políticas de habitação, de melhorias no acesso ao transporte urbano, de acesso à educação e outras políticas de inclusão social, garantias dos direitos constitucionais, enfim.

A internação não é sem consequências, e na maioria das vezes se torna um ir e vir, num círculo vicioso de internação-alta-recaída-internação. Fato mais que propalado pela saúde mental: a internação não é tratamento padrão e deveria ser uma exceção, pois ela não resolve o problema ou, se assim não fosse, não seria esmagador o número de reinternações.

Sendo assim, retomemos o tema que foi debatido na Assembleia, visando estabelecer os recursos que a sociedade tem para fazer frente ao “problema drogas”, conforme a expressão de Alarcon(2012, p. 46) — “papel das entidades sociais religiosas na prevenção e recuperação à dependência química” (CMRJ, 2017a) —, e perguntarmos: o que está acontecendo? A quem serve esse número cada vez mais alto de internações? A quem serve a proliferação das ditas “Comunidades Terapêuticas”? O “papel das entidades” já não está definido nas leis que foram promulgadas como resultado das reformas sanitária e psiquiátrica?

Não se lê na lei 10.216/2001 que o Estado garante “a proteção das pessoas acometidas de transtorno mental... sem qualquer forma de discriminação” (BRASIL, 2017f, grifo nosso), inclusive religiosa? Portanto, a lei não pressupõe um Estado laico?

As entidades religiosas, bem como as praças públicas, os clubes, as associação de moradores, as escolas etc., não são todos recursos da comunidade? Recursos que compõem a rede, que é maior que o somatório de equipamentos de saúde? De acordo com a “lógica ampliada de redução de danos” esses recursos auxiliam, ou melhor, fazem parte do tratamento, porquanto a saúde não é apenas ausência de doença (BRASIL, 1990/2017e), e as ações em saúde devem ser de base comunitária, ou seja, se deem no território. É próprio à redução de danos realizar “uma procura ativa e sistemática das necessidades a serem atendidas, de forma integrada ao meio cultural e à comunidade em que estão inseridos” (MS, 2003/2017c, p. 6). Dito de outra forma: as entidades religiosas não são recursos a serem utilizados no campo da saúde mental, uma vez que fazem parte dos laços sociais? Por que tanto re-esforço para incluí-las como equipamentos de saúde?

Se as diretrizes para o tratamento daqueles que sofrem com o uso de álcool e outras drogas têm como uma de suas visadas a reabilitação, essa não pode ser pensada sem os conceitos de território e rede. Entretanto, é preciso estar atento, tal como nos indica Furtado et al., às “concepções explicitas ou tácitas de território” nos documentos oficiais do SUS, pois sua “importância reside justamente em sua capacidade indutora de práticas”, quando é preciso ainda ressaltar que “trabalhos de reabilitação psicossociais devem superar as tendências a normatizarem e encaixarem os supostos desviantes, avançando para a transformação da sociedade visando ao convívio com as diferenças”(SARACENO, 1999 apud FURTADO et al, 2017, p. 3).

Dito isso, continuemos a acompanhar a reunião do dia 6 de junho de 2017, realizada pela Comissão Permanente de Prevenção às Drogas da Câmara, cujo vice-presidente na ocasião era o Vereador Otoni de Paula (PSC), “Pastor evangélico, teólogo, casado com a Pastora Silvana de Paula e pai de três filhos, nascido em Niterói e líder da Assembleia de Deus Ministério Missão Vida, em Colégio e filiais...” (CMRJ, 2017b). Com esse perfil, o vereador atua por centros e iniciativas de recuperação de usuários de álcool e drogas. De acordo com o resumo daquela reunião, comunicado pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro, para o vereador “as entidades religiosas, por meio da compaixão e da empatia, têm atuado na recuperação dos dependentes químicos”; mesmo sofrendo algumas críticas “é um grupo social que está efetivamente trabalhando e que tem feito esse papel sem nenhum investimento do poder público” (CMRJ, 2017a). Com esse discurso, o vereador pretende afirmar as comunidades como serviços de saúde, e desse modo mobilizar o poder público para que se façam investimentos financeiros nesse trabalho realizado pelas entidades religiosas.

Com discurso diferente, acompanhamos colegas que há anos vêm trabalhando na saúde mental com pouquíssimo investimento com os mesmos usuários de álcool e drogas, e que vêm recebendo, nos últimos anos, cada vez menos auxílio do “poder público”. Rodrigo Simas, assessor técnico na Superintendência de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde, atenta que apesar de o Ministério da Saúde observar que deveria haver trinta e dois CAPSad (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas) na Cidade do Rio de Janeiro, ela conta com apenas sete. E nestes, há mais de 3700 usuários graves cadastrados(CMRJ, 2017a), o que dá uma pequena noção da urgência em se investir no trabalho que a saúde mental pública vem fazendo há anos.

Então, por que agora o mesmo poder público está voltando a auxiliar entidades religiosas, e não trabalhadores do campo da saúde mental na árdua tarefa diária que cabe aos equipamentos montados, desde a Portaria de 2002 que instituiu os CAPSad(MS, 2017a)? Por

que se visa hoje auxiliar entidades religiosas que, por princípio, devem ser sem fins lucrativos, por terem o objetivo de investir em suas obras sociais, e por isso não pagam impostos? Por que, além da isenção de impostos, o governo deve lhes dar mais dinheiro? Como é essa associação a que passamos a assistir cada vez mais entre saúde e fé, sustentada pelo dinheiro público?

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 132-135)