De acordo com as análises realizadas neste capítulo, as metas do Desafio de Bonn e do Pacto para com a restauração florestal no Brasil e na Mata Atlântica, ainda não foram alcançadas e provavelmente não serão atingidas dentro dos prazos estipulados, já que para a Mata Atlântica, até março de 2020, haviam sido restaurados apenas 55.245,44 hectares, a despeito da meta é de 1 (um) milhão de hectares até o final 2020 e 50 milhões até 2050.
Contudo, as conclusões das duas iniciativas diferem das observadas nesta tese. Segundo o último relatório de acompanhamento do Desafio de Bonn, embora a análise via sensoriamento remoto estimasse que aproximadamente 9.400.000 hectares estavam em restauração no Brasil (biomas Amazônia e Mata Atlântica), no mesmo documento os projetos de restauração na Mata Atlântica somavam 368.438 hectares, enquanto via análise documental, pesquisando dentro dos mesmos programas e iniciativas apresentados no relatório, foi possível identificar apenas 55.245,44 hectares restaurados ou em restauração. Resultado semelhante foi quanto à comparação dos resultados com o encontrado por Crouzeilles e colaboradores, em 2019, em relação à restauração florestal da Mata Atlântica, pois via análise por imagem de satélite (sensoriamento remoto), concluíram que até o final de 2020 a meta de restaurar 1.000.000 hectares, seria atingida e talvez até ultrapassada, embora pela pesquisa documental tenha-se concluído que menos de 10% das metas tenham sido alcançadas.
A notória divergência entre os resultados desta tese e das referências supramencionadas podem ser produto da falta de clareza e transparência das informações sobre o que de fato vêm sendo executado nos projetos de restauração florestal no Brasil. A maior dificuldade encontrada para a elaboração desse capítulo foi, portanto, encontrar referências bibliográficas, dados e resultados sobre o que vem sendo feito para alcance das metas de restauração da Mata Atlântica, salvo algumas informações disponibilizadas em alguns poucos sítios eletrônicos e ações de cunho político. As informações estão esparsas e, na maioria das vezes, não são acessíveis à sociedade civil que não faz parte do círculo da restauração. Outro aspecto importante é que, quando são encontradas informações em que são apresentados nos resultados quantitativos de áreas restauradas ou sob restauração, há sobreposição de informações entre projetos, o que dificulta a obtenção do total real de áreas restauradas para o bioma.
O mesmo ocorre quando se analisa as iniciativas e instituições de referência em restauração florestal no bioma Mata Atlântica. O Pacto, por exemplo, tido como o articulador da restauração florestal da Mata Atlântica, representa um importante ator nesse contexto, entretanto, ainda demonstra estar em processo de estruturação institucional e de fortalecimento
no que tange a ser um ponto focal sobre esse assunto. Não foi possível encontrar no sítio eletrônico do Pacto ou em suas publicações, os resultados atuais de cada projeto sob seu apoio e com detalhamento dos objetivos, metas e indicadores de efetividade. Tampouco foram encontrados os quantitativos em hectares adquiridos de Mata Atlântica até março de 2020, apesar de o site informar que 86.331,77 hectares estão em restauração e do movimento possuir cerca de 250 membros. Também não é clara qual a função do Pacto e de seus membros, pois aqueles que ocupam a esfera de tomada de decisão parecem atuar de forma secundária, visto que suas atividades primárias são alocadas em suas instituições de origem, como nos centros de pesquisas, universidades, empresas, dentre outros.
Em uma perspectiva de fora, o Pacto aparenta ter importante valor como um “selo verde” ou um “garoto propaganda” da restauração florestal e da Mata Atlântica, mas quais atuações de fato estão em andamento não está evidente. Essa impressão não foi apenas observada para o Pacto, mas também para o SOS Mata Atlântica, outro importante porta-voz da importância do bioma, pois foi ainda mais difícil de obter as informações do que vêm sendo realizado em termos de Projetos relacionados à restauração florestal. Uma clara diferença observada entre as páginas eletrônicas do Pacto e do SOS M.A. está no investimento na imagem que em que cada uma passa à sociedade, enquanto a página eletrônica do Pacto apresenta poucos recursos digitais e foi atualizada pela última vez em 2016, a do SOS M.A. é uma grande vitrine do bioma, com boa apresentação visual, contendo fotografias bonitas, reportagens, lista de parceiros, incluindo celebridades do teatro e da televisão, que ao final de cada seção convida o visitante a fazer uma doação para a organização.
Ambas as instituições de uma forma ou de outra, têm relevante contribuição para a conservação desse bioma e todas as ações desenvolvidas são de suma importância, porém, foi necessário levantar a questão da divulgação das informações. Justamente pelo grande valor econômico, social, ambiental e cultural da floresta atlântica, é importante que tudo o que está sendo desenvolvido seja divulgado de forma transparente, para agregar ainda mais valor ao bioma e a todos aqueles que contribuem para sua a conservação de forma direta ou indireta.
Sabe-se que muito tem sido feito, mas está fragmentado e não é acessível à população.
Nesse sentido, o Pacto, como um importante fórum articulador, poderia incluir essa demanda como uma de suas metas, na tentativa de sistematizar, compilar e, principalmente, disponibilizar os dados e resultados para a sociedade. Assim, evitar-se-ia que as importantes informações produzidas por essas entidades circulassem somente dentro e entre elas. Portanto, assim como para o setor público, é necessário aumentar o nível de transparência e acesso à informação sobre
os dados produzidos pela sociedade civil, também o é sobre a restauração florestal, principalmente sob uma ótica de ciência cidadã.
Apesar das dificuldades encontradas com relação à obtenção das informações sobre o montante de área, em hectares, restaurada ou em restauração, outros pontos chamaram a atenção nos programas e projetos avaliados, são eles:
▪ Há grande dificuldade na obtenção, junção e disponibilização de dados das ações de restauração executadas em escala de paisagens;
▪ Há confusão no que é de fato considerado quantitativo de área de em restauração florestal para aquisição de cobertura vegetal. Normalmente são contabilizados dentro do montante “restaurado” outras ações, a exemplo do uso de técnicas de melhoria do solo, de redução de erosão, uso de agrossilvicultura, uso de agrofloresta, tentativa de redução de desmatamento, conservação de florestas, dentre outras;
▪ Um único projeto contempla sozinho a maior ação de restauração na Mata Atlântica, o Reflorestar – ES (87,5% de área sob restauração no bioma);
▪ De seis dos programas e iniciativas analisados a partir da lista do Desafio de Bonn, cinco são de iniciativa governamental: Produtor de Águas (ANA) e Inciativa BNDES Mata Atlântica, ambos de âmbito Federal; Reflorestar (ES) e Programa Nascentes (SP), ambos de âmbito estadual e Conservadores das Águas (MG), de âmbito municipal. A maioria dos projetos é elaborado e executado por instituições do terceiro setor ou de áreas afins;
▪ Os projetos são geralmente executados em áreas protegidas por lei e por entes da sociedade que já atuam na área da conservação da biodiversidade, como as ONGs e empresas privadas que trabalham na área e, raramente, por outros segmentos da sociedade. Ressalta-se que dos 29 projetos do Iniciativa BNDES Mata Atlântica, por exemplo, apenas três foram executados por pessoas físicas;
▪ Os projetos que tiveram maior êxito em ações de restauração foram propostos e executados sob a premissa de melhoria da disponibilidade e qualidade das águas para produtores rurais e bacias, via incentivo de Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA);
▪ O maior incentivo para a restauração florestal está voltado para as questões hídricas e a “floresta em pé” é considerada um meio e não um fim;
▪ O recurso “água de qualidade”, por ser considerado um bem de mercado de caráter local, importante para a sobrevivência e o desenvolvimento das sociedades humanas, é mais facilmente atingível do que as florestas;
▪ Esses mesmos projetos que alcançaram maior aderência da população via Pagamento por Serviços Ambientais, foram regulamentados por uma legislação robusta e com um mínimo de influência das trocas de administradores dos governos;
▪ O tempo dos contratos dos PSA são curtos, o que gera insegurança àqueles que desejam aderir a esse tipo de programa;
▪ Há lacunas de informação sobre resultados dos PSA, portanto, apesar de parecer ser uma boa ferramenta de incentivo à restauração florestal, ainda é cedo para concluir se dará certo;
▪ Como a questão hídrica é um chamariz para restauração, pode-se dar maior enfoque, nos programas de restauração, à importância das florestas para fins de segurança hídrica.
Os esforços acerca da restauração florestal da Mata Atlântica precisam ser bem planejados, contínuos, estruturados e constantemente revisados. O Pagamento por Serviços Ambientais demonstrou ser uma ferramenta promissora ao incentivo de práticas de restauração e a existência de um arcabouço legal forte, foi fundamental para sua implementação, mesmo que o principal argumento para a proteção das florestas tenha sido a segurança hídrica. Para continuidade dos efeitos positivos do PSA na restauração de áreas florestadas, primeiro há que se estudar sua efetividade, posteriormente, quando for aplicado deve-se avaliar as condições para a manutenção dos pagamentos por longo prazo, para que a restauração vire uma prática comum e seja absorvida pelas novas gerações. Ressalta-se que, o pagamento de PSA à produtores pelo reconhecimento de suas ações em prol da conservação ambiental e a oportunidade de gerar renda a partir das florestas, têm se mostrado os maiores motivadores para a aderência e manutenção de boas práticas ambientais pelos produtores rurais.
Um dos principais desafios identificados para a implantação e manutenção de práticas de restauração florestal da Mata Atlântica é, portanto, a obtenção de recursos financeiros para execução de projetos e as formas de estimular as pessoas a desejarem florestas “em pé”, trocando área “produtiva” por área florestada, produtoras de “água boa”.
Nesse contexto, a falta de espaços disponíveis para a realização da restauração florestal é o fator determinante, pois boa parte das áreas restauradas ou em restaurações passíveis de serem mantidas estão em áreas protegidas, como em unidades de conservação. Fora delas, não há garantia de que a adesão a um projeto de recomposição de mata ciliar ou recuperação de reserva legal perdure por longo prazo, se for mais vantajoso ao proprietário ou possuidor rural utilizá-las para outro fim.
O cenário sobre a restauração florestal da Mata Atlântica demostrado neste capítulo, parecer um pouco desanimador, contudo, está se pensando no problema, pois dez anos de ação mais efetiva, como demostraram os gráficos das publicações sobre o tema, não é nada quando comparado ao tempo em que o bioma vem sofrendo degradação. De alguma forma, essa degradação vem sendo desacelerada, e os testes sobre as ações, estão nos programas e projetos que estão sendo implantados, que apesar das falhas, demostram alguma reação positiva para o meio ambiente.
Aumentar os incentivos (volume de investimos) e transparência do que está sendo feito, parece ser o caminho para o efetivo avanço na reposição de áreas outrora degradadas. Vale lembrar que em 1861, o Major Manuel Gomes Archer, acompanhado de escravos, assalariados, feitores e encarregados, iniciou o plantio de aproximadamente 100 mil mudas, ao longo de 13 anos (até 1874), dando início a recuperação da Floresta da Tijuca, por ordem do Imperador (D.
Pedro II), que por sua vez, foi motivado pela crise “hídrica” (RIO DE JANEIRO AQUI, 2020).
Portanto, mais uma vez, o temor pela falta de água boa poderá ser a salvação da Mata Atlântica.
Assim, apesar dos compromissos assumidos em prol da restauração florestal desse bioma não terem sido atingidos conforme esperado até o momento, a partir das iniciativas realizadas e com as ambiciosas metas assumidas, foi possível chamar a atenção de uma boa parte da população e tomadores de decisão para a importância da restauração florestal e da conservação do meio ambiente no combate aos efeitos negativos das atividades antrópicas sobre o planeta.
2 LINHAS DE TRANSMISSÃO DE ENERGIA ELÉTRICA E REPOSIÇÃO FLORESTAL: ESTUDO DE CASO DE UMA LT DE 500 kV QUE INTERCEPTA OS ESTADOS DE MINAS GERAIS E SÃO PAULO