do IBAMA no papel de órgão licenciador e fiscalizador, ao mesmo tempo que pode prejudicar seu cumprimento pelo empreendedor (ANDAHUR et al., 2014; SENA, 2019).
Nesse contexto, a supressão vegetal no licenciamento ambiental e sua compensação vegetal se torna um tema de grande importância, visto que, diferentemente de outros programas ambientais que compõem o PBA, o Programa de Reposição Florestal tem caráter compulsório, regulado por normativas ou legislação específicas e, por esse motivo, implicam em responsabilidades maiores em seus atendimentos. Além da problemática acerca do conceito de
“Reposição Florestal” e do aparente uso indevido deste termo, o cumprimento da reposição no licenciamento ambiental demanda um importante componente consideravelmente complicador, o plantio de mudas ou a manutenção de áreas florestadas para a conservação. Deste modo, o objetivo deste capítulo é avaliar como a supressão de vegetação, com sua respectiva compensação, vêm sendo tratados no licenciamento ambiental federal, de modo a analisar a interface da demanda por áreas com florestas e a efetividade das ações propostas.
Após essa constatação, houve a necessidade de se solicitar acessos aos documentos dos Processos via Sistema Eletrônico de Informação (SEI) do IBAMA. Para isso, foi preciso preencher um formulário físico, obtido em uma das superintendências do IBAMA, nesse caso no estado do Rio de Janeiro, sediada no município do Rio de Janeiro, para posterior cadastro no sistema IBAMA e solicitação de autorização para acesso, como Usuário Externo ao sistema.
Como o objetivo da avaliação dos processos foi verificar como havia se dado a reposição florestal desde o quantitativo estimado de supressão proveniente do inventário florestal até como havia sido a condução do Processo todo, entre IBAMA e empreendedor, foram escolhidos estudos que detinham as três licenças: Licença Prévia (LP), no qual são realizados os Estudos de Impacto Ambiental e a Avaliação de Impacto Ambiental; Licença de Instalação (LI), quando são colocados em prática os Programas Básicos Ambientais de mitigação e compensação de impactos relacionados ao empreendimento; e a Licença de Operação (LO), onde há o monitoramento de alguns Programas apresentados na fase de LI e seus respectivos relatórios de andamento e conformidades.
Como premissa, foi determinado que as LTs tivessem tensão de 500 kV por terem uma faixa de servidão mais larga quando comparada à linhas de menor tensão e, por isso, estarem sujeitas a uma maior área de supressão vegetal. As LTs deveriam estar localizadas no bioma Mata Atlântica e distribuídas entre a região Sul e Nordeste do país, de forma a abranger as análises para distintas regiões do país, devido às diferentes características de cobertura vegetal e uso do solo. Com base nessas premissas, foram escolhidos quatro processos de licenciamento de LTs, sendo dois na região Sudeste, um na região Sul e outro na região Nordeste, entretanto, este último teve que ser de uma LT em tensão de 230 kV, devido a indisponibilidade de LTs de 500 kV, localizada em Mata Atlântica nessa Região.
No início de julho de 2018 foi realizado o primeiro contato com o IBAMA/Sede (em Brasília/DF) para se tomar informações de como acessar o SEI. Foi informado que precisaria ser entregue uma ficha cadastral física, em alguma superintendência regional do IBAMA nos estados, com certos documentos anexados. A ficha de cadastro foi então adquirida na superintendência do IBAMA no Rio de Janeiro, contudo, no setor de protocolo foi dada uma instrução equivocada a respeito da documentação que precisaria ser anexada à ficha, o que retardou a conclusão do cadastro, sendo concluído apenas em 04.09.2018.
Após a obtenção da chave de acesso e senhas junto ao IBAMA, foi necessário baixar (download) toda a base de documentação contida nos processos. Em alguns casos há pastas comprimidas com arquivos digitais (shapefile, planilhas, dentre outros) ou existem arquivos com Tomos dos Processos, que são volumes únicos com mais de 300 páginas cada, onde estão
todos os documentos de um determinado período. Ao todo foram baixados 692 arquivos (itens do SEI), 97 pastas (contendo arquivos variados), dentre eles, 32 volumes condensados dos processos que juntos somam de 11.200 páginas de documentos para análise (Quadro 9).
Quadro 9 – Resumo dos documentos processuais de cada linha de transmissão selecionada para o estudo.
LT
Tempo de acesso ao
SEI
Data de Expiração
do SEI
N°
Arquivos SEI
N°
Pastas
N° Volumes Condensados/
Páginas
Data de Início do
Volume
Data de Fim do Volume
SE/AL (230kV) 2 meses 12/11/2018 138 27 - - -
MG/SP (500kV) 12 meses 12/10/2019 226 29 7 / 1.764 23/07/2014 24/04/2017 SP/PR (500kV) 12 meses 12/09/2019 328 40 14 / 5.196 27/01/2014 22/03/2017 SC/RS (525kV) 3 meses 20/12/2018 42 1 11 / 4.240 04/04/2012 10/01/2014 Fonte: A autora, 2020.
Com todos os documentos baixados, foi iniciada a etapa de triagem em busca por todo documento referente à flora, supressão de vegetação e reposição florestal que pudessem estar localizados nos autos dos processos, tais como, nas correspondências, e-mails, ofícios, pareceres, despachos, relatórios, programas, volumes, dentre outros. Para isso foi necessária a leitura de todos os arquivos, pois além de documentos técnicos, havia o interesse em entender como havia sido toda a tratativa entre o IBAMA e empreendedor sobre o tema, com intuito de avaliar sua complexidade.
Assim, a leitura e triagem do material se iniciou pela Linha de Transmissão 500 kV Estreito – Fernão Dias CD, que intercepta aproximadamente 340 quilômetros na divisa dos estados de Minas Gerais e São Paulo, doravante denominada LT 500 kV - MG/SP. O processo correspondente a esta linha de transmissão continha 1.764 páginas, só dos volumes condensados, e teve 12 meses de prazo autorizado para acesso ao SEI, de 12.10.2018 a 12.10.2019. A intenção era de seguir o mesmo procedimento para as três linhas restantes, porém como toda a triagem e análise de apenas um dos processos ainda estava em condução em setembro de 2019, ao se avaliar a demanda prevista versus tempo disponível para conclusão da tese, constatou-se que não haveria tempo hábil para a triagem e análise de todo o material restante relativo às demais linhas de transmissão, assim, optou-se por conduzir o estudo de caso apenas com a LT 500 kV - MG/SP.
Ao logo da análise documental de cinco anos do Processo de licenciamento ambiental da LT 500 kV - MG/SP, foram selecionados os principais pontos de discussão entre IBAMA e empreendedor sobre o componente flora, até que se chegasse a um denominador comum sobre as formas de compensação por corte de vegetação nativa, necessária à implantação do projeto.
Detalhes sobre as discussões acerca do tema estão sendo apresentados no apêndice desta tese dado ao volume de informações (APÊNDICE - HISTÓRICO DO PROCESSO DE LICENCIAMENTO AMBIENTAL DA LT 500 KV – MG/SP – COMPONENTE FLORA). Cumpre ressaltar que para a elaboração desse Apêndice foi necessária a leitura detalhada de todos os volumes do Processo, os quais são compostos por estudos ambientais, relatórios técnicos, pareceres técnicos, atas de reuniões, trocas de e-mails, ofícios, dentre outros, que foram triados para a formação do banco de dados utilizados para produzir o histórico do Processo e todos os demais resultados apresentados.