4.2 Da Pesquisa Empírica
4.2.1 Contexto Empírico da Pesquisa: apresentando a UESPI
A Universidade Estadual do Piauí (UESPI) é uma instituição de ensino superior Multicampi, com sede em Teresina, criada em 1986, como Centro de Ensino Superior (CESP), órgão vinculado à Fundação de Apoio ao Desenvolvimento da Educação do Estado do Piauí (FADEP) que tinha como objetivo subsidiar as atividades do governo na área da educação e recursos humanos. O CESP ficou responsável pela formação em nível de 3º grau e, em 1986, foi realizado o primeiro vestibular da instituição para os cursos de Pedagogia - Habilitação em Magistério, Ciências - Habilitação em Matemática e Biologia, Letras - Habilitação em Português e Inglês e Administração.
Em 1993, transformada em Universidade, via Decreto Federal com funcionamento em 05(cinco) Campi: Teresina, Parnaíba, Corrente, Picos e Floriano.
Destacam-se aqui dois aspectos que são característicos na criação da UESPI.
O primeiro é que a sua identidade de instituição multcampi revela o projeto de expandir a oferta de ensino superior público para outros locais e regiões além da capital do Estado. Essa postura vai ao encontro da luta pela democratização do acesso ao ensino superior e busca romper com o padrão nacional predominante que, historicamente, situa as universidades nas grandes cidades e capitais dos Estados dificultando o acesso a esse nível de ensino às camadas mais populares, sobretudo, das cidades do interior.
O outro aspecto é o fato de que os primeiros cursos da UESPI, à exceção do curso de Administração, tinham como objetivo a formação de professores. Desta forma a UESPI possuiu em seu nascedouro tanto um compromisso com a formação qualificada de profissionais para área da educação como o compromisso de levar o ensino de nível superior para cidades do interior contribuindo assim com o desenvolvimento econômico, social e cultural do Estado. Essa característica é ratificada por Nogueira (2006) em estudo no qual faz um histórico da implantação do ensino superior no Estado do Piauí a partir do depoimento de agentes atuantes na época. No que tange à UESPI, esses agentes destacam o interesse dos governantes estaduais em responder à política do MEC na segunda metade da década de 1980 que objetivava a ampliação do acesso das crianças e jovens ao ensino fundamental, sendo também necessário reverter os índices de professores que atuavam no país sem a devida formação docente.
Nesse processo algumas medidas institucionais foram tomadas no sentido de viabilizar a transformação do CESP em universidade, como a elaboração do Estatuto da Instituição, realização do primeiro concurso público para docente da UESPI e aprovação do plano de cargos e carreiras dos docentes. Entretanto, a infraestrutura física básica para seu funcionamento veio de cessões de prédios feitas pelo Estado onde os campi foram instalados (PIAUÍ, 2010).
Dois anos após a sua criação, em 1995, a UESPI teve sua primeira ampliação com a criação de mais três Campi. Após a aprovação da LDBEN, em 1996, a UESPI passou pelo seu segundo processo de expansão caracterizado, sobretudo, pela política de interiorização do ensino superior e de qualificação de professores. Assim, impulsionada pelos recursos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (FUNDEF)22, a UESPI teve suas fronteiras de atuação alargadas, chegando a possuir em sua estrutura organizacional 18 (dezoito) Campi e 48 (quarenta e oito) Núcleos. Em todas as Unidades funcionavam cursos em Regime Especial (período de férias), os cursos de formação de professores para qualificação do quadro docente do estado e dos municípios.
Destaca-se que alguns desses Núcleos para formação docente estavam instalados nos estados da Bahia e do Maranhão o que transformou a UESPI na maior instituição de ensino superior do Estado em número de alunos (PIAUÍ, 2010; NOGUEIRA 2006).
Essa estrutura toda foi criada a partir de infraestrutura arranjada, resultado de doações ou do estabelecimento de convênios entre UESPI, Estado e/ou Prefeituras Municipais para utilização dos prédios. Na grande maioria das vezes, prédios onde funcionavam escolas de educação básica, portanto, sem as condições adequadas ao funcionamento do ensino universitário e ao cumprimento de seu tripé fundamental.
Desse modo, é possível perceber que o foco de atuação da UESPI nos seus primeiros anos de existência foi o ensino de graduação, com pouco espaço para a pesquisa e a extensão dada a falta de infraestrutura e recurso para tal, além de grande maioria do seu quadro docente ser composto por professores do quadro provisório.
Portanto, o processo de expansão da UESPI foi realizado nos marcos de uma concepção de política educacional neoliberal marcada pela proposição de reformas nacionais para o ensino superior e que pregava, dentre tantas outras propostas, a
22 O FUNDEF foi um Fundo criado em 1998 pelo Governo Federal com a finalidade de concentrar recursos a serem posteriormente destinados aos Estados e Municípios para manutenção e desenvolvimento do Ensino Fundamental. Com esses recursos, Estados e Municípios poderiam tanto realizar pagamento de professores como custear a formação desses profissionais. No ano de 2007 o FUNDEB transformou-se me FUNDEB contemplando toda a Educação Básica.
redução nos investimentos para esse nível de ensino, considerando especialmente focar no ensino dado porque pesquisa seria mais oneroso (SGUISSARDI, 2009).
Nesse contexto, a cobrança de taxas, bem como de estratégias de autofinanciamento fazem parte da narrativa do governo federal nos anos 1990 produzindo ecos na esfera estadual e, conforme a identidade discursiva local, gerando ações concretas nas universidades, num processo de recontextualização da política nacional (BERNSTEIN, 1996).
No caso do estado do Piauí, o governo e a administração superior da UESPI – cujo Reitor era indicado, não eleito – estavam sintonizados com tal concepção de ensino. Desse modo, no final dos anos 1990 e início de 2000, empreenderam uma expansão e interiorização da UESPI numa perspectiva do autofinanciamento com diversos cursos pagos: os cursos Sequenciais, oferta de curso em horários como pré- matutino (das 5hs às 8h) e noturnão (das 21h à 0h), estabelecimento de convênios pagos, além de cobrança de taxas para alguns serviços ofertados pela instituição a alunos dos cursos regulares (PIAUÍ, 2010; NOGUEIRA, 2006).
Em 2001, o governador José de Moraes Sousa (Mão Santa) é cassado e o Reitor, professor Jônathas Nunes, que esteve à frente da instituição por sete anos foi substituído. O governador que tomou posse, Hugo Napoleão, indicou como Reitora Pró-tempore a professora Maria do Socorro Cavalcanti, dando início a algumas mudanças na política expansionista da UESPI, a exemplo da redução na oferta do número de vagas para o vestibular.
Em 2003, com as novas eleições, assume o governo do Estado José Wellington Dias, do Partido dos Trabalhadores. A partir desse momento começa a ser instituída outra concepção de universidade pensada pelos professores da instituição que exigem do novo governo o compromisso com essa concepção. Assim, foram viabilizadas medidas importantes como a elaboração participativa e aprovação do novo Estatuto da UESPI no ano de 2005 viabilizando eleições diretas para Reitoria e Direção dos Campi e, ainda em 2005 foi realizada a primeira eleição para Reitoria da UESPI, sendo eleita a professora Valéria Madeira Martins Ribeiro. O novo Estatuto também permitiu o reordenamento da estrutura organizacional sendo, progressivamente, reduzido o número de Unidades Administrativas, suspensão de oferta de cursos fora do Estado, além da implementação de esforços humanos, físicos e financeiros para viabilização do tripé ensino, pesquisa e extensão como: concurso público para professores, qualificação docente, criação e melhoria de infraestrutura própria ao ensino universitário. Outra medida importante foi a elaboração, juntamente
com o Sindicato dos Docentes (ADCESP), do Plano de Cargos, Carreira e Salários dos professores gerando uma melhoria no salário dos docentes que pudesse atrair um quadro docente qualificado para a instituição. Em relação à titulação o quadro atual é composto por 575 docentes mestres e 257 doutores. A Tabela a seguir apresenta indicadores do número de professores da instituição progressivamente, destacando- se o aumento no número de professores efetivos. (Fonte: www.uespi.br/site/).
Tabela 1 – Evolução na Quantidade de Professores Efetivos da UESPI Ano Nº de prof. efetivos Nº de prof. provisórios Total
2004 371 1074 1445
2019 872 555 1427
Fonte: Piauí, 2010; e Sítio da UESPI: www.uespi.br/site/
Atualmente a UESPI possui 12 (doze) Campi e 12 Núcleos23 além de 11 Pólos de Educação a Distância. São oferecidos 95 cursos de graduação presencial, 78 pelo PARFOR e 38 cursos EAD, totalizando mais de 18 mil alunos matriculados na graduação. Na pós-graduação predominam os cursos lato sensu (autofinanciados), possui dois Programas de Mestrado Acadêmico e cinco de Mestrado Profissional. O mapa abaixo mostra a distribuição dos Campi e Núcleos pelo estado.
Mapa 1 - Campi e Núcleos da UESPI pelo Estado
Fonte: Manual do Estudante com adaptações da pesquisadora.
23 Os Núcleos na UESPI são Unidades que foram criadas originalmente prioritariamente para oferta de curso de formação de professores em Convênio com o MEC. Possuem uma infraestrutura menor e atualmente ofertam cursos na modalidade a Distância.
Embora tenha havido uma redução no número de unidades administrativas, o tamanho da estrutura organizacional da UESPI permanece sendo um desafio para qualquer gestor da instituição uma vez que o orçamento estadual disponibilizado é insuficiente para manutenção de suas Unidades Administrativas com atividades de ensino, pesquisa e extensão. Situação agravada em virtude da instituição não possuir autonomia financeira, sendo esta uma das bandeiras dos dois últimos movimentos grevistas de docentes (ASSUNÇÃO, 2017).
Neste ano de 2019, a UESPI completou 33 (trinta e três) anos de existência desde sua criação como CESP e, não obstante, as questões problemáticas existentes, goza de respaldo no cenário social piauiense, especialmente pela atuação exitosa no ensino de graduação, pela sua capilaridade resultando em vínculos com diversos municípios do estado e, especialmente, por representar para um grande segmento da população piauiense a possibilidade de acesso ao ensino superior público. Embora tenha uma identidade com a formação de professores, a UESPI possui cursos em todas as áreas do conhecimento e seus cursos na área de saúde estão entre os melhores no Estado.
No contexto atual, a UESPI passa por um dos momentos mais difíceis dos últimos anos em termos financeiros com poucos recursos para investimento em infraestrutura, o que tem dificultado a implantação de novos programas de pós- graduação Stricto Sensu que estão em tramitação junto à CAPES dentre eles o Mestrado em Educação. Nesse quesito é preciso mencionar que a política nacional de pós-graduação Stricto Senso atua de modo bastante seletivo na medida em que não há nenhuma forma de incentivo financeiro para universidades de menor porte das regiões Norte e Nordeste, ampliando a concentração desses cursos e de recursos para pesquisa nas regiões Sul e Sudeste do país, localizadas em estados mais ricos com orçamento maior para o ensino superior. Essa situação é mais agravante quando se trata de universidades estaduais, uma vez que alguns editais de fomento são destinados apenas às IES federais.