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3 A PRÁXIS COMO PRESSUPOSTO EPISTEMOLÓGICO PARA FORMAÇÃO DO PEDAGOGO

Toda ação verdadeiramente humana requer certa consciência de uma finalidade, finalidade que se sujeita ao curso da própria atividade

Adolf Vasquez

O debate acerca da teoria e da prática tem sua origem na concepção e constituição da existência do próprio homem enquanto ser que se constitui enquanto homem e, simultaneamente, constrói sua realidade e dela se apropria. Envolve, portanto, aspectos ontológicos e epistemológicos e compõe duas dimensões da realidade humana: pensamento e ação. Essas dimensões estão na origem da reflexão sobre o conhecimento humano. Neste Capítulo faço uma discussão apresentando o conceito de práxis como aspecto de síntese na constituição do homem, discuto também a importância da formação do professor a partir de uma epistemologia da práxis e apresento um breve histórico da relação teoria-prática no curso de Pedagogia.

indivíduo e natureza em um processo no qual sujeito e natureza são transformados.

Kosik (1995), ao discutir o pensamento dialético, destaca que a relação do homem com a realidade não é a de um sujeito “abstrato cognoscente” que se coloca de forma apenas contemplativa perante a natureza, mas a de

[...] um ser que age objetiva e praticamente, de um indivíduo histórico que exerce a sua atividade prática no trato com a natureza e com os outros homens, tendo em vista a consecução de seus próprios fins e interesses dentro de um determinado conjunto de relações sociais. (KOSIK, 1995 p. 13)

Assim, a compreensão da existência do homem, do que ele é, de como ele conhece, não pode ser feita apartada das suas relações com a natureza, ou seja, daquilo que o constitui a partir dos aspectos objetivos; tampouco poderá ser feita sem a consideração da interação subjetiva com outros homens. O conhecimento da realidade na perspectiva da dialética requer um esforço analítico no qual o homem, na sua subjetividade, seja apreendido na complexidade da realidade histórica que o constitui na qual ele atua (pratica) e pensa (teoriza). É, pois, uma compreensão que extrapola a ideia do conhecimento como apreensão aparente e imediata da realidade.

Para Gadotti (2010), a concepção dialética representa tanto uma forma de compreender a constituição do humano, como de pensar seu modo de conhecer, procurando fugir das posturas excludentes de algumas concepções filosóficas. Ele explica que na concepção da dialética materialista de Marx,

[...] não é a consciência humana, como sustenta o idealismo, nem a pura realidade, como sustenta o empiricismo, mas é o próprio homem que figura como ser produzindo-se a si mesmo, pela sua própria atividade, pelo modo de produção da vida material. A condição para que o homem se torne homem (porque ele não é, ele se torna), é o trabalho, a construção da sua história.

(GADOTTI, 2010, p. 99)

É pertinente observar nesta citação que a questão epistemológica, foco de muitos debates filosóficos fica evidenciada, ou seja, o que constitui o homem e como ele alcança o conhecimento. São os aspectos objetivos ou subjetivos? Mente ou corpo? Pensamento ou ação? A proposição alternativa é posta pela dialética materialista que, ao conceber o homem como um ser historicamente situado, advoga a impossibilidade das exclusões idealistas e racionalistas ou empiristas e pragmáticas.

Portanto, o que o constitui é resultado da interação entre os aspectos objetivos e subjetivos.

Ao destacar a historicidade humana, a concepção dialética ressalta que a reflexão sobre o homem deve ser realizada a partir do arcabouço cultural no qual ele

se situa em dado momento histórico. O homem é, portanto, resultado de uma articulação dialética de elementos externos/objetivos e internos/subjetivos que se encontram em constante processo de reelaboração existencial, em contínuo movimento. Revela-se aqui, pois uma das características fundamentais da dialética, o movimento (GADOTTI, 2010; KOSIK, 1995), que situa o homem e os fenômenos num eterno devir. A centralidade do conceito de movimento salienta o sentido de transformação que carrega a perspectiva dialética. As coisas, o homem, por seu inerente devir, estão em constante processo de transformação.

É importante ressaltar também a centralidade da categoria trabalho para a compreensão do homem e do mundo na visão da dialética marxista. Por essa perspectiva, o homem, através do trabalho, transforma a natureza em condições favoráveis à sua existência e, ao transformá-la, produz a si mesmo, configurando-se como o ser da práxis de acordo com Marx (GADOTTI, 2010).

Ressalta-se que trabalho deve ser considerado à luz da lógica da historicidade, o que implica percebê-lo como uma produção ontogênica do homem e, simultaneamente, como manifestação de uma dada sociedade em um tempo histórico.

O trabalho é, pois, condição produtiva do homem, mas também é movimento e enquanto atividade material humana carrega suas características de objetividade, subjetividade e uma determinada historicidade. Nesse sentido, toda a atividade material realizada pelo homem é práxis, posto que

é a revelação do homem como ser ontocriativo, como ser que cria a realidade (humano-social) e que, portanto, compreende a realidade (humana e não- humana, a realidade na sua totalidade). A práxis do homem não é atividade contraposta à teoria; é determinação da existência humana como elaboração da realidade. (KOSIK, 1995, p. 222, grifo do autor)

Assim, a práxis está no cerne da constituição do homem e enquanto tal, contém tanto os sentidos de totalidade e de contradição inerentes à dialética. Para Vázquez (2011, p. 30), práxis é a atividade consciente propriamente dita e ocupa lugar central na filosofia concebendo “a si mesma não só como interpretação do mundo, mas também como elemento do processo de sua transformação”. É, fundamentalmente, essa concepção de práxis que é adotada nesta Tese, ou seja, [...] “como atividade real, objetiva, material do homem que só é homem como ser social prático” [...]

(VÁZQUEZ, 2011, p. 32).

Vázquez (2011), respaldado no pensamento marxista, frisa que práxis, enquanto atividade prática, não pode ser confundida com o significado de prático-

utilitário das necessidades imediatas que separam o sujeito do objeto, conforme entendido pelas perspectivas pragmáticas, mas como atividade consciente na qual se encontram presente de forma unitária os elementos teóricos e práticos e com uma finalidade definida a priori. Para o autor,

práxis é, na verdade, atividade teórico-prática, isto é, tem um lado ideal, teórico, e um lado material, propriamente prático. Com a particularidade de que só artificialmente, por um processo de abstração, podemos separar, isolar um do outro. Daí, ser tão unilateral reduzir a práxis ao elemento teórico, e falar inclusive de uma práxis teórica, como reduzi-la a seu lado material, vendo nela uma atividade exclusivamente material. (VÁZQUEZ, 2011, p.

264).

Portanto, a atividade para ser considerada práxis requer um grau de consciência do sujeito acerca da ação realizada; consciência que é refletida tanto sobre a ação quanto sobre a própria consciência sobre ela. A materialidade da práxis não significa que toda ação prática possa ser compreendida como práxis. Vázquez (2011, p. 221) afirma que “toda práxis é atividade, mas nem toda atividade é práxis”.

Essa consideração é fundamental para desconstrução de algumas noções de prática que permeiam o cenário educacional e que não estão vinculadas à práxis transformadora.

Para Vázquez (2011), o sentido de unidade da teoria e da prática é adequadamente compreendido quando a prática é percebida como atividade objetiva que transforma a realidade natural e social. E que atua sobre as necessidades do homem a partir de um conhecimento da realidade. Implica, pois, uma ação direcionada, consciente e com uma finalidade, cujo resultado, ou objeto, foi previamente definido, ainda que no nível ideal. Portanto, a atividade prática na perspectiva da práxis não é apenas objetiva, mas subjetiva e não prescinde da teoria.

Desse modo, o significado de prática defendida pelo autor, e adotado neste trabalho, se distancia do sentido tomado pelo pragmatismo cujo foco central é a realização de ações utilitárias, imediatistas e com interesses individuais, enquanto que a compreensão de prática advinda do marxismo define-a como “ação material, objetiva, transformadora, que corresponde a interesses sociais e que, considerada do ponto de vista histórico-social, não é só produção de uma realidade material, mas, sim, criação e desenvolvimento incessantes da realidade humana” (VÁZQUEZ, 2011, p. 244).

A atividade prática transformadora de uma dada realidade é, portanto, o aspecto marcante do significado de práxis. Realidade esta que precisa ser percebida

e apropriada pelo sujeito da ação, o que implica o conhecimento e análise dos determinantes contextuais de uma dada realidade. Nesse sentido, a prática, embora significada como critério de verdade, na acepção marxista (VÁZQUEZ, 2011), não é autônoma em relação à teoria. A prática alimenta a teoria tornando-a mais complexa pela capacidade de explicação de novos elementos advindos da experiência humana.

Por isso mesmo, segundo Vázquez (2011), Marx coloca a prática como fundamento da teoria. Entretanto, a prática é orientada pela teoria, não como um espelho para aplicação ou reprodução, mas como tradução de conhecimento e experiências acumuladas historicamente, o que permite qualificar evolutivamente a práxis humana.

Portanto, teoria e prática devem ser percebidas como a unidade indissolúvel da práxis humana, mantendo cada uma delas a sua especificidade, não podendo uma ser subsumida à outra. “Por isso, devemos falar, sobretudo, de unidade entre teoria e prática e, nesse marco, da autonomia e dependência de uma com relação à outra”

(VÁZQUEZ, 2011, p. 245). Se por um lado a prática social é fundamento da teoria e critério de validade, por outro lado, ela é nutrida pela teoria. Do mesmo modo, o autor salienta que a teoria não pode ser entendida apenas como resposta à prática existente, mas também como antecipação a ela na forma de projeto. Esse caráter de prever uma prática que só existe na forma idealizada permite o seu aperfeiçoamento durante o processo prático, ou seja, a teoria melhorando a prática.

Para Vázquez (2011), é fundamental compreender que teoria e prática mantêm entre si uma relação de unidade, mas não de identidade. Pensar a autonomia relativa entre ambas é condição indispensável para que a teoria sirva à prática sem, entretanto, ir a reboque dela e, desse modo, poder viabilizar a antecipação da prática, ou seja, teorizar sobre ela. Para o autor a percepção da dependência da teoria em relação à prática e, simultaneamente, sua autonomia permite reconhecermos o poder da teoria em modelar idealmente um processo futuro antecipando-o, a exemplo de uma práxis social.

Vázquez (2011) esclarece que há diversas formas de práxis, categorizadas a partir do objeto sobre o qual a atividade prática é exercida. Esses objetos podem ser:

a) dados naturalmente, entes naturais; b) produtos de uma práxis anterior transformados em matérias para novas práxis; c) o próprio humano, a sociedade como matéria ou objeto da práxis política. Temos assim:

a) A práxis produtiva, marcada pela ação do homem, transformadora da natureza por meio do trabalho, para atender uma necessidade prática desse homem;

b) A práxis artística que envolve a transformação de matéria em arte, não mais por uma necessidade prático-utilitária do homem, mas por um desejo humano de expressão e comunicação; uma produção material e espiritual que cria novas realidades;

c) A práxis experimental que se refere à atividade prática científica experimental que atua no sentido de satisfazer às necessidades de uma investigação teórica, de formulação e comprovação de hipóteses. Trata-se de uma práxis com finalidade teórica, embora não esteja restrita à Ciência.

d) A práxis política é aquela na qual o homem atua sobre si mesmo;

ele é objeto e sujeito da ação. Refere-se aos atos que visam a transformar a realidade social em seus diversos aspectos como econômico, político e social. Por envolver grupos ou classes sociais trata-se de uma práxis social, pois “leva a transformar a organização e a direção da sociedade, ou a realizar certas mudanças mediante a atividade do Estado” (VÁZQUEZ, 2011, p. 232-233).

Vázquez (2011) destaca que se a práxis refere-se à atividade prática social transformadora da realidade, então é possível falar na existência não apenas de formas, mas em níveis de práxis, definidas conforme: a) o grau de penetração da consciência do sujeito no processo/ação e b) conforme o grau de criação ou humanização da matéria transformada. A partir desses critérios o autor caracteriza os seguintes níveis de práxis: de um lado, a práxis criadora e a reiterativa (ou imitativa) e, de outro, a práxis: reflexiva e espontânea. Para o autor a noção de nível possui certa relatividade; assim um nível que assume determinada posição de superioridade ou inferioridade em relação a outro nível deve ser considerado à luz do contexto sócio- histórico em que se situa a práxis.

A Práxis Criadora está relacionada com aquilo que é inerente ao homem, o processo de criar, inventar e mudar a realidade mobilizada pelas necessidades surgidas; ela permite enfrentar novas situações e a criação de novas soluções.

Vázquez (2011, p 269) salienta que essa forma de práxis está relacionada com a

“práxis humana total” que se caracteriza pelo processo de “produção ou autocriação do homem”. Ele explica que o ato de criação a que se refere é a atividade consciente e social do homem que produz algo a partir de uma realidade ou elementos preexistentes; “a criação supõe a produção de algo novo (teorias, obras de arte, objetos úteis, instituições políticas, relações sociais etc)” (VÁZQUEZ, 2011, p. 268).

Entendo que se situa aqui, a produção de práticas e teorias educacionais, bem como de processos formativos docentes. Em síntese, a práxis criadora é, unidade sujeito- objeto, interior-exterior, tem um caráter de imprevisibilidade dado a dialética sujeito- objeto no processo de criação e é irrepetível.

Entretanto, o homem não está em eterno processo de criação; há momentos de invenção, mas também de repetição e imitação da prática. Assim, fala-se de Práxis Reiterativa ou Imitativa como aquela na qual os elementos de unidade sujeito-objeto, imprevisibilidade e irrepetibilidade encontram-se de forma precárias, quase inexistentes. Desse modo ela não cria ou transforma a realidade, ou melhor, a ação do sujeito sobre o objeto apenas dá lugar a uma cópia, uma duplicação. Segundo Vázquez (2011, p. 277), enquanto na práxis criadora o objeto é criado e o próprio modo de criar é também uma criação, aqui esse caminho já foi definido previamente, restando pouca margem para intervenção subjetiva; o projeto ideal já está definido a priori. A práxis reiterativa “é uma práxis de segunda mão que não produz uma nova realidade; não provoca uma mudança qualitativa na realidade presente, não transforma criadoramente, ainda que contribua para ampliar área do criado” [...].

Embora não criando algo novo, a práxis reiterativa tem esse aspecto positivo além de ser parte do processo de criação do humano que não é em si integralmente criação, mas também repetição.

De acordo com Vázquez (2011), toda prática realizada pelo homem envolve determinado grau de consciência em relação à mesma. Em algumas situações esse grau de consciência é elevado, como no caso da Práxis criadora e em outros ele é reduzido ou quase inexistente como na reiterativa. Ele apresenta duas formas de consciência envolvidas na realização da ação: a consciência da prática e a consciência da práxis.

A primeira está presente durante a realização da atividade, do planejamento à execução; norteando a ação ao ideal traçado e readequando quando necessário, ou seja, “é a consciência que atua do início ou ao longo do processo prático, em íntima unidade com a plasmação ou realização de seus fins, projetos ou esquemas dinâmicos” (VÁZQUEZ, 2011, p. 294). Por outro lado, a consciência “que se volta sobre si mesma, e sobre a atividade material em que se plasma, podemos denominá- la de consciência da práxis”. É o que o autor chama de “autoconsciência prática”.

(VÁZQUEZ, 2011, p.295). Ambas as formas de consciência estão presentes no processo prático. Entretanto, a primeira está impregnada ao processo prático

enquanto ele está sendo plasmado; a segunda volta-se sobre essa consciência qualificando-a.

A partir do grau de consciência manifestado na realização da ação é que o autor aborda os outros níveis de práxis: a Práxis Reflexiva e Práxis Espontânea.

Para qualificar de espontânea ou reflexiva a práxis, levamos em conta o grau de consciência que se tem da atividade prática que se está desdobrando, elevada em um caso, baixa ou quase nula em outro” (VÁZQUEZ, 2011, p. 296). A Práxis Reflexiva apresenta uma elevada consciência da práxis, e na espontânea essa consciência é reduzida, ainda que apresente uma consciência prática.

Assim, a práxis social, na qual se insere a ação educativa, é uma forma de práxis que, por pretender uma transformação da realidade, requer uma alta consciência da práxis, portanto, penso a práxis educativa enquanto uma práxis reflexiva. A práxis docente é, pois, práxis reflexiva sabendo, porém, que não há como pensar em práxis reflexiva plena, absoluta.

Portanto, a unidade teoria-prática se manifesta na práxis social não como uma atividade uniforme. Conforme o tipo de atividade humana, é que são situados os níveis de práxis. É essencial, sintetizar, a partir das ponderações de Vázquez que toda atividade prática, pensada enquanto práxis social, não existe sem os seguintes elementos teóricos:

a) conhecimento da realidade a ser transformada;

b) conhecimento dos meios e sua utilização, ou seja, das técnicas necessárias para transformar a prática;

c) conhecimento da prática acumulada em forma de teoria que sintetize ou generalize a prática e uma dada esfera de atuação;

d) uma atividade finalista, ou seja, antecipação dos objetivos que se quer alcançar. Os fins precisam responder a necessidades e condições reais