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Criméia Alice Schmidt de Almeida

II. Biografias

6. Criméia Alice Schmidt de Almeida

Estudantes (UNE)2, organizado de forma clandestina, pois a institui- ção foi posta na ilegalidade quando se deu o golpe militar em 1964. O evento contou com a participação de mais de 700 estudantes de todas as regiões do Brasil em um dos anos mais duros da ditadura civil-mili- tar brasileira.

Criméia também participou desse capítulo de resistência contra o regime militar e, segundo depoimento para CVML, ela foi uma das estudantes presas – primeiro, detida em São Paulo e depois transferida para o Rio de Janeiro. Foi também uma das estudantes que tiveram de responder ao processo depois de livres devido à sua participação no congresso. Sobre todo esse processo, Criméia deixou claro suas expec- tativas em uma recente entrevista:

Olha, quando eu fui para Ibiúna eu sabia que ia ser presa:

fazer um congresso, mil pessoas em São Paulo, numa cidade do interior, não seria escondido da polícia. Só que naquela época, em 68, você sendo preso num movi- mento de massa você tinha algum respaldo da sociedade, dos juristas que permitiam a sobrevida, sobreviver sem traumas maiores, porque trauma tem3.

Após a publicação do AI-5, em 13 de dezembro de 1968, Criméia passou a viver na clandestinidade. Em janeiro de 1969, ela deslocou- -se para a região do Rio Araguaia, entre os estados de Goiás, Tocan- tins, Pará e Maranhão, onde se organizava um movimento de guerrilha ligado ao PC do B. Por seguir uma linha maoísta, Criméia acreditava que “o campo cercava a cidade”4, o que significava naquele contexto reconhecer a força do campo para a luta armada e uma forma direta de organização contra a ditadura. Por isso dirigiu ao Araguaia a sua militância. Segundo o PCdoB, o partido por trás da guerrilha, a forma de luta armada mais adequada à situação brasileira era a guerra popular, considerando-se que as forças inimigas eram mais vulne- ráveis no campo, e por isso deveriam ser combatidas nele até que o

2 SÃO PAULO (Estado). Secretaria de Segurança Pública. Departamento Estadual de Ordem Política e Social Operação Ibiúna. São Paulo: 1968. 112 f.

3 Entrevista com Criméia Alice Schmidt de Almeida. Clio - Revista de Pesquisa Histó- rica, n. 26-1. p. 205.

4 C. A. S. de Almeida. Depoimento à CVML/UNIFESP, 11 de junho de 2014.

enfrentamento direto fosse possível. Este enfrentamento direito direto seria resultado da guerra popular, provocada após a formação de um foco revolucionário no campo5. Sobre a guerrilha no Araguaia, Criméia diz:

Como eu tinha essa concepção de luta armada e era uma concepção baseada no maoísmo, de que o campo cerca a cidade, então para mim estava claro que eu ia para o campo, para a luta armada. (...) Em geral era o seguinte:

quando chegava novo lá, perguntava aos moradores onde tinha terra boa para a gente plantar, fazer a roça; como era tudo devoluto o cara só tomava o cuidado de indicar um lugar com uma certa distância da casa dele para que pudesse no ano seguinte derrubar mais um pedaço, sem chegar no quintal do outro. Era a única preocupação porque aquilo não tinha dono, então eram os campone- ses que mostravam pra gente, “olha, aqui é um lugar bom, aqui tem água”, porque conhecer aquilo não se conhecia;

“aqui você fica a uma distância razoável de mim, não vai me incomodar e tem água, a terra é boa,” eram esses os critérios6.

Muitas das terras daquela região eram do Estado, e havia uma disputa muito grande entre posseiros e camponeses. Os posseiros obri- gavam os camponeses a ficarem atrelados a eles, já que o único acesso a determinadas mercadorias se dava por meio de suas terras. Os mili- tantes do PCdoB acabaram com este ciclo e tornaram-se conhecidos na região. Isso se devia ao fato de que para a criação do foco revolucioná- rio era preciso ganhar a confiança dos moradores da região, a fim de criar uma rede de apoio e sustentação7. Um programa denominado

“União Pela Liberdade e Pelos Direitos do Povo” foi redigido e entregue

5 J. R. Sales. A Luta Armada Contra a Ditadura Militar: A Esquerda Brasi- leira e a Influência da Revolução Cubana.p. 91.

6 Entrevista com Criméia Alice Schmidt de Almeida. Clio - Revista de Pesquisa Histórica, n. 26-1. p. 205.

7 J. R. Sales. A Luta Armada Contra a Ditadura Militar: A Esquerda Brasi- leira e a Influência da Revolução Cubana, p. 92.

à população local como forma de trabalho de massas, de fazer com que as pessoas também se integrassem à ação de luta contra a ditadura8.

Em fins de agosto de 1972, Criméia veio para São Paulo para fazer alguns exames, pois estava grávida de sete meses e com malária, e foi morar com a irmã, o cunhado e os dois sobrinhos. Mas retornaria ao Araguaia mais três vezes, levando informações. Segundo depoimento para CVML9, Criméia foi presa em São Paulo em dezembro de 1972 junto com sua irmã Maria de Almeida Teles, seu cunhado Cesar Teles e seus dois sobrinhos Edson Teles e Janaína Teles. No início foi confun- dida com a empregada da família pelos agentes da Operação Bandei- rante (OBAN)10. Depois de identificada como uma militante que atuou na Guerrilha do Araguaia e presa após o congresso de Ibiúna, sofreu constantes torturas e passou por diversos interrogatórios dentro das dependências do DOI-CODI, mesmo estando grávida. Criméia também recebeu diversas ameaças contra seu filho, com a possibilidade de um aborto forçado ou de processo de adoção sem consentimento. Criméia identifica como um dos seus torturadores Carlos Alberto Brilhante Ustra, na época major do exército e comandante do DOI-CODI/SP11.

Depois de cerca de um mês nas dependências do DOI-CODI, Criméia foi transferida para o Pelotão de Investigações Criminais (PIC) em Brasília. Teve seu filho quando ainda estava detida pelas autorida- des, em fevereiro de 1973, no hospital da Guarnição do Exército, onde ficou cerca de 50 dias, retornando ao pelotão após ter seu filho entre- gue a familiares. Foi libertada somente em abril de 197312.

Criméia havia parado de estudar após o AI-5, quando saiu da UFRJ e foi para o Araguaia. Após a prisão em Ibiúna, foi muito difícil voltar à Escola de Enfermagem Anna Nery, por considerá-la um ambiente muito repressivo, em que todos sabiam que ela havia sido

8 Idem, p. 102

9 C. A. S. de Almeida. Depoimento à CVML/UNIFESP, 11 de junho de 2014.

10 Órgão denominado inicialmente de Operação Bandeirantes (OBAN) e depois trans- formado em Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI).

11 C. A. S. de Almeida. Depoimento à Comissão Nacional da Verdade. Audiência Pública. Graves Violações aos Direitos Humanos na Repressão à Guerrilha do Araguaia, 27 de junho de 2013.

12 Idem.

presa13. Em 1977, por intermédio de uma professora chamada Clotilde, a quem conhecera em 1968, conseguiu sua transferência para a Escola Paulista de Medicina. Esta professora, além de dar aulas na EPM, era diretora da creche onde o filho de Criméia estudava.

Segundo depoimento para CVML, ela veio para a EPM por

“motivos de segurança”, já que em 1976, após a Chacina da Lapa14, vários membros do PCdoB foram presos e disseram coisas a respeito dela que não haviam sido mencionadas anteriormente em depoimen- tos. A repressão, que continuava a segui-la, passou a fazê-lo mais insistentemente, mandando recados a ela através de seu cunhado, que ainda se encontrava preso. Decidiu então voltar para São Paulo e inte- grar-se novamente ao movimento estudantil – que havia ressurgido com muita força em fins da década de 1970 – pois se sentia mais segura envolvida nas lutas estudantis, “o movimento que guarda a gente, ele nos traz segurança”15.

Na Escola Paulista de Medicina, lutou pela federalização da Escola de Enfermagem, êxito alcançado em maio de 1977. Lutou também pelo direito de trazer seu filho às aulas ou ter uma creche onde pudesse deixá-lo, pois a creche da Escola não o havia aceitado por ter mais de quatro anos de idade. Manteve-se na Escola até outubro daquele ano, quando pediu transferência para a Universidade Federal de João Pessoa-PB, após conseguir um emprego na Diocese de João Pessoa, na Pastoral da Saúde.

Atualmente Criméia tem um papel importante na luta por memória, verdade e justiça. Faz parte da Comissão dos Familiares dos Mortos e Desaparecidos Políticos, além de estar sempre envolvida em eventos relacionados ao tema e que as Comissões da Verdade realizam por todo Brasil.

É importante destacar o episódio recente da nossa história, de que fez parte em conjunto com sua irmã, cunhado e sobrinhos. No ano

13 C. A. S. de Almeida. Depoimento à CVML/UNIFESP. Audiência Pública. Estudan- tes presos no Congresso da UNE em Ibiúna. 9 de março de 2015.

14 Como explica Jean Rodrigues em seu livro já citado, a Chacina da Lapa foi um massacre ocorrido em 16 de dezembro de 1976. O II Exército invadiu a casa onde parte do Comitê Central do PCdoB havia se reunido, e fuzilou no local Pedro Pomar e Ângelo Arroyo. João Batista Drummond foi preso, torturado e assassinado no DOI-CODI/SP. Poucas horas antes, a polícia havia prendido Haroldo Lima, Aldo Arantes, Elza Monnerat, Wladimir Pomar e Celso de Lima.

15 C. A. S. de Almeida. Depoimento à CVML/UNIFESP, 11 de junho de 2014.

de 2005, eles entraram com uma ação no Tribunal da Justiça de São Paulo contra o ex-coronel Ustra, acusando-o de ser um dos torturadores da ditadura instaurada no Brasil em 1964. Durante três anos essa ação tramitou até que, em 2008, Carlos Alberto Brilhante Ustra foi conde- nado como torturador. Ele entrou com um recurso em 2ª instância e, em 2012, ocorreu um novo julgamento que manteve a decisão da 1ª instância, apontando o ex-coronel como responsável por torturas ocor- ridas durante a ditadura civil-militar no Brasil. Essa foi uma sentença inédita no judiciário brasileiro e de grande peso político16.

Fontes

ALMEIDA, Criméia Alice Schmidt de. Depoimento à CVML/Unifesp. Audiência Pública. Estudantes presos no Congresso da UNE em Ibiúna. 9 de março de 2015.

Disponível em: http://www2.Unifesp.br/comissaodaverdade/news/audiencia- publica-com-estudantes-da-epm-presos-em-ibiuna. Acesso em: 13 set. 2015.

_______. Depoimento à Comissão Nacional da Verdade. Audiência Pública. Graves Violações aos Direitos Humanos na Repressão à Guerrilha do Araguaia, 27 de junho de 2013. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=BM04VC_fd00 >.

Acesso em: 10 set. 2014.

SÃO PAULO (Estado). Secretaria de Segurança Pública. Departamento Estadual de Ordem Política e Social. Prontuário n° 145057. São Paulo: s/d. 2 f. Arquivo Público do Estado de São Paulo.Fundo DEOPS.

_______. Secretaria de Segurança Pública. Departamento de Ordem Política e Social.

Índice de Nomes Falsos de terroristas. São Paulo: s/d. 3 microfichas. Arquivo Público do Estado de São Paulo. Fundo DEOPS.

_______. Secretaria de Segurança Pública. Departamento Estadual de Ordem Política e Social Operação Ibiúna. São Paulo: 1968. 112 f. Arquivo Público do Estado de São Paulo. Fundo DEOPS.

_______. Secretaria de Segurança Pública. Departamento de Ordem Política e Social.

POC PCdoB PRT AP FELA APML. São Paulo: 1973. 431 f. Arquivo Público do Estado de São Paulo. Fundo DEOPS.

Referências bibliográficas

AMORIM, Carlos. Araguaia: Histórias de Amor e de Guerra. São Paulo: Record, 2014.

ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO. Brasil Nunca Mais: Um relato para a História. 15ª ed. Petrópolis: Editora Vozes, 1985.

16 Por unanimidade, Justiça condena o coronel Ustra como torturador da ditadura:

entrevista com Maria Amélia de Almeida Teles. Portal viomundo, 14 de agosto de 2012.

ARAÚJO. Ângela Maria Carneiro... [et al.] (Org.). Relatório final da Comissão da Verdade e Memória “Octávio Ianni” da Unicamp. Campinas: Unicamp, 2015.

Disponível em: https://www.comissaoverdade.unicamp.br/pdf/RELATORIO_

CVM_FINAL_web.pdf

BRASIL. Comissão Nacional da Verdade. Relatório. Brasília: CNV, 2014.976 p. (v. 1) SALES, Jean Rodrigues. A luta armada contra a ditadura militar: a esquerda

brasileira e a influência da revolução cubana. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2007.

VENTURA, Zuenir. 1968: O Que Fizemos de Nós. São Paulo: Editora Objetiva, 2014.

Entrevista com Criméia Alice Schmidt de Almeida. Clio - Revista de Pesquisa Histórica, n. 26-1. p. 205. Disponível em: http://www.revista.ufpe.br/revistaclio/index.php/

revista/article/viewFile/64/59. Acesso em: 13 nov. 2015.

Por unanimidade, Justiça condena o coronel Ustra como torturador da ditadura:

entrevista com Maria Amélia de Almeida Teles. Portal viomundo, 14 de agosto de 2012. Disponível em: http://www.viomundo.com.br/denuncias/amelinha-teles- e-preciso-botar-um-fim-na-impunidade-dos-torturadores-da-ditadura-militar.

html. Acesso em: 12 set. 2014.