II. Biografias
12. Luiz Carlos Aiex Alves
Em função de sua atividade como membro da diretoria do Centro Acadêmico, Aiex foi indicado como um dos dois representantes do CAPB no XXX Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), realizado em Ibiúna, em outubro de 1968. O outro era Rubens Belfort Mattos Junior, atual professor titular da Oftalmologia da Unifesp, que, no último momento, recusou a indicação e foi substituído por Rubens Schmidt Werner, hoje médico endocrinologista.
O local onde ocorreria o Congresso não era conhecido publica- mente, e Aiex, então com 20 anos, teve de aceitar as regras estabele- cidas pelo comando da entidade para integrar-se ao evento. Assim, no dia 9 de outubro de 1968, uma quarta-feira, às 17h00, compareceu ao
“ponto” — como então eram chamados os locais previamente combi- nados para esses encontros de natureza semiclandestina — acertado com uma das organizadoras do Congresso, a também aluna da EPM Regina Elza Solitrenick. Era nas proximidades da Faculdade de Filoso- fia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, na época localizada na Rua Maria Antônia, na Vila Buarque, bairro da região central de São Paulo. Desse ponto, ele foi levado numa Kombi a outro, uma casa, que lhe era completamente desconhecida, mas já fora de São Paulo e próxima do local onde o Congresso seria realizado. No caminho, quando perguntava para aonde estava indo, Regina Elza respondia que a informação era sigilosa e não poderia ser revelada. Ali passou a noite, junto de outras pessoas. Na quinta-feira pela manhã foi levado ao local Congresso, o sítio Muduru, no município de Ibiúna, distante 74 km de São Paulo. Aiex relata que teve a impressão de que havia um ninho de metralhadora junto da porteira de entrada do sítio, mas que não havia ninguém tomando conta dele.
Aiex recorda que as discussões do Congresso, nessa quinta-feira, eram intermináveis. Discutia-se à exaustão, repetitivamente, os crité- rios para o reconhecimento dos delegados que elegeriam o próximo presidente da UNE. A disputa era entre dois candidatos: José Dirceu (José Dirceu de Oliveira e Silva), estudante de Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), e Luiz Travassos (Luís Gonzaga Travassos da Rosa), também aluno da Faculdade de Direito da PUC-SP. O CAPB apoiava o primeiro deles. Para passar a noite de quinta para sexta-feira, na casa do sítio, não havia lugar para todos dormirem. De modo que dividiram-se os congressistas em dois turnos.
Os que dormiram primeiro, no chão de cimento, foram acordados no meio da madrugada para dar lugar aos do segundo turno. Chovia e fazia frio. Os que haviam cedido lugar aos do segundo turno, Aiex entre eles, ficaram perambulando na chuva, aguardando o amanhecer para entrar na fila do café-da-manhã. Lavava-se o rosto e se escovava os dentes em um córrego. Já na noite de sexta-feira para sábado, os que estavam no primeiro turno se recusaram a sair. De modo que todos se amontoaram no mesmo apertado espaço, dormindo o restante da noite literalmente uns por cima dos outros, moços e moças.
No início da manhã do sábado, dia 12 de outubro2, chegaram os soldados Força Pública, atual Polícia Militar, e policiais do DOPS.
Surgiram às dezenas, aos gritos, atirando para o alto — e a pé, pois a lama da estrada não possibilitava o trânsito dos caminhões até o sítio.
O ninho de metralhadora da entrada do sítio havia sido retirado com antecedência. Aiex foi preso com os demais participantes, centenas estudantes de diversos estados do país. Foram levados em caminhões da Força Pública — veículos de transporte de tropas, com cobertura de lona — inicialmente ao hoje demolido Presídio Tiradentes, na avenida Tiradentes, que abrigava presos políticos. Ficavam cerca de 20 estu- dantes em cada cela. Os homens eram separados das mulheres. Foram quatro dias no Presídio Tiradentes, onde se realizaram tumultuadas assembleias nas próprias celas, e se tentava ler trechos mimeografados de O Capital, de Karl Marx. Depois foram levados ao (hoje fechado) Complexo Penitenciário do Carandiru, próximo ao bairro de Santana, onde foram vestidos com roupas de presidiários, mas mantidos sepa- rados dos presos comuns. Por fim, ao cabo de seis dias, foram levados ao prédio do extinto DOPS ou DEOPS-SP (Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo), no bairro da Luz. Nesse órgão, foram fichados, fotografados e soltos, apesar de três estudantes da EPM – os já citados Rubens Schmidt Werner e Regina Elza Solitre- nick, além do falecido psiquiatra Ladislau Ruy Ungar Glausiusz — que havia chegado ao Congresso na noite da véspera da prisão —, terem ali permanecido detidos por mais tempo.
Sobre os momentos da prisão, Aiex relata duas lembranças que o marcaram especialmente. Uma delas foi a possibilidade de ter
2 CONGRESSO da UNE: todos presos. Folha de S. Paulo, São Paulo, 13 out. 1968.
Primeiro Caderno, p. 1. Disponível em: <http://almanaque.folha.uol.com.br/
brasil_13out1968.htm>. Acesso em: abr. 2015.
tentado escapar, evadindo-se pela mata que circundava do sítio onde o Congresso era realizado. Isso poderia ter ocorrido, como aconteceu com alguns estudantes, enquanto se caminhava em uma longa fila na lamacenta estrada de cerca de 8 km, em direção ao lugar onde estavam estacionados os caminhões da Força Pública. “Embora pudesse ter tentado, eu não o fiz, porque queria, de fato, ser preso.”
A outra recordação foi o comentário ouvido no diálogo entre dois policiais, num momento de descanso durante a caminhada. Ao assistir a prisão de todas aquelas centenas estudantes, um dos policiais disse ou outro mais ou menos o seguinte: “Mas essas pessoas não trabalham?
Como podem estar aqui, desde quarta-feira, sem trabalhar?” E Aiex reflete, recordando a singela pergunta do policial: — “Era preciso reco- nhecer que, de fato, nós não trabalhávamos. Senão, como poderíamos estar lá? Qual seria, então, a motivação que me levava a participar de tudo aquilo, a sacrificar o tempo que poderia estar dedicando ao estudo da Medicina? Talvez até hoje, passados tantos anos, eu ainda não tenha uma resposta de todo satisfatória para essa questão.”
No segundo semestre de 1969, Aiex, que havia se interessado pelo jornalismo, em função de sua experiência na EPM com O Barrettinho, dispôs-se a buscar emprego em jornais. Fez testes em dois deles e foi aprovado na Folha de S. Paulo. Com isso, a partir de 1970, continuou os estudos de Medicina e, concomitantemente, passou a trabalhar como repórter da seção geral na Folha, desligando-se do Centro Acadê- mico. Nesse mesmo ano, foi preso pela segunda vez pelo DOPS, agora em sala de aula3. Durante uma aula de Nefrologia, ministrada pelo docente Daniel Sigulem, na qual Aiex iria apresentar um trabalho em seminário, dois homens apareceram à porta, acompanhados por seu irmão, José Roberto, que havia sido obrigado pelos policiais a levá-los até ele. Um terceiro permanecia ao volante da Rural Willys, estacio- nada na rua. Da entrada da sala, localizada no 3º andar do prédio dos Ambulatórios da EPM, eles chamaram por Aiex, que saiu do recinto, em meio à apresentação do seminário, sem dizer nada. Um dos agentes que o prenderam disse em voz baixa: “Se você correr eu te mato.” Sobre
3 Aiex afirmou em seu depoimento que esse fato ocorreu por volta de julho ou agosto, mas no relatório da prisão consta o dia 26 de maio. BRASIL. Ministério do Exército.
II Exército. Atividades da Operação Bandeirante. São Paulo, 1970. 71 f. Arquivo Nacional. Fundo SNI.
esse episódio, o professor Dr. Daniel Sigulem4 e um aluno, o agora ortopedista Dr. Luiz Aurélio Mestriner5, forneceram relatos escritos, confirmando o ocorrido. Da EPM foram à casa de Aiex, para encontrar com outros dois policiais, que tinham permanecido no local, a vigiar a sua mãe, sob a mira de metralhadoras.
Aiex foi levado à OBAN (Operação Bandeirantes), na Rua Tutóia, na Vila Mariana, onde passou uma noite. Segundo ele, foi uma experiên- cia amedrontadora, embora não tivesse sido particularmente maltra- tado, sofrendo poucos tapas, ameaças e um único choque elétrico, com eletrodo em torno da orelha, durante o interrogatório. O que o marcou sobremaneira foram os lamentos de presos sendo torturados, durante a noite. “Isso aqui é um confessionário”, se escutava a voz de um dos supostos torturadores, em meio ao som abafado de repetidas panca- das. “Ninguém sai daqui sem confessar nada!”
Do relatório em que foi transcrito seu interrogatório, consta- ram a participação na direção do Centro Acadêmico da EPM, a ida ao Congresso de Ibiúna e a prisão ocorrida nesse evento. Além da infor- mação de que trabalhara na Folha de S. Paulo no período noturno, constou também a reprodução de uma de suas supostas declarações: “O depoente diz ter ideias esquerdistas e discutiu muito a respeito quando ainda era membro do diretório.” Sabe-se que Neuza Maria de Souza Neto (Nara ou Sílvia)6 citou-o como pertencente ao Comando de Operações da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Pal- mares). Não se pode dizer se o real motivo de sua prisão abrupta fora essa citação, o histórico de trabalho no centro acadêmico ou a atuação como repórter da Folha – ou, ainda, uma junção de todos esses fatores.
A veracidade de tal citação também é questionável, pois foi encontrada
4 SIGULEM, Daniel. Declarações do Dr. Daniel Sigulem sobre a prisão política sofrida pelo Dr. Luiz Carlos Aiex Alves. 25 jun. 2008. Arquivo pessoal de Luiz Carlos Aiex Alves. Sobre esse documento, Aiex faz a seguinte observação: “Fui apanhar essa declaração no consultório do Dr. Sigulem. Quando lhe agradeci, ele me respondeu: ‘Nós é que temos que agradecer!’ Para mim foi uma resposta surpreendente. Ela me ajudou a dar algum sentido à questão indiretamente levan- tada pelo policial quando da prisão em Ibiúna, 40 anos antes. Foi a primeira – e talvez a única – vez em que recebi um cumprimento por aquilo que tinha feito.”
5 MESTRINER, Luiz Aurélio. Declarações do médico Dr. Luiz Aurélio Mestriner sobre a prisão política sofrida pelo Dr. Luiz Carlos Aiex Alves em 1970. 2 jun.
2008. Arquivo pessoal de Luiz Carlos Aiex Alves.
6 BRASIL. Ministério do Exército. II Exército. Atividades da Operação Bandeirante.
São Paulo, 1970. 71 f. Arquivo Nacional. Fundo SNI.
em um relatório da OBAN produzido em um período no qual a pressão por informações, a omissão e a parcialidade dos documentos elabo- rados pelos militares relativizam-nos por si mesmos. Sabe-se que, durante o interrogatório, Aiex negou envolvimento com o movimento em que foi citado, dizendo que desconhecia o motivo dessas acusações.
Segundo ele, logo perceberam que era uma acusação sem procedên- cia e cessaram as agressões. No dia seguinte, soltaram-no, após uma mulher, fazendo as vezes de relações públicas da OBAN, pedir-lhe verbalmente desculpas pelo ocorrido. Ele, então, deixou o local e diri- giu-se, andando, à sua casa, onde foi recebido pelos familiares com grande surpresa e alívio7.
Aiex continuou trabalhando como repórter até outubro de 1972, tendo se desligado da Folha de S. Paulo dois meses antes da sua gradua- ção como médico. Um fato interessante relatado em seu depoimento é que logo depois de ter sido solto, foi falar com o diretor da EPM, Prof.
Horácio Kneese de Mello. Argumentou: “Professor, fui preso aqui, no interior da própria Escola Paulista de Medicina. Como é que alguém pode invadir a faculdade dessa forma, retirar um aluno de dentro de uma sala de aula?” Ao que o diretor simplesmente respondeu: “Aiex, não mexa com isso, não!”
Uma vez graduado médico, Aiex focou seus interesses na carreira de psiquiatra. Em 1973, foi um dos cinco participantes da primeira turma de Residência Médica em Psiquiatria da EPM. Em 1974, ainda residente, começou a trabalhar em um hospital psiquiátrico particular, o Sanatório Charcot, localizado na Avenida Carlos Liviero, nº 120, na cidade de São Paulo.
Em 1981, passou a exercer suas atividades profissionais no Serviço de Psiquiatria e Psicologia Médica do Hospital do Servidor Público Estadual, vinculado ao Instituto de Assistência Médica ao Servidor Pública Estadual (IAMSPE), localizado na Vila Clementino. Conforme declarou em seu depoimento, nessa última instituição apresentava-se, de início, apenas como Luiz Carlos, e não como Aiex, para que não se lembrassem dele da época de estudante. Contou que não poderia deixar de mencionar o sentimento de estranheza e certo desconforto
7 Aiex relata que após a segunda prisão decidiu afastar-se do movimento estudantil.
Explica: “Tive a nítida sensação de que ocorria um verdadeiro massacre. Se conti- nuasse, cedo ou tarde acabaria outra vez preso ou morto. De qualquer forma, não era aquilo que eu queria para mim.”
que então experimentava com relação a esse aspecto da sua história pessoal. Sentia que era um momento já terminado — e talvez quisesse que tivesse sido diferente. No entanto, apesar dessa reticência inicial, os seus “antecedentes” acabaram por prevalecer, e ele continuou teimo- samente sendo tratado por Aiex. E, de um modo ou de outro, voltou a envolver-se em política, desta vez na política médica. Por quatro anos (dois mandatos) foi presidente da Associação Médica do Instituto de Assistência Médica do Servidor Público Estadual (AMIAMSPE), o que abriu-lhe as portas para participar da diretoria do Sindicato dos Médicos de São Paulo (SIMESP) e ser eleito conselheiro do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP), na gestão de 2003-2008. Relembra que “apesar de eu preferir não ser tratado por Aiex, mas sim por Luiz Carlos, para não estar associado ao passado de militante estudantil, os meus antecedentes prevaleceram e foram valo- rizados, servindo como referência para o meu envolvimento na política médica. Mas então em outro momento da minha vida, com consciência e sem arrependimentos”.
Fontes
ALVES, Luiz Carlos Aiex. Depoimento à CVML/Unifesp. 2 jun. 2014.
BRASIL. Ministério do Exército. II Exército. Atividades da Operação Bandeirante.
São Paulo, 1970. 71 f. Arquivo Nacional. Fundo SNI.
CONGRESSO da UNE: todos presos. Folha de S. Paulo, São Paulo, 13 out. 1968.
Primeiro Caderno, p. 1. Disponível em: <http://almanaque.folha.uol.com.br/
brasil_13out1968.htm>. Acesso em: abr. 2015.
MESTRINER, Luiz Aurélio. Declarações do médico Dr. Luiz Aurélio Mestriner sobre a prisão política sofrida pelo Dr. Luiz Carlos Aiex Alves em 1970. 2 jun. 2008.
Arquivo pessoal de Luiz Carlos Aiex Alves.
SIGULEM, Daniel. Declarações do Dr. Daniel Sigulem sobre a prisão política sofrida pelo Dr.
Luiz Carlos Aiex Alves. 25 jun. 2008. Arquivo pessoal de Luiz Carlos Aiex Alves.
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