II. Biografias
14. Paulo José Brito de Castro
PRePARoDADoCumentAção: AnA nemi, HeloísA CAtAni mARiAni PAvoni mAtiAse nAtHáliA mARino
textoesCRitoPoR: HeloísA CAtAni mARiAni PAvoni mAtiAs
Paulo José Brito de Castro nasceu em Santos, em 1946. Interes- sou-se pela política após ter entrado na EPM e começado a frequentar o Centro Acadêmico Pereira Barreto (CAPB), quando percebeu a impor- tância e influência da Guerra Fria sobre o mundo. Passou a interes- sar-se pelas discussões sobre o governo João Goulart e as reformas de base e entendeu a importância delas para a população mais pobre do país, a partir daí, decidiu que não gostava da política que vinha sendo feita e decidiu fazer algo para mudá-la1. Por esse motivo passou a ser visto como comunista. Muito tempo depois de estar graduado, soube que havia sido ameaçado de morte por certos colegas de Escola que o viam como um “comunista perigoso”. Algo a se notar é que ele nunca foi comunista e, segundo seu depoimento, não possui sequer conheci- mentos marxistas. Além disso, não possuía nenhum tipo de militância externa, apenas a militância estudantil.
Paulo José Brito de Castro entrou na Escola Paulista de Medicina em 1966 e passou a ser conhecido como “JB”, pois em sua sala de aula existia mais um Paulo e na lista de chamada seu nome constava como Paulo J.B.2 Dentro da escola teve papéis importantes, como ter sido nomeado representante discente junto ao Departamento de Morfolo- gia (que incluía Anatomia e Histologia) e também todo o trabalho exer- cido no Centro Acadêmico Pereira Barreto (CAPB) entre 1966 e 1969:
primeiro secretário do CAPB entre 1966 e 1967, segundo vice-presi- dente do CAPB entre 1967 e 1968 e primeiro vice-presidente entre 1968
1 Depoimento de Paulo José Brito de Castro à Comissão da Verdade Marcos Lindenberg em 11 jul. 2014.
2 Idem.
e 1969. Em 22 de agosto de 1969, foi eleito presidente do CAPB3, com 378 votos (de um total de 723) para a sua chapa, “Atuação”4. Além disso, participava da edição do jornal do Centro Acadêmico, O Bíceps5. Em agosto de 1968 passou “a ser um dos dois representantes discentes no Conselho Departamental (CD), composto pelos chefes de Departa- mento, e na Congregação, órgão decisório máximo, composto por todos professores catedráticos”6, o que é mostrado na Ata da Congregação do dia 4 de outubro de 1968: “A seguir é apresentado o processo 8930, em que o Diretório Acadêmico da Escola comunica que os acadêmicos Fernando Antonio Alves de Souza e Paulo José Britto de Castro foram indicados como representantes do corpo discente”7. É importante relembrar que neste período a EPM passava pela primeira greve pela federalização da Escola e a participação estudantil dentro da Congre- gação tornou-se ainda mais importante.
Em certa ocasião pôde entregar ao Ministro da Educação, Jarbas Passarinho, após palestra do mesmo no auditório da Escola Paulista de Medicina, uma carta do CAPB em que se posicionava contra o Projeto Rondon, que era “visto como uma grande lavagem cerebral (do ponto de vista político)”8 que enviava médicos despreparados para trabalhar em regiões necessitadas, onde eram mal supervisionados. Além disso,
“o objetivo principal do Projeto Rondon era desmobilizar o radica- lismo dos estudantes, atraindo alguns líderes para os valores do regime militar. A intenção era oferecer ao Estado outra alternativa além da repressão aos estudantes: um projeto que atraísse os jovens, apelando para o idealismo e o patriotismo, em benefício das metas nacionalistas dos militares.”9
Em 1969, participou de um momento importante na história da Escola como presidente do CAPB. Neste período, cursos de problemas
3 Atas da Congregação da Escola Paulista de Medicina, 14 out. 1969, fls. 385-387;
389.
4 Atas do Centro Acadêmico Pereira Barreto, 22 ago. 1969, fls. 34-54.
5 P. J. B. de Castro, Memórias da EPM, Não Publicado.
6 Idem, p. 14.
7 Atas da Congregação da Escola Paulista de Medicina. São Paulo, 04 out. 1968, fl.
275.
8 Depoimento de Paulo José Brito de Castro à Comissão da Verdade Marcos Lindenberg em 11 jul. 2014.
9 R. P. S. Motta, As Universidades e o Regime Militar, p. 12.
brasileiros se tornaram obrigatórios nas universidades. Sobre isso, relembrou:
Nessa atmosfera a diretoria da Escola debateu com a representação discente uma forma aceitável de se organi- zar o tal curso de problemas brasileiros e acordou-se que o mesmo poderia ser feito na forma de um ciclo de pales- tras sendo metade dos palestrantes indicados pela Escola e metade pelo CAPB. O primeiro palestrante que o CAPB indicou foi o Prof. Marcos Lindenberg10.
O professor os “recebeu cortesmente e aceitou o convite com uma condição: o Prof. desejava entrevistar previamente grupos de alunos com cores políticas diferentes e/ou representantes das mais diversas facções existentes no meio estudantil.”11
Assim, a palestra foi marcada no anfiteatro Clóvis Salgado e Marcos Lindenberg foi cumprimentado de forma emocionada por funcionários, tendo sua fala sido muito bem recebida. A partir de 1967, alguns professores afastados pelos Atos Normativos da Revolução voltaram ao Brasil e puderam retomar sua vida acadêmica e fortalece- ram os quadros de várias universidades, como mostra Rodrigo Patto Sá Motta12. Mesmo aqueles que não estavam no exílio puderam voltar a exercer suas funções, como é o caso de Lindenberg: foi afastado da Escola pelo AI, cumpriu prisão domiciliar, e pôde retornar à EPM como palestrante.
Por ter este contato com o professor Marcos Lindenberg e por suas ações dentro do movimento estudantil, chamou a atenção dos militares. Foi detido em 1° de novembro de 1970, pela manhã, em casa, por motivos que até hoje não compreende. Aparentemente, foi preso preventivamente, já que “em 15 de novembro de 1970 haveria eleições para o Senado, Câmaras Federal e Estaduais. Os órgãos de segurança teriam descoberto um plano, em homenagem a Marighella, para deses- tabilizar o pleito. Preventivamente, prenderam mais de 10000 pessoas
10 P. J. B. de Castro, op. cit., p. 25.
11 Idem.
12 R. P. S. Motta, op. cit., loc. cit.
naquele fim de semana”13. Sobre essas prisões, o jornal O Estado de São Paulo de 4 de novembro de 1970, noticiou que:
Em quatro dias, de sábado último até hoje, os órgãos de segurança efetuaram centenas de prisões em todo o estado de São Paulo, segundo informaram fontes dos departa- mentos encarregados da repressão ao terror e a subversão.
(...) Agindo preventivamente para impedir qualquer mani- festação de caráter subversivo no país, quando decorre o primeiro aniversário de morte do terrorista Carlos Mari- ghela, os órgãos nacionais de segurança tomaram uma série de medidas, que inclui prontidão nas polícias militar e civil e regime de alerta em guarnições14.
Inicialmente ficou preso em um prédio próximo à Pinacoteca do Estado. Depois, à tarde, foi levado para a Escola de Cabos e Sargen- tos do Exército, onde permaneceu preso junto com três operários, um advogado trabalhista um senhor ex-presidente do sindicato dos bancá- rios de São Paulo e um ex-deputado federal – Dorival Massi de Abreu – que havia sido cassado pelo AI-5. Este foi escolhido para ser porta-voz do grupo, e no dia seguinte conseguiu melhorar um pouco o ambiente ao pedir melhores condições de estadia ao comandante do quartel15.
Nenhum deles foi torturado, interrogado ou constrangido de qualquer forma. Eram vigiados, mas não hostilizados. JB foi liberado oito dias depois, sem qualquer explicação. Segundo consta, foi o único estudante da EPM a ser preso sem fazer parte de nenhuma organiza- ção política. As sequelas desta prisão foram mínimas e facilmente pôde retomar sua vida. Foi bem recebido na EPM, mas deixou a militância estudantil. Nunca se filiou a partido algum e vê sua prisão como uma bobagem.
A seu ver, esta prisão foi equivocada e trouxe consequências poste- riores, já que era visto como alguém que tinha a obrigação de concordar com certas bandeiras da esquerda, o que o incomodou durante certo
13 Idem. p. 35. Também mencionado por Paulo José Brito de Castro em Depoimento à Comissão da Verdade Marcos Lindenberg em 11 jul. 2014.
14 O Estado de São Paulo. 04 nov. 1970, Disponível no Arquivo Público do Estado de São Paulo.
15 P. J. B. de Castro, op. cit., p. 25.
tempo. Mas, por outro lado, foi informal e não lhe gerou antecedentes criminais, o que lhe permitiu concluir sua residência e trabalhar sem maiores problemas. É discutível se esta prisão foi realmente equivo- cada. Segundo consta em reportagens e comunicados oficiais da época, a prisão foi preventiva e visava afetar setores do movimento estu- dantil e da luta armada, para que o II Exército pudesse garantir que não haveria nenhum tipo de protesto pela morte de Joaquim Câmara Ferreira e pelo aniversário da morte de Carlos Marighella. Sendo assim, sua prisão não foi equivocada, já que JB se enquadrava em um grupo que potencialmente ameaçava os militares.
Deixou a EPM para fazer uma pós-graduação na Universidade de São Paulo (USP), no Hospital das Clínicas, e foi cobrado por alguns colegas sobre ter deixado a Escola. O que aconteceu é que não se sentia mais confortável em ter aulas com os professores que já conhecia.
Trabalhou por alguns anos no Hospital do Servidor Público Municipal e em 1979 passou a viver e medicar em Mococa, cidade do interior do estado de São Paulo.
Fontes
Atas do Centro Acadêmico Pereira Barreto, 22 de agosto de 1969. p. 34-54.
Atas da Congregação da Escola Paulista de Medicina. São Paulo, 4 de outubro de 1968.
p.275
_______. São Paulo, 14 de outubro de 1969. p. 385-387;389
Depoimento de Paulo José Brito de Castro à Comissão da Verdade Marcos Lindenberg em 11 de julho de 2014.
Referências bibliográficas
CASTRO, Paulo José Brito de. Memórias da EPM.São Paulo: não publicado, 2005.
MOTTA, Rodrigo Patto Sá. As Universidades e o Regime Militar. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2014.
O Estado de São Paulo. 4 de novembro de 1970. Disponível no Arquivo Público do Estado de São Paulo.