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Pretende-se trabalhar com este tópico os institutos da culpa e do risco, classificando cada uma destas espécies relacionadas à fundamentação da Responsabilidade Civil. Tem-se que a culpa pode ser dividida de acordo com o grau do prejuízo causado bem como o tipo de responsabilização, e nos casos em que não há culpa do agente, a teoria pode estar ligada ao risco.

A Responsabilidade Civil está baseada na culpa, embora em alguns casos se admita a responsabilidade sem culpa, baseada no risco.

Para Josserand “a responsabilidade moderna comporta dois pólos, o pólo objetivo, onde reina o risco criado, o pólo subjetivo, onde triunfa a culpa, e é nestes dois pólos que gira a teoria da responsabilidade”101.

Para Gagliano e Pamplona Filho, a exigência da culpa como pressuposto para a Responsabilidade Civil significou grande avanço na história da civilização, onde a resposta do

97 LISBOA, Roberto Senise. Manual de direito civil: obrigações e responsabilidade civil, p. 516.

98 Entende-se por “quaestio iuris”, a questão de direito. Cf. CASTRO, Flávio. Compacto dicionário jurídico de expressões latinas, p. 140.

99 Entende-se por “quaestio fact”, a questão de fato. CASTRO, Flávio. Compacto dicionário jurídico de expressões latinas, p. 140.

100 DINIZ, Maria Helena de. Curso de direito civil brasileiro: responsabilidade civil, p. 101.

101 JOSSERAND, Louis apud AZEVEDO, Álvaro Villaça. Teoria geral das obrigações: responsabilidade civil.

p. 282-283.

dano causado era difusa, passando a exigir-se um elemento caracterizador que pudesse viabilizar a imputação do dano ao agente102.

E corroboram:

[...] a culpa, (em sentido amplo) deriva da inobservância de um dever de conduta, previamente imposto pela ordem jurídica, em atenção à paz social.

Se esta violação é proposital, atuou o agente com dolo; se decorreu de negligência, imprudência ou imperícia, a sua atuação é apenas culposa, no sentido estrito103.

Segundo Azevedo, “tanto o instituto jurídico da culpa como o do risco devem coexistir, para que se fortaleça idéia de que a responsabilidade civil com ou sem culpa, deve ser a questão de ataque a todos os prejuízos causados à sociedade”104.

Por fim, pode-se dizer que diante da conduta apenas culposa surge a chamada teoria do risco como fundamento da Responsabilidade Civil, onde se admite a responsabilização do agente independente da análise de sua culpa.

O Código Civil adotou a responsabilidade expressamente sem culpa, trazendo à realidade a idéia do risco. Por sua vez, o Código de Defesa do Consumidor anteriormente ao Código Civil, já havia adotado a responsabilização sem culpa, com relação aos prestadores de serviços em geral, sendo que a respeito disso, o estudo tratará em tópico próprio ao entendimento destes institutos.

2.4.1 Elementos da Culpa

A culpa caracteriza-se pela ação do agente, e deste modo, necessário se faz a análise dos elementos caracterizadores da culpa, bem como a aplicação de cada elemento na responsabilização do agente.

Sinteticamente falando, Lisboa define que a “culpa é a violação de uma norma jurídica”105.

102 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo curso de direito: responsabilidade civil, p.

136.

103 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo curso de direito: responsabilidade civil, p.

136.

104 AZEVEDO, Álvaro Villaça. Teoria geral das obrigações: responsabilidade civil. p. 282.

105 LISBOA, Roberto Senise. Manual de direito civil: obrigações e responsabilidade civil, p. 533.

Neste tema, Gagliano e Pamplona Filho assinalam que a culpa é composta dos seguintes elementos:

a) voluntariedade do comportamento do agente – como sendo a atuação do agente causador do dano. Sendo que, se agiu voluntariamente haverá a culpa, se houve a intenção do dano, haverá o dolo do agente.

É de se destacar que em se tratando da culpa em sentido estrito, o dano resulta de um dever de cuidado (em casos de negligência, imprudência ou imperícia), sem que o agente tenha agido com a intenção do dano.

b) previsibilidade – trata-se de apontar a culpa do agente caso este teria agido com dolo prevendo o resultado danoso à vítima.

Salienta-se, que nos casos de previsibilidade a responsabilização do agente descaracteriza-se ante a seara do caso fortuito ou força maior, eximindo o agente da obrigação de indenizar.

c) violação de um dever de cuidado – conforme já dito, a culpa caracteriza-se pela violação de um dever de cuidado, se a ação é intencional ao dano, tem-se o dolo do agente106.

Destarte, identificados os elementos caracterizadores da culpa como sendo a voluntariedade do comportamento do agente, a previsão do resultado da ação e a violação de uma dever, pode-se afirmar que a culpa pode ser subdividida em leve, grave e gravíssima, e deste modo para o grau de responsabilização do agente, imperiosa a classificação destes institutos.

2.4.2 Graus da Culpa e Formas de Manifestação

Neste item será tratado acerca da classificação da culpa e apontadas às formas em que esta se manifesta.

No Código Civil de 1916 a culpa era classificada de acordo com a sua gradação, em grave, leve e levíssima. A culpa grave, embora não intencional, era tida como que se o agente buscava o resultado, ou seja, o agente pretendia causar dano à vítima, já, a culpa leva era aquela tida como falta de diligência na conduta do homem, e, por fim, a culpa levíssima era

106 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo curso de direito: responsabilidade civil, p.

140-141.

aquela resultante da falta cometida por força de uma conduta fora dos padrões, sendo a falta de cuidados e atenção na forma de agir107.

Para fins de indenização, o resultado obtido, no caso, o dano sofrido pela vítima, a gradação da culpa é a menor importância, eis que em no sistema jurídico, a preponderância da responsabilização, baseia-se na extensão do dano causado. Nesta órbita, pode-se consignar que a análise da culpa deverá ser comparada ao dano causado pela conduta do lesante.

Neste diapasão, o atual Código ao tratar da Responsabilidade Civil, em seu art. 944108, apontou que a extensão do dano não servirá mais como parâmetro para a medição da culpa, uma vez que analisando o dano ou o prejuízo causado, o juiz poderá com equilíbrio, reduzir o montante indenizatório baseado na gravidade da culpa e no resultado (dano ou prejuízo) causado.

Entretanto, para Venosa, embora seja a culpa considerada o centro da Responsabilidade Civil, esta não abrange tão somente o ato ou a conduta do agente, o dolo, mas também os atos e condutas eivados como negligência, imprudência ou imperícia109.

Assim, de acordo com os entendimentos expostos, tem-se que a culpa nunca deverá ser presumida, e, em cada caso concreto deve ser analisada, sendo então estabelecido o grau, a tipicidade da culpa e o resultado da conduta, positiva ou negativa para se avaliar o montante indenizatório.

2.4.2.1 Negligência, imprudência e imperícia

A culpa pode ser tipificada em negligência, imprudência e imperícia. Para melhor compreensão do tema, trataremos a seguir a respeito destes institutos, buscando de forma objetiva a conceituação destas classificações.

Consoante já demonstrado pode-se afirmar que o Código Civil assenta a Responsabilidade Civil na culpa (em todas as suas formas) e no dolo. Quando falamos em

107 STOCCO, Rui apud GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo curso de direito:

responsabilidade civil, p. 141.

108 Art. 944. A indenização mede-se pela extensão do dano. Parágrafo Único. Se houver excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano, poderá o juiz reduzir, equitativamente, a indenização. Cf. BRASIL. Lei 10.406 de 10 de Janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Disponível em

<http://www.planalto.gov.br/cccivil_03/LEIS/2002/L10406.html.> Acesso em 07 de Setembro de 2008, às 14h32min.

109 VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito civil. Responsabilidade civil, p. 22-23.

culpa, de todas as formas, chega-se ao tema proposto, ou seja, na negligência, na imprudência e na imperícia. E, neste sentindo, Gagliano e Pamplona Filho apresentam:

Negligência: caracterizada pela ausência de um dever de cuidado, por omissão do agente110;

Segundo Gonçalves, “o termo negligência, usado no art. 186, é amplo e abrange a idéia de imperícia, pois possui um sentido lato de omissão ao cumprimento de um dever111”. E complementa: “[...] é a falta de atenção, a ausência e reflexão necessária, uma espécie de preguiça psíquica, em virtude da qual deixa o agente de prever o resultado que podia e devia ser previsto”.

Imprudência: consuma-se quando o agente culpado enfrenta desnecessariamente o perigo112;

Complementando, Gonçalves acentua que “[...] consiste em agir o sujeito sem as cautelas devidas, com açodamento e arrojo, e implica sempre pequena consideração pelos interesses alheios”113.

Imperícia: é a falta de aptidão ou habilidade especifica para a realização de uma atividade técnica ou científica114.

Marques considera que “a imperícia consiste, sobretudo na inaptidão técnica, na ausência de conhecimentos para a prática de um ato, ou omissão de providência que se fazia necessária; é em suma a culpa profissional”115.

É de se destacar que embora não prescrita no art. 186 do Código Civil – CC de 2002, a imperícia caracteriza-se quando ocorre um erro durante a execução de uma atividade tida como técnica ou científica. A ausência deste instituto não implica que este não esteja caracterizado nos fundamentos da responsabilização, uma vez que ao referido artigo, na referência a ação ou omissão voluntária, este instituto se evidencia, pois trata não só do

110 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo curso de direito: responsabilidade civil, p.

144.

111 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro: responsabilidade civil, p. 17.

112 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo curso de direito: responsabilidade civil, p.

144.

113 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro: responsabilidade civil, p. 17.

114 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo curso de direito: responsabilidade civil, p.

144.

115 MARQUES, José Frederico. Tratado de direito penal. v. 2. 2. Ed. São Paulo: Saraiva, p. 212.

comportamento do agente, mas também do fim ou do propósito pretendido por este. E, neste propósito é que se encontra o dolo, ou seja, a vontade do agente de atingir aquele objetivo.

Neste toar, a falta de imperícia implica na ausência de técnica profissional para atingir o resultado almejado, podendo, ainda, ser entendida conforme acima dito, como negligência do agente causador do dano116.