2.3 ELEMENTOS ESSENCIAIS DA RESPONSABILIDADE CIVIL
2.3.2 Dano
O dano, elemento caracterizador da responsabilização, é um dos pressupostos de grande relevância, pois em não havendo o dano, independente de sua natureza, não há que se falar em Responsabilidade Civil. Deste modo, para a configuração da Responsabilidade Civil, conforme já dito, é necessário a existência de um dano ou prejuízo à vítima.
Segundo Gagliano e Pamplona Filho, “poderíamos conceituar o dano ou o prejuízo como sendo a lesão a um interesse jurídico tutelado – patrimonial ou não – causado por ação ou omissão do agente infrator”80. (grifo dos autores citados)
Enneccerus conceitua dano como sendo “toda desvantagem que experimentamos em nossos bens jurídicos (patrimônios, corpo, vida, honra, crédito, bem estar, capacidade de aquisição, etc.)”81. E finaliza: “[...] a obrigação de indenizar se limita ao dano patrimonial, a palavra dano se emprega correntemente, na linguagem jurídica, no sentido de indenizar”82.
Cavalieri Filho observa que:
O dano é, sem dúvida, o grande vilão da responsabilidade civil. Não haveria que se falar em indenização, nem em ressarcimento, se não houvesse o dano.
Pode haver responsabilidade sem culpa, mas não pode haver responsabilidade sem dano. [...] Tanto é assim que, sem dano, não haverá o que reparar, ainda que a conduta tenha sido culposa ou até dolosa [...]83.
80 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo curso de direito: responsabilidade civil, p.
40.
81 ENNECCERUS, Lehmann apud GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro: responsabilidade civil, p. 336.
82 ENNECCERUS, Lehmann apud GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro: responsabilidade civil, p. 336.
83 CAVALIERI FILHO, Sérgio. Programa de responsabilidade civil, p. 70-71.
E completa:
Conceitua-se, então, o dano como sendo a subtração ou diminuição de um bem jurídico, qualquer que seja a sua natureza, quer se trate de um bem patrimonial, quer se trate de um bem integrante da própria personalidade da vítima, como a sua honra, sua imagem, a liberdade, etc. Em suma, dano é a lesão de um bem jurídico, tanto patrimonial ou moral, vindo daí a conhecida visão do dano em patrimonial ou moral84.
Deste modo, ao conceituarmos o dano, mister a análise da natureza das concepções advindas do dano moral ou patrimonial, explicitadas a seguir:
2.3.2.1 Dano patrimonial
Na análise que acima se expôs, tem-se que o dano é todo prejuízo sofrido pela vítima, e que este dano poderá ser tanto patrimonial ou moral, dentre outras concepções. Neste subtítulo, será tratado brandamente acerca do dano patrimonial, apenas para esclarecer esta idéia ao leitor, pois este não se trata do objeto do estudo.
Gonçalves assevera que dano patrimonial ou material “é o dano que afeta somente o patrimônio do ofendido”85.
O dano patrimonial, também conhecido como dano material é aquele que atinge os bens integrantes patrimônio da vítima. Convém assinalar que o dano patrimonial poderá atingir o patrimônio futuro da vítima e não somente os bens materiais do presente. Desta forma, o dano patrimonial subdivide-se em dano emergente, como sendo aquele que importa imediata diminuição no patrimônio da vítima em razão da ação do infrator, ou o lucro cessante, sendo aquele dano que traga prejuízo na perda de um ganho esperado ou na frustração da expectativa de lucro86.
Em razão disso, pode-se afirmar que o dano patrimonial é aquele causado em prejuízo ao patrimônio ou os bens materiais do ofendido, não podendo passar além das coisas corpóreas.
84 CAVALIERI FILHO, Sérgio. Programa de responsabilidade civil, p. 70-71.
85 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro: responsabilidade civil, p. 338.
86 CAVALIERI FILHO, Sérgio. Programa de responsabilidade civil, p. 72.
2.3.2.2 Dano moral
No estudo deste tópico pretende-se esclarecer ao leitor o dano moral e sua fixação sob a óptica da Responsabilidade Civil, trazendo à baila conceito e a configuração deste instituto.
Para tanto, há que se tecerem algumas considerações acerca do dano moral.
O dano moral é conceituado por Gonçalves da seguinte maneira:
O dano moral é o que atinge o ofendido como pessoa, não lesando seu patrimônio. É lesão de bem que integra os direitos de personalidade, como a honra, a imagem, a dignidade, a intimidade, o bom nome, etc., como se infere nos arts. 1°, III, e 5°, V e X, da Constituição Federal, e que acarreta ao lesado, dor, sofrimento, tristeza, vexame e humilhação87.
Discorrendo acerca do assunto, Gagliano e Pamplona Filho assinalam que o dano moral é aquele decorrente na lesão de direito cujo conteúdo não é pecuniário, nem comercialmente redutível a dinheiro. Em outras palavras, o dano moral é aquele que atinge a esfera personalíssima da pessoa, ou conforme já dito, aquele que viola os direitos da personalidade previstos em nossa Constituição88.
O posicionamento de Venosa é no sentindo de que “dano moral é o prejuízo que afeta o ânimo psíquico89, moral e intelectual da vítima. Sua atuação é dentro dos direitos de personalidade” 90.
O Direito, consoante entendimento de Zannoni “não repara qualquer padecimento, dor ou aflição, mas aqueles que forem decorrentes da privação de um bem jurídico sobre o qual a vítima teria interesse reconhecido juridicamente”91.
Nesta perspectiva, Cavalieri Filho assegura que o dano moral afigura-se não somente pela ofensa aos preceitos constitucionais relativos à personalidade, mas também as consequências da ação do agente causador do dano. Neste toar, abre-se margem para a configuração do dano moral em diversas relações e situações nas quais as vítimas não passam
87 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro: responsabilidade civil, p. 357.
88 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo curso de direito: responsabilidade civil, p.
14.
89 Denomina-se “dano psíquico” o dano que pressupõe a mudança de personalidade, com sintomas palpáveis, como a depressão bloqueio ou inibições. Cf. VENOSA. Sílvio de Salvo. Direito civil. Responsabilidade civil, p.
38
90 VENOSA. Sílvio de Salvo. Direito civil. Responsabilidade civil. v. 4. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2007, p. 38.
91 ZANNONI, Eduardo apud GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro: responsabilidade civil, p.
358.
por detrimento algum, mas devido ao ato, as consequências podem ser aquelas previstas na CRFB/88 - Constituição da República Federativa do Brasil92.
Dito isso, o mesmo autor acrescenta: “[...] o dano moral é insusceptível de avaliação pecuniária, podendo apenas ser compensado com a obrigação pecuniária imposta ao causador do dano, sendo esta mais uma satisfação do que uma indenização”93.
Por derradeiro, após as considerações expostas, pode-se dizer que o dano moral é aquele que não atinge patrimônio, mas sim o íntimo do lesado, não sendo corpóreo, mas tão somente àquele que se refere ao abalo sofrido por este.