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Fornecedor – Conceito e Classificações

3.5 RESPONSABILIDADE CIVIL NAS RELAÇÕES DE CONSUMO

3.5.3 Fornecedor – Conceito e Classificações

escolha e da validade das cláusulas do contrato, visto que, consoante o artigo 51 do CDC, “são nulas todas as cláusulas contratuais consideradas abusivas, mesmo que o consumidor as tenha aceitado”184. E arremata dizendo que com relação ao direito à representação, isto consiste no direito de ser ouvido e de participar das decisões relativas aos seus interesses. Por fim, quando remetidos ao direito à reparação do dano, Leite conclui que este direito é disciplinado por duas seções do CDC, sendo a primeira os meios de reparação, e a segunda, a questão da responsabilidade185, esta última, ponto de partida do presente trabalho.

Destarte, conclui-se que o CDC faz parte de uma nova geração de direitos, apresentando de maneira categórica os direitos fundamentais garantidos ao consumidor, desde o tratamento da saúde, aquisição de produtos ou serviços, formas de apresentação dos produtos, até a forma de reparação de danos causados pela Relação de Consumo.

Complementando o artigo transcrito, Gonçalves assevera que incluídos nesta conceituação, estão o produtor, o fabricante, o comerciante, o prestador de serviços, bem como os órgãos do Poder Público que desenvolvam mencionadas atividades ou prestem serviços que caracterizem Relação de Consumo187. O citado autor ainda destaca que é tido como fornecedor “aquele que desenvolve atividade de produção, montagem, comercialização etc., mostrando que é a atividade que caracteriza alguém como produtor”188. Ou seja, a atividade significa não a prática de fatos isolados, mas de continuados e habituais.

Dito isso, infere-se que o fornecedor, de produtos ou serviços, está intimamente ligado ao desenvolvimento de determinada atividade, vale dizer, de uma atividade empresarial exercida de modo costumeiro e não somente de um ato isolado.

3.5.3.1 Fornecedor - Pessoa Física ou Jurídica

O Código de Defesa do Consumidor, em seu art. 3º estabelece o conceito de fornecedor, nele, se enquadra tanto as pessoas físicas, quanto as Pessoas Jurídicas, também, apresenta os entes despersonalizados que se enquadram nesta qualidade.

Leite, corroborando o acima dito, entende que desde que haja uma Relação de Consumo, estas pessoas poderão ser tanto Pessoas Físicas ou Jurídicas189. Com relação às Pessoas Jurídicas, que podem ser entes públicos ou privados, o referido autor assevera:

Entre as pessoas jurídicas incluem-se as de direito privado – inclusive as religiosas, científicas e de utilidade pública – e as de direito público interno da administração direta (União, Estados, Municípios e Distrito Federal) e indireta (Autarquias e fundações públicas) 190.

Por oportuno, como bem pontuou Sampaio, é necessário registrar que a Pessoa Jurídica “responde civilmente por ato ilícito praticada por terceiro (empregado e prepostos), como também por ato próprio, [...] este, advindo da prática ilícita de seu representante

187 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro: responsabilidade civil, p. 259.

188 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro: responsabilidade civil, p. 259.

189 LEITE, Roberto Basilone. Introdução ao direito do consumidor: os direitos do consumidor e a aplicação do Código de Defesa do Consumidor, p. 44.

190 LEITE, Roberto Basilone. Introdução ao direito do consumidor: os direitos do consumidor e a aplicação do Código de Defesa do Consumidor, p. 44.

legal”191, vale dizer, que esta responsabilização será apurada objetivamente, ou seja, bastando a comprovação do dano e do nexo causal.

Menciona, ainda, o citado autor que a Responsabilidade Civil das Pessoas Jurídicas de Direito Público, tal como o Estado, está prescrita no art. 37, § 6º, da Constituição Federal, onde se pode retirar que na qualidade de prestador de serviço, por meio de delegação de seus agentes, responde objetivamente e diretamente pelos danos ou prejuízos causado, ressalvado o direito de regresso contra quem praticou o ato lesivo, tudo isso, vale mencionar, se deve a adoção da teoria do risco adotada por este ente192.

Nunes, complementando o entendimento acima, e discorrendo acerca das Pessoas Jurídicas estrangeiras pontua:

A referência à pessoa jurídica estrangeira tem relevo na hipótese da pessoa jurídica admitida como estrangeira em território nacional e que, nessa qualidade, presta serviços ou vende produtos. Por exemplo, a companhia aérea que aqui faz escala ou a companhia teatral estrangeira que vem ao País para apresentações. Haverá em ambos os exemplos prestação de serviços, e pode haver venda de produtos: a empresa aérea que vende presentes a bordo;

a companhia teatral que vende pequenos objetos: camisetas, bichos de pelúcia etc193.

Já, no que concerne ao fornecedor Pessoa Física, pode-se dizer que o CDC apresenta a figura do Profissional Liberal como prestador de serviços, desde que tal prestação de serviço, assim como na Pessoa Jurídica, seja de forma habitual e não casualmente.

Nunes também discorre outras situações em que podem abranger o fornecedor Pessoa Física:

É aquela em que desenvolva atividade eventual ou rotineira de venda de produtos, sem ter-se estabelecido como pessoa jurídica. Por exemplo, o estudante que, para pagar a mensalidade da escola, compra jóias para revender entre os colegas ou o cidadão que compra e vende automóveis – um na seqüência do outro – para aferir lucro194.

191 SAMPAIO, Rogério Marrone de Castro. Direito civil: responsabilidade civil, p. 63.

192 SAMPAIO, Rogério Marrone de Castro. Direito civil: responsabilidade civil, p. 65.

193 NUNES, Luiz Antônio Rizzatto. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor, p. 111.

194 NUNES, Luiz Antônio Rizzatto. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor, p. 112.

Por fim, o art. 3º do CDC classifica ainda como fornecedor o ente despersonalizado, que para Nunes, podem ser compreendidos como a massa falida, o espólio, o condomínio e a família, que por sua vez, respondem pelos produtos ou serviços fornecidos195.

Por derradeiro, pode-se dizer que os fornecedores de produtos ou serviços, independente de sua natureza jurídica assim podem ser enquadrados, desde que a prestação de serviço ou venda do produto seja de forma costumeira. No entanto, os fornecedores Pessoas Físicas poderão incorrer para esta qualidade mesmo quando exercer de forma usual sua atividade, mas desde que se trate de uma Relação de Consumo. Já, no que concerne a sua responsabilização civil, as Pessoas Jurídicas, tanto de direito público ou privado, responderão objetivamente pelos prejuízos ou danos causados, ou seja, basta que a vítima comprove o nexo de causalidade e o dano, caberá ao fornecedor do produto ou serviço reestabelecer o status quo ante da vítima, ou por assim dizer, do consumidor.

3.5.3.2 Fornecedor – profissional autônomo ou liberal

Anteriormente restou demonstrado que os fornecedores de produtos ou serviços poderão ser Pessoa Física ou Jurídica. Aqui, pretende-se discorrer acerca do Profissional Liberal, que como antes já dito, teve sua atividade também regulamentada pelo CDC.

São profissionais autônomos, segundo a Silveira e Flores:

Profissional autônomo é todo aquele que exerce atividade profissional remunerada, regularmente, sem vínculo empregatício. [...] Esses profissionais estão incluídos no âmbito de atuação do CDC, pois estão inseridos dentro do conceito de fornecedor (art. 3 º), devendo, portanto, pautar sua atuação pelas normas dispostas pelo CDC196.

Por seu turno, Nunes apresenta as características da atividade autônoma exercida por estes profissionais:

[...] autonomia profissional, com decisões tomadas por conta própria, sem subordinação; prestação do serviço feita pessoalmente, pelo menos nos seus aspectos mais relevantes; feitura de suas próprias regras de atendimento

195 NUNES, Luiz Antônio Rizzatto. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor, p. 111

196 SILVEIRA, Cristiane Souza da; FLORES, Taís Cristina. Cartilha explicativa sobre o Código de Defesa do Consumidor, p. 33-34.

profissional, o que ele repassa ao cliente, tudo dentro do permitido pelas leis e em especial da legislação de sua categoria profissional197.

Já, a respeito dos Profissionais Liberais, conceitua Silveira e Flores “é o profissional que presta um serviço que se caracteriza pelo exercício predominante técnico e intelectual de determinados conhecimentos, como os médicos ou advogados”198.

Em contrapartida, Leite assevera que “os profissionais liberais, tais como o médico, advogado, engenheiro, contador e outros, também respondem como fornecedores pelos serviços prestados”199.

Nunes, por sua vez, diz que as Pessoas Físicas, sem serem enquadrados como Profissionais Liberais, também respondem pela prestação de seus serviços, tais como o encanador, o eletricista, etc.200.

Com relação à responsabilização civil, Almeida destaca que a regra geral da Responsabilidade Objetiva do fornecedor não se enquadra aos Profissionais Liberais, visto que estes somente serão responsabilizados mediante a apuração de sua culpa (art. 14, § 4 º, do CDC)201.

Este entendimento também não discrepa da jurisprudência do Egrégio Tribunal do Estado de Santa Catarina:

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO CONDENATÓRIA. DANOS MORAIS E MATERIAIS. TRATAMENTO ODONTOLÓGICO. APLICABILIDADE DA LEGISLAÇÃO CONSUMEIRISTA. PROFISSIONAL LIBERAL.

RESPONSABILIDADE SUBJETIVA. INTELIGÊNCIA DO ART. 14, § 4°. NECESSIDADE DE VEROSSIMILHANÇA DAS ALEGAÇÕES INICIAIS. MATÉRIA DE ALTA COMPLEXIDADE TÉCNICA. PROVA PERICIAL NÃO REALIZADA POR INÉRCIA DO AUTOR. PROVA ORAL PRODUZIDA. MEIO PROBATÓRIO INAPTO À VERIFICAÇÃO DO ALEGADO. INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA QUE NÃO DISPENSA UM MÍNIMO DE ATIVIDADE PROBANTE. DESLEIXO

PROCESSUAL DO CONSUMIDOR. HIPOSUFICIENTE.

IMPROCEDÊNCIA DO PEDIDO INICIAL. RECURSO DESPROVIDO. I.

A ‘inversão do ônus probatório’ em obséquio à aplicabilidade do Código de Defesa do Consumidor, não dispensa o consumidor da indicação

197 NUNES, Luiz Antonio Rizzato. Curso de direito do consumidor: com exercícios, p. 337.

198 SILVEIRA, Cristiane Souza da; FLORES, Taís Cristina. Cartilha explicativa sobre o Código de Defesa do Consumidor, p. 34.

199 LEITE, Roberto Basilone. Introdução ao direito do consumidor: os direitos do consumidor e a aplicação do Código de Defesa do Consumidor, p. 46.

200 NUNES, Luiz Antônio Rizzatto. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor, p. 112

201 ALMEIDA, João Batista de. A proteção jurídica do consumidor. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2002, p. 84.

objetiva e plausível, dos pressupostos da responsabilidade civil, aptos a embasar a indenização por danos morais e materiais decorrentes de tratamento realizado por profissional liberal. [...] (Apelação Cível. N°

2007.008077-9, rel. Des. Henry Petry Júnior. Órgão Julgador Terceira Câmara de Direito Civil, Julgado em 13/06/2008)202. (grifo nosso)

Por seu turno, Nunes arremata: “essa é a única exceção ao sistema da responsabilidade civil objetiva instituída pelo CDC”203, sendo que a finalidade da norma é submeter este profissional “à obrigação de indenizar com base na responsabilidade subjetiva, isto é, por apuração de culpa ou dolo”204.

Desta forma, diz-se que o profissional autônomo é aquele que exerce atividade profissional mediante remuneração sem vínculo empregatício, enquanto o Profissional Liberal ao exercer sua atividade, também remunerada, utiliza suas aptidões técnicas e intelectuais, sendo que este último responderá por seus atos somente após a verificação da sua culpa, visto que o próprio CDC no § 4º do art. 14, assim estabelece, isto é, o profissional responde subjetivamente, mediante a apuração da sua culpa no evento danoso, enquanto o profissional autônomo responderá civilmente pela forma objetiva, ou seja, mediante a comprovação da contratação pelo serviço e a existência do dano.

Feitas tais pontuações, afirma-se que Código de Defesa do Consumidor ao tratar da responsabilidade dos fornecedores de produtos ou serviços, trouxe uma inovação no que concerne aos profissionais liberais. Este, por sua vez, tem sua responsabilização tida como uma exceção a regra com relação aos demais fornecedores, visto que prescrito que a sua responsabilização será apurada mediante a verificação da sua culpa.