Summario. — 117. Os livros podem fazer prova pro ou contra o commerciante e seus successores.
117. Nos litígios entre commercíantes, os livros, que o Codigo declara obrigatorios, podem fazer prova plena relativa a faror ou contra o seu proprietario ou successores. E' o que explicaremos nas secções seguintes.
SECÇÃO I Da prova a favor do commerciante
Summario. — 118. Concurso de condições e circumstancias para a prova plena dos livros. — 119. Se o adversario recusa exhibir os seus livros, defere-se juramento suppletorio a outra parte. — 120. Prova dos livros que não reunem o concurso das condições e circumstancias legaes.
118. Os assentos ou registros constantes dos livros dos commercíantes fazem prova plena a favor do seu proprietario ou successores deste, mediando o concurso das seguintes condições e circumstancias:
a) Condições, quanto aos livros:
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1.ª) o preenchimento das formalidades legaes extrínsecas e intrínsecas (1);
2.") a ausencia de vicios ou defeitos (n. 113) (2):
3.') a perfeita harmonia entre todos elles (3).
b) Circurnstancias, quanto aos registros ou assentos:
1.ª) referencia do respectivo assento ou registro a docu- mentos que mostrem a natureza das transacções (4);
2.ª) prova documental de que o commerciante proprietario dos livros não foi omisso em dar em tempo competente os avisos necessarios e que a parte contraria os recebeu (6).
Como está claro, o conteúdo dos livros, por si só, não faz prova a favor do commerciante seu proprietario (7).
119. Se um dos litigantes, intimados para apresentar os livros a exame, recusa fazei-o, o juiz defere juramento sup- pletorio ao outro (7).
Como, porém, esse meio de prova é susceptível de impu- gnação e o juiz pode rejeital-o (Reg. n. 737, art. 171), o ad- versario cauteloso apresenta os seus livros a exame.
Então, dá-se plena fé a estes livros, se contiverem os re- quisitos extrínsecos e intrínsecos exigidos pela lei (8).
Neste caso unico, os livros, era fórma regular provam a favor de quem os escripturou ou mandou escripturar, inde- pendente do concurso das condições ou circurnstancias decla- radas no n. 118 supra.
(1-3) Cod. Com., art. 23, pr.
(4-5) Cod. Com., art. 23, n. 2.
(6) No exame de livros é indispensavel apresentar quesitos sobre cada uma dessas condições e circurnstancias, para que se não tenham trabalhos perdidos e despesas inuteis.
A prova documental dos avisosnecessarios é dispensavel quando o ponto controvertido a elles não se refere.
(7-8) Cod. Com., art. 20.
Juramento suppletorio não se defere quando não existe prata al- (Regul. n. 737, art. 168). No caso do art. 20 do Codigo, elle vem, muitas vezes, supprir esta falta de prova, em virtude da recusa dos livros.
— O Cod. Com. Portuguez de 1833 dispunha, no art. 227: «Todo aquelle que recusa apresentar os seus livros, quando o juiz o manda ou a parte «ontraria se offerece a prestar-lhes fé, gera uma presumpção contra si e o juiz pode em um e outro caso deferir o juramento á outra parte
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120. Se não occorre o concurso das circumstancias alludi-das em o n. 118 supra, os livros dos commerciantes podem constituir meia- prova, tambem chamada prova semi-plena ou principio de prova, a favor de quem os escripturou ou mandou escripturar, admittindo-se para completar esta prova imperfeita quaesquer outras, até mesmo presumpções?
Dizendo o art. 23 do Cod. Com. que os livros dos commerciantes fazem prova plena mediante o concurso daquellas circumstancias, tem- se concluído que, não se dando esse concurso, elles fornecem um principio de prova ou prova semiplena.
Esta classificação de provas em plenas e semi-plenas não assenta em base logica (1), e pouco se concilia com o systema probatorio da persuasão racional, adopta do em nosso processo civil.
O Regul. n. 737, força é confessar, adoptou a classificação, que o velho direito suffragava, e quanto á prova dos livros a favor do commerciante, seu proprietario, determinou a priori o seu valor, como já dissemos.
Os tribunaes têm, nesse thema, falado em meia-prova ou principio de prova dos livros dos commerciantes (2).
(1) Vide JOÃO MONTEIRO,Theoria do Processo, rol. 2 § 129.
MATTIROLO,Trattato di Diritto Giudiziario Oivile Italiano, vol. 2, n. 353, dá a seguinte idéa de que seja principio de prova: cSe a prova é, como diz DOMAT, tudo o que persuade o espirito da verdade de um facto; principio de prova deve ser tudo o que, incapaz, por si só, para produzir uma completa persuasão, apresenta somente ao espirito humano um argumento de probabilidade, maior ou menor.»
— Vide tambem as divisões de prova adoptadas pelo profundo PAULA
BAPTISTA,Processo Civil, § 135.
O Regulamento n. 787 refere-se a prova plena, e, no art. 691, a principio de prova por escripto. Não sabemos, nem o Regul. n. 737 o disse, qual o peso dessas provas semi-plenas ou principio de prova por escripto.
(2) Os livros commerciaes não constituem principio de prova escripta para tornar admissível a prova testemunhal em quantia superior á taxa legal. Acc. do Tribunal de Justiça de São Paulo, de 21 de Maio de 1898, na Gazeta Jurídica de S. Paulo, vol. 21, pag. 71. No mesmo sentido, o Acc. da Relação do Ceará, de 21 de Agosto de 1900, na Revista Annual dos Julgados deste Tribunal, 1900, pag.
104.— A Relação do Rio, em accordam de 20 de Agosto de 1872, declarou, em um dos seus consideranda, que «a escripturação dos livros só faz prova contra o commerciante a quem pertencem, fazendo apenas meia prova con tra terceiros, o que não basta para condemnação ou deducção, sem outro qualquer adminiculo».
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Parece-nos que a questão acima proposta resolve-se, de accordo com os princípios do nosso processo, nos seguintes termos:
A prova pelos livros dos commerciantes é perfeita, accei- tavel sem discussão, quando concorrem as condições e as cir- cumstancias expostas em o n. 118.
O juiz não tem a liberdade de se afastar dessa prova, como não teria se se achasse perante uma escriptura publica (Regul. n.
737, art. 140 § 1.°). um instrumento particular, as-signado pela parte contra a qual é exhibido (Regul. cit., art. 141 § 1.°), a confissão (Regul. cit, art. 157), etc.
Sem o concurso daquellas circumstancias, os livros, entre- tanto, não perdem de todo o seu merecimento. O juiz deve apreciar o seu valor probante com justo criterio logico, e uma vez excluída a possibilidade de duvida, ou, por outra, dando-lhe o conhecimeuto da verdade, não ha razão para os desprezar.
Para garantir a exacta avaliação da prova, nesse caso, existem: para o juiz a obrigação de motivar a sentença (Regul.
O exímio TEIXEIRA DE FREITAS,nos Ádditamentos ao Codigo, pag. 398, commenta muito bem este accordam: «E' patente o engano da redacção deste accordam, preoccupado com a meia prova (prova semi-plena) que a legislação anterior só attribuia aos livros commerciaes e que auctorisava o juramento suppletorio (PEREIRA E SOUSA,Primeiras Linhas Civis, not. 469 e § 243). Como escrever que a escripturação de taes livros só faz prova contra o commerciante seu proprietario, se o contrario legisla o art. 23, ns. 2 e 3, declarando fazerem prova plena, sob certos requisitos, contra as respectivas partes contractantes e portanto a favor do dono de taes livros? Outro engano deste accordam é chamar terceiros as respectivas partes contractantes. Contra terceiros os livros commerciaes nem fazem a meia prova supposta pelo accordam, nem mesmo prova alguma, e por ser assim le-se no art. 141 § 3.° do Regul. n. 737, que os li- vros commerciaes constituem prova plena relativa; isto é, (art. 144) res-tricta ás partes contractantes e seus herdeiros.*
— Antes do Codigo Commercial, á regra que o instrumento particular não provava a favor de quem o escrevia, abria-se excepção para os livros dos negociantes e mercadores, que faziam prova semi-plena: 1.º se o negociante ou mercador fosse pessoa de probidade; 2.º se os seus livross e achassem mercantilmente escripturados; 3.º se fossem por elles mesmo escriptos ou por outrem da sua approvação; 4.º se estivessem curiaes e sem cancellações ou outros vícios; õ.° se contivessem causa expressa de divida; 6.º se somente respeitassem ao seu commercio e as suas addições fossem verosímeis. PEREIRA E SOUSA, Primeiras Linhas, ed. Lisboa, 1834, nota 469; MELLO FREIRE, Tratado do Juramento Suppletorio, no 3.º vol. das Segundas Linhas, § 20.
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n. 737, art. 232) e para a parte a faculdade do recurso de ap- pellação para um tribunal collectivo, onde possa ser melhor apre- ciada essa prova.