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estas comparações, no entanto, têm de lidar não só com semelhanças, mas também com diferenças. A ânsia pela descoberta de semelhanças leva os autores a não perceber ou até mesmo a fazer desaparecer suas discrepân- cias. O primeiro dever do historiador é lidar com os eventos históricos.

Comparações feitas posteriormente, com base num conhecimento mais perfeito possível dos eventos, podem não fazer mal, e até mesmo serem instrutivas. Comparações que acompanhem ou até mesmo antecedam o estudo das fontes criam confusões, quando não meras fantasias.

filosófico e poético das ideias expressas em sua literatura. Outras servem apenas como objeto de investigação filológica.

O processo que resultou na extinção de um idioma foi, em muitos ca- sos, apenas o crescimento linguístico e a transformação da língua oral.

Uma longa sucessão de pequenas mudanças alterou as formas fonéticas, o vocabulário e a sintaxe de maneira tão intensa que as gerações posteriores não eram mais capazes de ler os documentos legados por seus ancestrais.

O vernáculo acabou por se transformar num idioma novo e distinto; o idioma antigo só podia ser compreendido por aqueles que tinham um trei- namento especial. A morte de uma língua antiga e o nascimento de uma nova foram o resultado de uma evolução lenta e pacífica.

Em muitos casos, no entanto, a mudança linguística foi o resultado de eventos políticos e militares. Pessoas que falavam um idioma estrangeiro obtiveram hegemonia política e econômica, através da conquista militar ou da superioridade de sua civilização. Aqueles que falavam o idioma na- tivo ficaram relegados a uma posição subordinada. Devido à sua condição inferior social e política, o que eles tinham a dizer e como eles o diziam não importava muito. Os negócios importantes eram realizados unicamente na língua dos seus senhores. Governantes, tribunais, igrejas e escolas uti- lizavam apenas este idioma; era a língua das leis e da literatura. O antigo idioma nativo era utilizado apenas pelo populacho inculto. Sempre que um membro destas classes inferiores queria ascender a uma posição mais elevada, ele tinha primeiramente que aprender o idioma de seus senhores.

O vernáculo estava reservado aos mais obtusos e menos ambiciosos; ele passou a ser desprezado e, finalmente, esquecido. O idioma estrangeiro havia suplantado o idioma nativo.

Os eventos políticos e militares que impulsionaram esse processo lin- guístico caracterizaram-se, em muitos casos, pela crueldade tirânica e pela perseguição impiedosa de todos os oponentes. Estes métodos foram rece- bidos com aprovação por alguns filósofos e moralistas das eras pré-capita- listas, assim como também receberam, ocasionalmente, elogios de “idea- listas” contemporâneos quando os socialistas recorreram a eles. Mas, para o “dogmatismo racionalista espúrio dos doutrinários liberais ortodoxos”, eles parecem chocantes. Os escritos históricos destes não partilhavam da- quele elevado relativismo que induziu os historiadores autoproclamados

“realistas” a explicar e justificar tudo o que aconteceu no passado e defen- der as instituições opressoras que ainda sobrevivem. (Como um crítico ob- servou, repreensivamente, antigas instituições não despertam entusiasmo nos utilitaristas; “elas são apenas encarnações do preconceito”.12) Não são

12 Leslie Stephens, The English Utilitarians (Londres, 1900), 3, 70 (sobre J. Stuart Mill).

necessárias maiores explicações sobre porque os descendentes das vítimas daquelas perseguições e opressões julgaram de maneira diferente a expe- riência de seus ancestrais, e menos ainda porque eles tinham a intenção de abolir aqueles efeitos do despotismo passado que ainda lhes feria. Em alguns casos, não satisfeitos em eliminar a opressão ainda existente, eles planejavam também desfazer as mudanças que não mais lhes causavam qualquer mal, por mais prejudicial e maligno que tenha sido o processo que as implementou num passado distante. É exatamente isto que as ten- tativas de desfazer as mudanças linguísticas têm como meta.

O melhor exemplo pode ser visto na Irlanda. Estrangeiros haviam in- vadido e conquistado o país, expropriaram os proprietários de terra, des- truíram a sua civilização, organizaram um regime despótico e tentaram converter seu povo à força a uma crença religiosa que eles desprezavam. O estabelecimento de uma igreja estrangeira não conseguiu fazer com que os irlandeses abandonassem o catolicismo romano. Mas o idioma inglês con- seguiu suplantar o gaélico nativo. Quando, posteriormente, os irlandeses conseguiram, passo a passo, sobrepujar seus opressores estrangeiros e ad- quirir, finalmente, a independência política, a maior parte deles já não era diferente dos ingleses, linguisticamente. Eles falavam inglês e seus escri- tores mais importantes escreveram livros em inglês – dentre os quais estão algumas das obras mais importantes da literatura universal moderna.

Esta situação fere os sentimentos de muitos irlandeses. Eles querem in- duzir seus concidadãos a retornar ao idioma que seus ancestrais falavam em eras passadas. Existe pouca oposição aberta a estes interesses. Poucas pessoas têm coragem de combater abertamente um movimento popular, e o nacionalismo radical é, nos dias de hoje, ao lado do socialismo, a ideologia mais popular. Ninguém quer arriscar ser estigmatizado como inimigo da sua nação. No entanto, forças poderosas estão resistindo silenciosamente à reforma linguística. As pessoas se apegam ao idioma que falam, pouco importando se aqueles que o querem suprimir são déspotas estrangeiros ou zelotes domésticos. Os irlandeses modernos têm plena consciência das vantagens que obtêm com o fato de que o inglês é a língua mais importante da civilização contemporânea, que todos têm de aprender para poder ler muitos livros importantes ou desempenhar um papel relevante no comércio internacional, nas questões mundiais e nos grandes movimentos ideológi- cos. Exatamente porque a Irlanda é uma nação civilizada, cujos autores não escrevem para um público limitado, mas para todas as pessoas educadas, as chances de uma substituição do inglês pelo gaélico são escassas. Nenhum sentimentalismo nostálgico pode alterar estas circunstâncias.

Deve-se mencionar que as intenções linguísticas do nacionalismo irlandês foram motivadas por uma das doutrinas mais amplamente adotadas do século

XIX. O princípio do nacionalismo, tal como é aceito por todos os povos da Eu- ropa, postula que todo grupo linguístico deve formar um estado independente, e que este estado deve englobar todas as pessoas que falam o mesmo idioma.13 Do ponto de vista deste princípio, uma Irlanda que fala inglês deveria pertencer ao Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda, e a simples existência de um Estado Livre Irlandês independente parece ser irregular. O prestígio que o princípio da nacionalidade gozava na Europa era tão colossal que diversos povos que deseja- vam formar um estado próprio, e cuja independência estava em desacordo com este princípio, tentaram mudar seu idioma para poder justificar suas aspirações sob a sua luz. Isto explica a atitude dos nacionalistas irlandeses, mas não afeta o que foi dito sobre as implicações de seus planos linguísticos.

Um idioma não é apenas um conjunto de sinais fonéticos. É um instru- mento de pensamento e ação. Seu vocabulário e sua gramática se ajustam à mentalidade dos indivíduos aos quais servem. Um idioma vivo - falado, escri- to e lido por homens vivos – está mudando continuamente, em harmonia com as mudanças que ocorrem nas mentes daqueles que o utilizam. Um idioma que caiu em desuso está morto, porque não sofre mais alterações. Ele reflete a mentalidade de um povo que há muito já morreu. Ele é inútil para pesso- as de outra época, independentemente destas pessoas serem, biologicamente, descendentes daqueles que costumavam utilizá-lo ou apenas acreditam ser seus descendentes. O problema não está nos termos que se referem a coisas tangíveis; estes termos podem ser fornecidos através de neologismos. São os termos abstratos que representam problemas insolúveis. Sedimento das con- trovérsias ideológicas de um povo, de suas ideias a respeito de questões envol- vendo a religião e o conhecimento puro, instituições legais, organização po- lítica e atividades econômicas, estes termos refletem todas as vicissitudes de sua história. Ao aprender o seu significado, a nova geração se inicia no meio mental no qual terá que viver e trabalhar. O significado de diversas palavras está num fluxo contínuo, respondendo a mudanças nas ideias e condições.

Aqueles que desejam reviver um idioma morto devem, na realidade, criar a partir de seus elementos fonéticos um novo idioma, cuja sintaxe e vocabulário estejam ajustados às condições do presente, totalmente diferentes daquelas do passado. A língua de seus ancestrais não tem utilidade para os irlandeses mo- dernos. As leis da Irlanda atual não podem ser escritas no vocabulário antigo;

Shaw, Joyce e Yeats não poderiam tê-lo utilizado em suas peças, romances e poemas. Não se pode apagar a história e retornar ao passado.

Os planos de se elevar dialetos locais ao nível de uma língua apropriada para a literatura e outras manifestações de pensamento e ação são diferen- tes das tentativas de se reviver idiomas mortos. Quando a comunicação

13 Mises, Omnipotent Government (New Haven, Yale University Press, 1944), p. 84-9.

entre as diferentes partes do território de uma nação era esporádica, de- vido à escassez da divisão de trabalho e às estruturas de transporte serem primitivas, havia uma tendência à fragmentação da unidade linguística.

Diferentes dialetos se desenvolveram a partir da língua falada pelo povo que havia se estabelecido na região. Por vezes estes dialetos acabavam evo- luindo e se transformando numa língua literária distinta, como foi o caso do idioma holandês. Em outros casos, apenas um dos dialetos se tornou uma língua literária, enquanto os outros continuaram sendo utilizados na vida cotidiana, mas não nas escolas, tribunais, livros, e nas conversas entre pessoas educadas. Foi isto o que ocorreu na Alemanha, por exemplo, onde os escritos de Lutero e dos teólogos protestantes deram ao idioma da

“Chancelaria Saxônica” uma posição preponderante, e reduziram todos os outros dialetos a um patamar secundário.

Sob o impacto do historicismo, brotaram movimentos que têm como meta desfazer este processo e elevar os dialetos à categoria de línguas lite- rárias. A mais notória destas tendências é o Félibrige, que tenciona restau- rar o idioma provençal à importância que ele gozava como Langue d’Oc.

Os felibristas, liderados pelo célebre poeta Mistral, foram suficientemente sensatos para não propor uma substituição completa do francês pelo seu idioma. No entanto, até mesmo os prospectos de sua ambição, muito mais modesta, de criar uma nova poesia provençal, parecem ser pouco auspi- ciosos. Não se pode imaginar qualquer uma das obras-primas francesas modernas sendo compostas em provençal.

Os dialetos locais de diversos idiomas foram utilizados em romances e peças que mostram a vida das pessoas incultas. Muitas vezes há uma insin- ceridade inerente a estas obras. O autor se põe, de maneira condescendente, no mesmo nível de pessoas de cuja mentalidade ele nunca compartilhou ou que há muito tempo superou. Ele se comporta como um adulto que se digna a escrever livros para crianças. Nenhuma obra literária atual pode se alienar do impacto das ideologias de nosso tempo. Depois de ter passado pelas esco- las destas ideologias, um autor não pode querer se disfarçar de um simples homem comum e adotar sua fala e seu modo de ver o mundo e querer ser bem-sucedido ao fazê-lo. A história é um processo irreversível.

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