O último ponto a ser tratado neste estudo é a possibilidade de deferimento da liminar, transferindo poderes investigativos à Polícia Federal, sob controle do Ministério Público Federal antes mesmo da análise do mérito do Incidente de Deslocamento de Competência.
Vladimir Aras245 entende ser possível o deferimento de medida liminar pleiteada pelo PGR, de forma a autorizar o Ministério Público Federal a antecipar a produção de provas a fim de que fique assegurado o êxito de futura persecução criminal na Justiça Federal.
244 ORGANIZAÇÃO DOS ESTADOS AMERICANOS. Regulamento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. 2009.
245 ARAS, Vladimir. Federalização dos crimes contra os direitos humanos. Disponível em:
<http://www.juspodivm.com.br/novo/Artigo-IDC.pdf>. Acesso em: 31 jan. 2015.
O STJ também entendeu pela possibilidade de deferimento de medida liminar, embora não haja norma legal ou regimental dispondo sobre o trâmite e o processamento deste incidente. Assim, no IDC nº 05, de relatoria do Ministro Rogério Schietti Cruz, foi proferida decisão monocrática neste sentido:
Considerando que já se passaram mais de oito meses desde o relatado homicídio e que a falta de entendimento entre a Polícia Civil e o Ministério Público estadual tem ensejado um conjunto de falhas na investigação criminal que pode acabar comprometendo o resultado da persecução penal – com riscos, inclusive, de gerar a impunidade dos mandantes e executores do noticiado crime –, defiro o pedido de fls. 5233/5234, para que seja autorizada à Polícia Federal, com atuação do Ministério Público Federal, a colheita de elementos indiciários, em caráter urgente e precário, que não constituam reserva de jurisdição e que possam ter o resultado comprometido com o decorrer do tempo, até o julgamento final deste Incidente de Deslocamento de Competência.246
Dessa forma, infere-se que apenas as provas não submetidas à reserva de jurisdição poderão ser colhidas liminarmente pela Polícia Federal, ou seja, apenas aquelas que não necessitam de prévia determinação judicial. Sobre a cláusula de reserva de jurisdição traslada-se trecho do voto proferido no Mandado de Segurança nº 23.452 pelo Ministro Celso de Mello:
O postulado da reserva constitucional de jurisdição importa em submeter, à esfera única de decisão dos magistrados, a prática de determinados atos cuja realização, por efeito de explícita determinação constante do próprio texto da Carta Política, somente pode emanar do juiz, e não de terceiros, inclusive daqueles a quem se haja eventualmente atribuído o exercício de
"poderes de investigação próprios das autoridades judiciais". A cláusula constitucional da reserva de jurisdição - que incide sobre determinadas matérias, como a busca domiciliar (CF, art.
5º, XI), a interceptação telefônica (CF, art. 5º, XII) e a decretação da prisão de qualquer pessoa, ressalvada a hipótese de flagrância (CF, art. 5º, LXI) - traduz a noção de que, nesses temas específicos, assiste ao Poder Judiciário, não apenas o direito de proferir a última palavra, mas, sobretudo, a prerrogativa de dizer, desde logo, a primeira palavra, excluindo-se, desse modo, por força e autoridade do que dispõe a própria Constituição, a possibilidade do exercício de iguais atribuições, por parte de quaisquer outros órgãos ou autoridades do Estado. 247 (grifou-se)
246 BRASIL, Superior Tribunal de Justiça. Incidente de Deslocamento de Competência n.5/PE.
Decisão Monocrática. Rel. Ministro Rogério Schietti Cruz, Terceira Seção, proferida em 01/07/2014.
247 BRASIL, Supremo Tribunal Federal. Mandado de Segurança nº 23.452, Rel. Ministro Celso de Mello, Tribunal Pleno, julgado em 16/09/1999.
Dessa forma, infere-se que há possibilidade de deferimento de medida liminar no IDC, no entanto, foi muito bem colocada a exceção àquelas provas decorrentes de reserva de jurisdição, isso porque a Polícia e o MP Federal não estão ligados ao juiz estadual que conduz e defere esses meios investigatórios, muito menos podem requerê-los à Justiça Federal, eis que ainda não é competente.
Destarte, melhor que essas espécies de provas continuem a ser colhidas pela Polícia Civil, sob controle do Ministério Público Estadual, até a análise de mérito, sem prejuízo de eventual cooperação entre estes órgãos.
Esta pesquisa teve por finalidade investigar os critérios estabelecidos pelo Superior Tribunal de Justiça no julgamento do Incidente de Deslocamento de Competência de crimes que violam gravemente direitos humanos, previsto no art. 109, inciso V, § 5º da Constituição Federal.
O tema é extremamente pertinente ante a situação que vivenciamos nos dias atuais, principalmente em algumas regiões do país, onde predomina a irrefreada criminalidade, atuação de grupos de extermínio e envolvimento de agentes públicos. Ainda, observa-se a incapacidade estatal de investigar e punir tais delitos, sobretudo, vista a precária infraestrutura destes órgãos e influência de interesses públicos e privados.
Dessa forma, o IDC foi criado com a finalidade de atender ao clamor público que urge por justiça. Com o deslocamento da competência da Justiça Estadual para a Justiça Federal objetiva-se maior qualidade e imparcialidade nas investigações e processamento destes crimes, posto que esta última teria maiores recursos, além de, em tese, não estar submetida à influência regional.
Ademais, a proteção internacional dos direitos humanos é tão extensa que não poderia ser diferente a nível nacional. Assim, a transferência da competência de crimes que violam gravemente direitos humanos para um órgão judiciário federal, com atuação da Polícia e do Ministério Público Federal, traz muitos benefícios ao Estado, visto que este será mais valorizado pelos entes internacionais, além de diminuir o risco de sofrer condenação nos Tribunais Internacionais, já que haveria mais zelo e celeridade na persecução criminal.
No entanto, em que pese o louvável propósito dos legisladores, a Emenda Constitucional nº 45/2004 – no que tange às alterações promovidas no art. 109 da CRFB/88, no caso, a criação do Incidente de Deslocamento de Competência – poderia ter sido melhor formulada, eis que o Judiciário acabou por ficar encarregado de suprir certas omissões.
Isto posto, restou ao Superior Tribunal de Justiça estabelecer critérios para aferir se a violação aos direitos humanos é, de fato, grave, bem como para determinar se, além de cabível, o incidente é necessário, já que por ser uma medida extrema deve ser evitado seu uso corriqueiro.
Neste ponto, vale relembrar as hipóteses propostas para esta pesquisa, já elencadas na introdução:
Hipótese 1: A necessidade de demonstração da incapacidade das autoridades locais em investigar ou processar o crime que viola gravemente direitos humanos é um critério estabelecido pelo Superior Tribunal de Justiça.
Hipótese 2: As qualidades das vítimas são analisadas pelo Superior Tribunal de Justiça como critério para avaliar se o crime viola gravemente direitos humanos.
Hipótese 3: As qualidades dos autores do crime são analisadas pelo Superior Tribunal de Justiça como critério para avaliar se o crime viola gravemente direitos humanos.
Após estudo, verifica-se que a primeira hipótese restou confirmada. Isso porque é unânime o entendimento de que a caracterização de grave violação aos direitos humanos e de risco de responsabilização internacional não é suficiente para fundamentar o deferimento da medida. Há de se demonstrar a necessidade e excepcionalidade, para tanto, deve estar presente a ineficácia das autoridades locais.
Conforme já analisado, esta incapacidade pode se dar ainda na fase investigatória ou durante o processo penal, e será constatada diante da morosidade excessiva na conclusão do Inquérito Policial ou processamento do feito, bem como na falta de entendimento operacional entre os órgãos do judiciário, Ministério Público e Polícias Civil e Militar. Ainda, a incapacidade das autoridades em promover a segurança pública também pode influenciar no julgamento do IDC, tendo em vista o temor que tal situação de impunidade causa nas testemunhas.
Quanto à hipótese 2, também houve plena confirmação, eis que as qualidades das vítimas são critérios que o STJ analisa durante o voto, sendo posteriormente sopesadas quando do deferimento ou não da medida.
Verifica-se que as características que mais influenciam os julgados são duas: a atuação da vítima na defesa dos direitos humanos, e o reconhecimento público, poder aquisitivo e/ou político destas.
Tem-se que a primeira característica possui extrema importância e foi determinante nos julgados analisados, posto que a Corte Interamericana de Direitos Humanos já decidiu que os defensores dos direitos humanos devem ser protegidos pelo Estado, e que crimes contra eles cometidos assumem dimensão muito maior que um crime comum, visto que toda a sociedade é atingida.
Já a segunda característica relaciona-se melhor com a motivação interna do Procurador-Geral da República e dos Ministros do STJ, isso porque o fato da vítima ser internacionalmente reconhecida, estar no meio político, ser Promotor de Justiça, e mesmo situações em que juízes, promotores e outras autoridades são ameaçadas, exerce certa influência nas decisões. No entanto cabe ressaltar que, embora estas sejam características muito mencionadas nos acórdãos, infere-se que não são critérios decisivos para o deferimento. Dessa forma, a imparcialidade dos julgadores resta conservada.
No entanto, deve-se observar que, de quatro incidentes propostos, em três as vítimas eram pessoas reconhecidas. Ainda, o único cujas vítimas eram, diga-se, “comuns”, atingiu enormes proporções devido a dezenas de outros crimes cometidos no mesmo contexto por policiais militares. Dessa forma, embora o reconhecimento público das vítimas não seja determinante, os julgados levam à concluir que, até o momento, apenas os crimes notórios, que atraíram atenção da mídia e de toda a sociedade, foram objeto do IDC, pelo que há risco de desvirtuamento de sua finalidade precípua.
A terceira hipótese, por sua vez, também foi confirmada no decorrer da pesquisa. De fato, as qualidades dos autores dos crimes são critérios estabelecidos pelo STJ para averiguar a existência de grave violação aos direitos
humanos. Nos casos analisados assumiram destaque duas condições: a atuação de grupos de extermínio, e o envolvimento de agentes estatais no cometimento dos crimes.
Quanto à atuação de grupos de extermínio, os julgados discorreram extensamente sobre a gravidade dos crimes inseridos neste contexto.
Isso porque esses grupos agem impunimente e não respeitam o Estado Democrático de Direito, assim são um perigo para toda a sociedade, como também para o governo. Outrossim, também é manifesta a dificuldade encontrada pelos órgãos dos Entes Federativos em reprimir esses crimes, até porque esses grupos contam com a participação de policiais e conivência de autoridades locais.
Outra característica dos autores dos crimes é sua qualidade de policial, ou outro agente do Estado. Novamente, esses crimes são por demasiado graves pois são cometidos por agentes estatais, que, ao invés de desempenhar sua função de proteger a sociedade, geram mais criminalidade.
Assim, restou claramente demonstrado que as qualidades do autores delitivos são utilizadas como critérios pelo STJ, de modo a demonstrar a gravidade dos crimes violadores de direitos humanos.
Ante o exposto, verifica-se que ao Superior Tribunal de Justiça não restou outra opção a não ser estabelecer os critérios supra mencionados a fim de averiguar se o deferimento do IDC é medida justa e acertada para cada caso.
Desse modo, em que pese especulação acerca da discriminação eventualmente promovida por estes critérios, nota-se que eles possuem a importante função de impedir a banalização do Incidente de Deslocamento de Competência.
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