Segundo o entendimento de Cláudio Bonatto e Paulo Valério Dal Pai Moraes, “a única exceção do Código de Defesa do Consumidor no tocante à responsabilidade civil baseada na culpa diz respeito aos profissionais liberais” 262.
Para melhor entender o porquê a Responsabilidade Civil de tais profissionais é subjetiva, é mister fazer a conceituação de profissionais liberais, onde Tupinambá Castro do Nascimento, citado por Domingos Afonso Kriger Filho, esclarece que:
Há uma primeira colocação que advém do adjetivo liberal. É toda profissão cujo exercício se da por conta e risco próprios. Na pureza da expressão, profissional liberal é quem não mantém vínculo de emprego subordinado a terceira pessoa em relação a atividade que presta. O que se está acentuando é que a atividade que presta como profissional liberal é por conta própria, sem qualquer vínculo de subordinação com outrem. Entretanto, nem tudo que tem autonomia na prestação de serviço é profissional liberal.Um reparador de rede residencial que trabalha por conta própria, sem relação empregatícia, é um autônomo, mas não um profissional liberal. Este se configura se, além da autonomia, o conteúdo de serviço executado depende de conhecimento científico alcançados numa universidade, com concessão de habilitação. São os advogados, médicos, dentistas, farmacêuticos, etc. 263.
No parágrafo 4º do artigo 14 do CDC, está mencionando de forma explícita que a Responsabilidade Civil de tais profissionais é subjetiva, ou seja, tem que ter a existência da culpa do profissional: “§ 4º. A responsabilidade pessoal dos profissionais liberais será apurada mediante a verificação de culpa” 264.
260 “§6º as pessoas jurídicas de direito público e as de direito privado prestadoras de serviços responderão pelos danos que seus agentes, nessa qualidade, causarem a terceiros, assegurados o direito de regresso contra o responsável nos casos de dolo ou culpa”. Cf. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 05
de outubro de 1988. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constitui%C3%A7ao.htm>. Acesso em: 25 de maio de 2009.
261 NUNES, Luiz Antônio Rizzatto, 1956- Comentários ao Código de Defesa do Consumidor, p. 340.
262 BONATTO, Cláudio; MORAES, Paulo Valério Dal Pai. Questões controvertidas no Código de Defesa do Consumidor: principiologia, conceitos, contratos, p. 126.
263 1991 apud KRIGER FILHO, Domingos Afonso. A responsabilidade civil e penal no código de proteção e defesa do consumidor, p. 71.
264 BRASIL. Lei 8.078, de 11 de setembro de 1990: Código de defesa do consumidor. Disponível em: <
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L8078.htm>. Acesso em: 25 de maio de 2009.
Roberto Basilone Leite reafirma o que foi dito pelo autor Cláudio Bonatto, relembrando que a única exceção à Responsabilidade Objetiva do CDC é a que está prevista no artigo 14, § 4º, onde exige a verificação da culpa do profissional liberal 265.
No que diz respeito ao tratamento de forma mais benéfica da Responsabilidade Civil dos profissionais liberais, Domingos Afonso Kriger Filho entende que:
Em nosso modo de ver, a adoção da responsabilidade subjetiva para os profissionais liberais se dá porque estes só podem se propor a utilizar todos os meios ao seu alcance e seu conhecimento para realizar o serviço contratado, o que enseja a sua responsabilidade caso estes meios não sejam utilizados adequadamente, pois tal situação caracteriza a culpa profissional266.
No entanto, percebe-se que há uma distinção na Responsabilidade Civil entre os profissionais liberais e os demais fornecedores, onde a diferença está entre as obrigações, sendo que elas podem ser de resultado e de meio, onde o autor acima citado traz o conceito das duas obrigações para poder entender essa distinção de Responsabilidade:
[...] obrigações de resultado (aquelas em que o devedor se obriga a atingir determinado fim contratado), e das obrigações de meio (aquelas em que o devedor envida todos os esforços para atingir determinado fim), obrigações estas tradicionais no direito privado, sempre que na relação de consumo se estipule um vínculo que tenha por objeto a utilização de todos os esforços à disposição do fornecedor liberal para alcançar certo resultado 267.
Ademais, Luiz Antônio Rizzatto Nunes, confirma o relato do autor Domingos Kriger dizendo que, sem sombra de dúvidas, a caracterização, de modo geral, do profissional liberal é a obrigação de meio:
Isto é, o profissional não assegura o fim de sua própria atividade. Não porque não deseje, mas porque não pode. Assim, por exemplo, não pode – nem deve – um psiquiatra afirmar que irá obter a cura do problema mental de seu cliente. Da mesma maneira não pode – nem deve, nem tem condições objetivas – um advogado afirmar a seu cliente que este sairá vitorioso no julgamento pelo Júri do processo criminal. E, ainda, num terceiro exemplo, não pode – e não deve – o cirurgião dizer para o paciente não se preocupar
265 LEITE, Roberto Basilone. Introdução ao direito do consumidor: os direitos do consumidor e a aplicação do código de defesa do consumidor, p. 143.
266 KRIGER FILHO, Domingos Afonso. A responsabilidade civil e penal no código de proteção e defesa do consumidor, p. 71.
267 KRIGER FILHO, Domingos Afonso. A responsabilidade civil e penal no código de proteção e defesa do consumidor, p. 71.
porque a cirurgia de transplante de coração correrá bem e, sem nenhuma dúvida, o operado voltará a sua vida normal 268.
Contudo, não se pode excluir a hipótese de haver a Responsabilidade Civil do profissional liberal pela obrigação de fim. O autor acima citado faz menção dessa hipótese nos seus comentários ao Código de Defesa ao Consumidor da seguinte forma:
Alguns serviços profissionais são de fim, exatamente porque: a) pressupõem a capacitação profissional do prestador de serviço; b) não dependem de nenhuma outra circunstância – como acontece na atividade-meio, conforme visto acima – a não ser da própria habilitação profissional do prestador do serviço 269.
Sendo assim, Luis Antônio Rizzatto Nunes, cita como exemplo da Responsabilidade do profissional liberal pela obrigação-fim, o seguinte caso:
Um arquiteto, também tido como profissional liberal, é contratado para elaborar a planta de uma casa. Essa é típica atividade-fim, pois, tendo em vista a capacitação técnica do arquiteto, não se espera que, executada a construção da casa com base na planta projetada, aquela, por exemplo, não caiba no terreno 270.
Para comprovar que a Responsabilidade Civil dos profissionais liberais é, em regra, a subjetiva, menciona-se a Apelação Cível de n. 2003.028466-4, de Camboriú - SC, proferida no dia 04 de dezembro de 2008, decidida pela Primeira Câmara de Direito Civil, nos termos do voto do relator Joel Dias Figueira Júnior, que segue:
APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE REPARAÇÃO POR DANOS MORAIS E
MATERIAIS. RESPONSABILIDADE CIVIL DO MÉDICO
(SUBJETIVA). APLICAÇÃO DO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR. POSSIBILIDADE DE INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA. LESÃO DO NERVO RADIAL APÓS CIRURGIA REALIZADA PELO RÉU, EM DECORRÊNCIA DE FRATURA NO BRAÇO SOFRIDA PELA AUTORA. ALEGAÇÃO DE NEGLIGÊNCIA, IMPRUDÊNCIA E
IMPERÍCIA MÉDICA. CULPA NÃO CARACTERIZADA.
DEMONSTRAÇÃO DE QUE O PROFISSIONAL DEMANDADO
TOMOU TODAS AS PRECAUÇÕES E REALIZOU OS
PROCEDIMENTOS NECESSÁRIOS AO TRATAMENTO DA
ENFERMIDADE. AUSÊNCIA DE NEXO DE CAUSALIDADE. LESÃO OCASIONADA PELO PRÓPRIO TRAUMA SOFRIDO, BEM COMO PELA ADERÊNCIA DO NERVO AO CALO ÓSSEO FORMADO NO LOCAL APÓS O PROCEDIMENTO CIRÚRGICO E PELA AGRESSÃO
268 NUNES, Luiz Antônio Rizzatto, 1956- Comentários ao Código de Defesa do Consumidor, p. 225.
269 NUNES, Luiz Antônio Rizzatto, 1956- Comentários ao Código de Defesa do Consumidor, p. 226.
270 NUNES, Luiz Antônio Rizzatto, 1956- Comentários ao Código de Defesa do Consumidor, p. 226.
DA PRÓPRIA FIBROSE NECESSÁRIA PARA A CICATRIZAÇÃO.
REAÇÃO NATURAL DO ORGANISMO AO TRATAMENTO.
RECURSO DA AUTORA DESPROVIDO.
I - A lide pendente há de ser analisada sob a luz do Código Consumerista (Lei 8.078/90), aplicando-se o art. 6º, VIII, que permite a inversão do ônus da prova quando for verossímil a alegação do consumidor ou tratar-se de
pessoa hipossuficiente.
Por conseguinte, a regra insculpida no art. 333, I, do Código de Processo Civil encontra-se mitigada, em que pese interpretada sistematicamente com o aludido art. 6.º, VIII, e art. 14, § 4.º, ambos do Código de Defesa do Consumidor. Destarte, se o § 4.º do referido art. 14 afastou a responsabilidade objetiva, por outro lado, não suprimiu a aplicação do princípio da inversão do ônus da prova, incumbindo ao profissional liberal provar que não laborou em equívoco, nem agiu culposamente no desempenho de seu mister.Assim, em outros termos, cabe ao médico demandado o ônus de demonstrar que não agiu com culpa, ou ainda, a inexistência de relação de causalidade entre o serviço prestado e o dano experimentado pela vítima. II - Da análise apurada das provas colhidas, principalmente a pericial, é possível verificar-se que a lesão do nervo radial da Autora foi causada por um conjunto de fatores consubstanciado pelo próprio trauma sofrido no "terço-distal do úmero" (braço), bem como pela aderência do nervo ao calo ósseo formado no local após o procedimento cirúrgico, pela agressão da própria fibrose necessária para a cicatrização - reação natural do organismo -, além da idade da paciente e sua pouca tolerância ao tratamento prolongado. Destarte, no caso, não há como se determinar o vínculo de causa e efeito entre a conduta do Réu e dano causado, pressuposto para configuração da responsabilidade civil, principalmente porque ficou demonstrado nos autos que o médico tomou todas as precauções e realizou os procedimentos necessários ao tratamento da enfermidade, nada indicando, ainda, que o serviço prestado tenha sido incorreto, insuficiente, defeituoso ou inadequado.
Desse modo, diante da inexistência de nexo de causalidade essencial ao reconhecimento da pretensão postulada, não merece provimento o apelo interposto.Antes de iniciar a abordagem do assunto, é adequado fazer um
“parágrafo de introdução”, no qual se apresenta o motivo deste capítulo em relação à monografia, explicando ao leitor a razão de abordar este conteúdo271. (grifou-se)
Por fim, após a explanação dos tipos de Responsabilidade Civil e um breve relato sobre o Direito do Consumidor, pode-se relatar que a Responsabilidade Civil que recai sobre a ótica do Código Consumerista, em regra é a Responsabilidade Civil Objetiva, sendo que não se pode excluir a exceção que é a Responsabilidade do profissional liberal sendo a subjetiva, prevista no Código de Defesa do Consumidor no § 4º, art. 14.
271 BRASIL. Tribunal de Justiça. Apelação Cível nº 2003.028466-4/SC. PRIMEIRA CÂMARA DE DIREITO CIVIL. (04/12/08). Des. Subst. relator Joel Dias Figueira Júnior. Disponível em:
http://app.tjsc.jus.br/jurisprudencia/acnaintegra!html.action?qTodas=&qFrase=&qUma=&qNao=&qDataIni=&q DataFim=&qProcesso=2003.0284664&qEmenta=&qClasse=&qRelator=&qForo=&qOrgaoJulgador=&qCor=FF 0000&qTipoOrdem=relevancia&pageCount=10&qID=AAAG%2B9AAKAAAy9EAAA. Acesso em: 26 de maio de 2009.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente trabalho teve como objetivo à verificação da Responsabilidade Civil dos Fornecedores em face do Código de Defesa do Consumidor, em análise as doutrinas, legislação e jurisprudências.
A pesquisa sobre a Responsabilidade Civil mostra a evolução no contexto histórico, em face das diversas condutas humanas, onde, nos tempos remotos da civilização preponderava a vingança privada, sendo que o mal sofrido era reparado por outro mal.
Já a Responsabilidade Civil nas Relações de Consumo, teve no liberalismo, o contrato como sendo o principal instrumento dessas Relações Consumeristas, sendo que o principal princípio destacado foi da pacta Sutn servanda, desconsiderando a desigualdade econômica entre as partes contratante.
No entanto, os contratos estabeleciam entre as partes, uma posição de igualdade, onde se respeitava a vontade e a livre discussão de cláusulas contratuais.
Após a Revolução Industrial, em meados do século XIX, começou a ser verificada que a as Relações de Consumo onde se destacava a igualdade entre as partes, não passava de mera filosofia, tendo que o Estado, a partir daí, intervir nos conflitos existentes entre as partes nessas tais relações.
Com isso, o Estado Social passou a intervir nas Relações jurídicas para equilibrar a Relação de Consumo existente entre as partes contratantes, protegendo assim a parte mais fraca, ou seja, o consumidor.
Na introdução do presente trabalho, fez-se a análise dos seguintes problemas com suas prováveis hipóteses voltadas para a concretização desta monografia:
a) Existe previsão, junto ao CDC, de Responsabilidade Civil dos Fornecedores de Produtos ou Serviços por eles prestados?
b) A Responsabilidade Civil dos Fornecedores é objetiva ou subjetiva de acordo com os artigos existentes no Código de Defesa do Consumidor?
c) Quando é que a Responsabilidade Civil do comerciante, de reparar o dano causado pelo produto, deixa de ser solidária para ser subsidiária?
Já as hipóteses consideradas foram as seguintes:
a) O CDC prevê a Responsabilidade Civil dos Fornecedores de Produtos ou Serviços;
b) A Responsabilidade Civil regida pelo Código de Defesa do Consumidor é a Objetiva, ou seja, aquele que o fornecedor tem o dever de repara o dano, independentemente da existência de culpa; a Responsabilidade Civil também adotada pelo Código de Defesa do Consumidor é a Subjetiva, ou seja, aquela que o fornecedor tem o dever de reparar o dano, somente se for comprovada a culpa ou o dolo do agente causador do dano.
c) A Responsabilidade Civil do Comerciante deixa de ser solidária e passa a ser subsidiária quando é constatado que o produto ou serviço não contém somente vícios e sim defeitos, causando o acidente de consumo. Essa Responsabilidade é regida nas condições do artigo 13, inciso I, II e III, do Código de Defesa do Consumidor.
No entanto, após o estudo da Responsabilidade Civil dos Fornecedores em face do Código de Defesa do Consumidor, podem-se confirmar todas as hipóteses previstas acima, da seguinte forma:
O código de Defesa do Consumidor estabelece que a Responsabilidade Civil em regra geral é a objetiva, voltada para as Relações de Consumo, sendo que os Fornecedores, de acordo com os artigos 12, 13 e 14, respondem independentemente da existência de culpa, podendo ser solidária ou subsidiária essa Responsabilidade.
Respondem subsidiariamente, os comerciantes pelos defeitos do produto nos termos do artigo 13, inciso I, II e III dos CDC, ou seja, eles só responderam por tais defeitos se não forem identificados o fabricante, o construtor, o produtor ou o importador de tais produtos, quando o produto foi comercializado sem identificação clara do seu fabricante, produtor, construtor ou importador e quando o produto perecível foi conservado de maneira inadequada.
Há também no Código de Defesa do Consumidor uma exceção a regra da Responsabilidade Civil Objetiva, que está prevista no parágrafo 4° do artigo 14, que estabelece a Responsabilidade Civil Subjetiva aos profissionais liberais, ou seja, para que os profissionais sejam responsabilizados pelo dano causado ao consumidor tem que ser provada a existência da culpa, de dano e do nexo causal.
Com base no que foi pesquisado, fica verificado que foi possível responder aos problemas, restando assim confirmadas as hipóteses apontadas na introdução.
Evidente que não se esgota o assunto sobre a Responsabilidade Civil dos Fornecedores, por ser tão amplo, e inúmeras condutas podem surgir destes profissionais.
Portanto, espera-se ter contribuído para o Direito, vez que cada dia surgem novos entendimentos e situações merecedoras de novas pesquisas.
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