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DA VIABILIDADE DA CERTIFICAÇÃO ETOPS DO C-295M

No documento Revista Científica nº2 (páginas 63-68)

4.1 Aeronaves abrangidas pela regulamentação

A norma aeronáutica AMC 20-6 da EASA estabelece as condições de aplicação de uma Certifi cação ETOPS a uma aeronave. Nesse enquadramento, apenas são abrangidas pela norma que regula a atribuição ETOPS aeronaves de transporte de passageiros. Como consequência, a aeronave C-295M não se encontra abrangida pois é de transporte aéreo tático.

De acordo com as condições regulamentares expressas em AMC 20-6, não há necessidade de uma certifi cação se se tratar de aeronave para transporte de passageiros com uma capacidade máxima aprovada de 19 pessoas, podendo operar até à distância de 180 minutos de um aeródromo, adequado à velocidade de cruzeiro com um motor.

Todavia, a certifi cação é necessária se se tratar de uma aeronave certifi cada para mais de 19 passageiros, em rotas onde o tempo de diversão máximo necessário é superior a 60 minutos.

Uma vez que a aeronave C-295M tem uma capacidade máxima aprovada de 70 ocupantes, cfr Aircraft Flight Manual (AFM), então nestas condições operacionais deve ser avaliada a sua viabilidade de certifi cação ETOPS.

4.2 Rota ETOPS

Das rotas operadas pela Esquadra de Voo 502, a selecionada para o estudo é a que se situa entre a Base Aérea nº 6 no Montijo e a Base Aérea nº 4 na ilha Terceira. A referida rota está representada a vermelho na fi gura 3.

Figura 3: Rota Montijo-Lajes e circunferências “ETOPS” de 60 minutos para o C-295M

Na fi gura 3 aparecem também representadas as aéreas onde o C-295M se encontra a menos de 60 minutos de voo de um aeródromo adequado, à velocidade de cruzeiro com um motor inoperativo em condições de atmosfera padrão (ISA).

Essas áreas correspondem ao espaço interior das circunferências a castanho, centrados nos aeródromos alternativos mais signifi cantes para este estudo. Na mesma fi gura encontram- se representados a preto, dois pontos da rota, identifi cados de “EET” (ETOPS Entry Time) e de

“EXT” (ETOPS Exit Time).

O ponto da rota marcado com “EET” representa o ponto de entrada em voo ETOPS. É o ponto da rota a partir do qual, a aeronave passa a estar a uma distância superior a 60 minutos de voo de qualquer aeródromo alternante, no caso de falha de um dos motores. O ponto “EXT” marca o fi m desse mesmo troço de voo ETOPS e onde a aeronave volta a estar ao alcance de um aeródromo alternante numa duração de voo monomotor sempre inferior aos 60 minutos.

Como se observa, cerca de 420 das 860 Milhas Náuticas (NM) que totalizam o trajeto Montijo-Lajes, ou seja, aproximadamente 50% da rota total caracteriza-se por um voo ETOPS.

No contexto da aviação civil, tal rota exige certifi cação ETOPS, tratando-se de um voo direto.

4.3 Tempo de diversão (desvio para aeródromo)

Para determinar o tempo de diversão máximo necessário para a rota ETOPS em estudo, determinaram-se e foram representadas as circunferências com o tempo de diversão necessário para que se consiga manter a rota direta desejável, entre Portugal continetal e o arquipélago dos Açores.

Figura 4: Circunferências ETOPS de 120 minutos para o C-295M.

Na Figura 4 estão representadas a azul as circunferências de operação equivalentes a um tempo de diversão de 120 minutos para a aeronave C-295M.

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Aeronave C-295M: viabilidade técnica da certifi cação ETOPS

Como se pode observar, a certifi cação ETOPS para um tempo de diversão de 120 minutos garante a rota direta desejada representada a vermelho. Desta forma, o tempo máximo de diversão a considerar na Certifi cação ETOPS da aeronave C-295M, para que possa realizar missões de transporte de passageiros, assumindo o transporte de mais que 19 passageiros, é de 120 minutos.

4.4 Entidades certifi cadoras ETOPS

A defi nição das entidades intervenientes num eventual processo de certifi cação ETOPS da aeronave C-295M são decisivas. São elas que defi nem os regulamentos, bem como exercem as várias atividades técnicas que estão na base da avaliação da aeronave e da atribuição do certifi cado.

Dada a natureza do operador da referida aeronave, são stakeholders do processo de certifi cação ETOPS a:

- Força Aérea Portuguesa na qualidade de operador;

- Airbus Military como fabricante detentor da respectiva homolgação (Type Certifi cate);

- Autoridade Aeronáutica Nacional (AAN) como entidade certifi cadora.

4.5 Documentação

A documentação standard de referência que foi considerada neste estudo para efeitos de certifi cação ETOPS é a defi nida pela autoridade aeronáutica civil nacional.

Concretamente, da avaliação realizada, a documentação adotada é a que a seguir se indica:

- Regulamento (CE) N.º 859/2008 (EU OPS 1), emitido pela Comissão Europeia;

- AMC 20-6 - Extended Range Operation with Two-Engine Aeroplanes ETOPS Certifi cation and Operation “ emitido pela EASA;

- Regulamento n.º 219/2008 “Operações de aeronaves bimotoras em operação prolongada”

emitido pelo INAC;

- Circular Técnica de Informação C.T.I. 01-02 “Aprovação da Manutenção dos Operadores para Operações ETOPS”, emitido pelo INAC.

4.6 Metodologia de atribuição de certifi cação ETOPS

Sem prejuízo para o conhecimento aprofundado que o operador deve ter sobre regulamentação legal aeronáutica aplicável à certifi cação ETOPS, desta investigação resultou que tal assenta em 3 etapas, que se designaram de “aprovação técnica”, “aprovação operacional” e “formalização”.

Seguidamente, apresentam-se os princípios que norteiam cada uma das referidas fases que podem levar à obtenção da certifi cação ETOPS.

4.6.1 Aprovação técnica

A aprovação técnica corresponde em termos práticos ao cumprimento das exigências denominadas de “bases de certifi cação” da aeronave e motores e, ainda, à avaliação da fi abilidade de sistemas da estrutura da aeronave e do sistema de propulsão.

Do ponto de vista legal, tal metodologia constitui em si mesmo avaliação do cumprimento de requisitos que o operador deve garantir, nomeadamente em termos das características da aeronave e ainda de fi abilidade, redundância, etc, dos sistemas específi cos que integram uma aeronave.

Consideram-se “sistemas da estrutura da aeronave(1)” qualquer sistema da aeronave que não faça parte dos sistemas de propulsão e por “sistemas de propulsão(2)” todos os componentes necessários à propulsão da aeronave, incluindo motores e controlo dos mesmos [8].

Como resultado desta análise observou-se, recorrendo ao documento denominado de Type Certifi cate Data Sheet da aeronave C-295M, que vários sistemas da aeronave requerem um estudo aprofundado que permita compreender se a aeronave pode certifi cada segundo as normas europeias denominadas de Certifi cation Specifi cations CS 25, uma vez que a aeronave está unicamente certifi cada segundo os requisitos das regras da autoridade norte americana, a saber, segundo a Federal Aviation Regulation FAR 25.

Em causa está, segundo o que foi possível apurar, o sistema elétrico da aeronave, já que não foi possível apurar completamente as respectivas características operacionais de fi abilidade. Tal limitação prendeu-se com restrições na obtenção de informação técnica junto do fabricante.

Relativamente ao sistema de propulsão, verifi cou-se que estes não apresentam grandes obstáculos perante a eventualidade de uma Certifi cação ETOPS.

Estes estão certifi cados segundo os requisitos da Joint da Aviation Requirements (JAR-E), documento antecessor do CS-E, e, face a contacto com o fabricante, a Pratt & Whitney, antecipa- se que possam ser certifi cados ETOPS. No entanto, e no âmbito do trabalho de investigação, não foi possível a obtenção de quaisquer evidências que comprovem a fi abilidade dos motores para a totalidade da frota de C-295M a nível mundial.

4.6.2 Aprovação operacional

Quanto à aprovação operacional, em termos práticos e no essencial, tem a ver com a exigência regulamentar prevista na aviação de civil da existência de um programa de fi abilidade

(1) Designação anglo-saxónica de Airframe Systems.

(2) Designação anglo-saxónica de Propulsion Systems.

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e reporte de ocorrências (neste caso destinadas a fornecedor ao fabricante da aeronave e motores dados de operação que permitam vigiar a evolução dos sistemas e, dessa forma, melhorá-los para incrementar a fi abilidade).

Atendendo ao que foi avaliado e uma vez que não existem aeronaves operando num contexto ETOPS, os procedimentos existentes divergem de tal necessidade regulamentar.

De modo a assegurar a aprovação operacional para ambiente ETOPS, resulta da avaliação da metodologia em vigor que seguramente haveria que introduzir:

- ajustes na Gestão da Aeronavegabilidade Permanente;

- um manual de ETOPS (tal qual previsto para a aviação civil);

- Um programa de gestão da fi abilidade.

Globalmente esta metodologia permitiria, no essenial, o reporte de ocorrências ao fabricante, conjugado com o programa de manutenção e ainda a integração de práticas específi cas relacionadas com operação certifi cada ETOPS.

A introdução dos elementos acima implica, naturalmente, a implementação de um novo paradigma de operação da aeronave, pelo que tal corresponde à implementação de formação de pessoal (tripulações, pessoal de manutenção e de suporte), incluindo modificações de vários manuais existentes para inclusão de elementos relativos, entre outros aspetos, a:

- mínimos meteorológicos para voo ETOPS;

- fatores de tomada de decisão para alternar de rota num voo ETOPS, envolvendo critérios específi cos, como a confi guração da aeronave ou as necessidades de combustível.

Face ao resultado do estudo em torno da certificação ETOPS na componente operacional, esta componente constituirá em si mesmo um “projeto” espífico o qual abordará, inter alia, a introdução de novas metodologias de gestão do voo, do suporte até à introdução de novos manuais.

4.6.3 Formalização da certifi cação ETOPS

A formalização de uma Certifi cação ETOPS refl ete-se em termos práticos na elaboração e apresentação de um conjunto documental a uma autoridade aeronáutica competente que aprovará a certifi cação.

Tratando-se de uma aeronave militar e de um processo com características inovadoras, formalmente a atual regulamentação nacional não contempla tal defi nição. Partindo do referencial ETOPS civil, o presente estudo identifi cou um conjunto de elementos que se crê serem indispensáveis à concessão da certifi cação ETOPS. Seguidamente identifi cam-se tais elementos os quais correspondem a manuais originais devidamente adaptados para integrar uma nova fi losofi a de operação:

- Type Certifi cate Data Sheet;

- Aircraft Flight Manual;

- ETOPS Confi guration, Maintenance, Procedure Document (CMP);

- ETOPS Master Minimum Equipment List (MMEL);

- ETOPS Parts List;

- Manual ETOPS;

- Operations manual;

- ETOPS Dispatch procedures;

- Aircraft Operations Manual (AOM).

A criação de manuais e a adaptação de existentes (que foram submetidos com a aeronave) encontra-se sintetizada na fi gura 5.

Figura 5: Documentos integrantes do ETOPS CMP Document.

Tal como referido anteriormente, a criação deste conjunto documental encerra em si um programa devidamente calendarizado que garanta a sua organização e concretização efetiva, bem como a defi nição de conteúdos de cada um dos documentos acima identifi cados, tendo por base a regulamentação AMC 20-6.

No documento Revista Científica nº2 (páginas 63-68)