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Das crises cíclicas à crise estrutural do capital

No documento Elaine Nunes Silva Fernandes (páginas 32-36)

Conforme dissemos anteriormente, o desequilíbrio a que está submetido o sistema, expresso principalmente na superprodução de mercadorias, sem ter quem as consuma, fez com que o capital, passada a sua fase de expansão, mergulhasse numa crise sem precedentes30.

Desde o início do século XIX, o capitalismo veio experimentando crises cíclicas31 que revelam a dificuldade de resolver definitivamente a relação entre

30 A diferença das crises, que acontecem no modo capitalista de produção e aquelas ocorridas em sociedades precedentes é corretamente explicada por Netto (2006, p. 158) : Se na crise pré- capitalista, é a diminuição da força de trabalho (uma epidemia ceifando vidas de trabalhadores) que ocasiona a redução da produção, na crise capitalista ocorre exatamente o contrário: é a redução da produção que ocasiona a diminuição da força de trabalho utilizada (isto é, o desemprego)- o que numa é a causa, noutra é efeito. E há, sobretudo, uma diferença essencial: a crise capitalista aparece, inversamente à crise pré-capitalista, como uma superprodução de valores de uso- mais precisamente não há insuficiência na produção de bens, não há carência de valores de uso, o que ocorre é que os valores de uso não encontram escoamento, não encontram consumidores que possam pagar o seu valor de troca, e quando isto se evidencia, os capitalistas tendem a travar a produção; na crise capitalista a oferta de mercadorias torna-se excessiva em relação à procura (demanda) e, então restringe-se a produção [...].

31 As crises cíclicas são a expressão do desequilíbrio entre a oferta e a procura de mercadorias. Até a revolução industrial a demanda era sempre maior do que a oferta o que garantia a permanência de preços sempre elevados. Com a produção crescente de mercadorias, a situação se inverte e o mercado não consegue mais atender de forma satisfatória à necessidade da burguesia. Dessa forma, é possível afirmar que desde a revolução industrial as classes dominantes têm que conviver com o fantasma da superprodução de mercadorias que leva, inevitavelmente, às crises cíclicas do capital.

produção e consumo. A primeira ocorreu em 1873, na Europa, e se prolongou por aproximadamente 23 anos, encerrando-se em 1896. Entretanto, é em 1929 que acontece a mais conhecida delas. O craque de 29, como ficou conhecido, durou em média 16 anos e trouxe consequências catastróficas para todas as regiões do planeta32. De acordo com Coggiola (2000, p. 1):

A depressão econômica da década de 1930 causou altas taxas de desemprego, quedas drásticas do PIB na maioria dos países, bem como na produção industrial, nos preços de ações e títulos públicos, e em praticamente todo medidor de atividade econômica. Durante essa década o volume do comércio caiu como nunca em qualquer depressão precedente.

Houve isolamento relativo das grandes economias nacionais e a formação de blocos econômicos (cujo enfrentamento conduziria à Segunda Guerra Mundial). Durante a guerra, os gastos armamentistas impulsionaram a recuperação econômica, que se prolongou no pós-guerra (a produção de automóveis, por exemplo, voltaria aos patamares de 1929, porém, somente em 1949).

Segundo alguns pesquisadores33, a crise de 1929 pegou a todos de surpresa, especialmente os EUA, que desde o início dos anos 1920 vinha despontando como a nação mais bem sucedida do mundo, verdadeiro exemplo a ser seguido pelos demais países. Após o fim da primeira guerra mundial, o momento econômico era de pura prosperidade para a nação americana.34

O cenário era de grande otimismo, sobretudo, para aqueles que operavam no mercado de ações. O desenvolvimento da tecnologia representado pelo fordismo e o

32 De acordo com Coggiola (2002, p. 14): [...] A quebra da bolsa de valores de Nova York refletiu no Brasil: fábricas fecharam, demissões em massa ocorreram, salários caíram e havia dois milhões de desempregados no país. Caíram as cotações de café no mercado internacional no Brasil, principal exportador, o café permaneceu estocado, sem compradores. Os efeitos da crise fizeram com que alguns desses países, os grandes proprietários passassem a investir seu capital na manufatura acelerando uma semi-industrialização, chamada de “substituição de importações” em especial na Argentina e no Brasil. No Brasil, isso se consolidou com a perda do poder político pelos cafeicultores paulistas após a crise política de 1930, que levou Getúlio Vargas ao governo. Os EUA eram o maior comprador de café brasileiro. Com a crise, a importação deste produto diminuiu muito e os preços do café brasileiro caíram. Para que não houvesse uma desvalorização excessiva, o governo brasileiro comprou e queimou toneladas de café. Desta forma, diminuiu a oferta, conseguindo manter o preço do principal produto de exportação brasileiro da época [...].

33 Entre eles, Coggiola (2000), Mészáros (2002) e Netto (2012).

34 Os dados impressionam. De acordo com Coggiola (2000, p. 4): O crescimento interno dos EUA foi acompanhado pelo reforço de sua posição hegemônica mundial: em 1926-1929 o país era

responsável por 42,2% da produção mundial de produtos industrializados, e primeiro produtor mundial de carvão, eletricidade, petróleo, aço e ferro fundido, acumulando superávits em seus balanços de pagamentos devido à sua condição de primeiro exportador mundial. A expansão gerada, sustentada pelo consumo baseado no estilo de vida do American way of life, entre 1918 a 1928, aliado à um cenário com crédito de fácil acesso, e a Europa fragilizada em virtude da primeira Guerra Mundial, constituindo um mercado consumidor, incentivou o boom produtivo norte-americano.

aumento do consumo das massas de bens anteriormente inacessíveis como automóvel, fez com que os “grandes capitães da indústria” depositassem excessiva esperança no futuro promissor da economia americana e também mundial.

Entretanto, por volta de 1925, o cenário econômico começa a mudar. Os salários dos trabalhadores não acompanhavam o ritmo crescente da produção industrial e agrícola. Além disso, o desenvolvimento de novas tecnologias provocou uma diminuição considerável no número de postos de trabalho.

Somado a esses fatores, a recuperação das nações atingidas pela guerra fez com que essas recorressem cada vez menos à economia norte-americana, o que aumentou a concorrência no mercado internacional. O resultado não podia ser outro:

a falta de consumidores provocou uma crise de superprodução.

A solução encontrada para conter os efeitos da crise passa tanto por uma readequação da produção, para garantir a expansão da acumulação do capital, como por uma ajuda generosa do Estado orientado pela forte influência keynesiana35. Em linhas gerais a política adotada por Roosevelt de acordo com Coggiola (2002, p. 18) consistia em:

[...] “salvar” temporariamente o capitalismo. Em função deste objetivo abandonou o tradicional laissez-faire, doutrina dos EUA e em particular do próprio partido democrata. Ele utilizou os recursos financeiros do Estado para socorrer as empresas bancarias e comerciais e fez votar as leis que restringiram a concorrência e permitiram a alta dos preços, favorecendo o capital monopolista. Ao mesmo tempo, e ainda que nem todos os capitalistas o percebessem, manteve o descontentamento das massas trabalhadoras, urbanas e rurais aos limitados dentro de uma política de concessões frequentemente ilusórias e de promessas demagógicas:

aprovou, por exemplo, um sistema de aposentadoria e de seguro- desemprego sob o controle do governo.

A estratégia keynesiana funcionou durante algumas décadas e com isso foi possível manter, ainda que por um curto espaço de tempo, elevadas taxas de crescimento da economia. O aumento dessas taxas tinha relação direta com o

35 Keynes defendia que somente a intervenção do Estado na economia poderia restabelecer o equilíbrio entre a oferta e a procura. Na visão dele, de acordo com Coggiola (2000, p. 24): Para que o estado conseguisse executar a tarefa reguladora, passaria por uma transformação política e

econômica. Seria dotado de uma série de instrumentos: regularia a taxa de juros conservando-a abaixo da expectativa de lucros: aumentaria e fortaleceria o consumo por meio da expansão dos gastos públicos; aumentaria os investimentos através de empréstimos de caráter público capazes de assimilar os recursos ociosos. O fomento à demanda no mercado passou para primeiro plano e, em conexão com isto, o subsidio estatal, como medida anticíclica, aos investimentos e ao setor terciário.

O desenvolvimento “dos investimentos” com a utilidade de acelerar o desenvolvimento da renda e do consumo mediante investimentos e comissões subsidiárias pelo Estado, foi o eixo da “revolução keynesiana”, que não fazia senão teorizar as políticas já postas em prática pela maioria dos Estados de alguma envergadura.

crescimento do consumo, possibilitado pela produção em massa de produtos e da valorização da força de trabalho e de seu poder aquisitivo36.

Entretanto, como as saídas apontadas atacavam apenas as “consequências”

do problema em detrimento das “causas” não demorou muito para que a contradição imanente do capital fosse posta. Na medida em que se buscou o aumento da produtividade por meio do uso intenso da tecnologia, o efeito imediato foi a redução dos postos de trabalho e o consequente aumento do desemprego, o que inviabilizava mais uma vez o consumo provocando um novo estoque de mercadorias. A segunda guerra mundial foi então a verdadeira salvação do sistema, conforme afirma o autor:

A entrada do país na guerra acabou com os efeitos negativos da grande depressão, a produção industrial americana cresceu drasticamente, e as taxas de desemprego caíram. No final da guerra apenas 1% da força de trabalho americana estava desempregada (COGGIOLA, 2002, p. 30-31).

O que se seguiu depois da guerra foi um período de grande crescimento para a economia mundial, o que não lembrava em nada a fase anterior. Esse momento eufórico vivido pelo sistema ficou conhecido como “os trinta anos gloriosos”. Esses fatos fizeram com que muitos pesquisadores se perguntassem o que teria ocorrido para que uma nova crise batesse à porta do sistema outra vez? Em reconhecimento da gravidade da situação econômica, por que não se usa a mesma receita, posto que a crise atual, ao que tudo indica, também parece ter sido provocada pela superprodução de mercadorias?

Para Mészáros (2002), antes de mais nada é preciso esclarecer que a crise atual, embora apresente semelhanças com o ocorrido nos anos de 1929, é de natureza estrutural. Isto quer dizer que afeta de forma irreversível a totalidade do sistema sóciometabólico do capital, pondo em risco a própria existência do complexo global e, consequentemente, da humanidade.

Diferentemente da crise de 1929, uma crise estrutural não está relacionada aos “limites relativos”37 de uma estrutura global, mas aos seus “limites últimos”.

36 Importante destacar a acomodação porque passava a classe trabalhadora através de seus

organismos sindicais. O cenário econômico promissor contou com o arrefecimento de lideranças dos trabalhadores que, seduzidos pelo discurso envolvente do capital, desmobilizavam a sua base em nome de ganhos materiais. Neste sentido, é possível afirmar que a prática da conciliação de classes prejudicou, visceralmente, a organização da classe trabalhadora da época. Lamentavelmente, essa tem sido ainda a conduta da maior parte do movimento sindical no mundo inteiro. Voltaremos a essa questão mais adiante.

Talvez essa seja a diferença mais significativa entre o momento econômico presente e aquele vivido pelo capital anteriormente. Dessa maneira, mesmo produzindo danos tão severos para a economia capitalista mundial, a crise de 1929 pôde ser administrada porque se lançou mão de alternativas temporárias e que não atavam a origem do problema. Segundo Mészáros (2010, p. 72):

Por conseguinte, quanto maior a complexidade de uma estrutura fundamental e de suas relações com as demais estruturas com que se articula, mais variadas e flexíveis serão suas possibilidades relativas de ajuste e suas chances de sobrevivência mesmo em condições de crise extremamente severas. Em outras palavras, contradições parciais e

“disfunções”, ainda que em si mesmas severas, podem ser deslocadas e tornadas difusas, dentro dos limites últimos ou/e estruturais do sistema – e as forças ou tendências neutralizadas, assimiladas, anuladas ou mesmo transformadas em força que sustenta de forma ativa o sistema em questão.

Daí o problema da acomodação reformista.

Assim, é possível afirmar, seguindo a linha de pensamento do autor, que a crise de 1929, tal como as demais crises cíclicas, foi oportunamente instrumental ao capital, pois ao terem suas contradições deslocadas possibilitou uma recuperação econômica e política que garantiu não só um maior fôlego ao sistema, como a ampliação de sua dominação38.

No documento Elaine Nunes Silva Fernandes (páginas 32-36)