• Nenhum resultado encontrado

Renda da terra e o agronegócio no campo

No documento Elaine Nunes Silva Fernandes (páginas 91-115)

Se revisitarmos a história da formação social política e econômica brasileira a partir dos autores mais críticos127 que se debruçaram sobre essa questão, constataremos que a concentração de terras no país foi desde o achamento do território pelos portugueses o seu maior gargalo.

Diferentemente do que ocorrera na Alemanha, Itália e em outros países de via prussiana128, a grande propriedade rural brasileira não tem origem em um agrarismo feudal, tampouco em uma economia camponesa preexistente. Sua história e constituição reflete a situação econômica da então colônia brasileira que se consolidaria mais tarde como uma nação de economia dependente. Em 1987, Caio

127 A saber, Caio Prado Junior, José de Souza Martins, Jacob Gorender entre outros autores que escreveram obras magistrais sobre a agrária brasileira. Mais, recentemente, temos pesquisadores que têm se destacado no esforço de refletir sobre os meandros que envolvem essa temática no Brasil e América Latina, a exemplo de Plínio de Arruda Sampaio Jr. e Roberta Traspadini.

128 São considerados países de “via prussiana” aquelas nações onde a passagem do feudalismo para o capitalismo ocorreu de forma lenta, sem rupturas ou qualquer caráter revolucionário. Neste sentido, Gemer (2013, p. 312) ao comentar o desenvolvimento do capitalismo na agricultura brasileira afirma que o país seguiu o modelo prussiano. Nas palavras do autor temos: “Na via prussiana a

transformação capitalista não revoluciona a realidade agrária preexistente, mas promove uma

evolução ou adaptação dela ao capitalismo: por um lado transforma paulatinamente o latifundiário em capitalista (ou seja, promove uma “modernização” em termos econômicos e técnicos, mas raramente em termos político-ideológicos) e os diversos tipos de pequenos agricultores dependentes ou

agregados, em trabalhadores assalariados.

Prado Jr. já alertava para os elevados índices de concentração de terras e suas consequências para a população rural.

[...] A concentração da propriedade fundiária que se revela nos nossos dados estatísticos, é efetiva e real, isto é, representa uma distribuição extremamente irregular da propriedade da terra entre os indivíduos que a ocupam, nela exercem sua atividade econômica, e dela dependem para sua manutenção. Não se trata unicamente de uma concentração de terras desocupadas e vazias, ou mesmo apenas semi-ocupadas. É a concentração, em poucas mãos, de terras habilitadas onde se multiplicam muitas vezes as mãos ativas que as lavram; onde se localiza e comprime a totalidade da população rural brasileira. É em suma uma concentração de terras e propriedade que significa também concentração de domínio sobre recursos econômicos que constituem a única fonte de subsistência daquela população (PRADO JÚNIOR, 1987, p. 34).

A permanência de grandes extensões de terras em poucas mãos continua sendo um traço característico do Brasil e que interfere diretamente na forma de ser da sociedade e em tudo que lhe é peculiar. Não é nosso interesse dissertar sobre essa questão. Muitos estudos que apontam a relação da alta concentração de terra com a elevada desigualdade econômica, social e cultural que atinge o país já foram realizados. Entretanto, novos fatores se somam agora a esse “antigo e novo”

problema, uma vez que a concentração de terras não envolve apenas o capitalista ou latifundiário nacional. Na atualidade, é o capitalismo financeiro internacional, representado competentemente pelas transnacionais em conluio com a burguesia agrária nacional129, que detém as maiores extensões de terra e sobre elas opera em favor do mercado financeiro e do agronegócio.

Desnecessário dizer que essa aparente “mudança” dos sujeitos que detém o monopólio das terras no Brasil tem relação direta com o processo de “reversão neocolonial” que o país vem sofrendo nos últimos anos para atender às necessidades do capital, reforçando seu caráter dependente e subordinado. Com efeito, se observarmos, apressadamente, o processo em curso, teremos a ligeira impressão de que o país retrocedeu na sua escala evolutiva rumo a um modelo de produção industrial que tivesse maior autonomia frente aos interesses imperialistas.

Nas palavras de Sampaio Jr. ([s.d], p. 37):

129 É assertiva a ponderação que Sampaio Júnior ([s.d.], p. 6-7) faz sobre o caráter conservador da burguesia agrária brasileira: “A aversão da burguesia brasileira em relação à possibilidade de qualquer turbulência que possa propiciar a emergência do homem pobre como sujeito histórico manifesta-se – não por acaso – com força redobrada quando se trata de questões agrárias. O latifundiário constitui, em última instância, a base social e territorial de seu controle sobre o Estado, pois é um dos elementos estratégicos de que a burguesia dispõe para compensar, através da monopolização dos excedentes econômicos e do poder político, a instabilidade econômica, social e política inerente ao desenvolvimento desigual e combinado”.

[...] É como se a descrição de Caio Prado sobre o período colonial ecoasse como caracterização da economia brasileira na era global130. Os produtos mudam: commodities agrícolas e minerais – carne, grãos, etanol, café, laranja, celulose, couros, tabaco, petróleo, ferro, metais não ferrosos –, commodities semi-industrializadas dependentes de energia elétrica – como o aço. A escala do processo de exploração amplia-se de maneira assustadora de modo a abarcar praticamente todo o território nacional e todas as dimensões da vida econômica, não apenas a agricultura. [...] O país fica completamente à mercê da lógica especulativa dos capitais internacionais, sujeito a verdadeiros “arrastões” que deixam a vida do país vulnerável a recorrentes sobressaltos e crises cataclísmicas cíclicas [...].

Todo esse processo pode ser explicado pela gradual mudança que a agricultura mundial e brasileira vem sofrendo nos últimos anos. Se, antes, o cultivo e a comercialização de alimentos eram realizados sob base familiar e camponesa, recebendo importantes subsídios governamentais, com o avanço do modelo neoliberal, esse processo sofre significativas mudanças passando a produção agora a ser feita e dirigida pelo mercado.

Nessa nova e poderosa lógica, todo o investimento possível deve ser feito para que a produção de alimentos seja comercializável e rentável para o capital em detrimento do atendimento das carências da população mundial. O que antes era prioridade nacional (a preocupação com os estoques governamentais de alimentos), foi aos poucos sendo substituído pelo importante apoio e incentivo que os estados nacionais dão ao setor. Para Oliveira ([s.d.], p. 6-7):

Dessa forma, a agricultura sob o capitalismo monopolista mundializado, passou a estruturar-se sobre três pilares: na produção de commodities, nas bolsas de mercadorias e de futuro e nos monopólios mundiais. Primeiro, visou transformar toda a produção agropecuária, silvicultura e extrativista em produção de mercadorias para o mercado mundial. Portanto, a produção de alimentos deixou de ser questão estratégica nacional e, passou a ser mercadoria a ser adquirida no mercado mundial onde quer que ela seja produzida. As principais commodities são: soja, milho, trigo, arroz, algodão, cacau, café, açúcar, suco de laranja, farelo e óleo de soja entre outras. No Brasil acrescenta-se também, etanol e boi gordo. Segundo, as bolsas de

130 Na sua conhecida obra Formação do Brasil contemporâneo, o autor descreve com maestria o sentido da colonização brasileira que permanece até hoje. “[...] Se vamos à essência da nossa formação, veremos que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar, tabaco, alguns outros gêneros; mais tarde ouro e diamantes; depois, algodão, e em seguida café para o comércio europeu.

Nada mais que isto. É com tal objetivo exterior, voltado para fora do país e sem atenção a

considerações que não fossem o interesse daquele comércio, que se organização a sociedade e a economia brasileiras. Tudo se disporá naquele sentido: a estrutura, bem como as atividades do país.

Virá o branco europeu para especular, realizar um negócio; inverterá seus cabedais e recrutará a mão-de-obra que precisa: indígenas ou negros importados. Com tais elementos, articulados numa organização puramente produtora, industrial, se constituirá a colônia brasileira. Este início, cujo caráter se manterá dominante através dos três séculos que vão até o momento em que ora abordamos a história brasileira, se gravará profunda e totalmente nas feições e na vida do país.

Haverá resultantes secundárias que tendem para algo de mais elevado; mas elas ainda mal se fazem notar. O “sentido” da evolução brasileira que é o que estamos aqui indagando, ainda se afirma por aquele caráter inicial da colonização” [...] (PRADO JÚNIOR, 1972, p. 31-32).

mercadorias e futuro tornaram-se o centro regulador dos preços mundiais das commodities [...] Terceiro, a constituição dos monopólios mundiais permitiu o controle monopolista da produção das commodities do setor [...]

(OLIVEIRA, [s.d.], p. 6-7).

Esse atrativo mercado despertou a cobiça dos grandes grupos estrangeiros sobre terras latino-americanas e brasileiras, especialmente, pois as fontes de lucratividade são muitas e diversas não só para quem produz e comercializa, como também para quem lucra com o mercado especulativo.

Refém do aumento desenfreado da concentração de terras brasileiras pelo capital financeiro, as comunidades ocupantes dessas áreas fundiárias vêm sofrendo processos sucessivos de expropriação131 com o apoio e conivência do poder estatal.

Dessa forma, são destituídos do direito de permanecer na terra ou terem acesso a ela e coagidos a se metamorfosearem para continuar existindo no campo sob as exigências de quem, por meios ilícitos, adquire a propriedade fundiária. Aqueles que não conseguem se inserir ou se adaptar a esse novo modelo de produção no campo acabam migrando para a cidade e engrossando as fileiras do desemprego, aumentando o exército de trabalhadores desempregados e, consequentemente, sujeitos a todo o tipo de reverses. Se para os trabalhadores urbanos as dificuldades de inserção no mercado são grandes, para aqueles cujas raízes estão fincadas na terra, os obstáculos são ainda maiores.

Se essa realidade é de difícil enfrentamento para os expropriados do campo, para o capital os benefícios são inúmeros, pois além de ter uma massa destituída que, por sobrevivência se subordina a todo e qualquer tipo de exigência do mercado, o sistema pode ainda contar com a elevação do preço das terras que tem atraído com frequência interesses de grupos internacionais. O lucro é certo, porque além de contar com uma com grande extensão fundiária com preço convidativo e boas possibilidades de crescimento da produtividade, os investidores encontram outras possibilidades de auferir ganhos extraordinários, conforme Oliveira ([s.d.], p. 10-11) destaca:

131 Para Fontes (2010, p. 59-60), são dois os tipos de expropriação a que a população rural tem sido submetida com o avanço do capital financeiro sobre as terras brasileiras, nos termos da autora:

“Expropriações primárias seguem extirpando os recursos sociais de produção das mãos dos

trabalhadores rurais, incidindo diretamente sobre os recursos sociais de produção, em especial sobre a terra. [...] Mas, as expropriações secundárias se abatem também sobre conhecimentos [...] sobre a biodiversidade, sobre técnicas diversas, desde formas de cultivo até formas de tratamento de saúde, utilizadas por povos tradicionais. Somente de maneira muito cautelosa poderíamos supor que tais populações mantêm-se externas ao capitalismo, quando boa parte delas já depende – parcialmente, ao menos – de relações mercantis plenamente dominadas pelo grande capital-imperialismo. [...]”.

Essas novas empresas de capital aberto, no campo brasileiro estão juntando de forma articulada de classe com o capital mundial, o rentismo típico do capitalismo no Brasil, e, assim, estão fazendo simultaneamente, a produção do capital via apropriação da renda capitalizada da terra e a reprodução ampliada do capital acrescida do lucro extraordinário representado pelas diferentes formas da renda da terra. Ou seja, passam a atuar no mercado de terras, no preparo da propriedade para a produção, na produção em si e na comercialização. E mais, esses grupos interessados em terras brasileiras têm se associado a investidores e fundos, e alguns já abriram seu capital, outros estão se preparando para tal. Além do fato em si de que a negociação de terras passou a chamar a atenção do setor financeiro, a emissão de ações deu opções para fundos, permitindo assim, que estrangeiros participem desse mercado, independente das ações do governo, quanto a eventuais restrições às aquisições de terras por estrangeiros.

Se, antes, a concentração de terras no Brasil ocorria basicamente pela possibilidade que o capitalista tinha de extrair a renda da terra, atualmente, além da garantia desse tributo, o capitalista tem descoberto outras formas de valorização da propriedade fundiária como aquelas descritas na citação de Oliveira ([s.d.]). Esse fator explica, de certa forma, a elevação dos preços dessa propriedade que deveria ser social.

Mas no que consiste então a renda da terra? Qual a relação dela com o agronegócio e a situação de expropriação pelo que têm passado os trabalhadores rurais? A nosso ver, entender essa questão é fundamental para compreender a importância que o mercado de terras sempre teve para o capital e que vem crescendo numa velocidade impressionante, trazendo sérios prejuízos não só para a população rural, mas para a sociedade brasileira com um todo.

Em linhas gerais, é preciso alertar que a terra em si não se constitui como um meio de produção como outro qualquer, ela é antes de tudo um meio de trabalho que é utilizado para produzir algo que mais tarde se transformará em mercadoria.

Mas, assim como a força de trabalho, tornar-se-á mercadoria para o capitalista, exigindo dele um pagamento do qual se extrairá a mais-valia ao final do processo de produção, também a terra receberá um valor pela sua utilização.

Esse valor, a quem Marx e os demais economistas clássicos132 de sua época chamaram de “renda da terra”, será pago ao proprietário pelo capitalista que arrenda a sua terra. Segundo Marx, a quantia a ser paga ao proprietário da terra provém da

132 De acordo com Cario e Buzanelo ([s.d.], p. 1): “Historicamente, a renda da terra foi estudada pelos principais economistas clássicos, Smith e Ricardo, sobretudo por esse último, contudo, por tratarem simplesmente como uma relação técnica, assim como, por confundirem teoricamente a relação entre preço e valor, o seu entendimento e significação não teve repercussão nas diferentes derivações de escolas do pensamento que sucederam”.

mais-valia. Advém do dinheiro não pago ao trabalhador no processo de produção e que é apropriado indevidamente por aquele que contrata a força de trabalho, ou seja, o capitalista. Mas, diferentemente do que se poderia supor, o capitalista não arca sozinho com esse custo, ele é coletivizado para toda a sociedade na forma de tributo social. Isto acontece porque, diferentemente das formas pré-capitalistas133, no atual modo de produção, entre a produção da riqueza e a sua transformação em renda da terra existe a presença do capital intermediando o processo. Ao comentar essa questão, Martins (1981, p. 169) argumenta que:

[...] O trabalhador produz a riqueza, mas ela aparece como sendo produto do capital. Isso é possível porque a sua relação com o capitalista é mediatizada pelo trabalho de todos os outros trabalhadores, pelo fato de que seu trabalho concreto, na relação com o capital, se transforma em trabalho abstrato, parte do trabalho coletivo, social, da classe operária. A renda da terra também tem a sua dimensão oculta; por isso não posso entendê-la se fico olhando só para o aluguel, quando ele existe. Não posso entendê-la se não vejo que a terra, através do proprietário, cobra no capitalismo renda da sociedade inteira, renda que nem mesmo é produzida direta e exclusivamente na sua terra, que sai do trabalho dos trabalhadores do campo e da cidade, que entra e saí do bolso do capitalista, que é paga por todos e não é paga por ninguém e que, em última instância, é uma parte do trabalho expropriado de todos os trabalhadores dessa sociedade.

Por isso, quando adquire a propriedade fundiária, o capitalista não está necessariamente interessado na terra em si imediatamente, mas no lucro que ela poderá lhe trazer a longo prazo, posto que, independentemente do investimento que venha fazer na área que comprou, ela se valorizará inevitavelmente. Nessa situação, o proprietário poderá ser aquele que explorará o trabalhador diretamente, sem a figura do capitalista, ou ainda “terceirizar” essa exploração para que o outro o faça.

Tanto num caso, quanto no outro, se juntos na relação de exploração e uso da terra, ou separados e contrapostos, proprietários e capitalistas serão sempre os donos dos instrumentos de produção e por isso têm interesses comuns na exploração da força de trabalho.

133 Só para recordar, nas sociedades pré-capitalistas, o camponês pagava um tributo ao senhor para ter o direito de trabalhar em suas terras. Esse pagamento poderia ser feito na forma de dias de trabalho, entregando uma parte da produção ao dono das terras, ou ainda transformando essa parte da produção em dinheiro e dando como pagamento pelo uso da área trabalhada. Nas três situações, o pagamento era feito individualmente, ou seja, tratava-se de uma negociação individual que

acontecia entre o trabalhador e o dono das terras. Conforme Caio Prado Jr. bem descreve em sua obra A revolução brasileira, durante o processo de formação social, o Brasil vivenciou em larga escala esse tipo de relação não capitalista de produção. Acreditamos que não seria temeroso demais arriscar em dizer que esse tipo de relação não capitalista ainda aconteça em algumas regiões do país, a exemplo do Nordeste.

Neste sentido, a terra abre inúmeras possibilidades de lucro para aqueles que a adquirem, pois não perece como os demais instrumentos e meios de produção, ao contrário, valoriza-se à medida que os investimentos vão sendo realizados e a depender da grande procura, como ocorre agora, o preço poderá chegar a cifras exorbitantes, podendo render ao proprietário quantias ainda maiores num futuro próximo. Isso ocorre porque, segundo Martins (1981, p. 167):

[...] o dinheiro empregado na terra não opera como capital. Sendo compra de renda, do direito de extrair uma renda da sociedade no seu conjunto, é renda capitalizada e não capital. Quando o capitalista compra a terra, ele converte o seu capital em renda capitalizada, renda antecipada, em direito de extrair uma renda e ao mesmo tempo direito de recobrar inteiramente e até com acréscimo o seu capital, mediante a simples conversão contrária de renda capitalizada em capital [...].

Assim, em razão das particularidades do solo, da capacidade de produção, de localização, de investimentos pregressos, da quantidade de terra monopolizada e do produto que será cultivado, a renda da terra assumirá também tipos diferenciados para atender às especificidades de cada situação em particular. Por essa razão, sob o modo capitalista de produção, a renda da terra será denominada de diferencial (I e II), se for resultado da concorrência entre produtores capitalistas; renda absoluta da terra se for produto do monopólio134; e ainda renda da terra do monopólio, se for resultado do lucro suplementar advindo da elevação do preço de uma determinada mercadoria produzida sob condições naturais, especialmente favoráveis.

No primeiro caso, a renda diferencial tem origem na produtividade alcançada pelo trabalho humano. Ela só pode ser auferida porque existe a interferência do trabalhador rural sobre a terra, ou seja, há mais-valia extraordinária de onde será extraída a renda que será paga ao proprietário. Porém, existe uma sutil diferença entre a renda diferencial I e II que merece ser observada. A renda de tipo I está associada à fertilidade e à localização do solo135 que, neste caso, serão

134 É importante o esclarecimento de Oliveira (2007, p. 43-44) sobre a distinção fundamental entre a renda diferencial e absoluta. “[...] A renda da terra diferencial resulta do caráter capitalista da produção e não da propriedade privada do solo, ou seja, ela continuaria a existir se o solo fosse nacionalizado. Já a renda da terra absoluta resulta da posse privada do solo e da oposição existente entre o interesse do proprietário fundiário e o interesse da coletividade. Resulta do fato de que a propriedade da terra é monopólio de uma classe que cobra um tributo da sociedade inteira para colocá-la para produzir. Inclusive, ela desapareceria caso as terras fossem nacionalizadas”.

135 Neste caso, a fertilidade estaria relacionada ao tipo de produtividade natural do solo, à extensão, às condições geográficas (se plano ou não) e necessidades técnicas que a área pudesse vir a ter no futuro. A localização, por sua vez, se refere à proximidade com mercados e demais pontos de venda, o que facilitaria a comercialização. Além disso, é importante considerar a existência de estações

determinantes para quantidade de mais-valia extraordinária que será extraída e, consequentemente, para a renda da terra que será paga posteriormente ao proprietário da área. Sobre essa questão é oportuno um esclarecimento feito por Oliveira (2007, p. 44):

Como sob o modo capitalista de produção é o preço de produção do pior solo, aquele que regula o preço de mercado, a renda diferencial é, portanto, a diferença entre o preço individual de produção de cada produtor em particular (que tem a sua disposição solos mais férteis, por exemplo) e o preço de produção geral que é formado a partir dos preços de produção dos piores solos cultivados.

A renda diferencial II decorre dos investimentos que são feitos no solo para melhorar sua fertilidade, potencializando assim sua capacidade de produção.

Resulta, portanto, da intensificação produtiva do capital na agricultura. Pode-se dizer que é, atualmente, o tipo de renda diferencial mais encontrado na atualidade em razão do grande investimento técnico e científico que as transnacionais vêm fazendo no setor.

Além dos tipos de renda diferencial I e II descritos acima, existe ainda a renda absoluta sobre o monopólio da terra, na qual nos referimos nos parágrafos anteriores. Para que seja auferida, não há necessidade imprescindível de que a terra esteja produzindo, pois a renda absoluta é resultado da posse privada do solo. Ao contrário dos anteriores, esse tipo de renda da terra não é obtido pela fração da mais-valia dos trabalhadores que trabalham naquela terra, especificamente, mas sim, da parte que é retirada do trabalho excedente do conjunto de trabalhadores que compõe a sociedade, ou, seja, também os custos serão socializados com todos. Em função disso, é possível afirmar, concordando com Oliveira (2007, p. 57), que é a existência privada da terra que possibilita a extração desse custo social indesejado.

Segundo o mesmo autor:

[...] pode-se afirmar que a renda da terra absoluta advém dos interesses contraditórios entre as classes ou frações de classe na sociedade capitalista e o poder de monopólio de uma delas, exercido no processo produtivo da agricultura sobre o solo. Ela pode ser auferida, como já visto, através da colocação da terra para produzir, ou então, pode ser auferida, de uma só vez, com a sua venda. Isto acontece porque no modo capitalista de produção a terra, embora não tenha valor (pois não é produto do trabalho humano) tem um preço, e a sua compra dá ao proprietário o direito de cobrar da sociedade em geral a renda que ele pode vir a dar. Em uma

ferroviárias, portos marítimos e demais instrumentos que agilizaria o transporte e comercialização dos produtos a serem comercializados pelo proprietário ou capitalista.

No documento Elaine Nunes Silva Fernandes (páginas 91-115)