pessoas do Distrito. Seus escrúpulos não permitiam partilhar a natureza espiritual dos fazendeiros, que apesar de suas adversidades, mantinham uma forte consciência associativa visando salvar suas fazendas, salvando seus destinos.
Exatamente isso! Estava perfeitamente claro no meu pensamento o conceito de destino que Ben Mill me dissera várias vezes. O Distrito tornou- se uma terra de pessoas que se impuseram contra a sorte. A fortuna que fizeram estava ligada diretamente ao destino que cada qual havia recusado nas terras em que nasceram e cresceram. Os avós e pais dos que agora seguravam armas tiveram um gênio edificante, certamente, que impôs força e autoridade ao Distrito e o transformou. Somente por isso todos ali desvaneciam-lhe um sentimento de devoção, bem acima das fraquezas comuns em pessoas como Gould. Penso que o destino não é uma sorte que cai do céu, por isso tem de ser desafiado e enfrentado até que uma nova sorte se revele diante dos olhos.
Arnold havia me assegurado que um dia antes do início da revolta, a senhora e Jackeline Mill seriam levadas para o Boqueirão da Lua e transportadas para Ciudad Bolívar num avião venezuelano. Meu primeiro impulso foi conjeturar a possibilidade de os planos não funcionarem como previstos, por isso ponderei levá-las naquele dia mesmo para Bonfim. Mas Arnold sequer ouviu minhas palavras. Fiquei algum tempo a refletir sobre a diversidade da minha natureza em relação à dos fazendeiros. Nossos pensamentos, nossas visões de mundo sempre caminhavam em direção opostas. Havia assumido compromisso com um homem agonizante, portanto tinha que ser leal ao prometido. Mas Arnold parecia aos meus olhos uma mulherzinha delicada e perfumada, enfiada num vestido longo, maliciosamente balançando um leque diante de homens galanteadores. Era uma visão repugnante.
Saí da Miritizal a cavalo até Lethem, na esperança de encontrar David.
Mas antes não tivesse ido, porque o que vi caiu como uma pedra sobre minha cabeça a ponto de me deixar desorientado e me levar a tomar uma das decisões mais sérias que até hoje tomei em toda minha vida. Iria ser posto frente a frente com o terror, com a morte; iria olhar no fundo dos olhos dela e por muito tempo sentiria seu cheiro ocre rasgando minhas narinas.
Tudo aconteceu no aeroporto de Lethem, onde estava o avião de David. Quando aproximei, a primeira coisa que vi, foi ele e Brad falando em
voz alta. Estavam discutindo, exaltados. “Brad, o que passa na sua cabeça, homem?”, escutei a voz de David. “Você pensa que pode fazer tudo o que quer? Acha que é melhor do que eu?”, indagava Brad em voz alta. “Eu nunca apreciei esse seu jeito maricas “, continuou. “Acho que você nem é homem suficiente para aquela vadia”. “Hein? O que você que dizer com isso?”. “Isso que você ouviu, seu...”. “Então...”. Vi David avançar sobre Brad numa fúria incontrolável. Brad, corpulento, empurrou-o de cima de si ao mesmo tempo em que sacou um punhal da cintura e cravou-o no abdômen de David, duas vezes. A primeira punhalada foi desferida um pouco acima do umbigo, a perfuração fez David arquejar-se no chão. Brad pôs-se sobre os joelhos e desferiu a segunda punhalada nos rins de David. Embora fosse um ferimento menos profundo, sangrou abundantemente, escorrendo em bicas e formando pequenas poças de sangue debaixo de seu corpo. Havia dois índios acompanhando David, um deles portava um fuzil, provavelmente um dos soldados da liberdade. Brad se levantou, passou a mão pelo rosto e caminhou cambaleante na direção de seu cavalo, levando a faca ainda suja de sangue. Os dois índios ficaram em pânico e pareceram atordoados. Um deles olhava fixamente para o corpo de David no chão, que jazia suplicando socorro em meio a uma escura poça de sangue. Na tentativa de abaixar-se para segurar-lhe a mão, a arma que segurava disparou acidentalmente na direção do avião, logo à frente. O impulso do tiro arrancou-lhe o fuzil da mão e o impacto da bala perfurou o tanque do avião fazendo vazar gasolina em abundância. Brad desapareceu no meio do lavrado, os dois índios começaram uma corrida frenética, oscilante, em direção ao Savanna´s Hotel.
Tudo se transcorreu em menos de cinco minutos. O ar parecia cheio de uma opaca névoa embebecida de combustível. Quando percebi Brad esfaqueando o irmão, fui tomado por uma paralisação dos sentidos. Não consegui manifestar reação alguma. Por longos segundos, fiquei perplexo, com o horror percorrendo meu corpo. O barulho do tiro e o cheiro da gasolina, que se dissipavam ao redor, pareciam ter me despertado da latência.
Aproximei-me de David e tentei conter o sangue com minha camisa que havia arrancado do corpo. Ele estava pálido e não conseguia se mover;
urrava de dor. Seus lábios se abriram para dizer sussurrando: “ajuda-me, não quero morrer assim...” A súplica fez-me sair da paralisia. Nesse mesmo momento chegaram Mac e os dois índios num automóvel. Desceram apressados e ofegantes. Vendo David começar a desfalecer, conduzimo-lo para dentro do automóvel. Mac arrancou velozmente para o hospital e eu o segui sentado, segurando a cabeça de David e evitando que os solavancos do carro aumentassem a sua dor. No hospital, duas enfermeiras levaram-no
para dentro de uma sala de cirurgia. Eu e Mac voltamos para o lugar onde deixamos o automóvel. Foi então que indaguei aos índios sobre o ocorrido.
Um dos índios nos disse sem preâmbulo: “foi por causa de mulher, senhor”.
Tudo acontecera por causa de uma garota chamada Annie Gracie, de Sand Cricket, a qual Brad gabava-se de ser a índia mais linda de todo o Distrito.
Mas ela vivia dizendo que detestava seus modos grosseiros, mesmo assim ele a mantinha numa casa, comprada justamente para seus encontros amorosos. Todas as tardes ela saía sozinha até o aeroporto e sempre passava em frente ao bar de David. Foi numa dessas ocasiões que eles se conheceram. Ele sempre foi delicado e seguro com ela. Ela era meiga, inteligente e sensual, era uma coisa que David não compreendia, mas estava se apaixonando pela amante do irmão. Numa tarde, estavam sentados na parte de fora do bar. David, sem olhar para ela, deixou cair sua mão sobre suas coxas, e delicadamente escorreu-a até o ponto em que pode introduzir a ponta de seu dedo médio em sua vulva. Gracie pareceu sugar-lhe o dedo com movimentos ritmados com as pernas, quase mecânicos, ao mesmo tempo em que se beijaram ardentemente na boca. Fora uma cena de amor vista por muitos.
David sentia-se magoado por ter se apaixonado pela amante do irmão.
Talvez eu tenha sido o único a quem mencionara seus sentimentos. Porém, o encanto juvenil daquela garota o enfeitiçara tanto, a ponto de levá-la para onde fosse. Realmente ele havia se apaixonado por ela. Também sabia que em algum momento teria de encarar seu irmão e relatar-lhe o que estava acontecendo. Ele havia decidido contar tudo, quando os encontrei discutindo no aeroporto. David planejava descarregar armas no sul do Distrito, e Brad aproveitou para inquirir o irmão sobre a cena de amor na varanda do Horn´s Bar. Os dois índios eram tuxauas que iriam receber tais armas para o dia da revolta. Mesmo diante da insistência de David para que não abrissem a caixa contendo fuzis, um deles queria vê-los a qualquer custo.
Enquanto um abria a caixa, o outro montou vigia para que ninguém pudesse suspeitar do conteúdo que iria ser transportado. Foi quando Brad se aproximou e deu início à tragédia.