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Recordações sobre Ben Mill

No documento Rupununi: Dias de revolta. - UERR Edições (páginas 97-103)

- Uau! podemos começar uma pequena guerra com o que temos aqui!

- disse com olhos nadando em júbilo – vamos adaptar essa metralhadora no avião do David para nos dar apoio aéreo – interveio Arnold, caminhando entre as armas - este canhão pode ser colocado sobre um de meus carros - observou apontando para outra arma a sua frente.

- Burnham vai saber com quem está mexendo - atalhou Christian, num vivo contentamento.

- Diablo! Ele pode arruinar os negócios de ustedes, mas nunca poderá fazê-los curvar diante dele; vocês têm dignidade, orgulho! E é isso que vamos mostrar àquele desgraciado - disse Ortega entre os dentes e brandindo uma das mãos com o punho cerrado.

Foi uma declaração calculada para tocar fundo a sensibilidade daqueles dois. Ortega mencionou também que a ruína dos fazendeiros do Distrito seria a ruína do Distrito e de toda sua população. Aquele homem sabia como se relacionar com aqueles fazendeiros; parecia conhecer o que havia no mais recôndito daquelas almas. Leituras de sociólogos americanos frívolos comprados em lojas de livros usados nas ruas de Miami, feitas em quarto de hotel barato sobre camas desarrumadas, deram-lhe a convicção de poder dominar assuntos sobre sociedade, cultura e liberdade. Mas Ortega, com todas as suas esnobes obsequiosidades, nunca vira ao redor o esplendor das fazendas Dadanaoa, as companhias com seus frigoríficos e aviões, os passeios recreativos dos filhos daquela gente por capitais europeias, o conforto das casas com suas geladeiras a gás, fogões americanos e estufas modernas; tivesse ele visto, talvez não elevasse tanto aqueles sentimentos e vaidades exageradas. Mas aquelas pessoas, com seus espíritos devastados pela insegurança imposta pelas políticas de Burnham, com suas vidas subjugadas pela desesperança no porvir eram gênios fáceis ao pensamento sempre extravagante de Ortega.

- Bueno, espero poder concluir o treinamento de todos em trinta dias, mesmo contra a vontade de Dios – disse.

- Os que virão estão bem-informados sobre o nosso objetivo no Distrito. Temos adesão da parte dos índios, pessoas que morreriam por lealdade a nós; são nossos guerreiros da liberdade e da justiça – concluiu Arnold com entusiasmo na voz.

- Liberdade, justiça, governo, tudo isso soa muito estranho, como uma loucura, uma histeria – a voz de Christian sou como um murmúrio.

O sol tinha uma tonalidade avermelhada entre as nuvens de fumaça que começavam a se dissipar, empurradas por uma repentina brisa. Nós quatro chegamos bem cedo num avião da Fuerza Aérea de Venezuela.

Havíamos saído de manhã do Boqueirão da Lua para conhecer as armas que Ortega adquirira para armar os “soldados da liberdade”. Decidiu-se que a Guardia Nacional Venezolana se incumbiria do treinamento militar dos soldados e a Fuerza Aerea do transporte de todo o armamento a ser usado na conflagração.

Passei aquela manhã observando dezenas de índios se perfilando desajeitados sob a ordem de oficiais venezuelanos. Havia um descontentamento imperioso, uma fatalidade, ou a sensação de estar ali desempenhando um papel leviano e torpe. A futilidade como as coisas estavam sendo arranjadas e pensadas por aqueles que se julgavam líderes de uma grande causa, cuja natureza era duvidosa e os objetivos precipitados, investiam contra aqueles índios maltrapidos e sem convicção do que faziam.

Tudo me pareciam tentativas de se chegar a uma solução do problema por vias tortuosas.

Eu não conseguiria desempenhar papel nenhum naquela farsa dramática e funesta. Depois que Ben Mill faleceu, alertei Mac da inviabilidade daquele empreendimento, também o preveni sobre as consequências que se abateriam sobre todos. Àquela altura todos sabiam que a decisão que haviam tomado era um caminho sem volta. Ceder, naquela circunstância, apenas para ser deixado em paz, era uma iniquidade a obliterar as qualidades de todos envolvidos. "Burnham vai mostrar morte ao povo, vai perseguir os ricos, vai investir contra nossas propriedades e o povo em Georgetown vai amá-lo por isso", era assim que Ben Mill costumava murmurar todas as vezes que falava sobre o assunto. Mas eu não tinha qualquer convicção sobre aquela causa. Um sentimento indecifrável, mas perfeitamente compreensível, ligava-me ao mister e à senhora Mill. As circunstâncias fizeram-me vincular àqueles dois de uma maneira aberta e franca. Sabia que os desdobramentos da reunião dos fazendeiros do Distrito seriam desastrosos e totalmente irreversíveis, mas em momento algum quis interferir ou fazer valer minha opinião sobre as decisões tomadas ali.

Antes de falecer, um dia anterior à reunião, mister Mill chamou-me para uma conversa na sala da vivenda. Tudo estava quieto no interior da casa.

Uma luz fraca dava uma cor pálida às grossas paredes amarelas. Havia dois sofás compridos, revestidos em couro de boi num dos cantos da sala;

pesadas cadeiras com estofamento vermelho combinavam com a mesa em

madeira maciça, ao meio. Tapetes felpudos e quadriculados cobriam o piso vermelho bem lustrado, que combinavam com os altos espaldares dos sofás.

Uma rede índia, com detalhes azuis, fora pendurada próxima a uma mesinha onde se viam vários números da revista Life. Uma brisa fresca entrava pelas janelas e sacudia as pesadas cortinas que as resguardavam. Sentei-me no sofá ao lado e mister Mill, que com um copo de uísque na mão permaneceu silencioso, no outro lado. As rugas cavadas pelo tempo em seu rosto ficaram encobertas pela luz tênue, dando uma cor amarelada à sua fisionomia. Então, ele respirou fundo, lançou um olhar em minha direção e perguntou impulsivamente: “há quanto tempo está aqui conosco, rapaz?”, “pouco mais de um ano, senhor”, respondi. Mill continuou imóvel, afundado no sofá, imaginando, talvez, que eu tivesse o mesmo ímpeto que tivera quando decidira abandonar sua cidade e sair pelo mundo em busca de fortuna.

“Tenho uma história parecida à sua; saí cedo de casa, o mundo parecia ser mais seguro do que o lugar onde morava. Andei em muitos locais até chegar aqui”, ele disse com um olhar de obstinação imbatível. “Do mesmo modo, senhor, resolvi sair pelo mundo porque me sentia insatisfeito. Trabalhava numa dessas lojas de departamento. Na verdade, eu era vendedor de carros”, falei. Ben Mill levantou a cabeça e abriu um sorriso irônico: “você? Um vendedor de carros?”. “Isso mesmo – afirmei, “não era dos piores, mas sentia um grande vazio dentro de mim. Era como se a minha vida fosse inteiramente estúpida. Um dia li numa revista, histórias de pessoas que fizeram fortuna fora da América. Então, pensei comigo: sou jovem, esperto, o que tenho a perder? Na semana seguinte comprei uma passagem de navio para o Caribe. Queria viver num desses lugares mornos o ano inteiro. Foi quando soube que a Guiana era um lugar de oportunidades, onde tudo estava começando. Foi assim que fui parar naquele armazém”. Ben Mill balançou a cabeça e disse: “se você tivesse chegado aqui alguns anos antes, sua sorte teria sido melhor, rapaz! Em seguida riu amavelmente e indagou:

“quando pudermos outra vez viver em paz aqui no Distrito, o que pretende fazer, voltar para casa?”. “Voltar? Não! Gostei daqui”, respondi, “estive pensando em estabelecer um lugar perto do Amuku, aquele é o lugar mais formidável que já vi”. “Como é esse lugar? Vamos hoje abrir nossos corações um para o outro. Diga-me, o que quer fazer lá?”, ele quis saber. A pergunta liberou em mim um entusiasmo: “é um vale com campo muito verde, que no inverno, numa baixada cheia de buritizais, forma um grande lago que se enche de peixes atraindo garças, passarões, marrecos e aves que nunca avistei em toda minha vida. À medida que o verão vai se tornado mais quente, vai desvelando uma coroa de areia alva que forma praias deleitosas.

À noite uma brisa suave sopra, persistentemente, até os primeiros raios de sol, que despontam plácidos por trás do Cuano-Cuano. Existe um teso de terras escuras, donde se pode avistar uma grande extensão do lago, e é lá que eu queria construir uma casa, se o senhor consentir em me vender o lugar, é claro”. Mill levantou-se, aproximou-se de mim e de um jeito pesado pousou a mão sobre meu ombro, murmurando equânime, não entendi o porquê: “todo homem tem que ter um objetivo na vida, rapaz!”, fez uma pausa, refletiu e disse: “a felicidade, só tem quem a ela aspira”. Em seguida, sacudiu a cabeça em sinal de afirmação, olhando-me fixamente: “você é um grande homem, sabe ser prudente, sabe se impor”, o tom de sua palavra tornou-se mais lento e manso. “Tenho o pressentimento de que não viverei muito tempo; sinto a vida se esvaindo em mim a cada dia, e ainda ontem sonhei com meu pai passando por mim várias vezes, correndo em um cavalo branco me dizendo: não há mais nada para você fazer aí... venha comigo...

estou te esperando... você já fez o que tinha de fazer... venha”. Mill repentinamente emudeceu, pensou e ponderou: “quando cheguei aqui isso tudo era selvagem, alguns brasileiros usavam esse lugar para caçar e pescar, nem índio vivia aqui. Por muitos anos corri os rios a procura de ouro; vi gente nascer, vi gente morrer. Depois foi chegando um, depois outro, depois chegou o gado e a partir daí tudo foi mudando até se tornar o que é hoje”, uma ligeira comoção na voz o fazia interromper de quando em quando, “o gado nos deu bem-estar, dinheiro, riqueza e poder, mas em contrapartida roubou nossas almas, embruteceu-nos, tornou-nos áridos e insensíveis, tornou-nos materialistas e demasiadamente apegados às instituições abjetas que criamos. Fizemos dos índios mulas de nossas cargas, e ainda fomos capazes de chamá-los de irmãos, tomamos suas mulheres e construímos essa sociedade de criadores. Vieram os negros, veio Burnham, o PNC, vieram os indianos, Jagan, os chineses, os portugueses, veio a insatisfação de um contra o outro, veio a falta de representação e, finalmente, tivemos que olhar no espelho para descobrir quem éramos: descobrimos que éramos mortais, éramos pó e nada mais”. Ouvi imóvel as palavras de Ben Mil como se quisesse fixá-las em minha memória. Então, ele olhou-me significativamente e continuou: “queria lhe pedir um favor, do qual sei que nunca poderei retribuir e sei que o fará porque você é um bom rapaz”, continuou, “meus filhos têm bom caráter, durante toda a vida esforcei para orientá-los de acordo com os valores da equidade e da justiça, mas não sei se consegui porque esse lugar tornou-os volúveis, com vontades fracas e ambições frívolas. O gado e o dinheiro corromperam suas almas plangentes; temo pelas vidas deles e por aquilo que a sorte pode reservar-lhes”. E numa

inesperada surpresa, rogou: “quero que zele pela segurança deles e de minha Ângela. Morrerei tranquilo, se você jurar. Você jura?”. Diante da expressão de ansiedade em seu rosto, sua voz emotiva, olhei para sua figura alta, curvada pela idade, cabelos ralos e grisalhos, a face comprida, marcada pelo tempo, pensei comigo durante alguns segundos: um homem como ele, atormentado pelo destino dos filhos, tinha o direito de pedir-me o que quisesse. Então assenti com a cabeça e disse em tom forte: “claro que juro, o senhor tem a minha palavra, embora me sentirei esmagado por tamanha responsabilidade”. Comecei a pensar que todos os homens têm um destino somente, e não se pode furtar ao que está antecipadamente decidido, mesmo que se queira fugir dele. Pensei que de propósito o destino havia me enfiado naquele lugar.

Deixei meus pensamentos para olhar no flanco direito do lugar onde estava na fazenda; uma enorme bandeira nacional da Venezuela tremeluzia com as cores vermelha, azul e amarela, um brasão do lado direito e sete estrelas em semicírculo, ao centro. Sob uma brisa fraca, sem ímpeto para dissipar o ar enevoado pela fumaça, caminhei devagar e segui pela rua deserta até o hotel. Estava deploravelmente combalido em meu ânimo.

No documento Rupununi: Dias de revolta. - UERR Edições (páginas 97-103)