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Definição Funcional de BG

No documento universidade do vale do itajaí - univali (páginas 30-33)

2.1 Business Groups

2.1.1 Definição Funcional de BG

A definição dos BG e critérios de filiação de empresas não são rígidos, como as teorias acima sugerem. De forma geral, pode-se caracterizar um BG como um conjunto de empresas legalmente independentes que podem exercer suas atividades em diversas indústrias, correlatas ou não, que apresentam algum tipo de ligação perene. A ligação entre empresas de um mesmo BG difere do que se observa em um conglomerado, pois tal ligação pode ser informal, como se observa em empresas cujos controladores pertencem à mesma família. É comum existirem em um BG relações informais e formais entre as empresas afiliadas.

Carney et al (2011) relata em estudo bibliométrico sobre os BG que a definição mais usual é do estudo de Khanna e Rivkin (2001), que define os BG como um conjunto de empresas legalmente independentes que estão ligadas por um conjunto de elos formais e informais e que tomam decisões de forma coordenada.

O presente estudo compartilha do uso dessa definição e tem na propriedade o critério que define a fronteira entre os BG. No entanto, há outras definições de BG, das quais destacamos aquelas oriundas da legislação. Em alguns países, a importância dos BG levou o legislador a normatizar e regular algumas das atividades dos BG, o que gerou a necessidade de tipificar essa forma organizacional.

Uma definição de BG pode ser observada na legislação chilena. Na década de 1980, houve uma crise financeira no Chile que foi atribuída, em parte, a empréstimos pouco criteriosos concedidos a empresas ligadas a grupos financeiros.

A configuração das empresas sugeria a existência de BG, a exemplo do que Aoki (1990) já relatara no Japão. Autoridades chilenas se viram obrigadas a definir o conceito de BG para monitorar e controlar atividades financeiras entre empresas de um mesmo grupo. O artigo da lei chilena que contém essa definição de BG, transcrito a seguir, aborda aspectos de propriedade, mas também inclui laços de natureza não financeira, como os familiares.

Artículo 96 ‐ Grupo empresarial es el conjunto de entidades que presentan vínculos de tal naturaleza en su propiedad, administración o responsabilidad crediticia, que hacen presumir que la actuación económica y financiera de sus integrantes está guiada por los intereses comunes del grupo o subordinada a éstos, o que existen riesgos financieros comunes en los créditos que se les torgan o en la adquisición de valores que emiten.

Forman parte de un mismo grupo empresarial:

a) Una sociedad y su controlador;

b) Todas las sociedades que tienen un controlador común, y éste último, y c) Toda entidad que determine la Superintendencia considerando la concurrencia de una o más de las siguientes circunstancias:

1. Que un porcentaje significativo del activo de la sociedad está comprometido en el grupo empresarial, ya sea en la forma de inversión en valores, derechos en sociedades, acreencias o garantías;

2. Que la sociedad tiene un significativo nivel de endeudamiento y que el grupo empresarial tiene importante participación como acreedor o garante de dicha deuda;

3. Que la sociedad sea miembro de un controlador de algunas de las entidades mencionadas en las letras a) o b), cuando este controlador corresponda a un grupo de personas y existan razones fundadas en lo dispuesto en el inciso primero para incluirla en el grupo empresarial, y 4. Que la sociedad sea controlada por uno o más miembros del controlador de alguna de las entidades del grupo empresarial, si dicho controlador está compuesto por más de una persona, y existan razones fundadas en lo dispuesto en el inciso primero para incluirla en el grupo

empresarial. (CHILE, 1981).

Já na China, o legislador objetivou o fomento dos BG (localmente denominado Qiye Jituan) ao invés do controle. As reformas estruturais na década de 1980 que abriram o mercado chinês ao comércio mundial se depararam com inúmeras empresas estatais, algumas das quais pouco eficientes. Houve incentivo oficial para a formação dos BG, principalmente para substituir empresas estatais por meio de um programa de privatizações. O departamento da Indústria e Comércio Chinês definiu os BG como conjuntos de empresas cujo capital conjunto seja de pelo menos 100 milhões de Yuan (aproximadamente R$ 24 milhões), seja formado por pelo menos 6 empresas e que a empresa principal tenha um capital superior a 50

milhões de Yuan (aproximadamente R$ 12 milhões). Esse seleto grupo passou a receber incentivos do governo e prosperou rapidamente (LEE; KANG, 2010).

Observa-se que, na China, a definição de BG é focada no porte e estrutura de propriedade, negligenciando laços informais, como os familiares. Nesse contexto, o Estado não visa o controle das empresas, como no Chile, mas elencar candidatos a um processo de desestatização controlada. Como o status de BG passou a ser gerador de benefícios nessa economia, alguns empresários formaram BG oportunisticamente, dessa forma gerando grupos de firmas com um novo tipo de afinidade, o desejo de auferir vantagens oferecidas pelo governo. Essa é uma das características únicas dos BG chineses, não observadas em outros países, onde geralmente laços familiares ou étnicos prevalecem.

Na Índia, a estruturação da economia após a independência, em 1947, não gerou incentivos à formação de BG por parte do governo. No entanto, o ambiente caracterizado pelo alto nível de regulação e burocracia inviabilizava a existência de empresas de menor porte, a não ser na informalidade. O aparecimento de BG na Índia pode ser uma resposta a esse tipo de distorção, uma licença para estabelecer uma atividade econômica, ou mesmo aumentar o nível de produção, chamada raj, envolvia custos elevados e processos morosos a ponto de somente serem concedidos a empresas com significativo porte econômico (CAPPELLI et al, 2010).

Outro aspecto relevante da nascente república indiana do século XX era a ausência de instituições reguladoras e fiscalizadoras dos mercados de capitais e de trabalho, o que fazia com que o poder econômico dos BG fosse ainda mais notório.

Na Coréia, momento histórico singular, a cisão do país após a Guerra da Coréia (1950-1953), gerou um ambiente especialmente propício para a formação de BG, como relatam Porter (1990) e Kim (2010). Inicialmente incentivados pelo governo como forma de atingir objetivos de rápido desenvolvimento, os BG coreanos passaram a ter importância tão grande na economia do país que passaram a ser vistos como ameaça (CHANG, 2003). A crise asiática de 1997, de ordem financeira, acentuou a preocupação e diversas medidas legais de fiscalização e controle foram tomadas.

Os Chaebols geralmente têm controle centralizado e operam de forma semelhante a unidades de negócio de grandes corporações (KIM, 2009). Para dirimir riscos de expropriação de acionistas minoritários, o governo coreano implementou diversos mecanismos que buscaram aumentar a transparência das atividades dos

BG. Algumas medidas incluem restrições ao oferecimento de garantia a dívidas entre empresas do mesmo grupo e a divulgação compulsória de um relatório denominado CFS (Combined Financial Statements), que consolida as operações dos BG, inclusive com dados sobre empresas não listadas em bolsa.

A Korea Fair Trade Commission (KFTC), órgão governamental de fiscalização e controle do mercado de capitais, com atribuições semelhantes à brasileira CVM (Comissão de Valores Mobiliários) ou à americana SEC (Security Exchange Comission), define BG como um conjunto de empresas das quais pelo menos 30% pertencem a um acionista controlador ou a suas empresas afiliadas.

Com o objetivo de melhor controlar as atividades dos Chaebols, o legislador coreano equipara todas as empresas afiliadas a empresas listadas em bolsa. O conjunto de medidas gera transparência nas atividades dos BG coreanos e facilita a sua fiscalização.

Os exemplos citados das legislações do Chile, China e Coréia são exceção.

A norma em países é legislar sobre empresas e ignorar os BG, o que pode gerar algumas anomalias. Uma delas é o tunnelling, definido como a transferência de recursos entre empresas de um mesmo BG com o objetivo de expropriar riqueza de acionistas minoritários (JOHNSON et al, 2000).

No documento universidade do vale do itajaí - univali (páginas 30-33)