O sistema político que emergiu na transição democrática brasileira foi nomeado como “presidencialismo de coalizão” (ABRANCHES, 1988). A tal conceito, amplamente acolhido, corresponde a necessidade de o pre- sidente governar mediante coalizões que transcendem critérios partidá- rios em razão de algumas causas principais: presidente sem maioria de seu partido/coalizão no Parlamento; elementos federativos com forte interfe- rência dos governadores na pauta do Congresso; e uma agenda dominada por complexas reformas institucionais. Nessa acepção, o sistema político estaria condenado à instabilidade política e à paralisia decisória pela de- pendência de arranjos extrapartidários, de tal forma que o multipartida- rismo não seria seu principal problema.
Outros estudos sobre o processo decisório consagrado pelo marco institucional da Constituição de 1988 sustentam, diversamente, que o sis- tema político seria estável e previsível, ancorado por alianças partidárias, comparável a outras democracias, inclusive as parlamentaristas. Nessa interpretação, o Executivo concentra poderes e dispõe de instrumentos decisivos para impor sua agenda, destacadamente o monopólio da inicia- tiva legislativa em matérias fundamentais (orçamentárias, por exemplo) e o uso de medidas provisórias. Em síntese, “nada autoriza tratar o sistema político brasileiro como singular. Coalizões obedecem e são regidas pelo princípio partidário” (LIMONGI, 2006, p. 17).
Desde o estabelecimento do voto popular para a presidência, consoli- dou-se um sistema decisório de coalizões, em governos de diferentes orien- tações ideológicas, que teve outro traço comum: quase todos (Itamar, FHC, Lula e Dilma) contaram com a sustentação decisiva do centro por meio de maiorias partidárias. À semelhança do que ocorre no Parlamentarismo
e, em razão da autonomia das disputas para o Executivo e o Legislativo – posto que a maioria presidencial não se reproduz em eleições parlamen- tares –, esses governos se formaram após os pleitos, logrando êxito no de- safio de obter governabilidade, demonstrando capacidade de impor seus programas1. A exceção foi o governo Collor, e essa distinção – somada ao estilo imperial do presidente e ao seu desprezo pelo Parlamento – é valiosa para entender o desfecho do impeachment, determinado por uma conjun- ção de fatores que incluem a corrosão de sua já precária base de sustenta- ção parlamentar, o protagonismo de uma coalizão parlamentar de centro- -esquerda oposicionista, o apoio mediático e as mobilizações sociais.
Diferente do que enfatiza a narrativa hegemônica, Collor não foi des- tituído por seu reformismo liberal antipopular, ou mesmo pelas fartas acusações de corrupção que lhe foram imputadas com fartas evidências comprobatórias, e sim porque seu governo foi identificado pelas elites políticas e econômicas como fonte da crise, ou seja, “um Executivo que não dispõe de maioria parlamentar estável, baseada em negociações par- tidárias, tem poucas chances de implementar seu programa e corre maior risco de ser abalado seriamente por crises políticas” (SALLUM JR., 2015, p. 407). Nesse sentido, a tese original do “presidencialismo de coalizão” é discutível pela constatação de que o ingrediente decisivo é precisamente a coalizão partidária.
A propósito dos dilemas político-institucionais dos governos e dos pa- radoxos entre estes e as demandas sociais, Nobre (2013) analisa as contra- dições que têm marcado o sistema político e a sociedade nas últimas déca- das, identificando no “peemedebismo” uma dupla função: é o movimento que permite avançar em reformas democratizantes, mas, simultaneamen- te, também é o freio que obstaculiza a modernização política e social. Esse imobilismo não se limita partidariamente ao PMDB e pronunciou-se em momentos críticos: na coalizão com a Frente Liberal para alçar a chapa Tancredo Neves/José Sarney à presidência; no impeachment de Collor para 1 Merece registro a mudança comportamental do governo Lula logo após a “crise do mensalão”, na metade de seu primeiro mandato, quando abandona a estratégia de formação de maiorias ad hoc e sucumbe ao imperativo da governabilidade incorporando o PMDB e outros partidos políticos ao governo.
superar a crise de governabilidade; junto ao governo FHC para permitir reformas liberalizantes; no governo Lula para sustentar uma agenda so- cial. Em todos esses momentos o “peemedebismo” se colocou do lado ven- cedor, como fiador do processo decisório: “assim o sistema se preservou sem mudar, fortalecendo sua lógica de travamento de grandes transforma- ções” (NOBRE, 2013, p. 12).
As elites políticas perceberam as vulnerabilidades e as frestas desse sistema (“presidencialismo de coalizão”) e, assim, ampliaram seu poder de fogo por meio da multiplicação de legendas partidárias e da pressão para obtenção de contrapartidas: nomeações em cargos de diversos escalões, controle de políticas públicas, acesso a fatias do orçamento da União e de empresas estatais, etc., sinecuras que, longe de serem estranhas ao mundo político, permitem a própria sobrevivência desses atores. Não há política desinteressada, ensina Weber. Esse percurso foi facilitado pela permissi- vidade dos sistemas político e eleitoral e culminou com a existência de 35 partidos políticos registrados na Justiça Eleitoral, dos quais 28 têm assento na Câmara dos Deputados. Essa tendência levou o multipartidarismo bra- sileiro ao extremo, o que ampliou as dificuldades para obtenção de maio- rias parlamentares e, portanto, de governabilidade.
Os governos petistas não escaparam dessa “fatalidade”, e cultivaram a expectativa de que poderiam “se valer da ordem institucional para be- neficiar os pobres sem prejudicar os ricos – e até mesmo contando com a ajuda deles. E, de fato, houve benefícios aos pobres... Mas, uma vez aceito o preço de entrar num sistema político moribundo, a porta para voltarem atrás fechou-se” (ANDERSON, 2016, p. 22). Essa contradição se radica- lizou nas eleições de 2014, quando Dilma Rousseff venceu por pequena margem e, antes mesmo da posse, adotou o discurso econômico de seu opositor, acuada por um cenário adverso que sinalizava uma rota recessi- va. Os dilemas petistas se anunciaram antes e não é casual que o subtítulo da obra de SINGER (2012) já os sintetizasse: “reforma gradual e pacto con- servador”. Para este autor, o lulismo forjou-se combinando elementos de direita (a inclusão pelo consumo e a ideologia que lhe subjaz) e de esquerda (o ideário de justiça social e suas correspondentes políticas públicas), o que
o remeteria ao desafio de superar um reformismo fraco, incapaz de pro- mover transformações sociais, políticas e ideológicas fecundas.
Instabilidade e crise foram marcas do breve segundo governo de Dilma Rousseff, acuada por uma aversão implacável da oposição polí- tica, dos grandes grupos mediáticos e de amplas parcelas da sociedade.
Cenário agravado pela desagregação de sua base parlamentar e pela elei- ção de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara dos Deputados.
Completa essa conjuntura a famigerada inépcia da chefe de governo para promover negociações com sua própria base e com os partidos políticos no Parlamento.
A radicalidade, a forma e a velocidade que marcaram a destituição de Dilma Rousseff recolocaram o sistema político brasileiro na berlinda, incluindo a análise sobre os limites do exercício da oposição, do “presiden- cialismo de coalizão” (em suas diferentes interpretações), da participação política e do combate à corrupção (AVRITZER, 2016), agenda ainda mais problemática se se adicionar a judicialização das disputas políticas e o lar- go impacto da ação mediática na política. Em síntese, o modelo de demo- cracia e suas instituições estão em questão no Brasil.
Qualquer exame sério sobre esses acontecimentos não pode ignorar a influência mediática. Reportando-se à trajetória de Assis Chateaubriand (Chatô), “as empresas de comunicação são o melhor modo de se ganhar dinheiro por conta da possibilidade de ‘chantagear a política’ de modo sis- temático” (SOUZA, 2016, p. 133). Nossa hipótese é que, para além da tra- dicional extorsão ante o sistema político para obter benefícios materiais, a ação mediática assumiu um papel ainda mais proeminente, confundindo- se inclusive com os partidos políticos na medida em que sintetizou e for- mulou um programa que combinou (i) moralização da política (apoio in- condicional à operação Lava Jato, defesa do poder ilimitado do Ministério Público, pressão maciça sobre a atividade jurisdicional do Judiciário, criminalização de atos políticos como nomeações para cargos públicos), (ii) uma agenda econômica abertamente liberal (centralidade do ajuste fiscal, reformas trabalhista e previdenciária, desestatização) e (iii) aberta partidarização da cobertura política que não se restringiu à media im- pressa (LATTMAN-WELTMAN; CHAGAS, 2016). Assim fundamentou
ideologicamente sua crítica no ataque ao que chamou de “populismo de esquerda”. Explique-se: “a razão para toda essa apoteose é simples: a pre- sidência de Cardoso administrou no Brasil uma generosa dose de admi- nistração pró-mercado, um remédio que parecia ser mais urgente do que nunca diante do escárnio populista do PT” (ANDERSON, 2016, p. 13).
Esse fenômeno de partidarização mediática não se limitou à chanta- gem e à escolha de um lado da disputa política – como fez historicamente –, mas assumiu um papel que tradicionalmente é dos partidos políticos, qual seja, o de organizar parcelas da sociedade e apresentar um conteúdo programático de governo. E é notável que esse movimento tenha trans- corrido na América Latina ao tempo em que emergiram governos popula- res e progressistas de diferentes matrizes político-ideológicas (Argentina, Brasil, Bolívia, Equador, Paraguai, Uruguai, Venezuela). Em um cenário no qual as elites políticas e os partidos tradicionais do campo conservador perderam a capacidade de mobilização social e de cumprir sua missão de oposição política, a ação mediática ocupou rapidamente esse espaço como
“partido” do conservadorismo.2 Exemplos notáveis dessa inflexão se con- sumaram nas condutas dos grupos Clarín (Argentina) e Globo (Brasil).
Nesses termos, o impeachment de Dilma Rousseff teria sido um “tro- peço da democracia” ou apenas um passo a mais na tentativa de estabilizar o sistema político? O exame da cobertura televisiva oferece pistas valiosas a esse respeito.