Do questionamento da política econômica
arenas de atuação política do empresariado e de sua interação com outros atores. Nesse sentido, uma importante contribuição da literatura mais re- cente foi demonstrar que o empresariado brasileiro, especialmente o em- presariado industrial, engajou-se num crescente processo de organização e mobilização desde a redemocratização de 1988, transcendendo os limi- tes dos arranjos corporativos tradicionais, e que tem nas instituições de representação política um importante espaço de atuação.
Como mostram estudos anteriores, com a difusão da internet, as plataformas digitais das associações de classe passam a ser um veícu- lo adicional de expressão dos pontos de vista dos empresários (BRAGA;
NICOLÁS, 2009; BRAGA; GRIEBELER, 2010; MINELLA, 2013). A esses recursos agregaram-se em tempos mais recentes as mídias sociais tais como Facebook e Twitter, que também têm servido como recurso para a expressão dos pontos de vista de representantes de diversos atores, tais como “think thanks”, lideranças corporativas empresariais, entidades de classe e associações diversas. Neste capítulo, dando continuidade a es- tudos anteriores onde procuramos analisar a atuação de segmentos do empresariado na internet, bem como refletir sobre seu potencial para apreender aspectos relevantes de sua atuação no mundo off-line, procura- remos examinar o padrão de comportamento e de ação política de frações empresariais numa rede social específica (o Facebook) durante o período compreendido entre a eleição de Dilma Rousseff, em 28 de outubro de 2014, e a aprovação do impeachment pelo Senado Federal em 31 de agosto de 2016. Procuraremos observar o padrão de comportamento nas redes de quatro grandes segmentos empresariais: (1) O primeiro, representativo de um setor que podemos considerar como “burguesia associada”, é ilustra- do pela atuação do Instituto Millenium; (2) O segundo segmento pode- mos considerar representativo da “burguesia interna” (Paulo Skaf, CNI/
Confederação Nacional da Indústria, Fiesp/Federação das Indústrias do Estado de São Paulo); (3) O terceiro, do agronegócio, representado basica- mente pela CNA/Confederação Nacional da Agricultura; (4) E, por fim, a timeline de setores do pequeno e médio empresariado, representado pela ACSP/Associação Comercial de São Paulo e Fiep/Federação das Indústrias do Estado do Paraná. Esclareça-se que se trata de um estudo exploratório
inicial na medida em que procuraremos agregar outros atores à nossa aná- lise em fases subsequentes da presente pesquisa2.
As seguintes questões gerais orientarão nosso enfoque: (1) Quais os padrões de uso do Facebook por essas frações empresariais para divul- gar seus pontos de vista sobre questões políticas ao longo do mandato de Dilma Rousseff? Esses grupos usaram as mídias sociais para debater políticas gerais (tais como a política econômica governamental, políticas públicas diversas ou mesmo a crise política), ou usaram-nas apenas para outras funções, tais como gerenciamento de imagem das associações, polí- ticas corporativas, divulgação de eventos, etc.?; (2) Qual o posicionamento desses segmentos empresariais em relação às questões mais candentes do governo Dilma, especialmente a política econômica implementada por seu governo, a crise política, e as manifestações que redundaram no processo de impeachment? É possível apreender algo da ação desses segmentos em- presariais e de sua dinâmica a partir da análise de suas postagens das redes?;
(3) Por fim, e mais importante: pode-se, a partir da análise de conteúdo das postagens on-line, inferir algo acerca do fracionamento das classes e seto- res dominantes atuantes durante esse período e de seu posicionamento em relação ao governo a partir do conteúdo de suas postagens no Facebook?
O referencial analítico mais geral adotado para abordar essas questões consiste nas contribuições daqueles autores que detectam não apenas a diferenciação e a existência de conflitos entre segmentos das classes do- minantes nas sociedades capitalistas, mas também a existência de uma disputa pela hegemonia política entre eles, vale dizer, de uma luta pela pre- ponderância da influência de cada segmento empresarial (e respectivos aliados políticos) no processo de elaboração das políticas estatais de uma maneira global, assim como a existência de uma relação de predomínio e 2 Para o Instituto Millenium como representativo de segmentos sociais (altas camadas, médias e empresariado) que professam um liberalismo de cunho mais internacionalizante, cf. o trabalho de Luciana Silveira (2013); para a distinção entre o empresariado “nacional- dependente”, ou burguesia interna, e seus conflitos com os setores associados ao longo do processo de industrialização brasileira, cf. os trabalhos de Bresser-Pereira (2015), Boito Jr.
(2010) e Décio Saes (2014); para a CNA como principal representante do agronegócio, cf. o trabalho de Wagner Iglesias (2007); para a ACSP e Fiep como representativo do pequeno e médio empresariado, cf. o trabalho de Griebeler & Braga (2014).
subordinação entre subgrupos da classe dominante ao longo desse pro- cesso. Essa luta pela hegemonia, por sua vez, envolve a mobilização de múltiplas estratégias políticas e discursivas, das quais as mídias sociais são apenas a mais visível e recente3. Nesse contexto, o objetivo deste trabalho é efetuar uma análise de como os principais setores empresarias brasileiros usaram as redes sociais, especialmente o Facebook, para manifestar seus pontos de vista em relação à política econômica do governo Dilma e à campanha pelo impeachment. A metodologia empregada será uma análise de conteúdo das postagens durante o período citado a partir da aplicação do programa Netvizz.
Trabalharemos com as seguintes proposições básicas:
(1) As mídias sociais foram um importante espaço para as associa- ções empresariais divulgarem seus posicionamentos políticos, ao lado de assuntos corporativos e divulgação de eventos, na conjun- tura examinada;
(2) Setores empresariais diferentes apresentaram diferentes padrões de atuação política nas mídias sociais, conforme seus objetivos políticos e estratégicos na luta pela hegemonia no interior dos se- tores dominantes;
(3) As diferenças observadas entre o comportamento dos diferentes atores no período nos permite caracterizar diversas frações de classe atuando na cena política brasileira;
(4) A análise nos permite identificar quatro grandes subgrupos em- presariais atuantes na conjuntura brasileira recente: (i) um seg- mento empresarial que podemos caracterizar como burguesia associada (ou internacionalizante) representada basicamente na cena política pelo Instituto Millenium e os atores que gravitam em seu entorno, que desenvolveu intensa atuação na internet no
3 Diversos autores operam com os conceitos de hegemonia e bloco do poder para caracterizar estas relações políticas entre os diferentes segmentos, subgrupos ou frações das classes do- minantes em sua luta por maior influência nas políticas governamentais e pela obtenção ou conquista de uma posição de predomínio no sistema de posições relativas que as hierarqui- zam entre si. Apenas a título de exemplo, conferir os trabalhos de Saes (2014), Boito Jr. (2012), Martuscelli (2015), Farias (2009), Braga (2002), Aguiar Jr. (2015), dentre outros.
período; (ii) uma outra fração que, seguindo outros autores, pode- mos caracterizar como grande burguesia interna ou burguesia in- terior, integrada basicamente por atores representativos do grande empresariado industrial paulista (Fiesp e Paulo Skaf) e nacional (CNI); (iii) uma terceira fração de classe do agronegócio represen- tada basicamente na cena política pela CNA; (iv) e uma quarta fra- ção que podemos designar como pequeno e médio empresariado, representada pela ACSP e pela Fiep.
Esclareça-se, por fim, que examinaremos a ação política desses ato- res em uma mídia digital específica (o Facebook), e não em outras plata- formas digitais, por questões de espaço. Em fases posteriores da presente pesquisa, pretendemos ampliar o campo de abrangência de nossa análise.