1.2 Desvelando a vulnerabilidade
1.2.3 Necropolítica no Brasil contemporâneo
Na mesma linha de argumentação, para tratar do racismo como sistema de dominação23, partiremos da definição apresentada por Mbembe (2006, p. 22-23). Inicialmente, ele define:
El racismo es, en términos foucaultianos, ante todo una tecnología que pretende permitir el ejercício del biopoder, ‘el viejo derecho soberano de matar’. En la economía del biopoder, la función del racismo consiste en regular la distribución de la muerte y en hacer posibles las funciones mortíferas del Estado. Es, según afirma,
‘la condición de aceptabilidad de la matanza’.24
O racismo – enquanto mecanismo de um sistema político de dominação – é sustentado em duas ideias que se complementam: a primeira, que existem diferentes raças humanas; e a segunda, que existem raças humanas inferiores a outras. Essa concepção se ampara, desde o início, em uma espécie de nacionalismo exagerado, segundo Hannah Arendt (2013), e ganha proporções maiores a partir da intensificação do comércio entre europeus e africanos no período das grandes navegações, com as conquistas de terras além do Atlântico. O racismo agora passa a ter como critério a cor da pele, e o africano ganha dois status: o de negro e o de raça inferior.
Portanto, o critério racial nasce para subjugar pessoas enquanto não pessoas, como forma de opressão. Nesse sentido, Franz Fanon (2008) afirma que quem criou o negro foi o racismo, pois chama atenção, em sua obra Pele negra, máscara branca, que a raça não é um critério genético ou físico, mas uma construção de dominação político-social (FANNON, 2008). Tal sistema configura a negação da humanidade ou uma humanidade castrada permeado na concepção econômica, que por séculos associou o corpo negro colonizado como mercadoria (MBEMBE, 2014).
Classificado dessa forma, o seu corpo (a força de trabalho) foi utilizado como combustível para o desenvolvimento do capitalismo. Um corpo que poderia ser usado e descartado assim que se tornasse inútil para ser explorado. Mesmo após o sistema econômico escravagista ter sido extinto, as estratégias de eliminação do corpo negro não cessaram.
Ao ser concebido como um ser inferior, despossuído de razão e alma, na concepção dos europeus, o negro escravizado foi utilizado no processo, que se tornou o combustível para o desenvolvimento do capitalismo dentro da estrutura colonial. Tirar-lhes a vida e a dignidade
23 De maneira ainda mais branda e por muito tempo imperceptível, essa forma de racismo tende a ser ainda mais perigosa por ser de difícil percepção. Trata-se de um conjunto de práticas, hábitos, situações e falas embutido em nossos costumes e que promove, direta ou indiretamente, a segregação ou o preconceito racial.
24 “O racismo é, em termos foucaultianos, antes de tudo uma tecnologia que visa permitir o exercício do biopoder,
“o antigo direito soberano de matar”. Na economia do biopoder, a função do racismo é regular a distribuição da morte e possibilitar as funções mortais do Estado. É, diz ele, 'a condição de aceitabilidade do massacre'” (tradução livre).
era uma das estratégias para colonizá-los em terras distantes e depois na sua própria terra.
Milhões de negros foram assassinados, outros tantos mutilados; eram corpos que, se não produzissem riquezas para os seus senhores, sucumbiam aos sofrimentos e torturas até a morte.
Essa constitui uma das marcas do ideário racista da sociedade capitalista.
Agora, como ameaça de extinção biológica, os sistemas políticos contemporâneos, atualizando técnicas coloniais, executam esse mesmo corpo em forma de necropolítica.
Dessa maneira, o filósofo e cientista político Achille Mbembe (MBEMBE, 2014) afirma que o negro foi inventado como um jazigo, ou melhor, um símbolo de morte e destituído de qualquer humanidade. São seres cooptados pelo capitalismo para o trabalho braçal, pois, segundo a teoria racista, aguentam mais dor. Tal teoria ainda persiste intensamente na atualidade presente. Como bem especificou Denilson Araújo de Oliveira, basta verificar as práticas racistas de médicos ao prescreverem às negras menos anestesia na hora do parto do que às mulheres brancas, porque, no seu modo de ver, as negras aguentam mais dor do que as mulheres brancas (OLIVEIRA, 2019). O racismo, como sintetizou Simone de Beauvoir (BEAUVOIR, 1967), precisa produzir a indignidade para justificar o extermínio dos negros e de seus patrimônios, mesmo não havendo crime e assassinos.
O filósofo camaronês Achiles Mbembe, no ensaio Necropolítica (2016) e Crítica da razão negra (2014), que se apoia nos estudos de biopolítica de Michel Foucault e Giorgio Agamben, desenvolvem as discussões sobre a letalidade que atinge a raça negra.
A fim de analisar as tensões raciais no contexto brasileiro, Oliveira (OLIVEIRA, 2019, p.3) estuda o racismo de extermínio na cidade do Rio de Janeiro, em Gestão racista e necropolítica do espaço urbano: apontamento teórico e político sobre o genocídio da juventude negra na cidade do Rio de Janeiro. Nesse estudo, o autor relaciona as causas que concorreram para o acirramento dos conflitos raciais, a intolerância religiosa com destruição de terreiros, o racismo ambiental, eventos de discriminação racial em espaços públicos e privados, linchamentos e políticas de embranquecimento da paisagem/território, entre outras. Também investiga a inscrição espacial do projeto de dominação racial e do capital nos espaços urbanos.25
Oliveira procura esclarecer como o racismo se inscreve espacialmente, ao criar campos, isto é: “territórios ‘fora/dentro’ da ordem jurídico-política”, permitindo materializar o estado de
25 Oliveira, inspirado nos ensinamentos de Foucault, argumenta que no espaço público reorganizou-se “o sistema pelourinho como instrumento de dominação racial e do espetáculo público da morte como governamentabilidade espacial que vigia, pune e elimina vidas descartáveis (FOUCAULT, 2005.)”. São vidas nuas, diria Agamben. Daí complementa sua base de investigação, invocando a concepção de “Necropolítica” construída por Mbembe, quando alega: “A necropolítica foi forjada no projeto colonial ao produzir vidas radicalmente descartáveis (MBEMBE, 2014,)” (OLIVEIRA, 2019 p. 3).
exceção focalizado por Agamben, na forma histórica e de controle da espacialidade negra.
“Logo o medo branco da onda negra transforma-se numa arma para quem gera e se utiliza como pretexto para ações arbitrárias e antidemocráticas sob o discurso da lei e da ordem”
(OLIVEIRA, 2019, p. 4-5).
A temática desenvolvida por Mbembe (2014) e Agamben (2007) também foi ampliada por Oliveira (2019) para o contexto das cidades brasileiras, em uma perspectiva examinada no capitalismo neoliberal, em que podemos constatar um processo de estigmatização, que serve para fundamentar a constituição da figura do inimigo público a ser combatido (JAKOBS;
MELIA, 2018, p.16), a quem é negada qualquer condição moral e humana, desconstruindo-o enquanto sujeito de direitos.
Uma das maiores contribuições de Agamben no âmbito das suas reflexões na contemporaneidade se encontra na análise da relação instaurada entre o poder soberano e o Homo sacer. Nesta relação, este é transformado em um objeto de violência que excede a esfera do direito, estabelecendo, assim, a condição violenta do Estado (AGAMBEN, 2007).
O pensamento de Giorgio Agamben nos leva a compreender como as experiências políticas contemporâneas vêm contribuindo para a inclusão da violência no âmbito do Estado e na sua prática, em que se constata a construção de um discurso deformado na esfera política através do exercício despótico do Estado. Conjuntura perversa em que parcelas da população pobre, negra, minorias e grupos vulneráveis são os principais alvos do sistema penal a acolher práticas de exceção – circunstância na qual a violência é legitimada pelo direito -; e, nesse sentido, são lhes retirados os direitos fundamentais, sobretudo, não se aplicando o princípio da dignidade humana 26.
Embora a nossa proposta neste trabalho não seja aprofundar essas categorias desenvolvidas pelo filósofo Giorgio Agamben, é importante destacar a perspectiva introduzida pelo autor acerca do homo sacer para compreensão da vulnerabilidade da pessoa privada de liberdade, em meio a um cenário carcerário seletivo caracterizado por fissuras estruturais, gerador de violações sistemáticas dos direitos fundamentais dos presos. Nesse sentido, a figura
26 Esse caminho de superlotação carcerária, que é atualmente adotado no Brasil, vem sendo duramente criticado pela Comissão das Nações Unidas sobre Prevenção ao Crime e Justiça Criminal; esta lançou no mês de maio de 2018 um relatório sobre os principais desafios da justiça criminal no mundo. Entre os destaques, estão: o encarceramento em massa, a seletividade da justiça criminal, a situação da mulher no cárcere e as políticas de combate às drogas (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2019). Ressalte-se que tal relatório, denominado Global Prison Trends 2018, criticou a presença maciça de minorias étnicas nas prisões do mundo. Segundo o documento, essa tendência mundial reflete e aprofunda a exclusão socioeconômica desses grupos. Além de ser a maioria nos presídios, integrantes de minorias étnicas, também “têm a maior probabilidade de serem presos processados e permaneceram encarcerados por períodos mais longos do que os demais setores da população num número significativo de países” (HANNAH; KITTAYARAK, 2018).
do homo sacer pode ser compreendida como um ser “sem direitos”, desqualificado, abandonado, “insacrificavelmente matável” resultante da operacionalização de uma
“biopolítica da vida nua” (AGAMBEN, 2007).
Assim, podemos compreender que a partir da violência com a criminalização de grupos vulneráveis ou marginalizados, que são objetos de julgamento pelo sistema de justiça criminal brasileira, como as mulheres condenadas por tráfico de drogas, acaba por reduzi-las à figura de Homo sacer (AGAMBEM 2007), pois se observa claramente que a realidade carcerária brasileira, ao segregar a liberdade humana, configura um quadro sistêmico de torturas e outras formas de maus-tratos, podendo comparar as prisões brasileiras pela superlotação e por suas condições aviltantes impostas aos detentos à figura de campo. (SOARES, p. 285, 2018).