1.1 O conceito de vulnerabilidade social
1.1.1 Minorias
A partir da busca sobre o estudo da vulnerabilidade, é relevante apresentar a discussão da delimitação conceitual de minorias e grupos vulneráveis e a conquista do reconhecimento de seus direitos.
A origem da compreensão desse estudo é atribuída ao âmbito internacional, após a Segunda Guerra Mundial, com a Declaração Universal dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas – ONU – datada de 1948 (ASSEMBLEIA GERAL DA ONU, 1948), em que não constou nenhuma menção expressa sobre esse tipo de direitos.
A Organização das Nações Unidas, em diversas oportunidades, procurou identificar universalmente o conceito de minorias por critérios diversos. Em 1950, a Comissão de Direitos Humanos criou a Subcomissão de Prevenção de Discriminação e de Proteção de Minorias das Nações Unidas e propôs a seguinte definição:
I - o termo minoria abrange, no âmbito do conjunto populacional, apenas aqueles grupos não dominantes, que possuem e desejam preservar tradições ou características étnicas, religiosas ou linguísticas estáveis, marcadamente distintas daquelas do resto da população; II - tais minorias devem propriamente incluir um número de pessoas suficiente em si mesmo para preservar tais tradições e características; e - III tais minorias devem ser leais ao Estado dos quais sejam nacionais (ASSEMBLEIA GERAL DA ONU, 1951).
Tal proposta acabou sendo abandonada pela Comissão, que se ateve nos próximos documentos internacionais a recomendar que as minorias fossem tuteladas (WUCHER, 2020).
O principal motivo da dificuldade em se construir um conceito geral e universal reside na diversidade de situações em que as minorias se encontram, ou seja, a multiplicidade de minorias, o que torna cada grupo minoritário único, impossibilitando, a priori, a sua comparação (COSTA, 2018).
Posteriormente, em 1966 o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos estabeleceu a proteção das minorias étnicas, linguísticas e religiosas6, conferindo-lhes direitos no artigo 27:
Nos Estados em que haja minorías étnicas, religiosas ou linguísticas, as pessoas pertencentes a essas minorias não poderão ser privadas do direito de ter, conjuntamente com outros membros de seu grupo, sua própria vida cultural, de professar e praticar sua própria religião e usar sua própria língua. (BRASIL, 1992)
Da mesma forma, a Declaração Sobre os Direitos das Pessoas Pertencentes a Minorias Nacionais ou Étnicas, Religiosas e Linguísticas de 1992, aprovada pela resolução 47/135 da Assembleia Geral da ONU, de 18 de dezembro de 1992, ao se referir às minorias, não apresenta um conceito7, mas apenas especifica modalidades de minorias sem trazer uma definição concreta:
[...] A promoção e proteção dos direitos das pessoas pertencentes a minorias nacionais ou étnicas, religiosas e linguísticas contribuem para a estabilidade política e social dos Estados em que vivem.
Assim, o conceito de minorias não alcançou uma classificação universal, inclusive a ONU não instituiu um conceito fechado. Entretanto, Francesco Capotorti, em 1977, membro especial da subcomissão da ONU, apresentou uma definição que ficou sendo a base conceitual internacionalmente:
a group numerically inferior to the rest of the population of a State, in a non-dominant
6 Esse Pacto foi incorporado no ordenamento brasileiro pelo Decreto n. 592, de 6 de julho de 1992 (BRASIL, 1992).
7 Embora sejam feitos esses registros, devemos esclarecer que a Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio, de 1948 e a Convenção da UNESCO para Eliminação da Discriminação na Educação, de 1960 também chegaram a cuidar do tema. Apesar de não citarem diretamente a proteção das minorias ou direitos a grupos minoritários, entende-se que, historicamente, foram eles os mais afetados por ações de extermínio e genocídio. Assim, as referidas Convenções representaram um grande avanço na proteção dessas populações. A partir daí, o grande salto foi dado em 1966 com o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, em que se estabeleceu a proteção das minorias étnicas, linguísticas e religiosas. A Assembleia Geral das Nações Unidas já em 1992, inspirada nas disposições do artigo 27 do Pacto Internacional dos Direitos Civis adotou a Declaração sobre os Direitos de Pessoas Pertencentes a Minorias Nacionais ou Étnicas, religiosas ou Linguísticas, reafirmou que um dos seus propósitos básicos é o desenvolvimento e o estímulo ao respeito aos direitos humanos e das liberdades fundamentais de todos.
position, whose members – being nationals of the state - possess ethnic, religious or linguistic characteristics differing from those of the rest of the population and show, if only implicitly, maintain a sense of solidarity, directed towards preserving their culture, traditions, religion or language (CAPOTORTI, 1979, p.96).8
. Destaca Francesco Capotorti (1977) em sua obra Study on the Rights of Persons Belonging to Ethnic, Religious and Linguistic Minorities a existência de dois tipos de critérios para definir as minorias. Em primeiro, os critérios objetivos, que compreendem: a existência, no interior da população de um Estado, de um grupo de pessoas com características étnicas, religiosas ou linguísticas diferentes e distintas do resto da população; a diferença numérica do grupo minoritário em relação ao resto da população; a posição não dominante desse grupo minoritário; e o critério subjetivo: o desejo das minorias de preservarem os elementos particulares que os caracterizam, a vontade comum de todo o grupo de conservar sua distinta identidade cultural, ancestral, religiosa e idiomática.
Nessa mesma base conceitual, Robério Nunes (ANJOS FILHO, 2020) também ressalta quatro elementos objetivos9 (o diferenciador, o quantitativo, o da nacionalidade10 e o de não- dominância) e um dado subjetivo (solidariedade). Embora haja aceitação quanto a alguns elementos da definição de minoria sugerida por Capotorti, não há uma concordância a respeito do marco conceitual universal, uma vez que as formulações cunhadas padecem de imprecisão, equívocos e inadequações e, portanto, são insuficientes para contemplar as múltiplas e imbricadas facetas dos diversos grupos minoritários.
Inicialmente, devemos chamar a atenção para o fato de que certas minorias são maiorias numéricas, como acontecia na África do Sul no tempo do apartheid, em relação à população
8 Tradução Livre. “minoria é um grupo numericamente inferior ao resto da população de um Estado, em posição não dominante cujos membros – sendo nacionais desse Estado – possuem características étnicas, religiosas ou linguísticas diferentes do resto da população e demonstre, pelo menos de maneira implícita, um sentido de solidariedade, dirigido à preservação de sua cultura, de suas tradições, religião ou língua.”.
9 Segundo esse autor: [...] “elemento diferenciador diz respeito à presença em todos os membros do grupo de uma determinada característica de natureza estável, que os tornam distintos da população em geral. Anote-se, desde logo, que a noção de estabilidade não deve ser confundida com imutabilidade, ou seja, em algumas situações esse elemento diferenciador, embora estável, poderá sofrer processos de transformação” [...] “Diga-se também que esse elemento sozinho não é suficiente para caracterizar uma coletividade como minoria, pois se assim não fosse todas as pessoas, por serem singulares, únicas, poderiam ser tidas como minorias” [...] “elemento quantitativo afasta, de sua parte, a possibilidade da parcela da população numericamente majoritária ser entendida como uma minoria, pois há a presunção de que não há necessidade de proteção especial nesse caso. Não se trata, entretanto, de uma presunção absoluta, já que “[...] é possível que um grupo numericamente majoritário necessite de medidas protetoras e possa constituir um grupo vulnerável” [...] “O elemento quantitativo tem uma característica peculiar que é a possibilidade de um certo dinamismo, já que maioria e minoria, considerados sob uma perspectiva puramente numérica, podem variar no tempo, alternando as suas posições” [...]
10 [...] “quase todos os estudos patrocinados pela Organização das Nações Unidas mencionados acima aparece a nacionalidade ou a cidadania” [...] “não-dominância é um elemento importante. Um grupo que se encontra no comando do processo político não necessita, em regra, de uma proteção especial [...] elemento torna necessário que exista uma vontade coletiva entre os membros do grupo no sentido de manter os caracteres que os distinguem do restante da população, ou seja, o elemento diferenciador [...]”.
negra. Nessa perspectiva, o critério objetivo numérico pode ser insuficiente para determinar o conceito de minoria, sendo a exclusão social e a falta de participação nas decisões políticas dos grupos minoritários o melhor critério objetivo de sua delimitação conceitual (WUCHER, 2000).
Dessa forma, sob o aspecto da não dominância, a minoria pode ser enquadrada a uma realidade sociopolítica, aplicada no contexto de exclusão social e grau de participação política.
Nesse sentido, minoria se apresenta “em uma situação de distribuição desigual de poder político entre grupos sociais distintos que coexistem dentro de uma mesma unidade política – um país ou uma parte de um país” (BAYLÃO, 2001, p 209-233).
Em relação ao elemento da cidadania, Capotorti sustenta que as minorias são cidadãos de um Estado Nacional em que vivem, de maneira que são excluídos os refugiados, estrangeiros e trabalhadores migrantes, ainda que numericamente inferior. Diz ele:
[...] nos dias de hoje a nacionalidade não é um elemento considerado de relevância para a identificação de minorias, pois se reconhece que os Estados têm responsabilidades para com todas as pessoas que se encontram sob sua jurisdição, independentemente de serem ou não seus nacionais (ANJOS FILHO, 2009, p.226- 227).
Entretanto, essa proposta conceitual atribuída a Capotorti é criticada por Daniela Lima Barreto (2016, p.92-93), pois, em verdade, segundo ela, há redução de proteção política do Estado a grupos minoritários nacionais, deixando-os desamparados e, assim, mais expostos a terem seus direitos violados. Segundo ela:
A necessidade de definir o que é uma minoria advém exatamente da obrigação de proteger esses grupos e, em última instância, os indivíduos da violação de direitos que lhes obsta tudo, muitas vezes, até a cidadania [...] é um contrassenso, sobretudo quando se pensa em minorias étnicas, pois se sabe que elas existem e se estabelecem dentro de um âmbito nacional, todavia, ao mesmo tempo, podem existir e sobreviver além dessa fronteira territorial ou legal.
Finalmente, o elemento subjetivo do conceito diz respeito à solidariedade e preservação da identidade cultural (religião, tradições e idioma), que revela a manifestação de uma vontade implícita ou explícita de conservar suas próprias características (WUCHER, 2000). Nesse sentido, Daniela Lima Barreto (2016, p. 93) explica esse elemento pelo fato de o indivíduo se reconhecer como parte integrante do grupo, além de “ser reconhecido como parte integrante da comunidade e ainda adotar uma atitude solidária ao grupo e aos demais integrantes na busca da preservação de sua cultura e peculiar forma de vida”.
Nos países ocidentais criou-se uma hierarquia simbólica de referência, cuja imagem predominante aceita é o homem branco ocidental, cristão e heterossexual. A mulher, o negro, o
homossexual, oriental (ou todo aquele que não descenda de europeus), além de todos os que professem outra ou nenhuma crença seriam, assim, considerados minorias. Eles acabam sendo alijados da participação política na sociedade por pertencerem a uma determinada classe, religião ou raça e, em alguns casos, todos esses fatores podem ser considerados. A discriminação por gênero e por orientação sexual perpassa todos os grupos minoritários.
Por essas razões, após todo esse debate, adotamos a definição do sociólogo alemão Wirth, para quem as minorias podem ser entendidas como “Um grupo de pessoas que, por suas características físicas ou culturais, se diferenciam dos outros na sociedade em que vivem para tratamento diferenciado e desigual e, portanto, são considerados como objetos de discriminação coletiva” (WIRTH, 1945, p.34)