4.2 Anàlise dos dados
4.1.3 Penas agravadas
Desde o início de nossas pesquisas, a expectativa é que nos defrontaríamos com um grande número de decisões cujas penas seriam agravadas especialmente pelo Tribunal.
Entretanto, observamos que o aumento de pena em segunda instância é excepcional, pois nos três anos pesquisados encontramos apenas três processos para análise.
L.S.F foi denunciada no artigo 33, VI, 34 e 35 da Lei 11.343/2006, além do artigo 16 da Lei 10.826/2003 (BRASIL, 2003), pela guarda e depósito, em sua residência, de 201g de cocaína; 82,5g e duas pedras, totalizando 197g de crack; e, por fim, 258 munições de 9mm e 70 munições de 40mm. Como relatam os policiais, a partir de denúncia anônima, sem qualquer averiguação de investigação sobre a origem, receberam informações de que o referido local estava sendo utilizado como depósito de preparação de material entorpecente que pertencia ao Comando Vermelho. Sem mandado judicial, dirigiram-se à casa e lá ingressaram, onde foi franqueada a entrada deles pela ré, encontrando a droga apreendida, além de materiais (pinos e embalagens) de preparação da cocaína e munições. Ainda, informam os policiais que no momento da prisão o telefone da ré tocou. Ao atender a chamada, os policiais identificaram que era uma adolescente, dizendo estar levando certa quantidade de droga para ser endolada no local.
Condenada em primeira instância a 6 anos de reclusão e multa nos artigos 33 da Lei 11.343/2006 (BRASIL, 2006a) e 16 (posse de munição) de Lei 10.826 (BRASIL, 2003), no regime fechado, o magistrado reconheceu a prática do crime de tráfico e a posse de munição, absolvendo-a no delito da associação. Destaque-se que, embora primária e sem antecedentes, o juiz textualmente fundamenta sua decisão na prova policial em juízo, de que nunca tinham ouvido falar da ré como traficante, sendo até uma surpresa para eles; e, nesse sentido, afastou o referido crime. Além disso, em relação ao envolvimento da adolescente, o magistrado embora tenha aplicado o aumento da pena relativo ao inciso VI do artigo 33 entendeu que não haveria prova suficiente de que a ré estivesse associada ao tráfico (BRASIL, 2006a, art. 35).
Inconformado, o Ministério Público recorreu dessa decisão para que o Tribunal reconhecesse também o delito de associação. O acórdão reformou a decisão de primeira instância para condenar a ré por tráfico e julgou também que a ré estava associada à adolescente para a prática de atos de mercancia. Embora tenha feito a redução no mínimo legal em relação ao crime de tráfico – 5 anos e 10 meses de reclusão, o julgador de 2° instância aplicou a pena de associação em 3 anos e 6 meses de reclusão e multa, e confirmou a sentença em relação à pena de posse da munição: 3 anos e 10 dias de reclusão, totalizando tudo em 12 anos e 4 meses e 10 dias de reclusão e multa.
Embora a pena aplicada seja restritiva de direitos – substitutiva da prisão – prestação de serviços comunitários e pagamento de multa, o regime imposto é o aberto; o que não deixará de mantê-la sob o peso do sistema de justiça criminal. Parte das mulheres egressas do sistema carcerário fica em dívida com o Estado por outro tipo de condenação: a pena de multa.
Esse tipo de pena é uma espécie de sanção penal que possui natureza patrimonial e que está prevista na grande maioria das normas criminalizadoras, isolada ou em conjunto com a pena privativa de liberdade, nos regimes aberto, semiaberto ou fechado.
A multa consiste no pagamento de determinado valor em dinheiro em favor do Fundo Penitenciário Nacional para fins de supostamente custear o sistema carcerário brasileiro. Em outras palavras, a pena-multa tem como função primária custear e perpetuar a máquina produtora e reprodutora de violência do sistema penal.112
Nesse sentido, a cobrança da pena pecuniária afetará o próprio sustento da família, criando uma situação de mais vulnerabilidade para essas mulheres por cada cobrança, a partir da notificação do débito, juros e correção monetária que são adicionados ao débito, aumentando o valor, em um percurso sem fim. A mulher presa e egressa do sistema penal, sem oportunidades sociais de trabalho, de estudo e de vida, não conseguirá pagar. A consequência é a não extinção da pena em decorrência da falta de pagamento da pena de multa. Dessa forma, esse tipo de penalidade serve para dificultar ainda mais a ressocialização da vida das mulheres condenadas pretas, pobres e marginalizadas, sobreviventes do cárcere por uma sociedade excludente.
Além do débito, os seus direitos civis e políticos também permanecem suspensos, impossibilitando a regularização do seu título de eleitor, por exemplo, e não será extinta a sua punibilidade. Esta mulher estará impedida de votar, de regularizar documentos como carteira de trabalho, RG e CPF e ainda, de se candidatar em concursos ou redes de ensino público, que possam melhorar sua qualidade de vida. Ainda, pela falta dos documentos, não haverá chances de ser incluída nos programas de benefícios sociais, além da liberação da negativa de antecedentes criminais e com isso diminuem também as chances de conquistar um emprego para suprir as necessidades mais básicas como a moradia, seu próprio sustento e de seus filhos.
Já no caso de J.O.S trata-se de denúncia que imputou o crime de tráfico à acusada pelo transporte e posse de 19,5g de cocaína e 7,48g de maconha. Segundo os policiais militares que realizaram a prisão, a ré foi abordada e revistada dentro de uma van, em decorrência de denúncia anônima de que ela ia visitar o marido dela no presídio e no retorno trazia drogas. As drogas
112 A pena de multa prevista no artigo 51 da parte geral do Código Penal brasileiro sempre ficava a cargo da Fazenda Pública, que sempre considerava insignificantes os valores devidos. A partir de 2018, o Supremo Tribunal Federal determinou, através da ADI 3150, que: “o Ministério Público é o órgão legitimado para promover a execução da pena de multa, perante a Vara de Execução Criminal” (BRASIL, 2018a). Essa tese garantiu elevado poder ao Ministério Público, que passou a cobrar diversas penas de multa. Em 2019, houve a publicação da Lei 13.964/2019, que ficou conhecida vulgarmente como “Pacote Anticrime”, tendo entrado em vigor em janeiro de 2020. (BRASIL, 2019a). Essa lei alterou diversos artigos do nosso ordenamento jurídico, sobretudo a parte que trata da pena de multa. Nesta nova redação, a pena de multa passou a ser executada perante o juiz de execução penal e considerada dívida de valor com aplicação das normas referentes à dívida ativa da Fazenda Pública. Assim, desde que o Ministério Público assumiu essas cobranças, o número de casos de pessoas com as referidas execuções passou a aumentar, causando prejuízos ainda maiores para os egressos do sistema penal e suas famílias.
foram encontradas em momentos diferentes: no momento da abordagem foi identificada a quantidade de maconha mencionada acima e, após ser conduzida até a delegacia de polícia, a acusada afirmou que possuía mais substância entorpecente, no caso, cocaína (...) em seu órgão genital. Os policiais enfatizaram ainda que os sacolés estavam dentro de uma sacola transparente suja de sangue, já que a acusada se encontrava no período de menstruação.
A dinâmica relatada pelos policiais que prenderam J.O.S. foge à regra observada até aqui. Ao invés de buscar drogas para levar até o marido no interior do presídio, a acusada descia mais de uma vez na semana para visitar o esposo, ocasião em que adquiria entorpecentes em Acari para revender em Teresópolis. Em sua defesa, a acusada disse ser usuária desde os 17 anos, e que costumava comprar as drogas de consumo em Teresópolis, porém o preço era bem mais caro e pesquisou onde poderia comprar no Rio de Janeiro.
Para o juiz de primeira instância, o caso de J.O.S. era na verdade de uso e não tráfico, determinando que a acusada fosse julgada por esse crime perante o juizado especial criminal113 decisão que justificou pela quantidade de substância entorpecente apreendida na posse da ré, bem como as circunstâncias em que ocorreu a apreensão e uma vez que ela admitiu ser usuária de entorpecentes.
Em segunda instância, no entanto, os desembargadores decidiram cassar a referida decisão e condenar J.O.S como incursa no crime de tráfico em sua modalidade privilegiada, submetendo-a à pena de 1 ano e 8 meses de reclusão e multa, substituída por duas penas restritivas de direitos (prestação de serviços à comunidade e limitação de fim de semana). Para esse desfecho do caso, foi especialmente relevante a palavra dos policiais, o julgador não concordou com a tese de falta de prova da destinação da droga a mercancia, pois, em suas palavras os agentes da lei já tinham ciência anterior do modus operandi da recorrida.
Vê-se, ao contrário, que a pouca quantidade e o relato dos fatos trazidos, a partir da exaustiva análise feita neste estudo, revelam que seria crível que a droga apreendida em poder da ré, tal como nos casos elencados no item 4.1.1, se destinaria ao uso próprio.
Por fim, A.P.M foi denunciada pela prática do crime de tráfico após ser presa em flagrante durante visita ao marido preso, por transportar 66,5 g de cocaína. Segundo os agentes penitenciários responsáveis pela prisão, através do scanner de revista na entrada do presídio, foi identificada a quantidade de drogas mencionada entre os materiais de higiene que a acusada levava para o marido em sua bolsa. Perante o juízo, os agentes chegaram a afirmar que já no
113 Órgão do poder judiciário com competência para julgar crimes de menor potencial ofensivo.