1. CRONOBIOLOGIA
1.1. Desvendando um caminho
O cérebro humano é a sede de inúmeras e complexas funções mentais afetivas e cognitivas. Entretanto, apesar de todo o esforço e trabalho dos pesquisadores, esta estrutura do Sistema Nervoso Central – SNC – permanece um manancial inesgotável de descobertas, redescobertas e questionamentos. Atuando como um processador analógico e metafórico, que relaciona e avalia conceitos, o cérebro, para Berthoz (2003), é antes de tudo um gerador de hipóteses, um simulador de ações, que antecipa e prediz conseqüências. A disposição voluntária para agir é um processo ao mesmo tempo complexo e instantâneo que tem origem ou na estimulação sensorial externa (sensações), ou na estimulação interna dos conteúdos mnêmicos.
Denominam-se sensações às informações captadas no ambiente externo pelos órgãos sensoriais periféricos que compõem as diferentes modalidades sensoriais. Para Brandão (2002), a sensação é o resultado da atividade imediata de receptores sensoriais. Segundo Kandel, Schwartz e Jessel (2000), o relato histórico das descobertas psicológicas evidencia que foi a partir das sensações que a ciência chegou aos processos mentais. A sensação pode ser considerada, portanto, o elemento desencadeador dos processos mentais que têm como clímax o processamento cognitivo representacional.
A sensação decorrente da estimulação externa atua como um gatilho que aciona o mecanismo de cada um dos sistemas sensoriais. No processo cognitivo, a sensação, imediatamente após ser experimentada como estímulo, desaparece dando lugar à percepção consciente. A sensação é, portanto, um fenômeno extremamente efêmero que não se dá ao nível da consciência. Sempre que a consciência é ativada, a sensação identificada transforma-se em informação. Essa informação pode ser conhecida e logo descartada. Quando isso ocorre, a informação não passa de uma mera informação dentre as milhares que são captadas pelos diferentes sentidos. Porém, quando a sensação torna-se consciente,
ela se transforma em percepção. Quando o ato perceptivo acontece em uma fase inicial do desenvolvimento sensório-motor, no momento em que o bebê ainda não dispõe de recursos sensoriais racionais conceituais, mas apenas reações reflexas, ele pode ser utilizado como um instrumento revelador da integridade ou das dificuldades estruturais e funcionais dos diferentes sistemas sensoriais.
Cada um dos sistemas sensoriais, o visual, o tátil, o olfativo, o gustativo, o auditivo e o proprioceptivo, se caracteriza por possuir funções únicas e específicas.
Sendo dotados de estruturas e funções que lhes são próprias nenhum deles corre o risco de se “enganar” captando e processando estímulos destinados a outras modalidades sensoriais. O intercâmbio que se estabelece entre os diferentes sistemas sensoriais ocorre sempre no sentido de um maior aperfeiçoamento cognitivo. Como isso acontece?
No caso do sistema visual, ele é organizado para captar informações luminosas, ondas eletromagnéticas de diferentes freqüências e transformá-las nas cores, formas, perspectivas e movimentos que constituem na classificação de Marías (1987) a experiência do mundo. No caso do sistema tátil, ele é organizado para captar o calor, a dor, a pressão e a textura, os quais na classificação de Marías, (ibid) darão realidade à estimulação externa. No caso do sistema olfativo, ele é organizado para captar as informações químicas que estão presentes no ar, transformando-as em cheiros (agradáveis ou desagradáveis). No caso do sistema gustativo, ele se destina a captar as informações químicas presentes no meio aquoso e sólido transformando-as nos diversos sabores. No caso do sistema auditivo, ele é organizado para captar informações aéreas na forma de ondas de pressão e transformá-las em sons, os quais, na classificação de Marías (ibid), modularão ou darão sentido à realidade mundana. (MARÍAS, ibid; KANDEL, SCHWARTZ e JESSEL, 2000).
Cada modalidade sensorial responde, portanto, por um aspecto da condição existencial do homem. Qualquer alteração estrutural ou funcional nos sistemas neurais sensoriais responsáveis pelo envio dos estímulos da periferia corporal até o cérebro, alteram o padrão cognitivo do organismo como um todo. Assim, pode-se dizer que alterações sensoriais modais geram diferentes padrões cognitivos.
Resumindo: a sensação é a resposta do organismo a um determinado estímulo. O estímulo desencadeia a sensação. Estímulo e sensação são ocorrências praticamente simultâneas que dão origem à informação sensorial. A informação sensorial tanto pode ser absorvida e transformada em percepção que gera conhecimento, como descartada e esquecida como simples informação, rompendo- se o elo da corrente: Estímulo/sensação Informação sensorial Percepção CONHECIMENTO. Masini (2003) se refere à percepção como o solo do conhecimento. Portanto, podemos considerar que, quando a informação é conscientemente absorvida, ela se transforma em percepção, base de todo o conhecimento.
No presente trabalho considera-se a cadeia acima citada como a precursora do conhecimento e a luz o elemento ativador do sistema visual. A ênfase atribuída ao sistema sensorial visual tem como finalidade investigar a real dimensão do rompimento de algum elo desta cadeia durante o desenvolvimento do bebê com privação sensorial visual, ou com precária captação luminosa.
No sistema visual, a ausência ou a baixa reação do recém-nascido ao estímulo luminoso é o primeiro indício de comprometimento em sua estrutura e funcionalidade. Esse indício denuncia, não só, problemas no funcionamento visual como também possíveis comprometimentos nas estruturas e funções cerebrais alterando o padrão cognitivo como um todo. Qual a influência do estímulo luminoso no futuro desenvolvimento cognitivo do bebê?
Através da luz, a criança percebe o mundo como uma essência contextual, formada por cores, formas, perspectivas e velocidades que se interligam. Portanto, a visão nos sujeitos sensorialmente íntegros, desempenha o importante papel de sistema sincronizador e contextualizador de informações. É também o caráter contextual da visão que denunciando a existência de outras modalidades sensoriais inaugura o sistema cognitivo de intercâmbio intermodal no córtex occipital (Pascual Leone, A et al 2005). No caso dos sujeitos cegos, que outra modalidade sensorial desempenharia o papel sincronizador e contextualizador realizado pela visão?
Desde 1924, a intermodalidade, ou substituição compensatória das funções sensoriais, já era motivo de preocupação do fundador da neuropsicologia, o psicólogo russo Vygotsky (VYGOTSKY, 1989). Esse autor não usou o termo intermodalidade sensorial, mas defendeu a função intermodal ao discordar das teorias de substituição que até então predominavam. Segundo aquelas teorias, o desaparecimento de uma função perceptiva, ou seja, o não funcionamento de um sistema sensorial era compensado pela intensificação funcional dos demais sistemas. Essas teorias se baseavam em modelos fisiológicos da duplicidade dos órgãos tais como os pulmões e os rins. Se um órgão sofresse de uma lesão irreversível, o outro órgão o substituiria assumindo parte de sua função. Os defensores dessa teoria alegavam que, assim sendo, qualquer dano visual intensificaria o desenvolvimento funcional da audição, do tato e assim por diante.
Essa teoria está na base da crença de sujeitos cegos com superpoderes auditivos e táteis. Embora Vygotsky não negasse esses fatos, ele afirmava que eles se baseavam em falsas interpretações.
Autores citados por Vygotsky (ibid), como J. A. Friche, L. Bachko, Stuke, H. V.
Rotermund, I. V. Klein, não observaram um superdesenvolvimento tátil e auditivo em sujeitos cegos, tendo até constatado que esses sistemas se mostravam muitas vezes menos desenvolvidos nos cegos do que nos videntes. Os mesmos autores observaram que mesmo quando os cegos apresentavam um sistema tátil comparativamente mais desenvolvido, essa modalidade era secundária uma vez que o seu desenvolvimento decorria do mau funcionamento do sistema visual. A intensificação no desenvolvimento tátil era conseqüência da necessidade de recorrer a um sistema alternativo, uma vez que os cegos não possuíam o sistema visual funcionante. A esse processo dá-se hoje, o nome de plasticidade cerebral. É ele que, reorganizando estruturas e funções cerebrais, permite aos cegos desenvolverem o tato de maneira significantemente superior. Vygotsky (ibid) descreve este problema da seguinte maneira:
El fenômeno señalado surge no de la compensación fisiológica directa del defecto de la vista (como el caso del riñón), sino por uma via indirecta muy compleja de la compensación sociopsicológica general, no sustituyendo la función que há desaparecido y sin ocupar el lugar del órgano que falta. Por lo tanto, no se puede hablar sobre niguna sustituición de los órganos de los sentidos. Liuzardi señaló de forma correcta que el tacto nunca enseñrá al ciego a ver realmente. E. Binder, después de Appia, demonstró que las funciones de los órganos de los sentidos no se trasladan de um órgano a outro y que la expresión “sustituición de los sentidos”, es decir, la sustituición de los órganos de los sentidos se utiliza de um modo incorrecto em la fisiologia. Um valor decisivo para la reputación de este dogma tuvierron lãs investigaciones de Fiesbach, publicadas em el archivo fisiológico de E. Pflüger y que demostraron su falta de fundamento. La psicologia experimental dio uma solución a este debate: indicó la via para compreender de forma correcta los hechos que constituían la base de esta teoria. E. Meumann questiono el postulado de Fisbach acerca de que cuando um sentido presenta deficiência, todos los demás sentidos sufren.
El afirmo que em realidad hay um tipo de sustituición de las funciones de la percepción (E. Meumann, 1911). Wundt llegó a la conclusión de que la sustituición en la esfera de las funciones fisiológicas, es um caso particular de la ejercitación e la adaptación. Por lo tanto, la sustituición es preciso comprenderla, no em el sentido de que otros órganos asuman directamente las funciones fisiológicas de la vista, sino em el sentido de la organización completa de toda la actividad psíquica, provocada por la alteración de la función más importante, y dirigida por meio de la associación, de la memória y de la atención, a la creación y formación de um nuevo tipo de equilíbrio del organismo a cambio del órgano afectado. (Vygotsky, 1989.
p.76-77).
Streri (2000a) entende a intermodalidade, como um fator de intercâmbio entre as modalidades sensoriais, no sentido de que ao longo do desenvolvimento, uma modalidade predomina sobre a outra. Esta autora destaca as transferências intermodais do bebê, apontando os diferentes momentos em que uma modalidade sensorial predomina sobre outra. A transferência seria então entendida como o momento durante o qual um sistema submete-se a um outro, ou seja, quando um sistema cede lugar a um outro que em seguida se desenvolverá. Sobre essa transferência, é interessante fazer referência a um assunto bastante discutido: a questão de Molineux. Essa questão, apresentada ao filósofo John Locke por seu amigo Molineux, se refere à possibilidade de um cego de nascença que passe a enxergar na idade adulta, seja ou não capaz de distinguir através da visão uma esfera de um cubo no caso de ambos serem feitos do mesmo material e de possuírem as mesmas dimensões. Ao visualizar esses dois objetos, o cego conseguiria distinguir qual dentre eles seria o cubo e qual seria a esfera? (Proust (1997). Ao ver os objetos experimentados anteriormente pelo tato, o cego congênito
não os reconheceria visualmente, porque para reconhecê-los ele necessitaria ter tido uma aprendizagem visual.
São as funções cognitivas decorrentes da ativação neural ou dos mapas neurais, como definidos por Edelman (1992), que contextualizam os estímulos externos atribuindo-lhes diferentes significados. Desta maneira, os estímulos, a priori um mosaico sensorial, se transformariam naquilo que designamos como conhecimento estruturado, ou, percepção cognitiva. A “simples” captação de um estímulo por si só, não configura o ato perceptivo. Perceber é, sobretudo, um ato consciente, representacional, que pressupõe uma contextualização temporal, espacial e semântica do estímulo recém-captado no acervo de memórias filo e ontogenéticas do sujeito. É também através da percepção que os seres humanos tornam-se capazes de adquirir uma melhor compreensão dos processos neurais que regem funções cognitivas tais como o pensamento, a atenção, a linguagem, a memória, a vontade, a intencionalidade, etc.
Considerando que a percepção é um ato consciente, pode-se deduzir que a luz, tal como é recebida pelos bebês, já possui o caráter de informação luminosa, embora não seja possível se afirmar que o bebê reflita conscientemente sobre o estímulo luminoso, conceitualizando-o ou representando-o mentalmente. Existiria alguma relação entre a luz, a visão e o sono e destes com o processo cognitivo humano?