3.1 A salvação como Solidariedade Vertical: com Deus, Antepassados e Espíritos
3.1.2 Deus: ser supremo e transcendente, mas sentido e procurado
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vivifica”14. De fato, Deus criou o universo, todas as coisas e deu também leis à natureza para que funcionasse com harmonia. Para os seguidores da RTA, Deus ordenou parte de seus costumes e leis, fixou o destino dos homens e os conserva, deu-lhes normas éticas com força de lei.
Mbiti resumiu da seguinte forma os atributos de Deus:
Onisciente, Onipotente, Onipresente, Transcendente, Imanente, Auto- existente, Preeminente, Primeira e Última Causa, Espiritual, Invisível, Incompreensível, Eterno, Infinito, Imutável, Uno, Piedoso, Compassivo, Bondoso, Amoroso, Consolador, Fiel, Benevolente, Iracundo, Justo, Santo, Criador, Providente, Protetor, Controlador, Nutriz, Salvador, Governante, Mestre, Juiz, Chefe na Guerra, Amigo, Pai, Mãe...15.
Por sua vez, Setiloane, pastor metodista da África do Sul, sintetizou da seguinte maneira tais atributos:
Ancestral dos tempos; Aquele que existiu desde o começo; O Ser Supremo, Onipotente, Determinador. O Desconhecido. Dono dos Deuses, Provedor. Criador, Controlador da Vida. Grande Espírito.
Nosso Dono, Nosso Senhor. Aquele que É Grande. O Dono da Vida.
Todo-Poderoso, Supremo. Criador Supremo que está no alto e lá em cima. Aquele que permanece e não morre. Aquele que é eterno.
Aquele que encontramos em toda a parte. Aquele que penetra e permeia todo ser/existência. A Fonte do Ser. Aquele cuja origem é desconhecida. Antepassado dos Tempos. Aquele cuja aparência é desconhecida. Aquele que é Grande. Aquele que é grande e supremo.
O Sopro de toda Vida16.
Os autores acima referidos informam e confirmam a pluralidade de atributos para qualificar a Deus. Este costuma receber uma infinidade de atributos segundo a maneira ou as formas como Ele é apreendido e pressentido pelos membros da RTA. As circunstâncias existenciais e históricas destes povos determinam os atributos pelos quais Deus é designado. O atributo que prevalece é o de Ser Supremo e transcendente.
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A exposição que fizemos sobre os nomes e os atributos de Deus na RTA nos ajuda a perceber que o Deus na RTA não se enquadra e não pode ser incluído na categoria de seres finitos: Deus é um ser, porém não começado, não causado. Como assinala Altuna, Deus é “princípio-não-principiado”17. Transborda todos os limites. Sua posição é “estar acima” dos seres finitos; ser onisciente. Deus é sábio, tudo vê, conhece o coração do ser humano. É o senhor dos seres humanos, o “grande, o todo-poderoso”.
Deus é a vida, o “vivente ativo”, o “Deus da força”; é o “ser pessoal”, o “imaterial”, o
“invisível”, o “imortal”, o “insondável”, o “incompreensível”, o “misterioso”. Os nomes e atributos tendem a mostrar a transcendência de Deus, do pré-existente; trazem à luz o caráter absolutamente transcendente do Ser Supremo; mostram, de fato, que Ele não deve ser colocado no mesmo nível dos outros seres.
No dizer de Kagabo:
Quer ele [Ser Supremo] receba o nome de Nzambi com as suas variantes (zona do noroeste dos Bantu), de Leza (a partir do centro da República Democrática do Congo até ao Oeste da Tanzânia, particularmente entre os Banyamwezi), de Mulungu (do Quênia até Zâmbia, passando ao longo do Oceano Índico, através do Malawi e de Moçambique), de Katonda (no Buganda, mas também em certas regiões da República Democrática do Congo e da Tanzânia), de Kulunga (na Namíbia, Angola e República Democrática do Congo), de Mwari ou Mukulu (na Zâmbia, no Zimbabué e na República Democrática do Congo), de Molimo (entre os Sutho, Tswana e Ndebele), de Ruhanga (no oeste do Uganda e no nordeste da República Democrática do Congo), de Iliyuba e suas variantes (significando o Sol, e estendendo-se, curiosamente, ao extremo noroeste da área bantu, bem como ao Uganda e ao noroeste da Tanzânia) ou ainda de Imana (no Burundi, Ruanda e algumas zonas secundárias, à volta destes países), em todo o lado estes princípios revestem-se dos mesmos atributos principais que traduzem a Transcendência [...]18.
Segundo as ideias do autor, o Ser Supremo é considerado acima de todos os seres, sendo a origem de tudo e todos. Sua morada situa-se numa região superior e, em princípio, inacessível. Deus é situado ou “no alto”, sobre uma montanha, ou, no mais das vezes, “no céu” e, principalmente, além da lua e das estrelas; atrás do céu. Deus é como o sol, cuja luminosa beleza cega. Levando em consideração isso, podemos afirmar que uma das características da fé dos membros da RTA é a “transcendência”
17 ALTUNA, op. cit., p. 274.
18 KAGABO, Liboire. Alexis Kagame. Os traços de uma teologia africana. In: Teologia Africana no século XXI. Algumas figuras. Portugal: Paulinas, 2012, p. 19-20.
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ou ausência, a distância ou o afastamento de Deus, do Ser Supremo. Transcendência, portanto, significa que Deus se distingue da criatura e, por sua vez, distancia-se dela.
Transcendência é o que está além, distinto, separado.
Langa diz, citando Thomas L.-V e Luneau R., a propósito da transcendência de Deus, através de mitos:
Na origem, Deus, a abóbada celeste, estava tão próxima da terra que se podia tocar com a mão e havia felicidade, paz e abundância. Mas, um dia, uma mulher peul trazendo na cabeça um molho de lenha que tocava a abóbada, pediu a Deus com humor para se elevar um pouco.
Deus acedeu ao seu desejo, subiu muito alto e, desde então, deixou os homens entregues aos poderes inferiores, sem mais intervir na vida deles19.
Este mito é um dos exemplos para mostrar a transcendência de Deus, o que O diferencia totalmente de tudo o que existe. É imensamente grande e ninguém é digno de O invocar. Como opina Hurbon, “Deus está situado fora do sistema”20. No país dos praticantes da RTA, portanto, Deus está muito distante para se ocupar da terra e dos seres humanos. Ele não deseja mal a ninguém, mas não se envolve com os problemas humanos. A organização do mundo e a ordem da sociedade não dependem de Deus, embora Ele seja o criador de tudo. A grande preocupação dos praticantes da RTA é estar bem, nas graças com os antepassados e os espíritos, pois estes estão diretamente implicados nos negócios humanos.
O ponto que devemos precisar é a “não-posição” de Deus no universo religioso banto. Deus encontra-se situado acima das divindades e dos espíritos da natureza, da vida diária dos homens. Sua transcendência soberana e infinita paira muito acima do mundo humano. Ele está ausente no sistema da RTA. Essa ausência permite o funcionamento do sistema cultural. Podemos dizer, usando a expressão de Hurbon, que Deus é “espaço-vazio”, a “não-determinação”. Se não fosse, os membros da RTA não poderiam nomear nada e as coisas seriam todas iguais; portanto, sem diferenciação. A transcedência de ser supremo obriga a sociedade a se arranjar.
Escreve Hurbon:
19 LANGA, Adriano. Questões Cristãs à Religião Tradicional Africana. Braga – Portugal:
Editorial Franciscana, 1992, p. 141.
20 HURBON, Lënnec. O Deus da resistência Negra. O Vodu Haitiano. São Paulo: Paulinas, p.
147.
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A ausência se faz que haja arranjo no mundo como na sociedade. A “não-posição” de Deus no sistema é a garantia para o sistema banto. O universo é um lugar inseguro, de desordem e confusão, com o qual Deus não se mistura. Por isso, a tendência para afastá-lo, para não lhe dar figura acabada tem como a finalidade guardar sua existência. É necessário que exista um “santo”, “Bom Deus”. Além disso, toda a manifestação de Deus no plano finito, no campo intramundano correria o risco ao homem não poder mais viver porque Deus deixaria de ser o fundamento de tudo21.
De acordo com Hurbon, para que Deus continue sendo Deus não deve ser parte do mundo, nem do sistema dos seres humanos. Se quiser ser a felicidade dos seguidores da RTA, é preciso que mantenha seu distanciamento. Toda a harmonia dos membros da RTA com o mundo e com os outros seres pressupõe a ausência radical de Deus. Em seu modo de ser escondido e obscuro, em seu afastamento e em sua ausência em relação ao mundo, Deus ainda lhes dá a chance, a oportunidade, a possibilidade nova de realização de si mesmos, isto é, de assumirem suas vidas como movimento nunca acabado. O afastamento para fora do “quintal” dos membros da RTA salvaguarda Deus. Ele não pode ser propriedade de ninguém, nem dos cristãos, nem dos muçulmanos. Ele é o Deus de todos.
De fato, alguns teólogos africanos defendem a universalidade de Deus. Para eles, Deus não ficou preso ao Ocidente. Um deles, Edusa-Eyison, citando Dickson, escreve:
Nós acreditamos que o Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, Criador do céu e da terra, Senhor da história, veio ao encontro de todos os homens de todos os tempos e lugares do mundo. É com esta convicção que estudamos a rica herança das nossas populações africanas, e temos a certeza de que elas o conhecem e o veneram.
Reconhecemos a qualidade insubstituível da autorrevelação de Deus em Jesus Cristo e, contudo, é por causa desta revelação que nós podemos discernir o que é realmente de Deus na nossa herança cristã;
este conhecimento de Deus não está totalmente em descontinuidade com a nossa herança tradicional popular, que é um conhecimento dele22.
Pela citação, fica evidenciada a universalidade da crença em Deus. Assim, a autorrevelação à humanidade não é propriedade de um pequeno número. Sua extensão
21HURBON. op. cit., p. 150.
22 EYISON, Joseph M. Y. Edusa. Kwesi A. Dickson. Um biblista em busca de diálogo. In:
Teologia Africana, v. II, Prior Velho: Paulinas, 2005, p. 95.
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abarca tudo. A autorrevelação destina-se ao mundo inteiro e isto na medida em que cada raça capta alguma parte desta revelação primeira, de acordo com suas capacidades nativas.
Setiloane defende igualmente a universalidade de Deus. Segundo ele, assim como Deus estava sendo revelado aos antigos hebreus como Javé, também se revelava aos banto em seus mitos, história e, sobretudo, em sua religião. As várias experiências (de hebreus, asiáticos, ameríndios, membros da RTA, cristãos, muçulmanos) são as experiências de divindade uma e única. Setiloane assinala: “Há uma diferença na forma de conceituar e verbalizar Deus, em consequência das situações e dos contextos geográficos, cronológicos e culturais dos vários povos envolvidos”23. Na RTA, a noção ou ideia de Deus, portanto, difere da de outras religiões adquiridas. Por exemplo, anota Samuel, “o deus caçador dos damaras (população da África do Sul) não é o puro espírito dos catecismos [...]”24. O ponto central da argumentação desses e de outros teólogos africanos reside no fato de ser por meio da autorrevelação de Deus que os membros da RTA podem experimentar a Deus e discernir o que realmente tem a ver com Deus em sua herança religiosa.