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1.1 Contexto Sociopolítico

1.1.6 O chefe e conselho

28Cf. ALTUNA, op. cit., p. 98.

29Ibid., p. 99.

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O chefe entre os seguidores da RTA desempenha função fundamental no grupo. É o guia necessário da comunidade e o guarda das suas tradições e da sua coesão.

De acordo com Altuna, ele “constitui, com os notáveis e anciãos, o grupo mais autorizado, o estrato social mais prestigioso e, como instituição presidida por um enviado carismático, dirige, pensa, solidariza, vigia e procura o bem da comunidade”30. Assim, o chefe atingiu o maior escalão vital. Está próximo-unido com a vida. Ele continua, personifica e torna visível a vida dos antepassados no grupo. Quem enxerga o chefe, contata com a vida e contempla os antepassados. Ele é o canal de conexão direta com a corrente vital ancestral. Ele é a prolongação, o representante oficial e a viva voz dos antepassados. Torna-se o passado e presente. Sintetiza e reúne todo o grupo.

O chefe é o sangue e o espírito dos antepassados, prolongamento e depósito comunicante do dinamismo vital, pessoa sagrada, responsável pela comunidade perante os antepassados, seu delegado por capacidade e/ou eleição e sua encarnação. Nele pode habitar algum antepassado. Sente-se ligado ao povo e às suas tradições. Ele é o “pai”

que vivifica e ampara os seus “filhos”. O chefe, como pessoa sacralizada, está submetido a tabus específicos e mais severos. Segundo Webster:

Diríamos que se lhes exige maior ortodoxia que aos leigos.

Especialmente sensíveis as influências malignas, necessitam de proteger-se contra toda espécie de mal, enquanto que os seus súbditos necessitam de uma proteção especial contra o seu poder oculto... Os tabus e outras proibições redobram sempre que se pensa que a pessoa sagrada, e, em particular, o Chefe ou rei, controla a ordem da natureza, e, por conseguinte, é considerado responsável pelo bem do seu povo31.

Desta maneira, um homem, para ser chefe, deve passar por um rito de investidura. O investido sofre uma modificação ôntica; adquire uma nova maneira de ser que o reforça e regenera. A investidura realiza, portanto, um “rito de passagem” - com profunda realidade de morte-ressurreição - para uma vida nova, para um novo ser.

Assim, o chefe deixa de ser um homem normal. Assevera Kagame: “O Rei não é um homem... é um homem antes da sua designação para o trono; mas, quando é nomeado, separa-se da nobreza comum e passa a ter um lugar à parte”32. Portanto, produz-se no

30ALTUNA, op. cit., p. 221.

31WEBSTER, H. Societés Secrétes dos homens-leopards en Afrique noire. Paris: Payot, 1952, p. 246-247.

32KAGAME, Alexis. La poésie dynastique du Rwanda, apud ALTUNA, op. cit., p. 223.

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chefe, graças à investidura, a uma mutação, a uma “troca de coração”. Por isso, ele muda de nome e se veste diferentemente dos cidadãos comuns.

Com a investidura, o chefe faz parte de essência divina. A sua autoridade procede de Deus. Ele representa Deus sobre a terra. A respeito, Altuna assegura ser frequente considerar certos líderes políticos como enviados de Deus, profetas ou messias responsáveis por uma missão salvadora a favor do seu povo33. Bahoken assinala:

O chefe é temido e respeitado na sociedade, porque recebe o poder de Nambe. É o defensor da unidade: princípio de Deus forte... Um Deus absoluto sem material. O Chefe é também defensor do monoteísmo. E o que é comum a todos estes rituais é o carácter religioso do ofício e a concepção teocrática da sociedade. Isto é, a ideia de que a chefia foi instituída pelo Ser Supremo. O carácter carismático da chefia aparece em todos os rituais. A autoridade do chefe está ligada mais estreitamente ao seu papel de chefe religioso do que a sua riqueza34.

O autor enfatiza a estreita ligação entre o poder religioso e político. De fato, na África banto existe uma confusão de poderes. Ziégler chama a atenção para o fato de que “o poder na África quase não admite divisão em poder religioso, poder político, poder econômico, poder simbólico, poder espiritual... O poder tem um carácter de fenômeno total. É sagrado. Invade, dirige, ordena todas as manifestações da vida individual e coletiva”35.

No entanto, o poder do chefe nunca é pessoal, pois, em primeiro lugar, o poder pertence aos antepassados. Nenhum chefe se pode arrogar autoridade ou poder próprios, pois seu poder e sua dignidade têm origem e consistência na ascendência ancestral. A autoridade suprema reside sempre nos antepassados. O povo elege o chefe através dos seus antepassados. A sua autoridade só se torna efetiva quando a comunidade o reconhece capaz, representativo, e aprova a sua investidura. Por isso, ele não pode considerar-se detentor de um poder absoluto, pois que pertence apenas aos antepassados.

Além disso, e em segundo lugar, o chefe é controlado por um conselho. O poder do chefe repousa sobre a autoridade exercida por numerosos ministros. No

33Cf. ALTUNA, op. cit., p. 225.

34 BAHOKEN, J.-C. Clairières métaphysiques africaines. Paris: Présence Africaine, 1967, p.

104-105.

35ZIÉGLER, J. Le povoir africain. Paris: Seuil, 1971, p. 194-195.

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exercício, ele deve consultar seu conselho e auscultar o sentir do povo. Assim, o chefe é rodeado por dignitários, ou “conselho de ministros”. Os mais correntes são os

“ministros” da guerra e da caça, das finanças, da saúde pública, da justiça, da agricultura e da informação. Têm também assento no conselho o adivinho-mor, o encarregado dos ritos. Há sempre um vice-chefe. Também existe uma mulher qualificada que se encarrega dos problemas femininos da comunidade. O conselho constitui o grupo pensante e dirigente. Bahoken afirma:

A autoridade é exercita através e segundo os conselheiros. O conjunto dos diversos conselheiros constitui um feixe de forças na sociedade. É o sistema de controle social e político. Os conselheiros são o órgão executivo e directivo da sociedade. Presidem As assembleias públicas e religiosas, e dirigem e administram os membros da sociedade. São os responsáveis pela transmissão da tradição em toda a sua fidelidade.

Concorrem para a formação do espírito comunitário. Têm a missão de fazer justiça valer [...]36.

1.1.7 A prática da justiça

Os seguidores da RTA possuem um profundo sentido de justiça. Eles obedecem a regras estritas, institucionalizadas pelo direito, embora este não codificado.

Podemos dizer que, nesses membros, o direito, embora não escrito, é fielmente transmitido e observado. De fato, os seguidores da RTA concentraram experiências e decisões na tradição oral, e não na escrita. O conselho dos nobres e dos anciãos, sob a presidência do chefe, constitui a fonte normal da legislação, interpretação e aplicação da lei. Ele é ao mesmo tempo legislativo, jurídico e executivo. Une os costumes herdados com as circunstâncias de uma sociedade em evolução e em contato com novas formas que exigem mudanças e constantes interpretações. A regra primária do direito dos seguidores da RTA é a igualdade de todos perante a lei. Desde o chefe até o escravo, todos têm direito de ser julgados. Ninguém pode gozar de privilégios na aplicação da justiça.

Podemos ampliar nossa exposição afirmando que, entre os seguidores da RTA, existem dois tipos de delitos: os privados e os públicos. Os primeiros são aqueles que lesam os indivíduos. São resolvidos pela intervenção de um ancião. Este

36BAHOKEN, J.-C., op. cit., p. 105-106.

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restabelece a harmonia. Os segundos são os que atentam contra o equilíbrio da comunidade. Uma vez que os delitos são públicos, exige-se a reunião do tribunal. As causas mais frequentes de delitos provêm de adultério, de acusações de feitiçaria, de dívidas antigas, de atentados à propriedade, de prejuízos com rebanhos ou culturas, roubos, insultos, ultrajes, difamações, abusos sexuais, denúncias sem provas, violação, domínio e abandono do lar.

A parte lesada provoca o procedimento penal. Queixa-se ao chefe e ao conselho. Estes convocam as testemunhas e marcam hora, dia e lugar em que se reunirá o tribunal. Compõem o tribunal, o chefe (como presidente), os conselheiros, um promotor ou mestre de justiça, um adivinho. No dia marcado, cada parte apresenta seus familiares e as testemunhas. Ambos os grupos se colocam de frente do chefe. A audiência é pública, aberta a toda a comunidade, à exceção dos não iniciados e das mulheres em período menstrual. O julgamento começa com a exposição do queixoso que, antes de entrar na matéria, faz uma detalhada exposição da sua família, pessoas, relações. Só no fim desse prólogo demorado, expõe e detalha o delito. A seguir, o acusado tem o direito de se defender, de responder às acusações, de provar inocência e aduzir testemunhas e atenuantes. No fim da exposição do acusado, as testemunhas falam para esclarecer os pontos obscuros. Só o chefe pode interrompê-los. Os anciãos e os conselheiros vão anotando as razões pró e contra. Costuma estar presente o

“árbitro da justiça”, “grande mestre em questão de direito”, um dignitário da justiça pela capacidade de julgar37. Ele intervém como guarda legal, com a finalidade de conciliar as duas partes.

Essas sessões podem durar mais de um dia. O julgamento pode interromper-se a pedido do tribunal, ou das partes, para “beber água”, isto é, para consultar, trocar impressões, inquirir, interpretar ou ajudar na aplicação da lei.

Quando as audiências terminam, o tribunal retira-se para deliberar. Chefe, anciãos, conselheiros e mestre da justiça discutem, aclaram e decidem por maioria. Finalmente, o chefe, sentado, pronuncia a sentença. Um dos conselheiros faz comentários moralizantes e educativos; explica as razões da decisão e pede acatamento. Se o julgamento convocou muita gente, pode acabar com uma festa na aldeia. Vencedores e

37Cf. ALTUNA, op. cit., p. 239.

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vencidos comem, bebem, dançam juntos, porque a sabedoria do conselho restabeleceu a harmonia e impôs a justiça.

As penas mais comuns reduzem-se a indenização, desterros, maldições, desprestígio. Antes, ia-se até a morte e a escravidão. Consideram-se agravantes as injúrias a um velho, a uma criança e a uma mulher grávida. Admitem-se atenuantes, como a velhice, embriaguez, legítima defesa, fome e gravidez. A mulher grávida pode transgredir certas leis sem ser punida, embora seu marido deva pagar eventuais indemnizações. Os culpados podem ser castigados fisicamente. Assim, por exemplo, o marido atraiçoado pode punir o amante de sua mulher. A mulher pode ofender a amante de seu marido fisicamente. De uma forma geral, não existe prisão.

Segundo Altuna, os condenados por serem feiticeiros são mortos. Os caluniadores e difamadores podem ser espancados pelos ofendidos ou por sua família:

considera-se caluniador aquele que, sem provas, chamar a outro de escravo, ladrão, vadio, doido, revoltoso e, sobretudo, feiticeiro. O sedutor de uma solteira deve pagar uma grande indemnização ao pai, ao tio. Considera-se sedutor o homem que obriga uma mulher respeitável a entrar em sua casa; o homem que persegue uma mulher que já se negou a prestar qualquer favor; o homem que se introduz de noite em casa de uma mulher que está sozinha. Os ladrões e os mentirosos são censurados e castigados.

Considera-se ladrão quem penetra em casa alheia quando o dono está ausente. Quem incendia uma casa habitada pode ser espancado, desprezado. Deve construir nova casa e indemnizar. O mesmo acontece aos que causam danos ou destroem utensílios, árvores de fruta, culturas, dependências e animais domésticos38. Todos esses castigos, ou penas, têm um objetivo: servir de prevenção e correção dos desagregados da vida comunitária e do equilíbrio social. Escreve Olawale:

O direito africano procura, como finalidade primária, preservar a solidariedade que une todos os membros da sociedade, isto é, se assim se pode dizer, tapar todas as brechas que a podem ameaçar. Os juízos procuram, sobretudo, a reconciliação das partes para aniquilar qualquer sequela de rancor divisório. A compensação-indemnização significa arrependimento-reparação ao lesado que, ao aceitá-lo, perdoa e esquece. Por isso é frequente terminar o litígio com libações e comida em que os litigantes e todo o tribunal se unem de novo, ao participar na mesma refeição [...]. Este empenho na reconciliação e recuperação do culpado mostra que o juiz negro-africano se apóia mais na equidade do que na tecnicidade jurídica. Aqui reside, afinal de

38Cf.ALTUNA, op. cit., p. 242-243.

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contas, o carácter mais profundo do direito africano... E, nesta óptica, o juiz africano aparece como árbitro39.

De posse disto, podemos afirmar que as sociedades dos seguidores da RTA não são sociedades anárquicas. Entre os memebros da RTA existe uma organização política que difere da organização do Ocidente. Como afirmamos, as sociedades dos seguidores da RTA são compostas de inúmeras etnias, com características diferenciadas e certa dinâmica interna. Embora sua organização não apresente sempre as mesmatas características fundamentais, elas possuem seus sistemas políticos e jurídicos.

1.2 Contexto Cultural dos seguidores da RTA

1.2.1 O território, o trabalho e a propriedade

Nos seguidores da RTA, o território e a terra demarcam o espaço da estrutura social. São propriedades demarcadas, definidas e reconhecidas pelo grupo.

Constituem um direito inalienável do grupo, propriedades coletivas de vivos e de antepassados. Segundo Obenga, “a terra pertence a uma grande família; muitos dos seus membros já são mortos, alguns estão vivos e a maioria ainda não nasceu”40. Assim, a terra adquire caráter sagrado, aumenta a coesão social e garante a consciência comunitária. Ela fecha qualquer intento de propriedade privada. Não se pode comprar nem vender. A riqueza comum da terra inclui tudo o que nela existe: solo, subsolo, caça, pesca, bosques, rios. A propriedade do solo é indivisível; a ninguém se pode conceder definitivamente nem a propriedade, nem o uso de uma parcela. A respeito, afirma Van:

A propriedade do solo é colectiva, embora a noção seja complexa. O solo indivisível é posse do clã ou linhagem que não são apenas os vivos, mas também, e sobretudo, os mortos, os “bakulu”. Os “bakulu” não são todos os mortos do clã, mas apenas os bons antepassados... Os “bakulu”

conquistaram o domínio do clã, os seus bosques ricos em recursos;

estão enterrados na sua propriedade. Daí continuam a dominá-la. Os animais selvagens são as suas cabras e os pássaros as suas aves domésticas. Dessa terra tiram os frutos comestíveis das árvores, os peixes dos rios, a aguardente das palmeiras, as colheitas dos campos. Os

39OLAWALE ELIAS, T. Nature du droit contumier africain. Paris: Présence Africaine. 1961, p. 282, 285-286.

40OBENGA, T. Science et langage en Africa. Paris: Présence Africaine, 1974, p. 183.

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membros do clã... podem cultivar, colher, caçar, pescar: desfrutam, portanto, da propriedade ancestral; mas são os mortos quem conservam a propriedade. O clã e a terra que ocupa constituem uma unidade indivisível, e o conjunto está debaixo do domínio dos „bakulu41.

Pelo que escreve o autor, território e terra são propriedades coletivas. O pedaço de terreno, o campo que a família desbrava e cultiva nunca passarão a propriedade privada. São concedidos pela comunidade para uso exclusivo e temporário, até colher os frutos. Afirma Altuna: “O muntu nunca diz as minhas terras, mas sempre as minhas lavras”42. Portanto, quando um estranho ao grupo se apodera de algum bem dentro do território comum, como caça ou pesca, deve entregar uma parte ao chefe da família ou clã. Além disso, há grande festa na comunidade quando um caçador abate um animal de grande porte, que é distribuído a todos. Da mesma forma, nos dias próprios em que as mulheres pescam ou organizam as grandes caçadas por ocasião das queimadas. A terra é, portanto, sempre propriedade do grupo e não do indivíduo.

Embora o chefe seja chamado “senhor da terra” ou “dono da terra”, ele apenas tem poderes de administração geral sobre a propriedade coletiva e não pode dispor de uma parcela cultivada por outro. Seu papel não vai além de administrador, responsável pelo direito de uso e exploração e da distribuição rotativa dos campos pelas famílias.

Com tudo isso, pretendemos afirmar que a sociedade dos seguidores da RTA desconhece a propriedade privada dos meios de produção, que compreendem solo e subsolo. Tudo o que o território encerra pertence ao bem comum, à comunidade. Para Altuna, a terra, mais que uma propriedade comum, é uma não-propriedade43, pois a propriedade do território pertence apenas aos antepassados, ao epônimo que adquiriu os direitos por ocupação. A comunidade dos seguidores da RTA administra em comum tanto os bens de produção como os de consumo, e trabalha solidariamente.

As sociedades dos seguidores da RTA admitem apenas como fonte de propriedade privada o trabalho. Este dá direito ao produto. De acordo com Altuna, “a propriedade privada começa e acaba no trabalho pessoal-produto-objeto”44. Assim, cada muntu consegue viver do seu trabalho e somente por meio dele consegue o

41 VAN, Wing. Etudes Bakongo. Sociologie – Religion et Magie. Bruxelles: Musseum Lessianum, Desclée de Brouwer, p. 127-128, apud ALTUNA, op. cit., p. 141-142.

42ALTUNA, op. cit., p. 142.

43Ibid., p. 143.

44Ibid., p. 151.

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supérfluo, o capricho ou a riqueza. A ação produtora é a única fonte de propriedade privada. O muntu, diz Senghor, “se é proprietário da colheita, não o é do solo; da pesca, não é do rio; dos frutos recolhidos, não das árvores dos campos; não proprietário dos animais do mato, mas sim, e com certas reservas, da peça abatida”45. O trabalho, portanto, determina a propriedade. Se ele é coletivo, a propriedade também será coletiva; a propriedade será privada sempre que o trabalho for individual.

Insiste Senghor:

Portanto, os produtos dos campos familiares e dos rebanhos são de propriedade colectiva, familiar, enquanto que a propriedade dos campos individuais é individual. Conforme provenham, as roupas e instrumentos de trabalho serão propriedade individual ou coletiva, com possibilidade de serem repartidos pelos indivíduos. Não é difícil imaginar as vantagens de tal regime. Dado que o mais corrente é que tanto o trabalho como os meios de produção sejam coletivos, os produtos do trabalho serão igualmente propriedade colectiva. Daqui deriva uma mensagem de primeira importância: cada homem tem assegurado o mínimo vital e pode satisfazer as necessidades primordiais: comer, vestir, alojamento... A segunda vantagem é a de tornar possível, mediante o trabalho individual, a aquisição do supérfluo, que é um luxo necessário para a realização pessoal46.

O direito do seguidores da RTA distingue entre propriedade e posse. A terra é uma propriedade comunitária e inalienável, mas o muntu pode possuir outros bens de produção. Ele possui a terra sem ser dono. Pode ser proprietário de uma plantação ou de uma casa, embora não o seja do terreno. Portanto, de acordo com Altuna, a propriedade privada reduz-se às casas e aos anexos (cozinha, celeiro, curral, árvores de fruto, roupas, armas, gado, caça e pesca capturada, frutos silvestres colhidos, produtos das culturas, objetos de uso pessoal, instrumentos musicais e de trabalho e o dinheiro conseguido com a venda de excedentes, pleitos ganhos e indemnizações)47. Portanto, certos objetos pessoais podem ser enterrados juntamente com seu dono, pois lhe pertencem. Outras vezes, ficam expostos por sobre a campa do dono.

Compreendemos, então, que certos membros da RTA chegam a ser ricos, uma vez que são possuidores de obras, culturas, plantações e gado. Entre os seguidores da RTA, pode considerar-se rico aquele que possui numerosas lavras, quase sempre correspondentes ao número de mulheres; rico é quem possua armas de caça, roupa

45SENGHOR, L. Libertad, Negritud y Humanismo. Madrid: Tecnos, 1970, p. 286-287.

46Ibid., p. 287.

47 Cf. ALTUNA,op. cit., p. 153.

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abundante, alguma plantação de café ou palmeira de riqueza. Diz Altuna: “O gado e a poligamia constituem o capital mais lucrativo. Quem possui mais de vinte cabeças de gado vacum entra na classe dos ricos. Com facilidade, pode multiplicar o número de mulheres-lavradeiras-mães, o que equivale a uma transformação do capital em meio de produção”48.

Portanto, o muntu, com seu trabalho, coletivo ou individual, contribui para a manutenção do fundo comum e privado; trabalha para viver e desconhece o trabalho assalariado. O trabalho assalariado e dependente equivale a uma escravatura; equivale à perda da liberdade, da dignidade, da criatividade e da espontaneidade. Nas sociedades dos seguidores da RTA não existe empregado ou operário que se sujeite ao trabalho em troca de um salário. Assim, o trabalho é livre, espontâneo e digno. O muntu é sempre patrão de si mesmo. O trabalho é considerado necessidade comunitária, que se torna obrigação moral e social. O muntu tradicional não é movido pela ambição nem pelo lucro. Trabalha para satisfazer às necessidades vitais. Por isso, trabalha somente o necessário, o imprescindível para viver. Consome o que produz e produz para viver o dia a dia. O muntu tradicional, afirma Herskovits, “trabalha na medida em que sente o dever de fazê-lo para assegurar a subsistência e em satisfazer certos desejos determinados, para além desse mínimo vital”49.

Seguindo esta linha de pensamentos, afirmamos que os europeus, formados e crescidos numa sociedade da produtividade, movidos pela ambição e pelo lucro, deduziram que os membros da RTA são preguiçosos, reacionários ao trabalho fatigante e sistemático. Eles ficam admirados ao ver que os membros da RTA, no começo de cada dia, dispõem de todas as horas para a sua realização. Realmente, os seguidores da RTA, se querem, caçam, visitam parentes, ajudam nos campos, fazem utensílios, cavaqueiam à volta de uma cabaça de bebida ou ao calor do sol; consomem as horas fumando, conversando, fruindo da liberdade e espontaneidade ao calor da solidariedade.

Os seguidores da RTA dão mais valor às relações pessoais do que à posse de bens materiais. Somente essas relações dão segurança e sossego. Escreve Horroy:

“Preguiçoso não é o que trabalha pouco, mas sim o que não trabalha o necessário para alimentar adequadamente a sua família e entregar o que lhe exige a organização social e

48ALTUNA,op. cit., p. 153.

49HERSKOVITS, M-J. Economia Antopology. New York: A.A. Knopf, 1952, p. 122, apud ALTUNA, op. cit.,p. 147.