3.7 Rede de Proteção à Infância e Adolescência
3.7.1 Dificuldades e desafios da chamada Rede de Proteção
As dificuldades da Rede podem ser assim resumidas: ausência de um espaço instituído de reunião, falta de comunicação entre os integrantes, falta de conhecimento sobre as atribuições de cada ator, encaminhamentos indevidos, falta de determinação nas coordenações e ausência de vários profissionais nas reuniões existentes da Rede.
Mas qual a maior dificuldade em lidar com a violência? As respostas mais frequentes apontavam para a ausência de estrutura básica de trabalho: carro, telefone, celular, ar condicionado, sala para atendimento, equipe mínima (psicólogo e assistente social). Tal queixa revela a precariedade da Rede de Proteção que ainda tem que lidar com a ausência de condições mínimas de funcionamento, o que prejudica ou mesmo inviabiliza as ações atinentes a cada área/órgão.
Ficar quase dois anos sem telefone e ter que enviar correspondência para contatar os usuários, não ter como se deslocar para fazer visita domiciliar ou fiscalização, e a ausência de profissionais são dificuldades não relacionadas à violência sexual, mas ao próprio equipamento, ao trabalho como um todo.
Entretanto, lidar com tamanha escassez muitas vezes encobria outras dificuldades que também atravessavam o cotidiano do trabalho, como a de ter que enfrentar a própria violência. O que é para os profissionais terem que lidar de perto, cara a cara, com um crime que a atualidade elegeu como um dos mais graves?
Para alguns, o incômodo residia em atender o abusador, já para outros era justamente a falta de atendimento ao abusador, a visão social do pedófilo como um grande monstro que deve ser somente punido.
Alguns profissionais conseguiram criar linhas de fuga para suportar o desconforto gerado no atendimento ao “pedófilo”, uma delas trabalhou o olhar com
“outras lentes”, com uma visão diferenciada daquela propagada pelo senso comum, O contato como outros olhares, principalmente o acadêmico, contribuiu para dissipar
seus medos e preconceitos e forneceu fundamentos teóricos para uma abordagem mais “tranquila”.
Já outros passaram a se anestesiar e a naturalizar os crimes, as violências, deixando de estranhar ou mesmo de se sensibilizar diante de uma situação de violação, sentindo certa “frieza” como um escudo para não se emocionar ou mesmo sofrer.
Outros viam como dificuldade lidar com a família, especialmente com as angústias.
Eu acho que é a família. Dificuldade porque... criança vê uma situação e induz. “mãe, fulaninho botou a mão na minha xereca.” Ai a família descobre, aí a família denuncia, isso, quando chega aqui, você vê uma carga muito grande, porque é abuso. Abuso é abuso, a família já chega com isso pronto para responsabilizar. Para mim, é difícil redirecionar uma demanda, pensar da forma como eu vou responder essa demanda, sabe?
É uma questão ética que coloca você, a todo momento, tentando pensar como é que você vai lidar com isso porque é abusivo demais. É abusivo para a gente quando recebe um negócio como esse.
Outra dificuldade apontada relaciona-se à demora e a revitimização:
As pessoas, elas são revitimizadas por vários anos. Elas passam por vários lugares, têm que contar sua história. Já aconteceu de atender casos em 2006, 2007. Atendi em 2006 e em 2009, me chamaram para uma audiência.
Para a gente já vai ser uma conversa sofrida, imagina para essa família. Às vezes, a própria família já chega muito desacreditada, né? “é, eu fui lá fazer registro de ocorrência”. Às vezes passa por uma situação de corpo de delito e que a pessoa que atendeu não foi tão nobre assim, que vitimiza mais ainda essa criança e essa família, aí essa pessoa vem para cá já desacreditada.
A principal dificuldade de atendimento às situações que envolvem violência sexual pode ser resumida na fala de um(a) profissional:
Principalmente o atendimento pós-abuso, quer dizer, quando foi detectado o abuso, o que que eu faço para ajudar essa criança? Eu não tenho para onde mandar. A coisa pior que tem é você se sentir frustrado, você quer ajudar e vai fazer o quê? Você não tem instrumento para mandar. [...] Então é terrível, você se sente incapaz e a população também sente porque fica revoltada, “eu fui para o conselho tutelar e não adiantou nada”
Para outro(a) profissional, a revitimização ocorre porque o processo em si já é vitimizador, principalmente quando é necessário contar um assunto tão delicado para pessoas as quais podem não ser tão hábeis para lidar com essas questões.
De repente no corpo de delito a pessoa não é tão hábil com essas questões. “e ai, como é que foi? Você viu?” O tom da fala, sabe? E isso para criança e adolescente [...] Se para a gente que já é adulto é difícil, imagina para a criança lidar com essa situação? É a forma como é abordado, a forma de revitimar.
Em uma entrevista surgiu a história de uma mulher de 32 anos, atendida para tratar de uma questão não relacionada ao abuso. Durante o atendimento, sua história veio à tona, carregada de emoções fragilmente reprimidas. Foi abusada aos 9 anos de idade. Chorou muito ao narrar esse acontecimento e se surpreendeu por perceber o quanto essa história ainda mexia com ela.
A mãe, nessas situações, fica com sentimento de culpa, pois foi ela que colocou a pessoa dentro de casa, às vezes ela sente raiva da filha, como se a mesma estivesse competindo. Os sentimentos ambivalentes aparecem e ela se culpa por não ter percebido. As crianças costumam dar dicas, mas muitas vezes a mãe não percebe. O trabalho com essa mãe é no sentido de dar proteção para que ela não incorra no mesmo erro, pois pode acontecer uma probabilidade de ela vir a arrumar outro companheiro com o mesmo comportamento. O trabalho é voltado para o cuidado dessa mãe.
Entre impasses burocráticos, angústias de se deparar com as expectativas não correspondidas das famílias, falta de confiança nos equipamentos da Rede e ausência de atendimentos, profissionais, estruturas e uma série de dificuldades, algo pode ser feito.
As alternativas ou linhas de fuga foram relatadas como um desvio do trabalho prescrito, mas encaradas como a melhor decisão a ser tomada levando-se em consideração diversos aspectos: a família, a própria criança, o próprio emprego, valores éticos, racionalidade de tempo, dentre outros.
Em um serviço em que não está previsto o acompanhamento psicológico, a equipe, incomodada com a situação de abuso sexual intrafamiliar, optou por realizar um trabalho com o pai e abusador da criança. Posteriormente, a equipe alega ter sido questionada pelo(a) psicólogo(a) da promotoria: “ué, ao invés de trabalhar com a vítima, trabalharam com o abusador?”
A situação relatada por um(a) profissional é de um caso de abuso sexual ocorrido há 4 anos e que, mesmo passado esse tempo, ainda causava grandes problemas à criança. Por não haver oferta de tratamento psicológico, na época não havia psicólogos no quadro, a criança aguardava em fila de espera para atendimento em um posto de saúde de outro município. O que causa indignação na
profissional é o caso ter sido considerado grave e enviado imediatamente ao Ministério Público, mas as primeiras providências foram tomadas quase dois anos depois . A alternativa que encontraram frente à ausência de atendimento psicológico para os envolvidos foi elaborar um projeto de intervenção junto com o(a) psicólogo(a) para que se trabalhasse com o abusador naquele momento e mostrasse para ele a importância de preservar a criança.
E, diante de tantas dificuldades e precariedades, qual a saída para a família?
A alternativa encontrada por alguns profissionais segue pela via da persistência.
É a persistência. A pessoa não desistir [...] muitas vezes elas querem desistir e a gente tem que falar não assim “a gente mandou relatório tal” aí a gente fala para a pessoa “você tem que continuar indo vai na delegacia ver em que pé está o processo”, a gente incentiva a pessoa: “vai na promotoria para saber como está a situação”, para não ficar esquecido. Eu sei que são muitos casos, mas geralmente aquela pessoa que vai atrás ela fica mais visível.
Pergunto qual a demanda da família e para quê tanta persistência e obtenho como resposta: “Que a pessoa seja presa, que o autor seja preso”. Punição, justiça e violência sexual contra crianças e adolescentes estão intimamente relacionadas e produzem efeitos e práticas que incidem não somente nos principais envolvidos – criança/adolescente e o agressor, mas sua margem de ação se expande muito além desses principais atores, abarcando um exército de patrulhamento a serviço da moral, da ordem e, principalmente, do controle sobre as famílias.
O próximo capítulo apresentará a violência sexual contra crianças e adolescentes no contexto do poder penal, avaliando sua expressão na Rede de Proteção e seus efeitos de controle social sobre a família, por meio de alianças com os saberes psi e suas tecnologias a serviço da norma.
4 VIOLÊNCIA SEXUAL CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES – DISPOSITIVO A SERVIÇO DO PODER PENAL