4. ARBITRAGEM NA RESOLUÇÃO DE CONTROVÉRSIAS TRANSINDIVIDUAIS
4.1 CABIMENTO DA ARBITRAGEM PARA A GESTÃO DE CONFLITOS COLETIVOS
4.1.2 Direitos e interesses coletivos stricto sensu
Situação semelhante à dos direitos difusos é atribuída aos direitos coletivos stricto sensu, pois existe entendimento de que, diante da indisponibilidade desses direitos, não seria possível a arbitragem envolvendo essa categoria coletiva.
Porém, com base nas colocações elaboradas no tópico anterior, defende-se a ideia de possibilidade de utilização da via arbitral para solução de litígios envolvendo direitos coletivos stricto sensu uma vez que presentes também neste caso as três premissas autorizadoras da arbitrabilidade de direitos difusos. No entanto, aqui são cabíveis algumas análises específicas que podem facilitar a compreensão acerca da arbitrabilidade de litígios envolvendo direitos coletivos stricto sensu.
A primeira delas é o caso da atuação dos sindicatos enquanto órgãos de representação do grupo. Merece destaque a desnecessidade de intervenção judicial pela possibilidade de pacificação via sindicato. Além das negociações inerentes à atividade sindical, a Consolidação das Leis do Trabalho regulamenta a possibilidade de conciliação de disputas através das Comissões de Conciliação Prévia, “o que reforça a possibilidade de resolução extrajudicial desse tipo de disputa” (SILVA, 2018, p. 3). Nesse sentido, Manus (1983, p. 3-4) defende ideia de uma necessária “alteração na forma de solução dos conflitos coletivos do trabalho, de tal modo a que às partes, fundamentalmente caiba a atribuição de criar suas próprias condições de trabalho”, criticando as decisões dos tribunais em dissídios coletivos, as quais “nem sempre colocam termo ao dissídio, assim entendido como o litígio
171 O Projeto de Lei nº 4.484/2012, outra proposta de disciplina da ação civil pública para a tutela de interesses difusos, coletivos ou individuais homogêneos, reproduz exatamente a mesma redação. Esse novo projeto de lei, contudo, encontra-se arquivado.
entre empregados e empregadores, mas apenas solucionam a questão formal, ou processual”.
A arbitragem, por sua característica de protagonismo das partes se mostra como importante figura capaz de alterar essa realidade.
A segunda anotação quanto ao papel dos sindicatos decorre da sua atuação judicial172. É pacífico o entendimento jurisprudencial no sentido de que esses órgãos não precisam de autorização dos membros para atuar em juízo em razão da sua ampla representatividade. Nos autos do Recurso de Revista nº 9988600-48.2003.5.02.0900173 o Tribunal Superior do Trabalho pode se manifestar sobre a legitimidade da substituição processual dos trabalhadores pelo sindicato e do alcance da sentença ali proferida. Fixou-se o entendimento de que o art. 8º, inciso III, da Constituição Federal, ao atribuir legitimidade dos órgãos sindicais para a tutela defesa dos direitos e interesses coletivos ou individuais da categoria – judiciais ou administrativas –, autoriza a atuação ampla do sindicato e não exige o elenco dos substituídos no início do procedimento. Assim, a postulação por intermédio do sindicato é forma de desonerar o trabalhador do ônus de enfrentar o empregador individualmente, devendo ser incentivada pelo Judiciário como meio de ampliar o acesso à justiça dos trabalhadores. Ademais, “corolário básico desse raciocínio é a admissão de que a substituição processual abrange todos os integrantes da categoria”, ainda que não tenham participado do processo judicial. Esse exemplo demonstra o amadurecimento dos ideais de representação enquanto forma de facilitação e garantia de acesso à justiça. Tem-se, assim, possibilidade de tutela de direitos coletivos stricto sensu pela via negocial. Não havendo necessidade de intervenção do Estado-juiz, nos termos do capítulo anterior, é possível admitir a possibilidade de tutela de direitos trabalhistas através da arbitragem.
A pesquisa “Ações coletivas no Brasil: temas, atores e desafios da tutela coletiva”
do Conselho Nacional de Justiça (BRASIL, 2017, p. 17-20) demonstra a importância do papel dos sindicatos enquanto figuras atuantes na tutela de direitos coletivos, por serem “uma das poucas entidades da sociedade civil que figura modestamente nas partes mapeadas”. No entanto, para a percepção dos juízes avaliados na pesquisa, “a Lei da ACP contribuiu para fortalecer o MP, mais do que as organizações da sociedade civil. Se correta, essa avaliação representa grande revés nas expectativas originais daqueles que pugnaram pela ampliação do acesso à Justiça para causas coletivas”.
172 Segundo Nancy Andrighi (2006, p. 2), uma das maiores áreas de especialização das Câmaras Arbitrais no Brasil se dá justamente no âmbito trabalhista. Já nos Estados Unidos, quase 1/3 das arbitragens coletivas em curso dizem respeito à matéria trabalhista (ROQUE, 2014, p. 30).
173 BRASIL. Tribunal Superior do Trabalho. Primeira Turma do Tribunal Superior do Trabalho. Recurso de Revista 9988600-48.2003.5.02.0900. Brasília/DF. Jugado em 07/05/2008.
Outro importante órgão regulamentado no ordenamento jurídico nacional é o PROCON. Esses órgãos, previstos na regulamentação do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor (art. 170 e 5º, CF; art. 105, Código de Proteção e Defesa do Consumidor; art. 4º, Decreto nº 2.181/97), integram o Poder Executivo e segundo Gomes e Mendonça (2016, 2-4)
“atuam como uma porta de entrada do acesso à justiça” atuando nas causas integrantes do universo do consumo. Através das ações de atendimento, orientação e facilitação do diálogo entre as partes, os PROCONS permitem a redução do número de ações levadas ao judiciário – em particular aos juizados especiais – e a fiscalização e aplicação de sanções são uma “forma de modificar e limitar os comportamentos abusivos do fornecedor”, tutelando bens jurídicos coletivos (GOMES; MENDONÇA, 2016, p. 3-6).
Outros órgãos de proteção do consumidor como o Instituto de Defesa do Consumidor – Idec são também ativos agentes na tutela do direito do consumidor, havendo proposto, inclusive, uma série de ações coletivas visando a sua proteção174. No entanto, a lógica demandista nacional impõe sua força também na atuação desses órgãos de defesa do consumidor. Pasqualotto (2013 p. 8-12) critica a vulnerabilidade política das entidades, que carecem “da estrutura administrativa apta a torná-lo respeitado e eficaz nos papéis de prevenção, reparação e repressão que lhe competem”, afetando diretamente a possibilidade de resolução de conflitos consumeristas175. Note-se ainda que, em matéria de consumo, o Código de Defesa do Consumidor prevê a possibilidade de atuação da sociedade civil diretamente na regulamentação dessa disciplina, através da Convenção Coletiva de Consumo.
A inclusão desse instrumento no Código de Proteção e Defesa do Consumidor foi uma clara tentativa de tutela adequada, com objetivo de alcance coletiva que é, em teoria, mais eficaz e isonômica do que a tutela fragmentada através de ações judiciais individuais.
Sua utilização representaria a adoção de uma “cultura jurídica não exclusivamente dependente do já combalido modelo judicial de soluções pulverizadas para os crescentes conflitos de consumo, mas ao contrário, que instigue a renovação legislativa em prol de modelos paralelos” (VERBICARO, 2017, p. 2-3). No entanto, a prática mostra a sua pouca aplicação.
Esse instituto demonstra a possibilidade de tutela negocial de direitos transindividuais através
174 Zuliani (2006, p. 27), entende que “compatibilidade dos dois diplomas legais (Lei 8.078/90 e Lei 9.307/96) pode encontrar sua pedra de toque justamente nas casas destinadas à proteção do consumidor, ou seja, nos órgãos que integram o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor (SNDC)”, defendendo a ideia de arbitrabilidade das causas consumeristas, especialmente quando mediadas perante órgãos públicos voltados à sua proteção.
175 Nesse sentido, “O processo de solução dos conflitos nas relações de consumo deve dar primazia a medidas de conciliação e de autocomposição, promovendo-se o estreitamento do contato entre as partes”. Diante de uma situação de conflito, “Desvelam-se, pois, três diferentes níveis ou graus, em ordem sucessiva, para a solução dos problemas: (i) diretamente, na própria empresa; (ii) administrativamente, por meio do Procon (e análogos); ou, (iii) residualmente e em definitivo, via Poder Judiciário” (MONTEIRO FILHO, 2016, p. 3-5).
de particulares176, contribuindo para o argumento de possibilidade de arbitramento de litígios coletivos, bem como para demonstrar que é lícita a persecução de bens coletivos pelos órgãos legitimados à propositura das ações coletivas177.
Como se vê, a possibilidade de tratamento coletivo de direitos no ordenamento jurídico nacional abrange diversas áreas diferentes do Direito, havendo inclusive previsões expressas de utilização de mecanismos autocompositivos para a sua resolução. É por esse motivo que se verifica certa dificuldade na limitação da utilização dos meios de resolução de conflitos constitucionalmente previstos e regulamentados. Assim,
Por lo que se refiere a la rama del derecho en que se puede situar o ubicar a los Mecanismos Alternos de Solución de Conflictos, resulta sumamente complicado limitarnos a un área en lo particular, ya que estos mecanismos cobran aplicación en distintas materias o disciplinas jurídicas, tales como la materia penal, civil, mercantil, familiar, laboral, entre otras (CAMPOS et al, 2018, p. 346).
Diante de todo o exposto, entende-se possível a instauração de procedimento arbitral para tratamento de litígios envolvendo direitos coletivos stricto sensu no Brasil.