• Nenhum resultado encontrado

Modelo multiportas do Código de Processo Civil de 2015

3.2 MOVIMENTO DE ACESSO À JUSTIÇA

3.2.3 Modelo multiportas do Código de Processo Civil de 2015

centralidade dos modos jurisdicionais em matéria de regulação social”102. Centralizado em uma ideologia de informalismo, baseia-se na pretensão de “diminuir a duração e o custo dos processos e simplificar a complexidade dos procedimentos”. Há grande foco na sua defesa fundamentado na “inadaptação do sistema judicial para a resolução de certos tipos de conflitos, designadamente ambiente, interesses difusos, múltiplas partes, pelo que propõem técnicas mais informais como a mediação” (PEDROSO, 2003, p. 71).

A característica principal desse sistema é o entendimento de processo judicial como como ultima ratio, dando preferência para soluções autocompositivas. O acesso à justiça pelos Tribunais dá lugar à via da adequada composição e a finalidade do processo vai perdendo a sua característica de tutela processual, ou seja, como um fim em si mesmo, para preocupar-se com a tutela dos direitos (ZANETI JUNIOR; DIDIER JÚNIOR, 2016, p. 36).

Nesse sentido, ganha destaque o entendimento de Humberto Dalla Bernardina de Pinho (2017, p. 36-37), para quem a fase mais moderna da disciplina processual é caracterizada “pelo dever de buscar todos os meios possíveis para a pacificação do conflito”.

Dessa forma, são privilegiados os resultados do processo, tornando-o instrumento para a concretização dos direitos materiais, aproximando-se, enfim, a disciplina processual e material, com observância da “supremacia dos direitos de base constitucional”.

O Código de Processo Civil de 2015, em fina sintonia com esse entendimento, prevê em seu art. 3º que “Não se excluirá da apreciação jurisdicional ameaça ou lesão a direito”, mas já no § 3º diz que “A conciliação, a mediação e outros métodos de solução consensual de conflitos deverão ser estimulados por juízes, advogados, defensores públicos e membros do Ministério Público, inclusive no curso do processo judicial” (BRASIL, 2017).

Assim, o novo sistema processual adotou o modelo multiportas, garantindo o direito de acesso ao Poder Judiciário por meio do processo, mas determinando que os sujeitos que ali atuem deem preferência para o uso de meios alternativos103 que se mostrem capazes de

102 Cappelletti (1994, p. 1) diz que a expressão ADR pode ter um caráter mais amplo, no sentido de comtemplar

“expedientes judiciais ou não - que tem emergido como alternativas aos tipos ordinários, ou tradicionais, de procedimento”. Englobariam nesse conceito as próprias ações coletivas. Faz-se essa distinção pois, embora o termo possa ter adotado diversos significados a depender da inclinação histórica de diferentes épocas, ao que parece sua tendência mais moderna está ligada ao questionamento do monopolismo estatal na resolução de conflitos e os métodos ali empregados.

103 Pinho (2018, p. 147) analisando o método da mediação e questionando o uso da qualidade de alternatividade atribuído aos métodos adequados de resolução de conflito diz que “a mediação não é meio alternativo à via judicial e nem esta é alternativa a primeira. Todos os meios de resolução de conflito se complementam num sistema integrado, assim como expresso no art. 3° do CPC/2015, que deve abarcar também as hipóteses de desjudicialização, na medida em que essas ferramentas se afinam com a ideia do uso racional dos meios judiciais”.

responder mais adequadamente às necessidades que eventualmente surgirem em decorrência do conflito.

A partir da leitura do art. 3º, percebe-se que a responsabilidade pela promoção do sistema multiportas é do Estado, mas também dos juízes, advogados e promotores, bem como dos demais servidores da administração pública. Nesse sentido, Gavronski (2016, p. 343) diz que o legislador fez bem a sua parte para alterar a cultura judiciarista vigente no país. Cabe agora a esses sujeitos demonstrar a sua vontade em participar dessa mudança paradigmática e profunda do sistema processual civil.

Venturini (2016, p. 4) diz que esse momento histórico de adoção pelo Brasil do modelo de justiça multiportas, com a tentativa de institucionalizar os meios alternativos de resolução de conflitos, permite o questionamento da “imprescindibilidade da adjudicação pública de todo e qualquer conflito envolvendo direitos indisponíveis”.

Tratadas como meios alternativos de resolução de conflitos, os métodos compreendidos no sistema multiportas são, na verdade, resgate da solução particular de controvérsias, em detrimento da realidade de quase absolta exclusividade da resolução por meio da justiça estatal. Esse entendimento é fortalecido pelas ideias de superação do conceito tradicional de jurisdição, desvinculando-o do poder político do Estado. Assim, torna-se irrelevante a pacificação por obra do Estado ou por meios particulares, desde que ela se mostre eficiente.

Dider Junior e Zaneti Junior (2016, p. 37) destacam que o sistema multiportas respeita a escolha dos interessados, em atenção ao princípio da autonomia da vontade previsto no art. 166 do Código de Processo Civil. Ademais, assim como foi estabelecido acima, os autores destacam a superada “alternatividade” anteriormente atribuída a essas formas de resolução de conflitos. Isso porque nem a Constituição Federal nem o Código de Processo Civil preveem a superioridade da resolução de conflitos da justiça estatal sobre os demais métodos. Assim, elas devem ser vistas como diferentes opções, ou “portas”, colocadas à disposição da sociedade para dirimir seus conflitos.

Ressalte-se, nesse ponto, que “o uso de técnicas alternativas ao processo não significa a privatização deste, mas assinala uma tendência atual de envolver o particular na atividade de solução do conflito. Esse fenômeno se identifica com o espírito de publicização da tarefa pacificadora” (MASSALI, 2015, p. 38).

Assim, para Pinho (2017, p. 262-265) a evolução do estudo acerca da atividade jurisdicional, passou-se pela preocupação com a garantia de acesso, ainda que meramente formal, trabalhou-se a ideia da instrumentalidade da jurisdição, para enfim focar na busca por

uma real efetividade. A preocupação contemporânea é, portanto, “o fortalecimento do princípio da adequação”. Significa dizer:

Temos vários instrumentos ao nosso dispor. Numa determinada situação, vários ou pelo menos alguns deles podem ser acessíveis, instrumentais e efetivos, mas normalmente, apenas um deles será o mais adequado para aquelas circunstâncias concretas. Nesse sentido, assentada a premissa de que a jurisdição não é exclusiva do Poder Judiciário, ganham legitimidade os meios desjudicializados de solução de conflitos (...). O acesso hoje é direcionado ao sistema jurisdicional multiportas (...).

Trata-se, portanto, de atribuir eficácia horizontal ao direito fundamental à tutela jurisdicional, que agora deve ser compreendida a partir de cinco predicados:

acessível, instrumental, efetiva, adequada e pacificadora.

Modernamente, portanto, buscou-se resgatar a utilização de mecanismos independentes do Estado para a resolução de conflitos104. Dentre os métodos postos à disposição dos jurisdicionados através do sistema multiportas, destacam-se a negociação, a mediação, a conciliação e a arbitragem. Nos próximos tópicos serão abordados alguns aspectos relevantes sobre esses métodos.