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DIREITOS, PRINCÍPIOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS

No documento ISSN 2595-8526 (páginas 151-155)

GT 09 DIREITO CONSTITUCIONAL E TEORIA DO DIREITO EM NOVAS PERSPECTIVAS

2. DIREITOS, PRINCÍPIOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS

Ao se pensar no termo “justiça” vários entendimentos podem surgir. O professor MONTORO (2000) diz que:

a etimologia da palavra justiça vem do latim “jus” que, para alguns filósofos, é a variação do termo “justum” que está ligado ao vocábulo latino sânscrito “yú” que é a origem de palavras como “justo”, “bom” ou

“divino”.

No Brasil o termo “justiça” é comumente utilizado em legislações, doutrinas, tribunais e discursos ativistas. Inclusive, os próprios tribunais brasileiros que tratam de matérias de direito recebem o nome de “Tribunais de Justiça”.

De igual forma, a justiça pode ser entendida como a qualidade do que é justo, honesto e íntegro. Por justiça também se descreve a arte do que é equânime. Ora a justiça está no agir, outrora está no punir.

Analisando o desenvolvimento histórico, o termo “justiça” está diretamente relacionado ao objetivo do direito, sendo que o desembargador Sergio Cavalieri Filho afirma que “a finalidade do direito é a realização da justiça”.

Dentre suas inúmeras variáveis, há a concordância de que a justiça não foge de sua missão de amparar e socorrer e, para que ela honre seus atributos, existe a necessidade de que a justiça seja efetiva e assídua. Desta maneira, realizando uma interpretação extensiva, não basta que o direito busque pela justiça, é necessário que essa justiça seja materializada, como critério validador da existência do próprio direito.

Existem direitos, princípios e garantias constitucionais presentes na Constituição Federal que regem todo o ordenamento jurídico brasileiro. A Constituição Federal de 1.988 é uma carta que possui supremacia frente às demais normas jurídicas, haja vista a hierarquia constitucional disposta por Hans Kelsen em que a Constituição Federal encontra-se no ápice da pirâmide normativa e que todas as demais leis devem fundamentar-se nesta.

Além de sua supremacia normativa, a Constituição Federal de 1.988 possui um rol de direitos, princípios e garantias fundamentais, o que, segundo Ingo Wolfgang Sarlet, Luiz Guilherme Marioni e Daniel Mitidiero:

Os princípios fundamentais do Título II da CF correspondem a uma decisão fundamental do constituinte que, pelo seu cunho estruturante e informador da ordem estatal, é constitutiva da própria identidade constitucional. Assim, ainda que parte desses princípios (com destaque para a dignidade da pessoa humana, a República, o Estado Democrático e Socioambiental de Direito) não integre expressamente o elenco das assim chamadas “cláusulas pétreas” (embora essas contemplem alguns princípios, como é o caso especialmente da separação dos poderes, do sufrágio e dos direitos fundamentais, a teor do artigo 60, § 4.º, CF), assume, no nosso entender e salvo melhor juízo, a condição de limite material implícito à reforma constitucional. (sem grifos no original)

Dentre os direitos, princípios e garantias constitucionais fundamentais, quatro são essenciais para o desenvolvimento do presente trabalho, quais sejam: dignidade da pessoa humana, igualdade, vulnerabilidade e o próprio acesso à justiça.

O princípio da dignidade da pessoa humana é também um fundamento do Estado Democrático de Direito e significa dizer que todos merecem viver condignamente, levando-se a reconhecer a liberdade de cada indivíduo e garantir-lhe um pleno desenvolvimento. Este princípio encontra-se previsto no art. 1º, inciso III, da Constituição Federal:

CF, art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: (...)

III – a dignidade da pessoa humana;

Acontece que, o princípio da dignidade da pessoa humana vai muito além de um fundamento do Estado ou um princípio jurídico, ele está acostado a todo o ordenamento como instrumento de garantia e promoção de direitos fundamentais. É possível se verificar a garantia da dignidade da pessoa humana no inciso III, do art. 5º, da CF “ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante”, no art. 170 da CF “a ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre-iniciativa, tem por fim

assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social (...)”, e entre outros tantos direitos previstos em todo o ordenamento jurídico brasileiro.

No acórdão do Recurso Extraordinário nº 477.554, o Ministro Celso de Mello, ao falar da dignidade da pessoa humana, proferiu o seguinte posicionamento: “verdadeiro valor-fonte que conforma e inspira todo o ordenamento constitucional vigente em nosso País e que traduz, de modo expressivo, um dos fundamentos em que se assenta, entre nós, a ordem republicana e democrática consagrada pelo sistema de direito constitucional positivo”.

Neste liame, chega-se à conclusão de que a dignidade da pessoa humana, além de poder ser entendida como fundamento do Estado Democrático de Direito e princípio jurídico, isto é, ser um conceito com múltiplos significados, está centrado no ser humano e serve como base para a atuação do Estado tanto de forma positiva (prestacional) ou negativa (defensiva).

Assim é a orientação levantada por Ingo Wolfgang Sarlet, Luiz Guilherme Marioni e Daniel Mitidiero:

A dignidade da pessoa humana, nessa quadra, revela particular importância prática a partir da constatação de que ela (a dignidade da pessoa humana) é simultaneamente limite e tarefa dos poderes estatais e da comunidade em geral (portanto, de todos e de cada um), condição que também aponta para uma paralela e conexa dimensão defensiva (negativa) ou prestacional (positiva) da dignidade. Com efeito, verifica- se que na sua atuação como limite, a dignidade implica não apenas que a pessoa não pode ser reduzida à condição de mero objeto da ação própria e de terceiros, mas também o fato de que a dignidade constitui o fundamento e conteúdo de direitos fundamentais (negativos) contra atos que a violem ou a exponham a ameaças e riscos, no sentido de posições subjetivas que têm por objeto a não intervenção por parte do Estado e de terceiros no âmbito de proteção da dignidade. Como tarefa o reconhecimento jurídico-constitucional da dignidade da pessoa humana implica deveres concretos de tutela por parte dos órgãos estatais, no sentido de proteger a dignidade de todos, assegurando-lhe também por meio de medidas positivas (prestações) o devido respeito e promoção, sem prejuízo da existência de deveres fundamentais da pessoa humana para com o Estado e os seus semelhantes.

Atrelado ao princípio da dignidade da pessoa humana há o princípio da igualdade, que também é um objetivo do Estado, e encontra-se previsto no inciso III, do art. 3º e no caput, do art. 5º, ambos da CF:

CF, art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: (...)

III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; (...)

CF, art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade (...)

O princípio da igualdade norteia a interpretação e aplicação de inúmeros direitos previstos no ordenamento jurídico, visto que busca considerar as singularidades de cada mazela social e proporcionar a aplicação de direitos de forma mais igualitária. Essa igualdade se divide em igualdade material e formal.

A igualdade formal é a prevista no texto constitucional, sem consideração dos fatores individuais de cada indivíduo. Este conceito é bastante criticado pelos doutrinadores, tendo em vista que não é crível garantir a igualdade de todos sem prever as desigualdades existentes no grupo.

Neste sentido, o renomado autor Kildare Gonçalves Carvalho assevera:

No exame do princípio da igualdade, deve-se levar em conta, ainda, que, embora sejam iguais em dignidade, os homens são profundamente desiguais em capacidade, circunstância que, ao lado de outros fatos, como compleição física e estrutura psicológica, dificulta a efetivação do princípio.

Assim, surge a ideia de uma igualdade material, que ultrapassa a teoria em prol da consideração de características, fatores e ambientes em que cada indivíduo está inserido, com o fito de proporcionar uma igualdade plena. Nesta senda é o conceito adotado por Rui Barbosa, inspirado na lição do filósofo Aristóteles: “deve-se tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais na medida de suas desigualdades”.

O princípio da vulnerabilidade também é de suma importância para se entender o desenvolvimento da presente pesquisa. Falar em vulnerabilidade é falar em pontos sensíveis que merecem a devida observação, cuidado e respeito, para que não venham a interferir no desenvolvimento de nenhuma relação. Cada ser humano possui vulnerabilidades diferentes de outros, a

questão é analisar essas vulnerabilidades, com o intuito de considera-las no caso concreto e evitar que possam prejudicar as partes envolvidas em um processo.

Fernanda Tartuce conceitua vulnerabilidade como:

A suscetibilidade do litigante que o impede de praticar atos processuais em razão de uma limitação pessoal involuntária; a impossibilidade de atuar pode decorrer de fatores de saúde e/ou de ordem econômica, informacional, técnica ou organizacional de caráter permanente ou provisório.

Desta forma, não basta garantir a dignidade da pessoa humana como fundamento e a igualdade como objetivo do Estado Democrático de Direito, é necessário considerar fatores subjetivos de cada jurisdicionado, como a vulnerabilidade, para promover o direito ao acesso à justiça.

No documento ISSN 2595-8526 (páginas 151-155)