Etapa XII Considerações Finais
07- PRAZER 06-AUTONOMIA
4.3 Discussão a Partir das Cenas Apresentadas
4.3.1 Cena 1
Para o Grupo feminino, a primeira cena remeteu ao significado monetário do dinheiro e seu papel na satisfação das necessidades básicas e da sobrevivência. A seqüência apresentada lembrou também, situações de vida dos sujeitos em que estes passaram por um constrangimento semelhante ao vivido pelo protagonista do filme. Situações de insegurança por ter pouco dinheiro e ter que regular as compras para não faltar a quantia suficiente para o pagamento.
Relatam a sensação de desconforto e destacam o peso da aparência e da cor da pele que em situações como a apresentada no filme, terminam por determinar a maneira como o sujeito será tratado, com mais ou menos consideração e respeito.
Para o grupo masculino, a cena 1 foi marcante pelo constrangimento que suscita.
Despertou a consciência do grupo para o caráter excludente e cruel que pode ser atribuído ao dinheiro. Os comentários dos sujeitos falam da desvalia, da limitação e do julgamento social que é dirigido às pessoas que têm uma condição financeira menos favorecida e da conseqüente incorporação e aceitação desta condição por parte destas. Em concordância com o grupo feminino, esta cena também provocou no grupo masculino, recordações de experiências pessoais muito semelhantes à descrita no filme. O grupo destaca que nestas circunstâncias vividas por eles, pelo fato de estarem bem vestidos e pela postura que assumiram diante da situação foram tratados com muito mais compreensão e respeito.
A pesquisadora observou que no grupo masculino foram mais destacados os sentimentos de insegurança diante da falta de dinheiro do que no grupo feminino, através do impacto causado pela cena.
4.3.2 Cena 2
Nesta cena, o grupo masculino destacou principalmente a influência da necessidade de pertencer a um grupo nas atitudes ilícitas da protagonista e a força da cultura de consumo como pano de fundo, inspirando as necessidades de adquirir os produtos em questão a qualquer preço A cena provocou também uma reflexão sobre os valores da cultura Americana e suas relações com a cultura brasileira, que vêm seguindo os mesmos passos da primeira.
No grupo feminino, a cena 2 inspirou a reflexão sobre o caráter ilusório do mundo do consumo, em contraponto com a realidade e provocou uma relação direta com a primeira cena.
Os protagonistas foram comparados. A idoneidade do primeiro em contraponto com a volubilidade da protagonista do filme “Aos Treze”. Enquanto o primeiro manteve-se honesto e respeitou sua condição financeira, no momento da compra, a segunda deixou-se levar pelo encantamento do momento e pela atitude das amigas para passar a pertencer ao grupo.
4.3.3 Cena 3
Diante desta cena, o grupo feminino discutiu o poder que o dinheiro outorga a quem o possui, pois condições que não existem podem ser criadas do nada para satisfazer as necessidades destes privilegiados. Como se trata de uma questão de saúde, o grupo acaba por justificar os subornos realizados, entendendo que elas próprias, se estivessem na mesma situação, precisando favorecer um familiar doente, teriam a mesma atitude do protagonista do filme.
O grupo masculino reflete a partir da cena o poder atribuído pelo dinheiro a quem o possui, e questiona as atitudes de corrupção destacando que só o dinheiro não pode nada se não existiram, como complementares, pessoas dispostas a serem corrompidas.
4.3.4 Cena 4
Os valores familiares entraram em questão no grupo masculino, a partir da cena 4. esta suscitou a lembrança de experiências particulares, remetendo a situações de família, muitos semelhantes à descrita no filme, evidenciando que o enredo apresentado encontra-se bem
representado na realidade. Foram destacadas as dificuldades em aceitar as partilhas em desentendimentos e sem desconfianças e desejo de desfrutar de vantagens pessoais.
Outro ponto destacado por este grupo, além das reflexões sobre os valores da família americana em contraponto com a brasileira, foram as relações entre dinheiro e afetividade, que mobilizaram muito o grupo, provocando uma reflexão não só do papel de filhos, mas também do papel de pais, que futuramente podem estar vivendo esses mesmos conflitos com suas famílias a partir do lugar que for destinado ao dinheiro nas mesmas.
Amor X Interesse, permeados pela culpa, foram os tópicos levantados pelo grupo feminino que discutiu as motivações dos familiares na partilha de bens e relações com os pais.
A cena 2, ligada ao consumo foi a que mais estimulou os comentários do grupo feminino, enquanto que no grupo masculino as cenas que despertaram mais reflexões foram as cenas 1 e 4, ligadas à discriminação e aos conflitos familiares.
A pesquisadora destaca que a partir das cenas dos filmes, o grupo feminino identificou o dinheiro como: corruptor de valores, interesse acima dos valores familiares, veículo para aceitação social, status, respeito e aceitação social, instrumento de poder, de desagregação familiar, gerador de culpa, veículo para satisfação das necessidades básicas e criador das necessidades de consumo.
Para o grupo masculino, a partir das cenas o dinheiro foi identificado como agente de humilhação, inferioridade, constrangimento, aceitação, limite e poder. O dinheiro é caracterizado como uma instituição, como balizador da lógica do consumo, como determinante da posição social ocupada pelos indivíduos.
Os dois grupos entendem que o uso do dinheiro reflete a cultura da sociedade que orienta as atitudes, construindo tanto a monetarização indiscriminada, como no caso da cultura americana ou a ação dissimulada, como acontece na cultura brasileira.
Um uso mais acentuado da linguagem monetária foi verificado no grupo masculino na definição dos demais valores. Este materializou mais freqüentemente o dinheiro em suas colocações falando de quantias específicas ao relatar experiências pessoais, e de instrumentos de uso do dinheiro como cheques, cartões de crédito. Esse fato sugere mais intimidade no manuseio do dinheiro.