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pronome manifesto (máx. 3)

Objeto Direto Objeto Indireto

Com pronome Sem pronome Com pronome Sem pronome

5 anos (pública) 1,77 1,47 1,97 1,37

5 anos (privada) 1,76 1,59 2,10 1,34

Fonte: O autor, 2016

Em relação às crianças de 5 anos, obtiveram-se diferenças nos resultados do ANOVA. Os resultados das crianças de escola privada indicaram efeito principal para Presença de pronome manifesto (F(1,28) = 10,1 p<0,003635), com mais acertos para as sentenças com pronomes manifestos, e interação entre Tipo de complemento e Presença de pronome, com mais acertos para as sentenças de OI com pronome manifesto (t(28) = 3,08 p< 0,0046). Os resultados das crianças de escola pública também indicaram efeito principal para Presença de pronome manifesto (F(1,29) = 10,6 p<0,002916), com mais acertos para as sentenças com pronomes manifestos, mas não houve interação entre os fatores, mostrando que a presença de pronomes manifestos não é privilegiada somente para os complementos indiretos (t(29) = 2,38 p<0,0240), mas o é também para os complementos diretos, embora com resultado marginal estatisticamente (t(29) = 1,96 p<0,0592).

Os resultados apontam para a manifestação de uma possível preferência dialetal entre as crianças dessa faixa etária, diante do uso de pronomes resumptivos manifestos ou nulos. Embora as crianças de escola pública e privada apresentem mais acertos diante de sentenças com pronomes manifestos, as crianças da rede privada parecem preferir os pronomes manifestos em complementos indiretos, enquanto as crianças da rede pública não exibem essa preferência.

contexto. Em vez de dificultar a compreensão, a presença do pronome resumptivo manifesto levou a um número maior de acertos e a tempos menores de reação em comparação às sentenças sem a presença destes. Além disso, os resultados encontrados nas sentenças de complementos indiretos não indicaram que o uso de resumptivos manifestos acompanhados de preposição seja mais aceito do que nas sentenças de complementos diretos. Por outro lado, a estranheza diante da ausência desses pronomes mostrou-se significativamente maior nas sentenças de complementos indiretos, levando a tempos maiores de reação. Isso parece indicar que as sentenças com pronomes manifestos sejam mais naturais para os falantes adultos de PB, facilitando a execução das tarefas propostas, ao contrário do observado para as sentenças com os pronomes nulos.

Em relação aos testes infantis, as crianças com idades entre 2;1 e 2;11 demonstraram uma certa dificuldade com a tarefa/estrutura, apresentando um baixo número de acertos, pouco acima de 50%. Observa-se, no entanto, que os acertos se mostraram mais expressivos diante da lacuna com complemento direto. A presença da lacuna parece ser preferida pelas crianças nessa faixa etária, indicando que essa pode ser a estratégia dominante nesse momento, especialmente para a interpretação de sentenças com VTDs. Em relação aos complementos indiretos, não houve diferença na comparação entre pronomes manifestos e não-manifestos, mas a presença dos pronomes manifestos levou a índices mais altos de acerto do que nos VTDs.

Considerando a divisão proposta por Grolla (2000), a faixa etária entre 2;1 e 2;11 corresponderia ao primeiro estágio na aquisição dos pronomes resumptivos (entre 2;0 e 2;10), possivelmente, incluindo o início do segundo estágio (entre 2;11 e 3;4). Essa seria, portanto, uma fase crucial na aquisição dessas estruturas no PB.

Na compreensão, é possível observar que a lacuna parece ser favorecida para as sentenças de complementos diretos, assim como observado por Grolla (2010) na produção. Já nas sentenças de complementos indiretos, isso não foi observado, o que pode indicar que as crianças teriam a estratégia de movimento como dominante, e diante de estruturas com preposição, um comportamento mais errático é observado, pois a estratégia de último recurso poderia ser acionada, licenciando o uso dos pronomes manifestos.

As crianças com idades entre 3;1 e 3;11 demonstraram maior domínio das estruturas investigadas, apresentando mais de 60% de acertos. A interação entre os

fatores obtida pelo ANOVA indica que o pronome resumptivo manifesto parece ser favorecido nos complementos indiretos, levando a um número maior de acertos para as sentenças de OI com pronome. Já nos complementos diretos, a presença do pronome manifesto levou a um número menor de acertos, em comparação com os indiretos.

Diante desses resultados, consideramos subdividir a faixa etária de 3 anos de acordo com as fases propostas por Grolla (2000), a fim de observar se há diferenças no comportamento das crianças mais novas, correspondentes à 2ª fase (entre 3;1 e 3;4 anos), em relação às mais velhas, correspondentes à 3ª fase (entre 3;5 e 3;11 anos).

Ao analisarmos os resultados de acordo com a divisão etária proposta para a segunda fase apontada por Grolla (2000), observou-se que as crianças mais jovens, entre 3;1 e 3;4, ainda mantém resultados melhores para as sentenças de complementos diretos sem presença de pronome manifesto, o que parece corroborar a hipótese de que, nessa faixa etária, ainda haveria uma preferência pela estratégia de movimento para os complementos diretos. Em relação aos complementos indiretos, não há uma diferença significativa estatisticamente, sugerindo que as duas estratégias parecem igualmente processáveis pelas crianças.

Entretanto, na comparação entre complementos direto e indireto com resumptivos manifestos, os indiretos demonstram vantagem, corroborando a ideia de que o resumptivo como complemento de preposição pode estar sendo interpretado como uma estratégia de último recurso nessa faixa etária, assim como observado em relação às crianças de 2 anos.

Para as crianças entre 3;5 e 3;11 anos, a presença dos pronomes manifestos parece ser favorecida em complementos indiretos, levando a um número maior de acertos, enquanto a lacuna parece ser preterida, levando a um número menor de acertos. Em relação aos complementos diretos, as crianças não apresentaram uma preferência estatisticamente relevante entre presença ou ausência de pronome manifesto. Isso pode significar que, embora a ausência do pronome manifesto ainda favoreça um número maior de acertos, a presença do pronome manifesto em complementos diretos parece se tornar preferida pelas crianças nessa 3ª fase.

Assim, é possível concluir que as crianças entre 3;5 e 3;11 anos de idade demonstram uma preferência de associação entre a ausência de pronomes manifestos e os complementos diretos, e entre os pronomes manifestos e os

complementos indiretos, já indicando uma aproximação ao comportamento dos adultos, que tendem a achar menos natural o pronome nulo com OI.

Para os testes com as crianças mais velhas, entre 4;0 e 5;11 anos de idade, um terceiro personagem foi incluído nas imagens a fim de verificar se a presença do pronome resumptivo manifesto poderia levar à busca por um referente extra, conforme proposto por Miranda (2008).

Os resultados demonstraram que, em relação às crianças entre 4;0 e 4;11, a presença do pronome resumptivo manifesto não pareceu dificultar a compreensão das sentenças de tópico-comentário, tampouco pareceu levar à busca por um terceiro referente. A interação entre Tipo de complemento e Presença de pronome manifesto, apontou um número maior de acertos em sentenças de complementos indiretos com pronomes, em comparação ao seu uso em sentenças de complementos diretos. Nessa faixa etária, a ausência de pronome manifesto não parece ser favorecida em relação à sua presença para os complementos diretos, enquanto para os complementos indiretos, a presença do pronome manifesto mostrou-se preferível. Assim, os resultados das crianças entre 4;0 e 4;11 parecem seguir a mesma tendência observada entre as crianças de 3;5 a 3;11, constituindo uma fase em que a ausência de pronome manifesto torna-se preterida, enquanto sua presença é favorecida, facilitando a compreensão, sobretudo em sentenças de complementos indiretos. Na comparação entre escolas pública e privada, os resultados mostraram-se semelhantes, com mais acertos para as sentenças de complementos indiretos com pronome manifesto e sem diferença significativa entre presença ou ausência de pronome manifesto para os complementos diretos

Para as crianças entre 5;0 e 5;11, a ausência de pronome manifesto já não parece ser preferida em relação à sua presença, a qual não dificultou a compreensão das sentenças, tampouco levou à busca por um terceiro referente.

Diferentemente do que ocorre com as crianças mais novas, a ausência do pronome manifesto, nessa faixa etária, já não favorece um número maior de acertos, nem mesmo nas sentenças de complementos diretos. Assim, para as crianças de 5 anos, a presença do pronome manifesto parece ser favorecida em comparação às sentenças sem pronomes, levando a um número maior de acertos. Na comparação entre complementos diretos e indiretos, os indiretos ainda levam vantagem na compreensão dos pronomes manifestos. Nessa fase, a presença do pronome mostra-se favorecida pela preposição, levando a um número maior de acertos em

sentenças de complementos indiretos com pronomes, em comparação ao seu uso em sentenças de complementos diretos.

Os resultados das crianças entre 5;0 e 5;11 sugerem que essa pode ser uma fase em que as crianças alcançam um maior domínio das estruturas investigadas, aproximando-se do comportamento adulto observado nos testes de compreensão.

Nessa faixa etária, observa-se que a presença do pronome manifesto é relevante para facilitar a compreensão das estruturas de tópico-comentário, tanto em sentenças de complementos diretos, quanto indiretos.

Na comparação entre escolas pública e privada, tanto as crianças de escola pública quanto privada tiveram mais acertos diante de sentenças com pronome manifesto. Entretanto, os resultados das crianças de escola privada indicaram uma interação entre a presença de pronome manifesto e tipo de complemento, com mais acertos para os pronomes manifestos com complementos indiretos. Os resultados das crianças de escola pública não apresentaram tal interação, indicando que a presença de pronomes manifestos não é privilegiada somente para os complementos indiretos, mas o é também para os complementos diretos. Em suma, as crianças da rede pública não estranham o uso do pronome manifesto quer com os complementos diretos ou indiretos, enquanto as crianças da rede privada apresentam uma preferência pela presença de pronomes manifestos em complementos indiretos. Essa comparação parece indicar uma preferência dialetal refletida na familiaridade da criança diante do uso de pronome resumptivo manifesto ou nulo, indicando que ambos já estão adquiridos nessa faixa etária.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esse trabalho teve como objetivo contribuir para o estudo da compreensão de estruturas de tópico-comentário e de pronomes resumptivos por crianças adquirindo o PB. Buscou-se verificar se os pronomes resumptivos, nulos ou manifestos, utilizados para retomar o tópico no comentário, facilitariam ou dificultariam a compreensão das sentenças.

A partir de uma metodologia experimental, focalizando especificamente a compreensão em tarefas de seleção de imagens com crianças, procurou-se verificar se os estágios apontados por Grolla (2000) na produção poderiam se manifestar em tarefas de compreensão e se haveria uma dificuldade maior nas tarefas com a presença do pronome manifesto nas faixas etárias mais altas, conforme verificado por Miranda (2008) em estruturas relativas, também relacionadas à periferia esquerda da sentença.

Adicionalmente, a coleta de dados com as crianças mais velhas, de 4 e 5 anos, permitiu ainda um olhar para a questão da variação dialetal já que o uso do pronome manifesto e do pronome nulo parece ter um componente dialetal conforme diversos estudos têm apontado para o PB (cf. DUARTE, 1983; ORSINI; VASCO, 2007), embora os resultados dos nossos testes com adultos escolarizados não apontem para uma distinção tão clara em relação à estigmatização do pronome manifesto.

Nossos resultados indicam que na faixa etária de 2 anos as crianças demonstram dificuldade com a compreensão das estruturas. É possível que, em diversos momentos, os participantes tentem atribuir uma ordem direta para as sentenças de tópico-comentário, justificando o alto número de escolhas da imagem reversa, ainda que essa questão da reversibilidade seja sempre apontada pela literatura como um fator de dificuldade. Ainda assim, observa-se claramente um maior número de acertos para as sentenças de objeto direto sem pronome, o que parece indicar que as crianças estariam buscando a alternativa da lacuna, ou seja, do movimento para a interpretação dessas sentenças.

Na faixa etária de 3 anos, observa-se uma tendência para um número maior de acertos em relação aos complementos indiretos com pronome e a divisão da faixa etária mostra que há uma interação entre presença de pronome e tipo de

complemento, privilegiando ainda, as sentenças de objeto direto sem pronome manifesto, o que corrobora que as crianças mais novas, entre 3;1 e 3;4, ainda estariam tentando atribuir a essa sentença uma estrutura via movimento. No caso dos objetos indiretos, não há diferenças significativas, sugerindo que um pronome manifesto nesse tipo de complemento poderia ser licenciado mesmo diante de uma derivação da sentença via movimento, por meio da estratégia de último recurso, já que uma preposição não pode ser deixada “órfã” em português.

Já em relação às crianças mais velhas, entre 3;5 e 3;11, não há mais uma preferência estatisticamente relevante entre a presença ou ausência de pronome manifesto para os complementos diretos, sugerindo que a presença destes em complementos diretos parece se tornar mais aceitável para as crianças nessa fase, o que pode indicar que os pronomes resumptivos já estejam em fase de aquisição. A preferência por objetos indiretos com pronomes resumptivos manifestos parece indicar, não mais a ativação da estratégia de último recurso, pois não se mantém uma preferência pela lacuna com os complementos diretos, mas reflexos dialetais e de complexidade estrutural. Pronomes lexicais manifestos são mais aceitos em posição oblíqua do que acusativa, já que a preposição obriga a presença do pronome em português.

Aos 4 anos, a tendência observada na última faixa dos 3 anos se mantêm, com progressiva redução da preferência da ausência de pronomes resumptivos manifestos com os complementos diretos, corroborando a possibilidade de que a estrutura de tópico-comentário já estaria sendo processada com a retomada via pronomes resumptivos. A preferência por resumptivos manifestos com complementos indiretos também se mantém. Essa presença, não indica, no entanto, que eles favoreçam à busca por um referente extra no contexto. Nessa fase, portanto, os pronomes resumptivos já teriam sido adquiridos.

Aos 5 anos, a ausência de pronome manifesto já não parece ser favorecida em relação à sua presença, nem mesmo nas sentenças de complementos diretos.

Na comparação entre complementos diretos e indiretos, a presença do pronome ainda parece ser favorecida pela preposição, levando a um número maior de acertos em sentenças de complementos indiretos com pronomes. Essa parece ser, portanto, uma fase em que as crianças alcançam um maior domínio das estruturas investigadas, aproximando-se do comportamento adulto observado nos testes de compreensão. Ao analisar os dados de acordo com o tipo de ambiente escolar, os

dados indicam a existência de preferências relacionadas a possíveis diferenças dialetais, uma vez que as crianças da rede privada demonstram preferência para a presença dos pronomes em complementos indiretos, enquanto as crianças da rede pública não demonstram essa distinção.

O quadro traçado acima demonstra, em relação à literatura apontada, como a criança parece trabalhar com as estruturas presentes no input, sofisticando a natureza dos valores dos traços que estão envolvidos naquelas estruturas. A lacuna pode ser tomada como resultado de um movimento ou representar, na verdade, um pronome nulo, e essa distinção parece se solidificar ao longo do desenvolvimento da criança.

Os dados aqui obtidos em que se comparam os comportamentos das crianças em tarefas de compreensão, a partir de estruturas de tópico comentário com complementos diretos e indiretos, mostraram que os primeiros se revelaram particularmente relevantes para a interpretação dos resultados, ao passo que as sentenças de complemento indireto podem apresentar ambiguidade, ora podendo se atribuir aos resumptivos manifestos uma interpretação de último recurso, ora tomando-os como mais naturais (menos estigmatizados) em comparação aos pronomes nulos, provavelmente devido à inadequação do pronome lexical (tônico) como complemento de preposição.

O fato de os resultados de compreensão serem compatíveis com aqueles obtidos na produção pode ser tomado como corroboração da interpretação teórica sugerida por Grolla (2000) para o processo de aquisição dos pronomes resumptivos na aquisição. O trabalho abre ainda uma série de questões relevantes para pesquisa futura, particularmente o papel da variação linguística no processo de aquisição.

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