2.2 Tópico-comentário
2.2.2 Tipos de tópico
(7) a. Minhas gavetas não cabem mais nada.
b. As minhas canetas acabaram a tinta.
c. Os meninos cresceram a barba.
d. Essas torneiras não saíram água até hoje.
Decat (1983) considera os DPs pospostos como sintagmas que perderam suas propriedades de sujeito e os DPs antepostos como tópicos que adquiriram o estatuto de sujeito. Nessa mudança, o DP considerado sujeito passa a não ter a seleção temática exigida pelo verbo, conforme Li & Thompson (1976) defendem, de forma que esses DPs não seriam nem sujeitos nem tópicos, na classificação proposta por eles.
Kato (1989) observa que se uma língua dispõe de duas posições para o sujeito gramatical, a topicalidade pode ser atribuída ao sujeito anteposto, enquanto o sujeito posposto teria a função de foco da sentença, i. e., seria parte do predicado.
Por outro lado, se a língua dispõe de apenas uma posição para o sujeito, ela precisará de outros recursos para marcar essa distinção, como no japonês, uma língua V-final. Nesse caso, a diferença entre o sujeito externo (topical) e o sujeito interno (focal) será marcada por meio da morfologia casual.
Kato (1989) conclui que, embora a distinção entre línguas de sujeito e línguas de tópico possa ser relevante para separar tipos de línguas, essa diferença não deve ser realizada em termos das categorias tópico e sujeito, mas em relação ao tipo de sujeito que as línguas podem selecionar.
sujeito, a estrutura seria de tópico marcada. Já as construções não marcadas corresponderiam à estrutura temática de tópico-comentário, mas sintaticamente seriam sentenças do tipo SVO. Dessa forma, o sujeito teria, em geral, a função textual de tópico, enquanto o predicado constituiria o comentário acerca desse tópico.
Há diferentes formas de classificação para as construções marcadas no PE, ou seja, quando há distinção entre tópico e sujeito. Mateus et al (1983) propõem a seguinte classificação para essas estruturas: tópico pendente; deslocação à esquerda de tópico pendente; deslocação à esquerda clítica; e topicalização.
O tópico pendente não apresenta características de correferência entre o tópico e qualquer expressão interna ao comentário, apresentando, portanto, menor grau de sintaticização, como no exemplo em (8):
(8) Fábulas, não gosto especialmente da história do corvo e da raposa.
A deslocação à esquerda de tópico pendente apresenta características de conectividade referencial e de traços sintáticos entre o tópico e uma expressão interna ao comentário, como em (9), enquanto a deslocação à esquerda clítica é semelhante à deslocação à esquerda de tópico pendente, porém com a presença de preposição junto ao tópico, como em (10).
(9) A Ana, imagina que o João jantou com ela ontem.
(10) Para a Ana, telefonou-lhe ontem o Manuel.
A topicalização apresenta uma posição vazia no comentário, cujo valor será dado pelo tópico, apresentando, portanto, maior grau de sintaticização. A existência de uma referência entre o tópico e a categoria vazia possibilita o reconhecimento dos traços de gênero, pessoa e número dessa categoria, existindo também uma conectividade de caso e função semântica entre o tópico e a posição vazia no comentário. Além disso, é possível a topicalização de mais de um constituinte:
(11) Ao João, esse livro, nunca ofereci.
Mateus et al (1983) não descrevem o fato de um constituinte oblíquo topicalizado aparecer sem a preposição, o que evidencia a baixa frequência desse tipo de estrutura no PE. Duarte (1996) chama esse tipo de construção de topicalização selvagem, que ocorreria no PE apenas em contextos em que a preposição seria um mero marcador de caso. Para ela, o PB, ao contrário do PE,
“evoluiu” para uma língua de tópico, apresentando, frequentemente, construções
“selvagens” como:
(12) a. Essa cerveja eu não gosto.
b. Isso eu tenho uma porção de exemplos.
c. Esse relatório, acho que não precisamos para a reunião de hoje.
No PB, Pontes (1987) observa a existência de vários tipos de estruturas de tópico-comentário no português, classificando-as em: sentenças de duplo sujeito;
topicalização ou deslocamento à esquerda; e falso SVO.
A sentença de duplo sujeito (cf. LI & THOMPSON, 1976) faz referência a um tipo de sentença em que a relação entre o tópico e o comentário não é estabelecida no nível sintático, mas sim no nível semântico-discursivo. A autora critica essa nomenclatura, uma vez que a relação entre o tópico e o comentário é puramente semântica, não existindo vínculo sintático entre estes. Pontes (1987) lembra que essas sentenças, nas gramáticas tradicionais, são geralmente chamadas de anacoluto, uma figura de sintaxe em que um elemento da oração fica sem função sintática. A autora afirma que esse é o tipo mais frequente nas línguas de tópico, incluindo o PB.
(13) Essa bolsa aberta aí, eu podia te roubar a carteira.
As construções com topicalização (Top) ou deslocamento à esquerda (DE) também são muito comuns no PB e consistem no “deslocamento” de um elemento para o início da sentença. Em geral, esse elemento, quando preposicionado na ordem direta, perde a preposição quando topicalizado. Para Pontes (1987), a diferença entre a topicalização e o deslocamento à esquerda estaria no fato de que, no tópico, o elemento deslocado não deixaria lembrete, enquanto no DE, ele deixaria um pronome-cópia em seu lugar.
(14) Repelex, precisa, né?
(15) A Rosa, eu encontrei ela ontem.
Em (14), temos um exemplo de topicalização, derivado de: “Precisa de Repelex, né?”. O elemento de Repelex, ao ser deslocado para a posição de tópico, perdeu a preposição e não deixou em seu lugar qualquer lembrete. Já em (15), temos um exemplo de DE, derivado de: “Eu encontrei a Rosa ontem”. O elemento a Rosa, ao ser deslocado para a posição de tópico, deixou em seu lugar um pronome- cópia (ela).
As construções do tipo falso SVO (Sujeito-Verbo-Objeto) ocorrem quando uma sentença é iniciada por um DP, seguido pelo verbo da oração e por outro DP, apresentando, portanto, uma estrutura semelhante à SVO. A diferença, no entanto, está no primeiro DP, que não é o sujeito, mas sim o tópico da oração. O verdadeiro sujeito é o segundo DP, posposto ao verbo. Pontes (1987) chama a atenção para o fato de que o falante frequentemente faz a concordância do verbo com o primeiro DP, o tópico, e não com o segundo, o verdadeiro sujeito, uma vez que considera o primeiro DP, que antecede o verbo, como o sujeito da oração. Esse fenômeno pode explicar a concordância do verbo com o tópico em sentenças do tipo:
(16) Essa casa bate muito sol.
(17) Esse carro cabe 60 litros de gasolina.
Existem ainda no PB, sentenças semelhantes ao falso SVO, nas quais verbos impessoais como ventar e chover aparecem precedidos por DPs, que estariam exercendo o papel de sujeito nessas sentenças. Isso contraria as normas da Gramática Tradicional (GT), uma vez que essas orações deveriam ser classificadas como orações sem sujeito. Uma das causas possíveis para esse fenômeno seria a ausência de pronomes expletivos em português, que ocupariam a posição de sujeito nessas orações.
(18) Essa janela não venta muito.
(19) A ponte Rio-Niterói chove muito.
Focalizando as estruturas de tópico marcadas, propostas por Mateus et al (1983), e tendo como base a tipologia apresentada por Pontes (1987), Orsini e Vasco (2007) descrevem quatro estratégias distintas de construções de tópico no PB: anacoluto; topicalização; deslocamento à esquerda; e tópico-sujeito.
No anacoluto, o tópico não estabelece nenhuma relação argumental com o verbo, e portanto, não está vinculado a qualquer função sintática na sentença- comentário. Há somente, uma relação semântica, em que o locutor anuncia o tópico sobre o qual vai falar para depois fazer um comentário por meio de uma sentença completa.
(20) Doce eu gosto de gelatina, gosto de pudim. (NURC-RJ)2
Na topicalização, o tópico está vinculado a uma categoria vazia no interior da sentença-comentário, exercendo, portanto, uma função na oração, como em (21). Já o deslocamento à esquerda define-se pela presença na sentença-comentário de um pronome-cópia ou de outro constituinte vinculado ao tópico, como nos exemplos (22) e (23).11
(21) Lagoi também acho __i bonito. (NURC-RJ)
(22) As praias do Nordestei elasi são todas muito lindas. (NURCRJ) (23) O salão de festasi eu também só dava as festinhas dela lái.
(NURC-RJ)
Por fim, no tópico-sujeito, o tópico é reanalisado como sujeito, instaurando-se inclusive a concordância verbal. Essas estruturas não seriam exatamente uma construção de tópico marcado, já que o tópico ocupa a posição de sujeito.
(24) Essas janelas estão ventando. (PEUL-RJ)
O trabalho de Orsini e Vasco (2007) analisa o comportamento dessas estruturas nas variedades linguísticas estudadas (culta e popular), com base nos acervos do Projeto de Estudo da Norma Urbana Culta do Rio de Janeiro (NURC-RJ),
11 Chamamos a atenção para o fato de que os autores fazem uma distinção entre topicalização e
deslocamento à esquerda, relacionada à presença ou ausência de pronomes resumptivos manifestos no comentário. Conforme será mais detalhadamente exposto na próxima seção, a possibilidade de objetos nulos em PB desautoriza a distinção a partir desse critério exclusivamente.
que reúne informantes com nível superior completo, e do Projeto de Estudos e Usos Linguísticos (PEUL), que reúne informantes com nível fundamental ou médio.
A análise dos dados coletados mostra que as estratégias de topicalização e de deslocamento à esquerda são as mais recorrentes nas duas variedades linguísticas investigadas. As construções de anacoluto, prototípicas de línguas de tópico, são mais frequentes na fala popular, possivelmente pelo fato de essas construções serem consideradas como desvios da norma-padrão e, por consequência, evitadas por falantes cultos. Já as construções de tópico-sujeito (ou falso SVO) são as menos frequentes tanto na fala culta quanto na popular, constituindo uma estratégia bastante recente no PB.
Um aspecto que nos interessa particularmente nesse trabalho é a apresentação dos dados considerando-se a função sintática que o tópico retomado desempenha no interior do comentário. Assim, os dados indicam que ao se compararem as duas estratégias, estruturas sem pronome manifesto no comentário (topicalização, na tabela a seguir) e estruturas com pronomes manifestos (deslocamento à esquerda, na tabela a seguir), considerando-se as funções sintáticas de sujeito e de objeto direto vinculadas ao tópico, pode-se observar uma distribuição complementar tanto na fala culta quanto na popular, confirmando o que já havia sido apontado por Callou et al (1993). O papel sintático de sujeito favorece a retomada por pronome, como nos exemplos em (25), enquanto a função de objeto direto favorece a ausência de pronome manifesto, como nos exemplos em (26),
(25) (a) O assaltantei elei tem que pegar e correr. (PEUL-RJ)
(b) O Nelson da Capitingai elei interpretava vários personagens.
(NURC-RJ)
(26) (a) Cigarroi ela não suporta __i. (PEUL-RJ) (b) Uniformei você troca __i. (NURC-RJ)
Tabela 1: Total de ocorrências de topicalização e de deslocamento à esquerda segundo a função sintática de sujeito ou de objeto direto
Fonte: ORSINI; VASCO, 2007, p. 89.
Em relação aos oblíquos (objeto indireto, complemento nominal, adjunto adverbial), Orsini e Vasco (2007) observam que a ausência de pronome manifesto (topicalização, na tabela a seguir) na sentença-comentário é mais frequente do que a sua presença (deslocamento à esquerda, na tabela a seguir).
Tabela 2: Total de ocorrências de deslocamento à esquerda e de topicalização com função oblíqua
Fonte: Orsini e Vasco, 2007, p. 91.
Os resultados de Orsini e Vasco (2007) mostram a preferência, na produção, tanto na fala culta quanto na popular, por estruturas sem pronomes manifestos na sentença-comentário, particularmente para objetos diretos e oblíquos (incluindo-se os objetos indiretos).