(60) Pedro disse que ele quer ser professor, e Maria o publicou.
(61) Pedro disse que ele quer ser professor, e Maria publicou ___.
Cyrino (2006) propõe para o objeto nulo no PB a ocorrência de uma reanálise diacrônica, estendendo-se a possibilidade da elipse para as estruturas com clíticos cujos antecedentes se assemelham ao clítico neutro, ou seja [-animado] e [-específico]. Dessa forma, o objeto nulo do PB seria a elipse de um NP, confirmada pela ambiguidade de leituras em (62):
(62) Ao dormir, João desliga a televisão, mas Maria liga ___.
(63) Ao dormir, João desliga a televisão, mas Maria a liga.
Na sentença em (62), a primeira interpretação seria a imprecisa, em que Maria liga a televisão dela mesma. A interpretação estrita, em que Maria liga a televisão de João, também é possível, mas não é a preferida. Essa ambiguidade, no entanto, desapareceria quando não temos a presença do objeto nulo em (63).
Cyrino (2006) defende que essa proposta daria conta dos casos de objeto nulo característicos do PB, em que a reconstrução e elipse é de um antecedente [-específico, -animado], como em (64):
(64) - Está faltando um copo dos novos.
- Se está faltando, é porque você quebrou ___.
A autora conclui que a perda do clítico neutro no PB e o aumento das ocorrências de objeto nulo ocorreram devido à opção entre usar ou não usar o clítico sem comprometer a interpretação.
que o PB é uma língua que apresenta estruturas peculiares e frequentes, como topicalizações e objetos nulos, é preciso compreender como as crianças adquirem essas estruturas e em quais estágios do desenvolvimento.
Dessa forma, consideramos que, no processo de aquisição dessas estruturas no PB, as crianças precisam identificar: (i) que existem estruturas de tópico em sua língua; (ii) que a sua língua permite o uso de objetos nulos; (iii) que o elemento topicalizado pode ser retomado por um pronome manifesto ou por um pronome nulo.
Esta terceira e última questão constitui o nosso objeto de investigação, uma vez que voltamos a nossa atenção para a retomada de elementos topicalizados no PB.
Um dos trabalhos que norteiam esta dissertação é a pesquisa de Grolla (2000), que investiga a aquisição da periferia esquerda da sentença, a partir da coleta de dados longitudinais de uma criança brasileira, N., dos 2;0 aos 4;0 anos de idade. A autora analisa, entre outros fenômenos relacionados à periferia esquerda da sentença, as construções de tópico-comentário. Ao observar a emergência de pronomes resumptivos, utilizados para retomar estruturas como as de tópico, Grolla (2000) divide a aquisição desses pronomes em três estágios diferentes.
No primeiro estágio, identificado entre 2;0 e 2;10, a criança ainda não produz pronomes resumptivos, apresentando sempre uma lacuna em dependências-A'. A autora propõe que esse seria um período em que a criança estaria verificando a possibilidade do uso de resumptivos em sua língua e utilizaria apenas a estratégia de movimento, considerada universal. Exemplos das produções de N. nessa fase podem ser conferidos em (65):
(65) a. Come a pedrinha que tá 'qui. (2;10) b. Essi eu vô vê. (2;8)
c. Essi daqui eu achei. (2;8)
No segundo estágio, entre 2;11 e 3;4, o uso de pronomes resumptivos é detectado, mas sempre em posições nas quais o movimento não é permitido, como em complementos preposicionais. Nessa fase, a criança já teria conseguido identificar que a sua língua possui a estratégia de uso de resumptivos em dependências-A'. Uma lacuna nessas posições seria impossível e a inserção do pronome salva a derivação, constituindo um caso de último recurso:
(66) a. Só carrão grandão que vira a roda dele. (2;11)
b. Eu vô no seu colo, porque lá tem aquela cobrinha que as muler dança nela. (3;1)
c. Você queria a borsinha que eu tava junto com ela. (3;11)
Dessa forma, a autora assume que os pronomes resumptivos são uma estratégia de último recurso (SHLONSKY, 1992; AOUN et al, 1998; HORNSTEIN, 2001), ou seja,“os pronomes resumptivos são usados apenas para salvar derivações que, de outro modo, seriam agramaticais” (GROLLA, 2005, p. 168). Essa estratégia seria um princípio que opera em todas as línguas naturais, embora o nível de emprego dos pronomes resumptivos varie de acordo com as línguas.
O terceiro estágio, detectado a partir de 3;5, começa quando a criança produz sentenças com pronomes resumptivos e lacunas em contextos superficialmente semelhantes. A alternância entre o resumptivo e a lacuna é admitida no PB adulto em contextos como (67a) e (67b). Grolla (2000) defende que a lacuna, nesses casos, corresponderia a um pronome objeto nulo, traço especial do PB:
(67) a. O Adriano, num vi ele lá. (3;5) b. Essa eu num quero __ mais. (3;6)
Nessa fase, os elementos resumptivos se tornam mais frequentes e a criança utiliza um pronome ou um DP repetido para a retomada de tópicos:
(68) a. O homem da televisão ele fala com o telefone na mão (3;8) b. Essi colar eu gosto dessi colar, manhê. (3;5)
O terceiro estágio também é a fase em que os pronomes resumptivos nulos são detectados nas produções de N., demonstrando que a criança já seria capaz de reconhecer o PB como uma língua de objeto nulo. A autora conclui que a criança atinge a idade de 4;0 produzindo quase todos os tipos de construções nas quais um pronome resumptivo pode ser usado em sua língua.
(69) Eu dótu (=gosto) de astonauta, mas aquele que anda assim, eu
não dótu __, ele é feio. (3;6)
A questão do uso dos pronomes resumptivos na aquisição também é investigada por Miranda (2008), que observa o custo de processamento de orações relativas com esses pronomes no PB. A autora, assim como Grolla (2000, 2005), também considera o uso de resumptivos como uma estratégia de último recurso na produção, considerando que, do ponto de vista do processamento, essa pode ser
“uma estratégia do falante diante de uma sentença pouco planejada” (MIRANDA, 2008, p.111). Já na compreensão, Miranda (2008) afirma ser necessário investigar o quanto essa estratégia é custosa para o processamento, uma vez que o uso do resumptivo em relativas pode representar uma derivação mais custosa, se comparada à derivação na qual o movimento é lícito (cf. AOUN et al., 2001;
HORNSTEIN, 2001).
Para isso, a pesquisadora apresenta os resultados de um experimento realizado com 52 crianças falantes de PB que teve o objetivo de verificar o quanto, e em que direção, a presença do resumptivo pode afetar a compreensão de orações relativas. No teste, que consistiu em uma tarefa de seleção de imagens, foram manipuladas três variáveis independentes: foco (sujeito ou objeto), estratégia de relativização (padrão ou resumptiva) e idade (3 e 5 anos). Exemplos de sentenças e variáveis manipuladas no experimento de Miranda (2008):
(70) a. SP – Relativa com foco no sujeito e estratégia padrão:
A mulher que está beijando a menina
b. OP – Relativa com foco no objeto e estratégia padrão:
A mulher que a menina está beijando
c. SR – Relativa com foco no sujeito e estratégia resumptiva:
A mulher que ela está beijando a menina
d. OR – Relativa com foco no objeto e estratégia resumptiva:
A mulher que a menina está beijando ela
Figura 3: Três tipos de figuras utilizadas no teste para a sentença-alvo A mulher que está beijando a menina
Fonte: MIRANDA, 2008, p. 115
Os resultados do teste foram submetidos a um ANOVA e indicaram efeito principal para idade (com mais acertos para o grupo de crianças mais velhas) e foco (com mais acertos para as relativas com foco no sujeito). A compreensão das relativas de objeto mostrou-se mais custosa para o processamento do que as de sujeito, até mesmo para as crianças mais velhas, entre 4;6 e 5;11 anos de idade. A autora conclui que a presença do pronome resumptivo não melhorou o desempenho das crianças nas relativas de objeto, ao contrário do que é apontado para o hebraico por Arnon (2005).
Gráfico 2: Resultados gerais do teste
Fonte: MIRANDA, 2008, p. 117
É possível perceber que os resultados encontrados na produção e na compreensão apontam para diferentes direções. Na produção, a presença de pronomes resumptivos tem sido tomada como uma estratégia de último recurso que salvaria a derivação e poderia aliviar a carga de processamento. Na compreensão, é possível que o pronome resumptivo manifesto acabe por impor um custo adicional, não sendo interpretado como uma variável A’-ligado, o que obriga à busca por um referente extra no contexto e impõe uma carga adicional ao processamento.
Em relação ao objeto nulo, Cyrino (1997) e Duarte (1989) verificaram que o preenchimento da posição de objeto direto anafórico no PB depende dos traços de animacidade e especificidade do antecedente. Conforme exposto na seção anterior, os dados de Cyrino (1997) demonstraram que o traço de animacidade do antecedente parece ser responsável pela mudança ocorrida com os clíticos acusativos de terceira pessoa, favorecendo o aparecimento do objeto nulo e do pronome lexical no PB. Para a autora, estes mesmos traços continuam a direcionar o preenchimento da posição de objeto no PB atual, fato corroborado pelos dados de Duarte (1989).
Na aquisição, Lopes e Cyrino (2005) investigam a relevância desses traços para a aquisição do paradigma pronominal do objeto no PB. As autoras observam que, quando o pronome lexical começa a ser usado em posição de objeto pelas crianças, a categoria nula dêitica se tornaria anafórica, uma vez que a referência a antecedentes já mencionados no discurso torna-se mais frequente. Isso poderia indicar um período de transição na gramática da criança, sendo também um período em que os traços de animacidade dos antecedentes começariam a ser diferenciados.
Para Lopes (2007, 2009), há uma relação importante entre aspecto e o preenchimento da posição de objeto no PB. A autora propõe que os traços de aspecto não seriam especificados inicialmente na gramática infantil. Dessa forma, as sentenças imperativas, predominantes no início da aquisição, seriam capazes de licenciar apenas os objetos nulos dêiticos, também predominantes nessa fase. Já os objetos nulos anafóricos somente seriam licenciados quando os traços de perfectividade passarem a ser computados pela criança.
De acordo com a hipótese da autora, haveria, portanto, uma convergência de fenômenos: ao mesmo tempo em que o traço de perfectividade de aspecto (AspP) é definido na gramática da criança, os objetos nulos anafóricos passariam a ser
produzidos. Seria apenas com a aquisição dessa camada aspectual (AspP) na estrutura hierárquica da sentença, que a criança passaria a distinguir traços de (im)perfectividade e de animacidade/especificidade, o que ocorreria, de acordo com os dados da pesquisa, por volta dos 2;3 anos de idade.
Casagrande (2007), ao analisar dados de produção espontânea de três crianças entre 1;6 e 3;75, também mostrou que, no que se refere ao preenchimento da posição de objeto na aquisição do PB, o objeto nulo dêitico é predominante nos períodos iniciais da aquisição. As primeiras ocorrências de pronomes lexicais são observadas a partir de 2;3 anos, período em que o objeto nulo anafórico passa a ser a opção preferida pelas crianças na retomada do antecedente, ficando os nulos dêiticos em segundo plano.
A autora observa que, a partir do momento em que o pronome lexical aparece na posição de objeto, a criança já estaria sendo capaz de lidar com traços semânticos, pois diferenciaria os antecedentes [+animado] dos [-animado]. O fato de a criança retomar antecedentes [+animado] e [-animado] de maneiras diferentes mostra que ela estaria lidando com maior informação semântica.
Casagrande (2007) conclui que, em relação à animacidade, não há dúvidas de que esse seria o traço semântico mais importante na escolha entre objeto nulo e pronome lexical na posição de objeto direto anafórico. Seus dados parecem sustentar a hipótese de Lopes e Cyrino (2005), de que o objeto nulo inicial seria essencialmente dêitico e que esse nulo, com a entrada do pronome lexical em posição de objeto, diminuiria significativamente. A partir daí, destacam-se os nulos anafóricos nos dados de produção, possivelmente indicando o momento em que as crianças começariam a distinguir traços de animacidade no PB.
Assim, nossa atenção volta-se também para questões relacionadas à animacidade. Optamos, para esta pesquisa, por apresentar sentenças de tópico- comentário envolvendo dois referentes animados. Essa opção traz a questão da reversibilidade e assumimos que, as crianças mais novas, ao se depararem com sentenças complexas que alteram a ordem canônica SVO da língua, podem privilegiar uma interpretação alternativa das sentenças, favorecida principalmente por um contexto com dois elementos [+animados]. Isso se deve ao fato de que as crianças, no início do processo de aquisição, podem não conseguir processar adequadamente a estrutura sintática, ainda que os itens lexicais sejam conhecidos.
Para dar conta de atribuir uma interpretação a uma sequência de itens
lexicais, a criança pode utilizar estratégias cognitivas mais gerais, como pensar que na presença de dois itens animados e um verbo, o primeiro item é o agente e o segundo é o tema. Dessa forma, a criança utilizaria uma estratégia cognitiva para tentar lidar com o linguístico. Entretanto, essa estratégia nem sempre dá certo, já que nem todas as sentenças seguem a ordem canônica da língua ou apresentam um agente na primeira posição, o que pode representar um problema, por exemplo, para a interpretação de sentenças na voz passiva (cf. BEVER, 1970; CORRÊA;
AUGUSTO, a sair; STROHNER; NELSON,1974).
Considerando que a estrutura de tópico é uma estrutura marcada, que altera a ordem canônica SVO para Tópico-Sujeito-Verbo, é necessário observar se, mesmo sem a presença do verbo entre os dois elementos animados, a criança pode interpretar o primeiro elemento como agente, atribuindo, portanto, uma interpretação alternativa à sentença. Embora essa seja uma estratégia cognitiva geral, que independe de a criança estar adquirindo a estrutura de topicalização, é preciso considerar que, para lidar com esse tipo de estrutura, as crianças podem, inicialmente, recorrer à estratégia de movimento (GROLLA, 2000, 2005). Além disso, para identificar que essa estrutura pode ser gerada com pronomes resumptivos retomando o tópico, é necessário que a criança identifique que essa retomada pode se dar por pronomes manifestos ou nulos no PB. A literatura resenhada indica que os pronomes nulos anafóricos já estão disponíveis para a criança falante de PB pouco antes dos 3 anos de idade. No que diz respeito a pronomes resumptivos em complementos indiretos, conforme defendido por Grolla (2000, 2005), a presença de um pronome manifesto, na produção, pode decorrer de uma estratégia de último recurso. Desse modo, somente a identificação da estrutura de tópico-comentário como resultante de geração na base pode garantir a interpretação de retomada do tópico por pronomes nulos ou manifestos no comentário. A comparação entre complementos diretos ou indiretos acompanhados de pronomes resumptivos nulos ou manifestos se mostra, assim, relevante ao se buscar averiguar a compreensão de sentenças de tópico-comentário no processo de aquisição dessas estruturas.
Buscamos, assim, ampliar a investigação sobre as estruturas de tópico com pronomes resumptivos na aquisição do PB, particularmente do ponto de vista da compreensão. Objetivamos atentar para questões como impacto da reversibilidade, possíveis distinções em relação à transitividade do verbo e o papel facilitador ou não da retomada por pronomes nulos ou manifestos. Pretendemos, assim, identificar um
possível percurso de desenvolvimento na aquisição dessas estruturas refletido no comportamento da criança diante de tarefas de seleção de imagens para a avaliação de compreensão das estruturas.
3 METODOLOGIA, COLETA E ANÁLISE DE DADOS